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ARMAZÉM LITERÁRIO
ÚLTIMA HORA – Atualizado em 12/12/2000
Autores, idéias e tudo o que cabe num livro
O MUNDO, ESSE LÍRIO
Ética e a composição do texto
O jornalista Luiz Garcia, editor de Opinião de O Globo, lançou em novembro o volume O mundo, esse lírio – artigos sobre jornalismo e outras coisas [veja remissão abaixo]. O autor, de 64 anos, passou por redações importantes e ancorou no Globo, onde produz a crítica diária das edições e escreve regularmente no jornal; antes, organizara o Manual de Redação e Estilo do Globo, publicado em 1992. Na entrevista a seguir, a Luiz Egypto, do Observatório da Imprensa, Garcia fala de seu livro e da arte de escrever.
Como organizou O mundo, esse lírio? Qual o critério – critérios – de seleção dos artigos?
Luiz Garcia – Dois, principalmente: o afetivo e o da sobrevivência do tema (ou dos comentários a respeito).
Os imperativos éticos estão em voga na imprensa brasileira?
L.G. – Creio que estão. Pelo menos a discussão a respeito, o que não quer dizer que a prática corresponda à preocupação. De qualquer forma, esta já é um bom começo.
Você é do tempo da lauda, da transição do linotipo para a fotocomposição. De lá para cá, os jornais melhoram ou pioraram no trato da língua portuguesa?
L.G. – De certa maneira pioraram. Desapareceu a barreira do copy desk, que dava forma e brilho ao trabalho dos repórteres. Hoje, presume-se que os repórteres tenham texto final; na verdade, a maioria tem texto publicável, o que é outra coisa. E o copy de hoje, sem o prestígio de antigamente, limita-se, com exceções, a costurar textos de autores diferentes, pôr no tamanho, fazer títulos etc. Não é que os redatores sejam medíocres: a função é que é, em boa parte por culpa dos prazos industriais. Parece uma misteriosa maldição dos grandes jornais: sempre que na área industrial surge uma maneira de produzir melhor e mais depressa as edições, a redação acaba tendo de fechar mais cedo. Além disso, em geral o jornalista de hoje começa na profissão com menos familiaridade com o idioma e menos amor pela leitura do que algumas gerações atrás.
As grandes redações operam com reportariado muito jovem, o que por princípio não é um mal. Mas pode ser mau quando implica texto ruim e falta de referências históricas mínimas, mesmo as recentes. Como lidar com isso? Qual a experiência do Globo?
L.G. – A forma de lidar com isso é criar cursos que forneçam essas referências. Tentamos fazer isso no Globo, mas não é fácil. A falta de tempo, por exemplo, é um sério obstáculo. Mas o problema é realmente grave, inclusive por não se limitar à ignorância sobre fatos históricos. Sabe-se muito pouco, também, sobre o funcionamento do Estado, a organização política do país etc.
Em poucas palavras, como escrever bem?
L.G. – Primeiro, ler. Depois, praticar. Um dia a gente descobre que o texto tem ritmo, como a música – e que escrever bem é como compor.
ASPAS
Ariovaldo Bonas
"Mestre do ofício", copyright Época, edição nº 133, 27/11/00
"Somente com generosa dose de humor o mundo pode ser comparado a um lírio. Um humor quase britânico é uma das marcas do jornalista Luiz Garcia. Característica que só não é superada pela clareza e pela elegância ao perfilar as palavras no exercício de compor e decompor fatos e discursos. O mundo, esse lírio é o livro que traz ‘artigos sobre jornalismo e outras coisas’, selecionados entre os publicados nos últimos 20 anos em O Globo, no qual o jornalista é editor de Opinião há 13.
O leitor poderia esperar de Garcia, do alto de seus 64 anos, vividos em grande parte nas principais redações do país, uma obra tonitruante, repleta de certezas absolutas vindas de um guru. Nada mais longe do autor, um artesão - nesta altura, mestre do ofício - que evita ficar refém de vaidades e castelos imaginários, sem perder a contundência do raciocínio, defendido com o rigor da lógica.
O livro oferece as iniciais ‘outras coisas’ - artigos que vão dos estertores do governo Collor ao debate sobre as aventuras sexuais de Bill Clinton. Segue-se o filé: as reflexões a quente sobre jornalismo, a profissão, a ética e o poder.
Luiz Garcia é conhecido pela dupla militância, em defesa da língua e da ética. Mas não se trata de pendengas estéreis, de categorias esotéricas. A insistência com a ética é enquadrada nas circunstâncias da produção e da edição de reportagens. No artigo ‘Ética: balanço e derrapada’, o jornalista explica: ‘É a preocupação ética que acrescenta ao mecanismo de escolha dois impulsos indispensáveis. Um para publicar notícias importantes para o leitor, mesmo que ele não saiba disso. E outro para não publicar notícia indigna, ou fato que não tenha legitimidade como notícia, independente do apetite do leitor’.
O defensor da língua critica abertamente seus colegas em outro texto: ‘Jornalistas costumam achar muita graça nos erros de português de placas de obras públicas e discursos de vereadores. Só não enxergam o próprio rabo. Acontece que a soma de todos os rabos produz a aterradora conclusão de que este é um país que não sabe ler, conduzido por pessoas que não sabem escrever. Explica muita coisa’.
Outros artigos vazam refinada ironia e não estão em coletâneas de ficção simplesmente porque são peças apoiadas em fatos. É o caso do texto sobre os ‘três densos mistérios’ que ‘envolvem os recentes acontecimentos no morro Dona Marta’. Eis: ‘O mistério do cachorro ferido, o mistério do transformista perfeito e o mistério da pinça que falhou’.
O mundo, esse lírio é uma excelente oportunidade de leitura neste fim de ano para quem deseja compreender as entranhas do processo jornalístico e as dúvidas que os jornalistas sentem no cotidiano. Obra aberta não só a profissionais, mas, pela excelência do texto, ao leitor comum, que pode entre um artigo e outro conhecer o que ocorre numa redação de jornal antes de as notícias serem impressas e se tornarem aquele feitiço que informa, comove e revolta - a reportagem."
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Sobre O mundo, esse lírio, de Luiz Garcia
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