segunda, 17 de fevereiro de 2020 ISSN 1519-7670 - Ano 20 - nº 1074

Paraná lidera em veículos digitais na região Sul, enquanto impressos e rádios permanecem frequentes nos três estados

Embora concentre apenas 14% da população do Brasil, a região Sul tem 27% dos veículos jornalísticos brasileiros. Com um total de 3.163 iniciativas jornalísticas mapeadas, o Atlas da Notícia identificou, em sua terceira edição, uma quantidade geral estável de veículos no sul do Brasil frente à edição passada (quando estavam cadastrados 3.162 projetos). Esse padrão é acompanhado principalmente de um aumento no cadastro de veículos online. De modo geral, o Rio Grande do Sul é o estado sulista com maior quantidade de veículos jornalísticos em termos absolutos, com 1.203, seguido de perto pelo Paraná, com 1.133, e Santa Catarina com 827.

Atualmente, existem 750 veículos jornalísticos que publicam em mídias digitais na região sul do Brasil. A versão 2.0 do Atlas havia identificado 435 na mesma situação. Não é possível afirmar que a diferença venha, em sua íntegra, de iniciativas que surgiram durante esse período, mas sim da extensão do mapeamento. O número de veículos impressos também aumentou, embora em uma proporção menor: passaram de 1.088 para 1.191. A origem do aumento está no estado do Paraná, onde foram identificados mais veículos no interior do estado dentro dos critérios do Atlas. Metodologicamente, além disso, a versão 3.0 agrupa jornais e revistas dentro da mesma categoria, impressos, gerando um leve aumento.

A prevalência de veículos impressos é superior no Rio Grande do Sul (450) e em Santa Catarina (404). Já em termos digitais, o Paraná lidera (382), com quase o dobro de iniciativas do Rio Grande do Sul, segundo colocado (197), o que demonstra uma transição do papel para plataformas digitais mais rápida naquele estado. Essa diferença é compensada em estações de rádio, em que o Rio Grande do Sul apresenta número superior (486), seguido por Paraná (369) e Santa Catarina (224). No Rio Grande do Sul, a proporção é de quase uma emissora por município. No entanto, o Paraná possui mais estações de televisão (84), enquanto Santa Catarina, na outra ponta, registra menos da metade (36) das emissoras dos outros dois estados.

Fechamentos
Embora o número geral tenha aumentado, este ano o estado de Santa Catarina viu o fechamento de conhecidas edições impressas. O Grupo NSC, comprador das operações de comunicação do Grupo RBS no estado, encerrou as edições físicas diárias de Diário Catarinense (Florianópolis), Jornal de Santa Catarina (Blumenau) e A Notícia (Joinville), três dos jornais mais conhecidos de Santa Catarina, mantendo-as agora como semanais. Atualmente, o portal NSC Total reúne conteúdos dos três. Assim, mesmo com o cadastro de mais iniciativas, especialmente digitais, a percepção geral é a de perda de espaço da imprensa. No total, o Atlas registra 44 fechamentos de veículos na região Sul, concentrados principalmente no Rio Grande do Sul (19) e Santa Catarina (16). Não é possível afirmar, porém, que esses fechamentos ocorreram durante este último ano, uma vez que, por se tratar de um projeto novo e focado num país bastante assimétrico, hoje o Atlas da Notícia apenas registra o fechamento de veículos, sem atribuir um período definido para isso. A comparação temporal sobre o fechamento de veículos será possível em futuras edições da pesquisa.

Desertos permanecem comuns
A distribuição assimétrica de veículos jornalísticos na capital e no interior faz lembrar que muitas regiões nem contam com veículos para tratar de assuntos locais. Dos 1.191 municípios da região Sul, 653 são desertos de notícia, ou seja, não possuem nenhum veículo jornalístico mapeado. Outros 233 são quase desertos, aqueles que possuem um ou dois veículos apenas, em qualquer segmento. Ou seja, aproximadamente 75% dos municípios do Sul se enquadram ou como deserto ou como quase deserto, tendo assim sua cobertura local prejudicada. Contando apenas desertos, a distribuição destes municípios é constante nos três estados, demonstrando uma dificuldade endêmica. Paraná e Santa Catarina contam cada um com 53% dos municípios como desertos de notícia, enquanto no Rio Grande do Sul esse índice se eleva para 57%. Desertos e quase desertos de notícia somam 6,5 milhões de pessoas nos três estados.

Quantidade proporcional de veículos
O número absoluto de veículos em uma região não conta toda a história, pois a variância de acordo com a população é grande. Por exemplo, as três capitais, naturalmente, são as cidades com mais veículos jornalísticos cadastrados em termos absolutos, sendo Curitiba com 236, Porto Alegre com 184 e Florianópolis com 89. Nessas cidades normalmente se encontra a maior diversidade de iniciativas, com projetos voltados a assuntos como cultura, direitos humanos etc.

No entanto, outros municípios possuem uma quantidade maior frente à população. Em toda a região Sul, ao se considerar apenas municípios com no mínimo dez veículos, as três localidades com maior número de iniciativas a cada 100 mil habitantes são Joaçaba (SC), Horizontina (RS) e Palotina (PR). Estes três municípios possuem taxas de mais de quarenta veículos a cada 100 mil habitantes, mesmo que possuam menos de 100 mil habitantes. Esta é uma maneira de compreender a densidade de veículos frente à população. Em termos absolutos, elas possuem, respectivamente, dezesseis, dez e treze veículos jornalísticos. Essas cidades tendem a se configurar como centros regionais, reunindo bastante de sua cobertura jornalística. Para fins de comparação, Florianópolis possui dezoito veículos a cada 100 mil habitantes, enquanto Curitiba e Porto Alegre empatam em doze.

No geral, inclusive, Santa Catarina é o estado com maior densidade de veículos frente à população, com cerca de 11,7 veículos a cada 100 mil habitantes. Já no Rio Grande do Sul são aproximadamente 10,6 veículos por 100 mil habitantes, com 9,9 no Paraná.

Novas iniciativas
Começam a se registrar novos projetos jornalísticos, principalmente digitais, com a intenção de capturar o espaço deixado pelos impressos e captar a atenção de audiências mais novas, voltadas ao consumo digital. A Matinal é uma dessas iniciativas, organizando-se como uma newsletter diária com notícias sobre Porto Alegre e região. No Paraná, destaca-se o Plural, uma iniciativa emergente de jornalismo, voltada a questões de direitos humanos e justiça social. Esses, assim como outros, parecem se dirigir a um público mais de nicho, enquanto estabelecem canais diferentes de receitas e buscam engajar a audiência. O quanto essas iniciativas conseguirão se contrapor à perda de volume das grandes redações ainda está em aberto – mas certamente oferecem novos caminhos para o jornalismo.

Afinal de contas, os veículos mais frequentes são menores e, muitas vezes, trabalham sobretudo republicando conteúdo de agências de notícias e veículos maiores, como observado durante o mapeamento. Por exemplo, 50% (349) das equipes possuem entre um e cinco integrantes (contando operações individuais). Isso contabiliza, no entanto, apenas aquelas equipes nas quais foi possível identificar o número de integrantes, ou aproximadamente 22% de toda a base. Equipes pequenas, assim, parecem ser a tendência do jornalismo não apenas no Brasil, mas no mundo, o que afasta a indústria das grandes redações de outrora.

Outro fator que demonstra o caráter inicial de muitos é a ausência de um endereço de email aberto de contato com o público para cerca de 2.500 veículos, ou 78%. Observa-se ainda outro fator relacionado: a migração para o WhatsApp como plataforma de relacionamento, algo que não foi mapeado diretamente no Atlas, mas que pôde ser observado durante o mapeamento como ferramenta de uso comum nos veículos.

Os dados da região Sul, assim como de todo o Brasil, estão disponíveis para outras análises do público. E você, o que pode encontrar nas informações do Atlas?

Colaboradores
O Atlas da Notícia é um projeto de pesquisa colaborativo que contou com a participação das seguintes pessoas no Sul:

Adriana Palumbo
Alexandre Stori Douvan
Ana Carla Rubi
Anderson Da Silva Marques
Andrey Ribeiro Fernandes
Anna Carolina Roque Furlanetto
Arthur Lincoln Ferreira
Barbara dos Santos Zanoni
Bárbara Karoline Dias Pereira
Beatriz Godoy Taveira
Beatriz Kina
Bianca Yasmin Schilling
Cláudia Regina Pavão Silva
Cristiane Lindemann
Diego Freitas Furtado
Eder Carlos Wehrholdt
Elian Kelen Vitoretti Bencke
Fábio Canatta
Felipe Conte Rocha
Fernanda Nunes da Silveira
Isabel Berns Lima
Isadora Castro Nolf
Isadora Zarbato Mateus
Julia Venturi Dos Santos
Kevin Eduardo Da Silva
Laura Marina Remesso
Leonardo Augusto Koch
Leonardo Barros
Luís Paulo Müller
Luísa de Oliveira
Manuela Neves Ribeiro
Marcelo Bronosky
Maria Cecília Marchalek Zarpelon
Marina Vançan Prata
Mauro Fucilini
Mayara Gabriele Rosa
Mayara Oliveira Costa
Paulo Camargo
Pedro Henrique Novais Pereira
Rafael Piotto da Rosa
Roberta Roos
Rodrigo Pires de Angelucci
Roger Cardoso Dos Santos
Rosana Wessling
Sílvio Melatti
Sofia Helena Magagnin
Sofia Livonius
Thais Porsch
Thays Machado Da Silva
Vítor Almeida dos Santos
Vitor Fernando Fernandes
Vitória Carvalho Rocho da Silva
Vivian de Carvalho Belochio

E com o apoio das seguintes instituições:

Faculdade Ielusc
Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR)
Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS)
Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC)
Universidade do Planalto Catarinense (Uniplac Lages)
Universidade do Sul de Santa Catarina (Unisul)
Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG)
Universidade Federal do Pampa (Unipampa)

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Marcelo Fontoura é professor de jornalismo na PUC-RS. Fellow do International Center for Journalists em 2015. Tem experiência com startups, conteúdo digital e marketing. Leciona disciplinas de jornalismo digital e jornalismo de dados. Membro do laboratório Ubilab, onde pesquisa internet das coisas e mobilidade junto a empresas e universidades. Doutorando em Comunicação Social sobre fronteiras do jornalismo digital, com doutorado-sanduíche na Northwestern University, em Chicago, por meio de bolsa Capes-PrInt. Possui mestrado em Comunicação Social, com pesquisa sobre hackers e dados públicos.