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FOLHA & CAIXA 2 DE FHC
Márcio Moreira Alves
"Doações políticas", copyright O Globo, 16/11/00
"Evoé! Evoé! Hosana nas alturas! A ‘Folha de S.Paulo’ descobriu o segredo de Polichinelo e fez um escarcéu danado divulgando-o. Descobriu que as campanhas eleitorais têm caixa dois, ou seja, doações não oficiais, que não entram nas contas apresentadas aos tribunais eleitorais. Conseguiu até que alguém do ramo confirmasse a obviedade: Mário Petrelli, do PFL, arrecadador de fundos do Paraná.
O princípio da história: dois repórteres do jornal obtiveram uma planilha de doações que teria sido usada pelo responsável da arrecadação de contribuições para as duas campanhas presidenciais de Fernando Henrique, o economista, ex-ministro e professor da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo, Luiz Carlos Bresser Pereira. Dela constavam nomes e números, que indicariam o montante das doações de cada um, num total de mais de dez milhões de reais. Essas contribuições não teriam sido comunicadas ao Tribunal Superior Eleitoral, como manda a lei. O destino do dinheiro é ignorado mas, até o momento pelo menos, ninguém ousou - nem mesmo os profissionais que tratam a honra alheia com grande ligeireza - sugerir que Bresser Pereira se apropriou do dinheiro em benefício próprio. A reputação de honestidade e lisura no trato do dinheiro público que construiu ao longo de muitos anos de vida pública, desde o Governo Montoro, é de tal solidez que inibiu os eventuais detratores.
Interpelado, Bresser Pereira informou que: a) o formato da planilha era verdadeiro e que ele a utilizara no início da campanha; b) mudara de planilha depois de aconselhar-se com o irmão, mais competente no uso do programa Excel; c) não reconhecia como verdadeiras as informações sobre nomes e doações constantes da planilha. Dinheiro por fora garante que não recebeu e nem teve conhecimento de que alguém o fizera em nome da campanha. Finalmente, levantou um argumento: o PSDB registrara no TSE, como meta de arrecadação para a reeleição presidencial, a importância de 72 milhões de reais. A meta não ficou longe de ser alcançada. Portanto, não teria interesse ou vantagem em esconder doações. O partido terminou a campanha com dívidas de perto de dois milhões de reais, dívidas que vem pagando pouco a pouco.
Os argumentos de Bresser não chegam ao coração da matéria: há doadores que se dispõe a financiar um candidato, mas não querem que seus nomes e as importâncias que doam sejam comunicadas ao TSE. É ilegal, mas não há punição prevista. Por outro lado, todos os partidos aceitam esse tipo de doação. Proporcionalmente, o ilícito deve ser maior nos partidos de esquerda que nos conservadores. Um empresário pode até botar algumas fichas na possibilidade do PT ganhar uma eleição. Mas não deseja que a aposta fique conhecida de seus pares. Ou será que alguém acredita que a última campanha presidencial do Lula custou só dois milhões de reais?
O líder do PT, deputado Aloizio Mercadante, com a cara mais séria do mundo, pediu ao procurador Guilherme Schelb, que investiga o caso Eduardo Jorge, que investigue também a planilha de doações. Fez o mesmo no Supremo e no TSE. O líder do Governo, deputado Arthur Virgílio, requereu uma nova auditoria nas contas de todos os candidatos à Presidência da República em 1998.
Puro jogo para a platéia. Nem um, nem outro querem ir fundo na questão, porque todos têm culpas no cartório. Na verdade, estariam pensando, se conhecessem, no apelo da advogada Portia ao judeu Shylock no ‘‘O mercador de Veneza’’, de Shakespeare. Ao invocar o seu sentimento de misericórdia, diz Portia:
- Logo, judeu, considere isto: numa corte de justiça nenhum de nós verá a salvação.
O financiamento de eleições é um fantasma que ronda todos os países democráticos, porque, sem regras ou controles, pode falsear a expressão da vontade popular. As eleições presidenciais nos Estados Unidos terão custado cerca de três bilhões de dólares. E ainda não terminaram. É comum, por lá, que se dê uma embaixada de prêmio aos contribuintes mais importantes. Clare Boothe Luce, autora teatral, republicana, mulher do editor do ‘Time’, por exemplo, foi nomeada embaixadora no Vaticano. Contam que se metia tanto na vida da Igreja que um dia o Papa, rompendo a diplomacia, lhe teria dito:
- Embaixadora, lembre-se que eu também sou católico.
A maior parte dos países europeus tem regras rígidas sobre o financiamento público das campanhas políticas, proíbe as doações privadas e estabelece punições severas para quem infringe a lei.
O caso das planilhas reacendeu o debate sobre o assunto no Brasil e é possível que o financiamento público seja aprovado, cada partido recebendo recursos proporcionais aos votos que conquistou nas eleições anteriores. É uma excelente idéia, desde que haja, realmente, fiscalização e, sobretudo, punições draconianas para quem fraudar as regras, sejam doadores, sejam políticos."
Painel do Leitor
"Edição", in Painel do Leitor, copyright Folha de S. Paulo, 14, 15 e 16/11/00
Dia 15 - "Fiquei chocado com o modo sensacionalista, impreciso e malicioso com que a Folha editou a manchete de primeira página e a reportagem da página A4, extraída de diálogo resultante de telefonema feito a mim pelo jornalista Wladimir Gramacho, em texto que também foi assinado por Andréa Michael. Tudo que eu disse ao repórter corresponde ao que a própria Folha pensa, conforme o editorial ‘Os Fundos da República’, isto é: o financiamento paralelo de campanha existe em todos partidos e em todo mundo. Citei o exemplo de que as coletas públicas do PT constituem doações anônimas, não importando o seu valor, e por isso comentei que as contas poderiam cair no ridículo, pela impraticabilidade de se listarem milhares de pessoas que anonimamente fazem e fizeram essas contribuições. Nada justifica, portanto, a manchete, chamadas e títulos tendenciosos, maldosos e manipulados com o objetivo de malversar a entrevista e comprometer minha credibilidade e honra. Temo que minha indignação pelo modo escandaloso com que fui exposto na edição do jornal tenha dos senhores tratamento inverso ao dado ao meu diálogo com o repórter, isto é, seja ignorado ou minimizado na seção de cartas com algum comentário dos editores. Mário J. Gonzaga Petrelli (Florianópolis, SC)"
"Causou-me estranheza a nota da coluna ‘Painel’ de ontem sob o título ‘Esconde-esconde’, por tanta desinformação em tão poucas linhas. O jornalista escreveu: ‘Hoje os senadores ouviriam Jair Bilacchi, ex-superintendente da Previ, e Edson Oliveira, antigo sócio de EJ na empresa DTC. Bilacchi, encarregado de obter doações na área dos fundos de pensão, está nos EUA. Mas Oliveira se dispôs a comparecer’. Cabe informar que: 1) não recebi nenhuma convocação para depor no Senado; 2) nunca fui encarregado de obter doações para qualquer político; 3) não estou nos EUA. Por oportuno, informo que tenho residência fixa em Brasília (DF) desde 1994. Jair Bilacchi (Brasília, DF)"
Nota da Redação - "A informação sobre o depoimento do sr. Bilacchi foi dada pelo presidente da Comissão de Fiscalização e Controle, Romero Jucá (PSDB-RR), e confirmada pelo relator do caso Eduardo Jorge, senador Ney Suassuna (PMDB-PB). Após a divulgação da planilha com a contabilidade do comitê eleitoral de FHC, na qual Bilacchi aparece como encarregado de contatos na área de fundos de pensão, os senadores optaram por deixar o depoimento para mais adiante. Sobre a informação de que Bilacchi estaria nos EUA, prestada pela comissão, leia a seção ‘Erramos.’"
"Parabéns ao jornal. A Folha fez o seu papel. E bem. Mas a reportagem sobre sobras de campanha, elogiada até por um dos principais envolvidos, vai se reduzir a uma enorme pizza, aliás, já servida e em processo de degustação. Por quê? Simples. A ninguém ou, sejamos justos, a bem poucos interessa escarafunchar um tema como esse. A imensa cobertura de vidro sobre partidos e políticos impede o uso de estilingue no salão. Tanto que, depois do episódio Collor, a primeira providência foi dar ares de legalidade às contribuições eleitorais, instituindo a prestação de contas. Isso permite que os possíveis envolvidos se saiam com a clássica ‘as contas foram aprovadas pelo TSE’ e neguem-se a comentar as contas omitidas ao TSE -como a reportagem da Folha apontou. Por muito menos, a Receita inferniza a vida do modesto cidadão que cometa deslize semelhante em sua declaração de Imposto de Renda. E assim vamos todos (‘eles’, é claro) comprando fazendas, aumentando o patrimônio pessoal ou familiar e tocando a nossa (‘deles') difícil vida fácil.’ Oswaldo Mendes (São Paulo, SP)"
Dia 14 - " No domingo último, em face da publicação da reportagem sobre gastos financeiros na última campanha presidencial, atendi a todos os jornais que me procuraram, além de ter dirigido um e-mail à Folha, que o publicou. A partir de então, entendi que não havia mais nada que pudesse informar à imprensa. Entre os jornalistas que atendi, falei com o autor da reportagem, Wladimir Gramacho, que, diante da observação que lhe fiz quanto à fidelidade com que reproduziu minhas palavras, observou que a reportagem em nenhum momento sugerira que haveria desvio de dinheiro, com o que concordei. As evidências que possuía, acrescentou, eram de gastos não contabilizados na campanha, cuja explicação ele voltou a me pedir. Voltei a lhe dizer que não sabia explicar as declarações de algumas pessoas de que haviam feito contribuições ‘por fora’. Não sabia explicar inclusive porque, conforme lhe disse, não havia interesse da campanha em contribuições ‘por fora’, já que o limite que a campanha tinha para arrecadar e gastar oficialmente, nos termos da legislação vigente, era R$ 72 milhões; ora, arrecadamos apenas R$ 43 milhões. O jornalista provavelmente não julgou interessante esse fato, e não o reproduziu na matéria. Achei que os leitores da Folha deveriam conhecê-lo. Luiz Carlos Bresser Pereira, ex-ministro da Ciência e Tecnologia (São Paulo, SP)"
"A Folha acaba de prestar mais um relevante serviço à nação. A divulgação, na edição de domingo, da doação de R$ 10,12 milhões à campanha de reeleição do presidente Fernando Henrique Cardoso, sem ser declarada por seu comitê à Justiça Eleitoral, é mais uma das grandes irregularidades do ultrapassado processo eleitoral brasileiro. Incomodado deve ter ficado FHC, pois o papel da verdadeira imprensa não pode e não deve ser representado por uma posição cômoda e confortável. A opinião pública merece e espera uma explicação convincente. José Tarcizo Teixeira da Silva (Vitória, ES)"
ELEIÇÕES 2000
Renata Lo Prete
"Temos que pegar", copyright Folha de S. Paulo, 12/11/00
"Quem convive com crianças possivelmente reconhecerá o título acima. No desenho animado, é o lema de garotos que vivem para capturar os pokémons, criaturas de forma e poderes variados, mais de 150 apenas na primeira geração.
A frase tem me ocorrido diante de várias reportagens. No momento, é visível que ‘temos que pegar’ o PT, vitorioso nas eleições municipais.
Há na imprensa quem o faça pela via do susto, lembrando que o PT (como os pokemons) pode ‘evoluir’ (palavra-chave no desenho) para estágios menos moderados que o atual.
Esse não é o estilo da Folha, que gosta de números. No domingo passado, o jornal concluiu que ‘o sucesso deste ano esconde um fracasso: o partido perdeu 47% dos municípios’ que tem hoje.
Conservou, portanto, 53%. ‘O PT esperava obter índice de reeleição próximo de 80%’. Como escrevi na crítica de segunda-feira, cada um é livre para esperar o que quiser, mas, para falar em fracasso, a reportagem tinha de incluir outros percentuais.
Qual foi a taxa geral de reeleição? E a do PFL, PSDB e PMDB? A do PT foi menor ou maior? Tudo o que a matéria trouxe foi uma declaração do próprio partido perdida no meio do texto (os outros teriam mantido ‘40% de suas prefeituras, em média’).
Um leitor disse ter ficado perdido com as tabelas. Registravam que o PT tem 32% das prefeituras do Acre, elegeu sete candidatos na Bahia, nenhum em Roraima etc. ‘Mas não havia informação que me permitisse comparar.’
A Redação explica que não dispunha de dados sobre outros partidos. Está tentando obtê-los para uma próxima reportagem.
Tratou do PT porque ele ‘foi a principal notícia da campanha’. Além disso, o partido tinha uma lista de suas prefeituras.
O esclarecimento indica que o PT caiu na malha fina porque: a) se deu bem na eleição; b) forneceu as informações pedidas.
Apontar contradições, cobrar, guardar distância do entusiasmo militante, tudo isso é função do jornal. Basta que as informações tenham consistência.
A diferença entre o jornalismo pokemon e o desenho animado é que este pode entreter também os adultos. Aquele não engana nem as crianças."
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