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ARMAZÉM LITERÁRIO
ÚLTIMA HORA – Atualizado em 26/11/2000
Autores, idéias e tudo o que cabe num livro
ENTREVISTA/LIRA NETO
A herança de Sísifo e os fardos do ombudsman
O jornalista Lira Neto, que ocupou o cargo de ombudsman no diário O Povo, de Fortaleza (CE), em 1998, está agora lançando um livro relatando a sua experiência. Não por acaso, a obra – prefaciada pelo Observador Alberto Dines – tem como título A Herança de Sísifo - da arte de carregar pedras como ombudsman na imprensa. Sísifo é o mito grego em que um homem é obrigado a eternamente levar uma rocha montanha acima para, tão logo termine a missão, vê-la despencar novamente.
A imagem serve para que o jornalista revele sua visão do cargo de ombudsman e da profissão: jornais erram, os ombudsmen comentam o erro e... o jornais erram de novo, da mesma forma, repetindo o ciclo infinitamente, tal e qual no mito grego.
O jornalista Lira Neto tem 37 anos e está na profissão desde 88. Começou no Diário do Nordeste e, desde 90, dá expediente n’O Povo, onde foi repórter, editor e chefe de redação. A Herança de Sísifo - Da arte de carregar pedras como ombudsman na imprensa está sendo lançada pelas Edições Demócrito Rocha. O livro tem 208 páginas e pode ser adquirido no site da editora, em www.fdr.com.br. Na entrevista a seguir, Lira Neto comenta o novo livro e conta algumas das histórias que viveu no período em que foi ombudsman no diário de Fortaleza.
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Observatório da Imprensa - O título de seu livro faz uma referência ao mito grego de Sísifo. Você considera a função de ombudsman uma espécie de maldição?
Lira Neto – Sísifo, personagem mitológico, foi condenado pelos deuses a levar uma enorme rocha montanha acima, e, tão logo terminada a tarefa, ela sempre despenca ladeira abaixo Tomei emprestada a imagem do mito grego como uma provocação. Na verdade, comparo o ombudsman com a tarefa de Sísifo por conta de uma incômoda constatação: infelizmente, jornais e jornalistas insistem em cometer sempre os mesmos erros: acusar sem provas, julgar e condenar, não ouvir o outro lado, distorcer falas, maquiar a realidade, expor misérias íntimas com voraz e ensandecido apetite.
OI – Você exerceu o cargo de ombudsman no jornal O Povo (Fortaleza-CE) em 1998. Por que decidiu agora fazer esse balanço de seu mandato como representante dos leitores?
LN – Confesso que, durante algum tempo, hesitei em lançar este livro. Publicá-lo significava reabrir antigas feridas, muitas ainda em fase de cicatrização. Ao fazer um balanço do mandato como ombudsman, teria necessariamente que reavivar os conflitos acumulados durante um ano na função. No entanto, convenci-me pela publicação da Herança de Sísifo pela certeza de que aquela foi uma experiência fundamental na minha carreira de jornalista. Como digo na introdução do livro, um verdadeiro divisor de águas na minha relação com a profissão. Penso que o depoimento sobre isso era uma responsabilidade da qual eu não podia me furtar. Senti-me na obrigação de dividi-lo com os colegas de ofício e, principalmente, com os estudantes de jornalismo. Considero-o um livro extremamente didático, pedagógico.
OI – Você, em uma das colunas, relata o fato de ter abdicado da função de professor da UFC. Até que ponto este fato foi determinante no processo de publicação do livro?
LN – Na verdade, fui forçado a abdicar do cargo de professor universitário, do curso de Comunicação Social, da UFC. Eu havia, em uma das colunas, criticado o fato de alguns jornalistas do O Povo acumularem a função de repórter e assessor de imprensa de políticos e empresas. Havia absurdos tão grande como o do repórter da editoria de Polícia que era, ao mesmo tempo, assessor da Secretaria de Segurança Pública. A resposta da redação para essa crítica foi inesperada. Viram um suposto conflito de interesse no fato do ombudsman ser, também, professor universitário. O que, convenhamos, é uma piada. As atividades de ombudsman e professor de jornalismo, em vez de se chocarem, são absolutamente complementares. Tive que renunciar à vaga na UFC, que havia sido conquistada por concurso público. Esse foi, sem dúvida, um dos momentos mais tensos do mandato. E, também, um dos mais dolorosos. Quem sabe, um dos mais reveladores da intransigência e da dificuldade dos jornalistas em aceitar a figura do ombudsman.
OI – Você fala de "conflitos acumulados durante a função". Quem reagiu pior às críticas do ombudsman: os "coleguinhas" ou o patronato?
LN – Muitas vezes, a reação dos "coleguinhas" beirava o impublicável. Recebi respostas afetadas, furiosas, até mesmo chulas, em certos casos. O que revela a incapacidade dos jornalistas em trabalharem com a autocrítica. Os jornalistas adoram criticar, mas não suportam ser criticados, mesmo quando pegos em flagrante delito ético. Também houve, é claro, momentos de tensão extrema com a direção do jornal. Muitas colunas por mim publicadas tocavam em assuntos delicados, como as contradições inerentes aos negócios e interesses das empresas de comunicação. Mas reconheço que não dá para comparar uma coisa com a outra. Por mais incrível que pareça, as respostas da direção do jornal eram infinitamente mais polidas, mais diplomáticas, menos melindradas. Nunca tive uma vírgula de minhas colunas alteradas.
OI – Após um ano criticando o trabalho de colegas jornalistas, você acha que ficou estigmatizado no meio?
LN – Não dá para negar que muitas relações ficaram abaladas. Ao longo do exercício do cargo, colecionei desafetos, muitos deles integrantes de minha mais sincera lista afetiva. Fortaleza é uma "provincianópole". Você encontra todo mundo em todo lugar: na fila do cinema, na livraria, no restaurante, no bar da moda. É doloroso constatar que muitos dos antigos amigos mudaram em relação a minha pessoa: apertos de mão constrangidos, sorrisos amarelos, olhares de desdém. Mas sei que isso faz parte da função. Ser ombudsman é algo ingrato. Ninguém gosta de dar ouvidos a quem faz o necessário papel de consciência incômoda de uma determinada categoria. Principalmente uma categoria extremamente corporativista como a dos jornalistas.
OI – Você poderia dar exemplos de quando esse corporativismo se revelou de forma mais evidente?
LN – Logo na introdução do livro alguns momentos em que a redação do jornal deu demonstrações de corporativismo explícito. Um deles foi quando recebi um abaixo-assinado, da parte de mais de 30 colegas, em represália a um comentário interno em que critiquei a forma impiedosa como um drama particular de determinada pessoa havia sido estampada na primeira página do jornal. Naquele momento, foi como se eu houvesse atacado a categoria inteira. Não dá nem para dar idéia aqui do tom da resposta dos "coleguinhas" nesse episódio. Uma resposta de baixo nível, escatológica, que descia ao rodapé da intriga pessoal.
OI - Que lições você tirou, pessoal e profissionalmente, de todo esse tempo protagonizando embates com a empresa e com os colegas de profissão?
LN – A primeira lição é a de que os leitores têm uma imensa capacidade de ler o jornal com os olhos livres. Os jornalistas costumam subestimar a inteligência e a sensibilidade dos leitores. Mas, no contato diário com eles, revela-se que sabem ler nas entrelinhas e desnudar os interesses inconfessáveis da imprensa. A segunda lição diz respeito diretamente à minha relação com a profissão de jornalista. Nas redações, os jornalistas não têm tempo e não são muito afeitos à reflexão sobre as virtudes e vícios típicos do ofício. No final da introdução de A Herança de Sísifo, digo que essa é uma experiência da qual ninguém sai da mesma forma como entrou. O exercício da reflexão diária sobre a profissão, os embates com os colegas, o contato com os leitores, tudo se revelou extremamente enriquecedor. O conceito de bom jornalismo está intimamente ligado ao conceito de cidadania. Hoje penso que sou um jornalista – e, por conseqüência, um cidadão – muito mais consciente do que eu era antes.
ASPAS
E-BOOK
Umberto Eco
"A obra está aberta", copyright Valor Econômico, 24 a 26/11/00
"Existem hoje dois tipos de livros: os para ser lidos e os para ser consultados. Com os livros para serem lidos, começa-se na página 1, digamos, na qual o autor conta que um crime foi cometido. Segue-se até o fim, quando se descobre quem é o culpado. Fim do livro; fim da experiência de leitura. O mesmo acontece quando se lê filosofia, digamos, Husserl. O autor abre na primeira página e encadeia uma série de questões para o leitor apreciar como ele chega às suas conclusões.
As enciclopédias decerto não são para ser lidas de cabo a rabo. Quando eu quero saber se foi possível Napoleão ter conhecido Kant, pego os volumes K e N e descubro que Napoleão nasceu em 1769 e morreu em 1821 e que Kant nasceu em 1724 e morreu em 1804. Teria sido possível um encontro dos dois. Para saber com exatidão, consulto a biografia de Kant. Uma biografia de Napoleão, que se encontrou com muita gente, poderia desconsiderar um encontro com Kant; uma biografia de Kant, não.
Os computadores estão começando a mudar o processo de leitura. Com um hipertexto, por exemplo, posso perguntar por todos os casos onde o nome de Napoleão aparece associado ao de Kant. Posso realizar meu trabalho em alguns segundos. Os hipertextos vão tornar obsoleta a enciclopédia impressa. No entanto, embora os computadores estejam difundindo uma nova forma de erudição, eles são incapazes de satisfazer todas as necessidades intelectuais que eles suscitam.
Duas invenções na iminência de ser exploradas poderão ajudar os computadores na satisfação dessas necessidades. A primeira é uma máquina copiadora que permite escanear catálogos de bibliotecas e livros de editoras. Seleciona-se o livro de que se precisa, aperta-se um botão e a máquina imprimirá e encadernará a cópia desejada. Isso vai mudar todo o sistema editorial. Provavelmente extinguirá as livrarias, mas não os livros. Os livros serão produzidos conforme o desejo do comprador, como ocorria com os manuscritos antigos.
A segunda invenção é o ‘e-book’ (livro eletrônico): inserindo-se um microcassette na lombada ou conectando-o à internet, consegue-se o livro. Mas esse livro é tão diferente quanto é o primeiro ‘folio’ de Shakespeare de 1623 da mais recente edição da Penguin. Pessoas que dizem que nunca leram livros impressos agora estão lendo, digamos, Kafka, num livro eletrônico. No papel ou numa página eletrônica, Kafka é o mesmo para os leitores, embora não seja esse o ponto de vista dos oftalmologistas.
Os livros vão sobreviver por seu valor utilitário, mas o processo criativo em que eles surgem, não. Para entender por que, precisamos traçar uma distinção entre sistemas e texto. Um sistema é todas as possibilidades oferecidas por uma dada língua natural. Um conjunto finito de regras gramaticais permite que se produza um número infinito de frases e cada item lingüístico pode ser interpretado em termos de outros itens lingüísticos, uma palavra por uma definição, um evento por um exemplo e assim por diante.
Um texto, porém, reduz as possibilidades infinitas de um sistema para formar um universo fechado. Tome-se o conto de fadas do Chapeuzinho Vermelho. O texto parte de um dado conjunto de personagens e situações (uma menininha, uma mãe, uma avó, um lobo, um bosque) e por meio de uma série de etapas chega a uma solução. Pode-se ler o conto de fadas como uma alegoria e atribuir morais diferentes aos eventos e personagens, mas não se pode transformar Chapeuzinho Vermelho em Cinderela.
Muitos programas de internet sugerem, porém, que uma história é enriquecida por contribuições sucessivas. Tomemos Chapeuzinho Vermelho mais uma vez. O primeiro autor propõe uma situação inicial (a menina entra no bosque) e colaboradores diferentes desenvolvem a história - a menina não encontra o lobo, mas Pinóquio. Os dois entram num castelo encantado. Eles podem deparar com um crocodilo mágico. E assim por diante. A noção de autoria é posta em dúvida.
Isso já ocorreu no passado sem perturbar a autoria. Na ‘Commedia dell'Arte’, cada encenação era diferente. Não se pode encontrar uma única obra devida a um único autor. Outro exemplo é uma sessão de improviso de jazz. Podemos acreditar que há uma execução privilegiada de ‘Basin Street Blues’ porque uma gravação sobreviveu. Mas houve tantas ‘Basin Street Blues’ quantas foram suas performances.
Mas há uma diferença entre textos infinitos, ilimitados, e textos que podem ser interpretados de infinitas maneiras, mas são fisicamente limitados. Considere ‘Guerra e Paz’, de Tolstoi: você quer que Natasha despache Kuryagin; você quer que o príncipe Andrei viva para que Natasha e ele possam ficar juntos. Transforme ‘Guerra e Paz’ num hipertexto e poderá reescrever a história: Pierre mata Napoleão ou Napoleão derrota o general Kutusov. Que liberdade! Todo mundo é Tolstoi!
Em ‘Os Miseráveis’, Victor Hugo nos dá uma bela descrição de Waterloo. Hugo não só sabe o que aconteceu, mas também o que poderia ter acontecido e não aconteceu. Com um programa de hipertexto, você pode reescrever Waterloo para que Napoleão saia vencedor, mas a beleza trágica do Waterloo de Hugo é que as coisas acontecem à revelia dos desejos do leitor. O charme da literatura trágica é que nós sentimos que seus heróis poderiam ter escapado de seu Destino, mas não o fazem por fraqueza, ou orgulho, ou cegueira.
Ademais, Hugo nos diz: ‘Uma queda assim, que estarreceu toda a História, será algo sem uma causa? Não... Alguém, a quem ninguém poderá fazer objeções, foi responsável por aquele acontecimento, Deus esteve lá.’ Isso é o que todo grande livro nos diz, que Deus esteve lá. Há livros que não podemos reescrever porque a sua função é nos ensinar sobre Necessidade e somente se forem respeitados tal como são eles poderão nos proporcionar essa sabedoria. Sua lição repressiva é indispensável para atingirmos um estágio mais alto de liberdade intelectual e moral. (Tradução de Celso M. Paciornik)"
Leia também:
A tarefa infindável - A.D.
O divisor de águas - Lira Neto (Role para a segunda nota)
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