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DIRETÓRIO ACADÊMICO
ÚLTIMA HORA – Atualizado em 27/03/2000
CURSOS DE JORNALISMO
Exemplo de uma boa experiência
Hélio Schuch (*)
A formação universitária em jornalismo apresenta atualmente a extrema necessidade de adequação imediata com o mundo do trabalho jornalístico. Pela dinamicidade da tecnologia de informática, novos conceitos de organização nos veículos jornalísticos e exigência permanente de inovação, os cursos devem estar sintonizados com a realidade do mercado de trabalho. Isso não ocorre apenas com os cursos de jornalismo, mas com qualquer outra carreira oferecida pela universidade. Por isso, há a premência de qualificar, cada vez mais, a formação dos alunos.
Neste cenário, as universidades públicas e gratuitas, como a UFSC, demandam recursos governamentais e deve o governo federal supri-los. Mas não é novidade a carência de dinheiro para o ensino superior público. Com escassez de verbas, as administrações das instituições desdobram-se para o atendimento que requerem as atividades de ensino, pesquisa e extensão. Esta é uma situação que deve ser modificada urgentemente – afinal, as universidades federais são os grandes centros de formação profissional universitária, de geração de pesquisas e de desenvolvimento de atividades de extensão às comunidades.
Ao mesmo tempo, existem formas de trabalho que agregam qualidade à formação dos alunos e que dispensam verbas públicas. É o caso do trabalho cooperativo entre universidade e empresas. Neste sentido, foi firmado em outubro do ano passado um protocolo de cooperação entre a UFSC e a RBS que tem como objetivo o intercâmbio técnico, científico, cultural e administrativo, colaboração e troca de experiências na área profissional do jornalismo, desenvolvimento de pesquisas, cursos, consultorias. O Curso de Jornalismo da UFSC e a RBS, iniciaram, assim, um trabalho cujo objetivo é o aumento do conhecimento na área acadêmica e profissional.
Fruto deste protocolo, desde seu início foi organizada e implementada uma escala de visitas de alunos do Curso de Jornalismo para conhecimento da rotina de produção no jornal Diário Catarinense, rádio CBN Diário e RBS TV. Hoje inicia-se uma outra atividade: dentro da disciplina optativa "Tópicos Especiais em Jornalismo XVII", sob nossa responsabilidade, será realizado um ciclo de palestras por profissionais da RBS que prevêem conteúdos sobre o que é desenvolvido dentro de uma empresa de comunicação.
Este empreendimento, denominado projeto Cátedra RBS, é uma oportunidade valiosa para o aluno conhecer e discutir a realidade empresarial, desde aspectos gerenciais até o uso de tecnologias de ponta, como a televisão a cabo, passando ainda pelas mais diversas mídias, impressas e eletrônicas.
O Curso de Jornalismo da UFSC está aberto para a análise e efetivação de protocolos semelhantes com outras empresas jornalísticas e tomará iniciativas para isso. Intercâmbios entre universidades e empresas são freqüentes nos melhores setores universitários e empresariais do mundo. Fazem parte da visão estratégica das instituições e organizações.
Por ter esta visão de modernidade do mundo do trabalho, o Curso de Jornalismo da UFSC afirma-se, cada vez mais, como um dos melhores do país. No último Exame Nacional de Cursos ("provão") do MEC, o curso obteve o melhor conceito entre aqueles que obtiveram a nota máxima, "A". Já na recente Avaliação das Condições de Oferta dos Cursos de Graduação, também do MEC, o curso obteve um CMB (Conceito Muito Bom) e dois CB (Conceito Bom). Cruzando os resultados destas avaliações, recentemente uma revista de circulação nacional publicou a lista dos melhores cursos do país, num elenco de profissões universitárias – em jornalismo, é o Curso da UFSC.
(*) Chefe do Departamento de Comunicação e Presidente do Colegiado do Curso de Jornalismo da UFSC
Valor da ação
Carolina Ribeiro (*)
Um conceito moderno de avaliação só admite sua aplicação no momento em que se torna um instrumento em busca da melhoria. Para isso precisa apontar e descrever falhas, de modo que o avaliado possa ter um ponto de partida para transformar aquilo que foi considerado insuficiente. De outra forma, o instrumento de avaliação tem um fim em si mesmo, não desenvolve o objeto avaliado. No máximo o expõe ao ridículo, ou, aos aplausos. Tipo propaganda do Sprite ("Sede não é nada, imagem é tudo").
Quando pensamos em avaliação do ensino superior, a questão se torna ainda mais crítica, uma vez que o objeto avaliado tem grau de complexidade muito grande, o que relativiza o processo avaliativo. Impressiona a forma como as instituições recebem a nota do Provão – como se sair no ranking de melhores e piores do ano fosse desenvolver em qualquer nível a universidade. Pensando melhor, faz bem (ou mal) ao "ego" institucional. Interessante um espaço de produção de conhecimentos e valores sociais legitimar algo tão superficial e reacionário como a vaidade universitária.
No ano passado, o MEC se propôs a avaliar as condições de oferta de cada curso, propondo uma investigação bem mais profunda e detalhada e se comprometendo a devolver às instituições os relatórios que apontassem essas deficiências. Causou surpresa o empenho do MEC em se dispor a realizar tal façanha, dada a política que vem desenvolvendo na área da educação superior, principalmente nas universidades federais. Porém, rapidamente o espanto se foi. A primeira ação do ministério foi novamente divulgar antes na imprensa e ranquear as instituições. CMB para a superficialidade.
Relatório apontando as deficiências? Nem sinal. Pelo menos não no meu curso. Além disso, é extremamente interessante a forma como o MEC se expõe, admitindo que, em mais da metade das instituições que se propõe a manter, não dá conta do recado. Um tipo de contra-propaganda estratégica, creio eu.
Debate maior
No caso dos cursos de Comunicação, o fato se torna ainda mais complexo. A começar pelos critérios utilizados pela avaliação, que mostram claramente a intenção de transformar o campo da comunicação em área jornalística emancipada, desejada por alguns professores – coincidentemente, os mesmos que conceberam a avaliação. Não houve discussão sobre se o modelo aplicado era o parâmetro de qualidade de um curso de Comunicação. Nota A para a falta de legitimidade do processo.
Outra questão, já bastante debatida neste fórum, foi a falta de unidade dos avaliadores. O treinamento foi muito rápido, a aplicação mais rápida ainda. Excesso de rigidez, falta de paciência e um amadorismo absurdo mostraram como uma avaliação detalhada pode se transformar numa aberração de resultados questionáveis também pela falta de seriedade por parte de alguns dos avaliadores. Aplausos para a incompetência.
Só para não tornar esse artigo uma simples opinião (como os resultados da ACO), uma proposta. Que tal se houvesse um espaço de debate maior para a questão da Avaliação Institucional? Quem sabe um seminário envolvendo professores, estudantes, profissionais e pesquisadores, empenhados na construção de uma avaliação decente. Se o ministro não gostar, temos a sociedade. Utilizaremos nossos meios – de comunicação – para tornar pública a forma pela qual a educação vem sendo conduzida pelo MEC. Quem sabe o Observatório da Imprensa, ao lado de Compós, Intercom, Fenaj, ABI, Abecom e Enecos, não possa organizar este debate. Fica a sugestão.
(*) Estudante de Comunicação da Universidade Federal do Espírito Santo
CARTAS
Dúvidas no ar
Venho aqui no papel de ex-acadêmica do curso de Direito da UFSC, manifestar meu inconformismo com reportagem recentemente publicada pela revista IstoÉ, intitulada Dúvidas no ar. Tal reportagem faz menção a nomes de professores da UFSC que, como membros das comissões de avaliação do MEC, estariam propositadamente atribuindo baixos conceitos às universidades particulares, em especial à Universidade de Guarulhos.
Esta reportagem é uma vergonha para a imprensa brasileira, pois demonstra de forma clara o poder dos grandes empresários que ganham rios de dinheiro criando universidades particulares com cursos sem qualidade e com um número incrível de alunos que serão jogados no mercado de trabalho, sem qualquer preparação e ainda manchando a imagem de diversas profissões. Em razão disso enviei à revista IstoÉ a seguinte carta:
"Fui aluna do curso de graduação em Direito da UFSC, e como todos os estudantes que conhecem o caráter e a integridade do corpo docente da referida universidade, fiquei sinceramente decepcionada com a reportagem, parcial e tendenciosa, publicada por esta que considerava uma das mais sérias do país. A matéria Dúvidas no ar, relatando um suposto "esquema" na avaliação do curso de Direito da Universidade de Guarulhos, é uma afronta não só aos profissionais que com seriedade e honestidade realizam a avaliação dos cursos de nível superior, como a todas as pessoas que pugnam por uma educação de qualidade, insurgem-se contra a proliferação desmedida de cursos de Direito e o favorecimento das universidades particulares na tentativa de menosprezar o ensino público.
Toda a reportagem é baseada em conjecturas, e não atenta para o fato de a nova comissão do MEC haver reavaliado a Universidade de Guarulhos, ratificando as conclusões a que chegaram os membros da primeira comissão, que segundo a revista estaria tentando favorecer uma empresa de consultoria. A reportagem também não lembra que por anos seguidos o curso de Guarulhos vem obtendo conceitos insuficientes na avaliações do MEC e no provão realizado pelos alunos. Assim, fica nítido que o que houve foi a tentativa desesperada de desqualificar a avaliação implementada pelo MEC, a fim de "socorrer" mais um das centenas de cursos jurídicos que funcionam como verdadeiras "fábricas de bacharéis". Por fim, quero lançar um desafio: já que para esta revista existem dúvidas no ar, que tal esclarecê-las, permitindo a defesa dos professores nominados na matéria e verificando qual o resultado das medidas adotadas pelo MEC?"
Obviamente tal carta não foi publicada pela revista, por isso venho buscar o Observatório da Imprensa como meio de expressar minha indignação com tal reportagem, que se preocupou em defender interesses de uns poucos em vez de apurar a verdade dos fatos. Caso desejem maiores detalhes sobre o caso, estou a inteira disposição.
Renata Coelho
Ainda o (muito) baixo nível
O estudante Márcio, da Umesp, usou este espaço para criticar os professores da universidade que cometem erros de português. Como aluna da mesma instituição, sinto-me no direito de apontar duas coisas: a irrelevância do fato e a vontade tremenda de causar polêmica pelo aluno em questão que, por não ter assunto, acabou por achar um. Sugiro a ele um curso de Letras, onde aprenderá, entre outras coisas, a diferença entre língua falada e escrita, entre língua formal e informal. A língua falada é repleta de erros, nada mais natural, já que não meditamos muito sobre a forma de como vamos expor certas idéias, ao contrário do que ocorre na escrita.
Esses "erros" de fala também constituem a riqueza da língua – suspeito que deve ferir os ouvidos do colega ouvir um gaúcho, um carioca ou um nordestino falando. É óbvio que o texto foi escrito para causar alvoroço, o que acabou acontecendo. Até pensei que Márcio reclamava do nível de ensino ou coisa parecida. Não se trata de abrir aqui pequenas polêmicas, mas sim demonstrar a falta de assunto de quem se dispõe a escrever um texto presunçoso e arrogante sobre erros que todos nós cometemos. Gírias, expressões e erros são parte da comunicação oral.
É o infeliz retrato de um futuro jornalista que se ocupa com preconceitos (será que ele mede o valor das pessoas pelo nível da fala?) e falsas e fracas polêmicas, além de ataques covardes a professores que o aluno nem sequer conhece, como eu, também caloura. Amostra do que vi na universidade, templo dos egos inflados, mas felizmente não na maioria das pessoas. Procure os erros, Márcio.
Bianca Ribeiro Manfrini manfrini@sti.com.br
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Sou aluno do 1º semestre de Jornalismo na Universidade Metodista de São Paulo, e como tal não pude deixar sem resposta o texto do aluno, e colega de classe, Márcio Alexandre da Silva. Considero um desrespeito a atitude do colega ao questionar com sarcasmo a capacidade e a inteligência de alunos e professores da instituição. No mínimo o colega se considera inteligente demais para dividir a sala com pessoas que são "assim" como o próprio citou em sua carta. O colega critica os professores, na sua maioria com doutorado, pois provavelmente se acha inteligente demais. O colega também acha um absurdo que os alunos não conheçam termos como "cognição". Ele se esquece de que somos alunos do 1º semestre, e que lá estamos para aprender. Caso contrário, já estaríamos no mercado de trabalho.
Volto a enfatizar que além de desrespeitosa a atitude do colega foi extremamente antiética, justamente ele que pensa saber tudo a respeito de jornalismo, a ponto de se considerar superior aos demais colegas, esqueceu a ética, tão importante e atualmente em falta no meio jornalístico. Assuntos como esse devem ser tratados internamente, já que a sala da coordenadoria do curso, assim como a do Centro Acadêmico, se encontra aberta todas as noites.
Eduardo de Melo Simões
Nota do O.I.: Não tomando, em hipótese alguma, partido neste debate, falar "a situação tá meia difícil" ou "espero que o presidente seje menos egoísta" – erros apontados por Márcio Silva em sua carta [ver remissão abaixo] – não se trata de "linguagem informal", muito menos constitui "riqueza da língua". É ignorância mesmo. Que, entretanto, não é um mal incurável. (M. C.)
ASPAS
Sylvia Moretzsohn
"Contra o tecnicismo", copyright Jornal do Brasil, 21/3/00
"O evidente despreparo da ‘comissão de especialistas’ que visitou o curso de Comunicação Social da UFF em meados de novembro passado e os critérios restritivos que essa comissão deveria aplicar, privilegiando a chamada ‘área técnica’ sob a ótica reducionista da compartimentação do saber, levaram nossa universidade a rejeitar publicamente os resultados dessa ‘avaliação’.
Detalhamos nosso protesto ainda naquele mês, em documento enviado à SESu/MEC e divulgado na Internet em quatro sites dedicados ao debate sobre jornalismo. A avaliação anunciada depois nos coloca em posição razoavelmente confortável. No entanto, reiteramos as críticas. As recentes manifestações da UFRJ e da UFRGS, entre outras, comprovam que, entre as instituições superiores de ensino, está longe de haver consenso em torno dos critérios adotados para essa avaliação. Além disso, há sérias e muito bem fundamentadas dúvidas quanto ao preparo dos próprios avaliadores – que, tratados como ‘especialistas’, automaticamente ficam acima de qualquer questionamento.
Um exemplo, entre vários, dá a medida desse despreparo: de acordo com os critérios adotados, a chamada `área técnica' deveria contar com professores graduados em jornalismo ou que tivessem registro profissional de jornalista. Nossos `avaliadores' inicialmente confundiram as coisas e aplicaram os mesmos critérios também para a chamada área `não-técnica'. Dessa forma, consideraram inadequados vários docentes, inclusive um que, embora com mestrado e doutorado em antropologia, não poderia dar aula de Antropologia porque sua graduação era em História. Apenas no dia seguinte essa classificação foi revista.
Antes mesmo dos resultados oficiais, sabíamos que nosso curso não receberia o conceito máximo (CMB, condições muito boas) em corpo docente porque, para tanto, seria necessário obter A no item `adequação de docentes para as disciplinas técnicas específicas de jornalismo'. Tal conceito só se atinge com 100%, e não há intermediação: menos que isso significa conceito D. Poeta com vários livros publicados, ex-colaborador na enciclopédia Mirador e na coleção Os pensadores, editor da Funarte por vários anos, doutor em Comunicação e Cultura, um dos nossos colegas foi declarado inadequado para lecionar Oficina de Textos, vista como disciplina técnica de jornalismo, porque não era graduado nessa área nem tinha o registro profissional específico. Não se levou em consideração a orientação de nosso currículo, no qual já constam como obrigatórias quatro disciplinas de técnica de redação, e que reserva para aquela `oficina' uma perspectiva de abordagem mais alargada das possibilidades de criação no manejo da palavra escrita.
O questionamento dos critérios é mais profundo, porém. Começa pela notável substituição da distinção tradicional, embora certamente falseadora e formalista, entre `teoria' e `prática', pela separação entre áreas `técnicas' e `não-técnicas', como se a mudança da nomenclatura e a inversão de prioridades valorizassem automaticamente a técnica, à qual a teoria deveria estar subordinada. Vincula-se, portanto, o jornalismo a uma técnica (e não a uma `forma de conhecimento da realidade', como a própria comissão que elaborou os critérios costuma classificar). Uma técnica formadora de profissionais que, como disse certa vez um defensor dessa proposta, `é só ligar na tomada e funcionar'.
Conseqüentemente, a atividade de pesquisa deveria ter `relevância para a área de jornalismo' – ou estar `adequada' a ela. Uma `adequação' que remete à noção de conhecimento útil, e envolve uma concepção também utilitarista do jornalismo. E então chegamos à pergunta essencial e óbvia: que tipo de jornalismo estamos avaliando e desejando? Esse que nos faz funcionar automaticamente? Esse que se auto-intitula `técnico'?
São questionamentos decorrentes de críticas a uma orientação que prevaleceu num conflito que nenhum dos outros cursos avaliados pelo MEC enfrentou até agora, e no qual se confrontaram as perspectivas distintas de duas comissões de especialistas de ensino: a de comunicação, que elaborou proposta de diretrizes curriculares com base na contribuição de várias instituições e manteve o jornalismo como uma habilitação de um curso mais amplo, e a de jornalismo, que luta pela criação dos cursos específicos não como possibilidade, mas como via única para a formação de jornalistas.
Esta comissão de jornalismo foi criada em decorrência da decisão de se aplicar um provão para o setor. E, apesar de parecer contrário do Conselho Nacional de Educação, passou a funcionar também como comissão de ensino, definindo um modelo de avaliação que desconhece o jornalismo como uma habilitação do curso de Comunicação Social. Assim, `avalia' o que não existe, pois enxerga apenas uma parte do curso, ignorando os projetos específicos de cada escola e a integração deles com a área maior da comunicação.
Assim, a comissão procurou impor o seu modelo de jornalismo e de ensino de jornalismo. E, junto com isso, a sua perspectiva de universidade, uma universidade fragmentada, zelosa de saberes específicos e do respeito a regulamentos profissionais, no melhor estilo das corporações de ofício medievais, e no sentido precisamente oposto ao da própria LDB, naquilo que ela tem de melhor: o estímulo à interdisciplinaridade, que é a própria razão de ser da academia. [Jornalista, chefe do Departamento de Comunicação Social do IACS da UFF]"
Victor Gentilli
"Contra a esquizofrenia", copyright Jornal do Brasil, 23/3/00
"É falsa a afirmação de Sylvia Moretzsohn, publicada no Jornal do Brasil, de que a avaliação dos cursos de Jornalismo foi tecnicista e procurou impor um modelo único de jornalismo e de ensino de jornalismo.
A cena mais dramática do filme O informante (The insider) é um diálogo entre um jornalista e um profissional do Departamento Comercial do jornal. Num certo momento o jornalista afirma: ‘Sim, trabalhamos na mesma empresa, mas temos profissões diferentes.’ A profissão de jornalista, de fato é diferente das demais profissões que, aqui no Brasil, denominamos de ‘campo da comunicação’. O jornalista-protagonista no filme acertou na mosca: jornalismo é uma atividade preocupada com a produção de informação pública para a cidadania. A empresa conta enquanto instituição fornecedora de um bem público: informação de qualidade. Os demais profissionais da ‘comunicação’ estão preocupados com o desempenho da empresa. A empresa conta enquanto empresa.
Cada profissão entende o conceito de credibilidade, por exemplo, de uma forma diferente.
Mas a formação profissional de jornalistas no Brasil se dá nos mesmos cursos de Comunicação que formam publicitários, radialistas, cineastas, etc.. Isso faz com que as escolas criem dois blocos de estudos radicalmente separados. Um de teoria (que vale para todo mundo) e outro de prática (cada um com sua habilitação).
Por conta desta circunstância brasileiríssima, costumo afirmar que aqui o ensino de jornalismo é esquizofrênico: ensina teoria da Comunicação e prática de Jornalismo. Pior: trata-se de um ensino teórico incapaz de compreender as circunstâncias e as peculiaridades do fenômeno jornalístico. Quando bem ministrado (o que nem sempre acontece) trata do campo da comunicação no seu sentido amplo.
E, aí sím, a prática fica solta no ar, sem qualquer embasamento teórico que a justifique. Na realidade, as atividades práticas de jornalismo nos cursos ou são experimentalismos que negam o mercado, ou são reproduções acríticas da forma atual com que se pratica jornalismo no Brasil de hoje.
Até mesmo temas teóricos específicos do jornalismo estão fora da grande maioria dos cursos. Teoria, só vale se for geral, universal, o resto é ‘conhecimento útil’.
Creio que todo o arrazoado exposto acima tem a concordância da professora Sylvia Moretzsohn. No entanto, ela se apegou a uma pinimba hoje em vias de superação, para realimentar, com falsas questões, um debate que parece ter tomado o bom caminho em todos os demais espaços onde é levado a cabo.
A profa. critica a avaliação do MEC baseada num mito que não se sustenta na realidade: o de que a Comissão que coordenou este trabalho trabalhava com um modelo único de curso. Isso não existe. A posição ‘confortável’ da UFF (que não se enquadra neste suposto modelo único) já seria argumento suficiente para provar o contrário. Mas uma análise cuidadosa dos critérios e parâmetros que foram usados na avaliação não oferece base a esta acusação. Aliás, não à toa, sempre cita casos da avaliação da UFF e nunca enfrenta o debate de questionar efetivamente os critérios e parâmetros que nortearam a avaliação.
É preciso esclarecer: a Comissão que coordenou a avaliação dos cursos de jornalismo trabalhou tendo como documento básico (entre outros) as propostas Diretrizes Curriculares formuladas num Seminário realizado no ano passado em Campinas e que é explicitamente elogiado pela Comissão de Especialistas de Comunicação Social que entregou a proposta – ainda não aprovada – de Diretrizes Curriculares ao MEC.
A defesa de cursos isolados de Jornalismo foi feita por um membro – não jornalista – da Comissão de Comunicação e acatada como uma possibilidade, entre tantas. Daí a se concluir que a Comissão iria avaliar os cursos com base na sua ‘opinião’, vai uma longa distância.
Isso não significa que – na medida em que fomos convocados para avaliar os cursos de Jornalismo, isto é, os cursos que habilitam os seus formandos a exercerem a profissão de jornalistas – não tenhamos valorizados os cursos que, seja na teoria, seja na prática, invistam numa boa formação do jornalista.
Assim, não é de surpreender que quando avaliamos Corpo Docente, valorizamos toda produção científica, mas também a produção profissional. Da mesma forma quando avaliamos a pesquisa e a extensão, a relevância para o jornalismo é valorizada. Donde surpreender-se com isso? Se estudantes de jornalismo fazem uma pesquisa sobre a cultura popular dos emergentes da Barra este trabalho é menos relevante que um estudo da forma como os jornais noticiam a violência no Rio de Janeiro. Nada a ver com ‘conhecimento útil’; tudo a ver com conhecimento crítico.
Ora, um dos sites onde a articulista apresenta seus pontos de vista é o Observatório da Imprensa. Acaso os debates do Observatório seriam dispensáveis, posto que voltam seu olhar para a realidade concreta do fenômeno jornalístico contemporâneo?
Ao negar a afirmação que temos um modelo único de jornalismo e de ensino de jornalismo, nego o epíteto de corporativo. Quem me conhece e conhece minhas opiniões (por exemplo, contra o diploma para o exercício da profissão de jornalista, mas não contra os cursos) não pode me atribuir o qualificativo de corporativo. O que não significa nem impede que, tanto eu, como Sylvia Moretzsohn nos orgulhemos de nos apresentar como jornalistas, o que, ambos, fazemos, em todos os nossos textos. [Jornalista; integrante da Comissão do MEC que coordenou a Avaliação dos Cursos de Jornalismo]"

Baixo nível – Márcio Alexandre Silva
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