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ÚLTIMA HORA – Atualizado em 12/9/2000
ASPAS 1
ENTREVISTA / MIRIAM LEITÃO
Aydano André Motta
"Miriam Leitão defende salário ‘multi’ para jornalista multimídia", copyright Revista Lide in Guia da Imprensa, 04/09/00
"Especializar ou ter uma boa noção de tudo? Gente famosa, como Miriam Leitão e Ruth de Aquino, dão suas opiniões para a revista Lide (do sindicato carioca dos jornalistas) sobre o chamado ‘jornalismo multimídia’ (aquele em que profissional trabalha, simultaneamente para agência de notícias, jornal, rádio e revista, por exemplo). Um belo debate, principalmente quando isso se vem se tornando prática comum nas redações.
‘Jornalista multimídia: profissional do futuro ou ameaça ao profissional?’
A revolução tecnológica que se espalha pelo mundo civilizado esbarra num atraso tipicamente brasileiro. Ele marca a gestação de um novo tipo de profissional que, promete o futuro, ocupara os cargos mais importantes em jornais, TVs, portais de conteúdo e rádios – o jornalista multimídia. Antes de se mergulhar na nova era, uma polêmica tão grande quanto antiga ainda precisa ser resolvida. Como devem ser as relações de trabalho, o pagamentos, a carga horária e a rotina de um profissional de comunicação que vai veicular a mesma informação em mídias totalmente diferentes – e até mesmo incompatíveis. Conseguir receber por cada trabalho realizado é o maior desafio que os jornalistas terão de vencer na era multimídia ‘Trabalho para várias mídias, mas por vários salários’, prega Miriam Leitão, principal jornalista de economia do Brasil, que se divide entre O Globo, a rádio CBN, a TV Globo e a Globonews. Pioneira, há quase três décadas, Miriam descobriu as vantagens de se conhecer e explorar veículos e linguagens diferentes. Mas critica a prática de o mesmo repórter apurar matérias para o jornal e, simultaneamente, preocupar-se com a informação em tempo real, hoje comum nas redações. Responsável, até agosto, pelo processo multimídia de O Dia, Ruth de Aquino, sustenta que os melhores, como sempre, ganharão mais. ‘Não há como dar pagamento diferenciado, porque o trabalho é um só: a ‘apuração da notícia’ argumenta ela. Merval Pereira, diretor de jornalismo de O Globo, tem visão semelhante em relação à remuneração. ‘Os jornalistas sempre foram multimídia’. A presidente da Fenaj, Beth Costa, põe fogo na polêmica por outro flanco. A pessoa que faz o mesmo material para jornal escrito, flash de rádio e entrada em TV nunca vai aprofundar os temas. Este conceito ameaça a liberdade de imprensa’ ataca ela, levando à constatação de que a controvérsia – assim como a era multimídia – está apenas começando.
Anda cheia de respostas, algumas funestas, outras promissoras, todas polêmicas, nenhuma absolutamente certa, a pergunta que todo jornalista interessado no próprio ofício – e na sobrevivência pessoal – anda se fazendo nesses dias de blablablá tecnológico: ‘Como será o amanhã?’ Com pequenas variações de tom, de acordo com o interlocutor, todos concordam que o futuro vai revolucionar o cotidiano de repórteres, fotógrafos e cinegrafistas, com equipamentos que até anteontem pareciam coisa de Spielberg ou Júlio Verne. É tempo real, é notícia virtual, é internet de bolso na tela do celular. É, para resumir a ópera, a vida multimídia. Tudo muito bonito. Só parece estar faltando um certo up-date nas relações de trabalho nos órgãos de comunicação, que, em muitos aspectos, estacionaram na encarnação do carbono, da linotipo e da máquina de escrever, a era da imprensa lascada.
Todo mundo que passou por uma grande redação do Rio ou São Paulo testemunhou, nos últimos anos, os principais executivos tateando em busca do caminho da porta da frente para o fascinante mundo da tecnologia da informação. À patuléia das redações sobra uma ou outra palestra, muita especulação e quase nenhuma certeza – algo, aliás, que nem as cabeças mais coroadas, e mais bem remuneradas, têm. Todos os órgãos de imprensa que se levam a sério estão à caça do negócio mais compensador – ainda que ninguém tenha conseguido resposta convincente a mais elementar das perguntas, feita por Caetano Veloso há mais de 30 anos: ‘Quem lê tanta notícia?’
Por enquanto, a parte que cabe a nós, jornalistas, nesta história, não parece muito animadora. No bojo das novidades tecnológicas, os empresários do setor tentam se preparar para as mudanças nas regras deste jogo milionário, decorrente da globalização tão festejada pela parcela mais ouvida dos economistas e seus milhões de seguidores. Sob o peso de uma economia que cresce a níveis esquálidos, com microscópicos aumentos do mercado consumidor, surgem associações entre as empresas, responsáveis pela gestação de um novo personagem, sinônimo de prosperidade para alguns, encarnação do anticristo para muitos: o jornalista multimídia.
O negócio não é novidade para um restrito grupo de profissionais de altíssimo gabarito. É o caso de Míriam Leitão, uma das principais jornalistas de economia do Brasil. Com 27 anos de carreira, Miriam aprendeu desde sempre a importância de ser multimídia. ‘Fiz disso um projeto pessoal e procurei aprender a trabalhar em todos os meios’, conta. Mas ela não faz concessões no que mais aflige os jornalistas atualmente - o pagamento. 'Trabalho para vários lugares e tenho vários salários. Assim deve ser, resume ela, colunista do Globo, comentarista da TV Globo e da CBN e dona de um programa semanal na Globonews. O pensamento de Miriam Leitão é claro e contundente como os furos e as reportagens que fez ao longo de sua brilhante carreira. ‘É muito moderno ser versátil, mas é muito antigo ser explorado’, encerra, serenamente.
Por enquanto, o jornalismo multimídia está sendo acompanhado por um glossário de palavrões como sinergia, flash, teaser, siglas como WAP e neologismos variados. Na vida real, por enquanto, engatinham algumas parcerias, como a recém-firmada entre O Dia e o SBT, para a área de esportes. Repórteres do caderno Ataque vão fazer matérias para os noticiários locais da rede de Silvio Santos. Nos últimos meses, jornalistas da empresa carioca passaram por treinamento de televisão, com aulas teóricas na Universidade Estácio de Sá e práticas em externas na TV Bandeirantes.
Ruth de Aquino: meritocrácia define salários
A jornalista Ruth de Aquino, que até agosto era a encarregada de conduzir o jornal à era multimídia, foi uma das alunas. Ruth falou à Lide uma semana antes de perder o cargo de diretora de jornalismo da empresa. Prudente na hora de falar do que vem por aí – ‘qualquer previsão na indústria de informação é arriscada ou pretensiosa, já que tanto o cenário do mercado quanto a tecnologia vêm surpreendendo os futurólogos’, previne-se – , Ruth diz acreditar que ser curinga das mídias é ‘um dos futuros’ para um profissional de jornalismo. ‘Há muitos outros e um deles continua sendo a especialização, não só num meio mas num assunto’, opina ela. ‘No Dia, já há repórteres fazendo versões da mesma matéria para jornal, rádio e intemet’, acrescenta.
Entre os profissionais da redação, a apreensão maior é com a questão da remuneração, raramente discutida. ‘Fico preocupado porque sou do tempo em que tínhamos de bater matéria em cópias para serem usadas por rádios e agências de notícias’, teme um repórter com quase 20 anos de carreira. 'Seria melhor se pudéssemos receber por cada um dos veículos onde nosso trabalho é veiculado. Mas a possibilidade de treinar e aprender as formas do jornalismo em outras mídias é excelente. O profissional deve estar sempre interessado em aprender’, pondera.
O tema remuneração sempre foi tratado com cuidado por Ruth de Aquino. Seguindo uma espécie de pensamento único vigente no jornalismo atual, ela sempre disse apostar na meritocracia. ‘As empresas, ao meu ver, continuarão remunerando melhor os melhores, continuarão sofisticando os sistemas de remuneração, incluindo o pagamento variável e os bônus por merecimento’, prevê. ‘Não há como dar pagamento diferenciado para cada trabalho, porque o trabalho é um só: a apuração da notícia. A linguagem e o veículo é que mudam’, argumenta ela, garantindo não esperar que um jornalista aumente dramaticamente sua carga horária por causa de uma possível participação em rádio ou TV.
Por ironia do destino, Ruth perdeu seu cargo por se negar a promover um profundo corte nas despesas com pessoal, exigido por Ary Carvalho como forma de compensar os prejuízos com o aumento do preço do papel. Com a globalização – defendida em editoriais de praticamente todos os jornais – as grandes multinacionais compraram os pequenos produtores de papel, criando um cartel que ameaça as publicações brasileiras. Outra ironia do destino.
A ex-diretora do Dia acha perfeitamente possível um profissional fazer uma mesma matéria para mídias diferentes – todas elas, até. ‘Há jornalistas destacados para fazer só uma matéria durante semanas ou meses. Essa matéria ou série de matérias não poderia ser ao mesmo tempo mostrada em TV, rádio e internet? Não há mistério nisso’, ela sustenta, admitindo que as mudanças só se concretizarão ao fim de um ainda longe e acidentado caminho. ‘Pelas perguntas que normalmente são feitas, ficam claras a desconfiança e a resistência de alguns profissionais que, por insegurança, se sentem meio abandonados pelo futuro multimídia’, reconhece Ruth. Ela, porém, acredita que tudo se ajeita. ‘Com o tempo e mais transparência na informação e até com projetos pioneiros como o do Dia e do SBT, aos poucos os jornalistas mais conservadores verão que nada será radical nem imposto. E que, na verdade, a linguagem multimídia vai valorizar o passe deles no mercado’.
Para enfatizar o otimismo, Ruth elogia o que define como profissionalismo e múltiplos talentos de seus ex-chefiados. ‘Os jornalistas adoraram as aulas de fonoaudiologia e de postura diante da câmera. Os professores se surpreenderam com a qualidade da turma’, exulta. ‘Minha convicção é que um bom jornalista escreve sobre qualquer assunto e aprende a se virar com câmera e microfone da mesma forma em que usa caneta, laptop ou gravador. Só a técnica é diferente’ observa a ex-diretora.
Os especialistas em uma só mídia não perderão lugar desenhado por Ruth. 'Sempre haverá espaço para a excelência. Acho natural, apenas, que o mercado privilegie profissionais flexíveis, em todas as profissões’, afirma, lembrando que as faculdades de jornalismo ainda não estão prontas para formar profissionais multimídia. ‘É claro que um repórter será melhor em algumas coisas do que em outras, o que é mais do que natural. E acredito até que os repórteres de jornais impressos, por privilegiarem o conteúdo, avalia. Não é por acaso que é mais fácil um repórter de jornal ser cortejado e contratado por uma TV do que vice-versa’. Apesar da garantia de que nada será feito na marra, ela lembra que os contratos de trabalho dos jornalistas que comandava são com o grupo O Dia, que é proprietários de algumas rádios. ‘Projetos especiais com outras redes de TV são analisados caso a caso e só participa quem já tiver sido treinado e tiver vontade de ter sua imagem e sua voz veiculadas, além do texto’, assegura. ‘Nenhum desses profissionais deverá trabalhar mais horas do que já trabalha’.
Ruth e outros chefes citam, como inspiração mais recente, a palestra do americano Keith Wheeler, do Orlando Sentinel (LA), no último Congresso da Associação Mundial de Jornais (WAN), realizado em junho, no Rio de Janeiro. Para ele, será tudo ao mesmo tempo agora, com os profissionais trabalhando Mas, e a remuneração? Afora a justa recompensa a quem é mais competente, a meritocracia citada por Ruth (um excelente método, quando praticado de verdade), não há, até segunda ordem, qualquer plano para aumento de salário por trabalho extra no prometido mundo novo.
Este é um dos muitos problemas da nova ordem, na opinião da presidente da Federação Nacional dos Jornalistas, Beth Costa, que também esteve no congresso dos jornais. ‘A conclusão da maioria foi muito clara: para que exista o profissional multimídia precisa existir a empresa multimídia. Isso acarretaria a concentração de meios, danosa à libedade de informação’, pondera Beth. ‘Esse modelo de jornal, TV e rádio da mesma empresa é muito brasileiro. Lá fora, há uma resistência ao projeto de profissional multimídia.'
A presidente da Fenaj vai adiante, enxergando conseqüências mais prejudiciais ao jornalista multimídia. ‘A pessoa que faz o mesmo material para jornal escrito, flash de rádio e entrada em TV nunca vai aprofundar os temas, especialmente para o jornal. 0 conceito de profissional multimídia ameaça a liberdade de imprensa’, sentencia. Ressalvando não ser contra os jornalistas que dominam diversas técnicas de manuseio da informação, ela critica a idéia de obrigar o profissional a simplesmente aceitar as mudanças. ‘Ninguém está negociando melhorias salariais ou profissionais’, ataca Beth Costa. ‘O que está embutido neste conceito moderninho é uma exploração de mão-de-obra. Além de burrice empresarial: os veículos têm de primar pela qualidade da informação e duvido um profissional domine os vários meios com a mesma qualidade’ sustenta.
Bloomberg e Globo
Na meca dos defensores do jornalismo multimídia, os Estados Unidos, nada é muito sólido, muito claro, muito esquematizado. A Bloomberg, agência de notícias, rádio e TV (aquela da tela cheia de informações, onde as cotações da bolsa e o tempo ficam pulando ao lado e embaixo do locutor) cultuada por inúmeros executivos de comunicação brasileiros, defende a idéia de que o profissional que quiser fazer mais coisas ganhará melhor. Mas ninguém é obrigado. Se alguém preferir se limitar a apenas uma função – sejam as informações do mercado financeiro do terminal Bloomberg, seja a agência de notícias em tempo real, seja a rádio ou a TV – não será discriminado. Só terá um caminho mais longo para subir na vida.
Criada em 1980 por Michael Bloomberg, um ex-executivo do mercado financeiro, a Bloomberg defende o estilo americano de trabalhar o mais possível. Tanto que, na sua sede (três andares na Park Avenue, em Nova Iorque), há uma delicatessen onde os funcionários podem se servir sem pagar nada. Quem quer economizar sequer vai à rua. Há uma certeza quanto à remuneração: tempo de casa reverte em aumento de salário. Ninguém é obrigado a trabalhar para diversas mídias – mas, quem quiser, será muito bem recebido pelos chefes. Apenas rádio e TV funcionam com o mesmo quadro de funcionários. Os locutores da TV operam seu próprio teleprompter, como já acontece por aqui na Globonews. As outras atividades da empresa têm equipes próprias. Os contratos de trabalho também são diferenciados e há jornalistas que jamais trabalham no fim de semana, por exemplo.
As organizações Globo começaram primeiro, mas se movem em velocidade menor do que O Dia na sinuosa estrada da dimensão multimídia. Há algum tempo, seus jornalistas são obrigados a passar flashes sobre as matérias que es tão apurando. Há, inclusive, uma cota a ser cumprida por cada editoria. A um dança na rotina parece ter sido absorvida sem grandes sobressaltos. A idéia multimídia vai se intensificar, mas nada será traumático, promete Merval Pereira, diretor de jornalismo do Globo. ‘Os jornalistas, de uma maneira ou de outra, sempre foram multimídia. Sempre foi comum profissionais migrarem do jornal para rádio ou TV, ou mesmo o movimento contrário’, lembra ele. ‘A novidade é que hoje a tecnologia digital permite mais facilmente que um mesmo trabalho tenha múltiplas saídas para múltiplos canais.’
Apesar da multiplicidade, o diretor do Globo diz acreditar que a rotina das empresas e dos profissionais não mudará de maneira substancial. Apostando nas facilidades proporcionadas pela tecnologia digital, ele fala em plataformas que permitirão diversos formatos para um mesmo texto, especialmente para jornal e intemet. Mas prevê uma pequena revolução – que para alguns pode se assemelhar ao apocalipse – na vida de um profissional quando ele for multimídia. ‘A estação de trabalho de um repórter talvez seja mais bem equipada: um microfone para gravar uma nota para rádio e uma câmera para web e TV, prevê. ‘A entrevista que o repórter de jornal grava na rua pode muito bem servir para a rádio, sem que isso represente esforço extra. Evidentemente, tudo é uma questão de ênfase e eu acredito firmemente que haverá profissionais mais especializados em algumas mídias.’
Merval também tenta desmistificar o epicentro da polêmica. ‘O repórter de jornal sempre atuou para diversas mídias. No Globo, como no Jornal do Brasil, o repórter sempre escreveu usando o saudoso papel carbono, com pelo menos quatro cópias de sua matéria. Uma cópia ficava no jornal e as outras seguiam para a rádio e para a agência de notícias’, recorda. ‘Isso não é novo. O carbono hoje será substituído pelo computador’. É nesta idéia que ele encontra a chave para outra questão aflitiva, a do direito autoral. E alega que ela foi resolvida muito antes do computador. ‘O texto do repórter sempre foi usado por outras mídias, graças ao papel carbono’, repete, citando uma prática que desagrada os jornalistas em qualquer tempo.
Merval também diz não ter dúvidas de que na era multimídia a carga horária dos profissionais vai se manter nos patamares atuais. A tecnologia, para ele, absorverá o aumento de trabalho decorrente da inflação de tarefas. ‘A carga horária não mudará e a remuneração seguirá sendo como sempre foi: profissionais mais talentosos ganharão sempre mais’, simplifica, também citando Keith Wheeler, o jornalista do Orlando Sentinel que ganhou muitos fãs no Congresso da WAN. ‘É um dos jornais americanos que mais levam a sério a proposta multimídia e ninguém ganha mais por ter seu texto usado por outra mídia. Sem problemas, porque isso não representa mais trabalho.’
O diretor do Globo declara não acreditar que a prática de trabalhar para meios diferentes gere desemprego. Merval afirma que o especialista em um único tipo de mídia terá sempre seu lugar, não só porque as empresas não podem prescindir dos profissionais mais preparados, mas também para que os horários de fechamento não inviabilizem o trabalho. ‘Ninguém ainda tornou possível o dom da ubiqüidade’, filosofa.
Merval vê com simplicidade a grande experiência multimídia por ele chefiada. O projeto de sinergia, que obriga os profissionais a passarem flashes para a Agência Globo e o Globo On, cumpre, segundo ele, a missão de manter os jornalistas da casa bem informados sobre o que acontece. ‘Os editores, editores-executivos, o editor-chefe e eu próprio somos informados em tempo real do que acontece, dando chance a todo mundo de propor idéias e sugerir enfoques’, explica, chamando de ‘passo natural’ o fornecimento do material disponível ao Sistema Globo de Rádio. ‘Uma vez entendida esta questão, os ruídos, poucos, desapareceram. O grupo de comunicação a que O Globo pertence é sempre muito antenado com as tendências do mercado’, acrescenta Merval, avisando que não há, no horizonte, qualquer projeto envolvendo a prima rica do grupo, a TV Globo. Assim, pelos lados das empresas de Roberto Marinho, o amanhã se desenha, ao menos por enquanto, bem parecido com o que já acontece hoje.
‘Míriam Leitão: ‘é moderno que as pessoas tenham uma remuneração adequada.’’
Daqui para frente, os jornalistas terão que ser, obrigatoriamente, multimídia?
Miriam - O nosso mercado é pequeno e os jornalistas precisam realmente aprender as várias mídias e técnicas diferentes. Isto deve ser um projeto pessoal de cada profissional. É assim que deve ser. A segmentação pregada pelas universidades é uma bobagem. Todos devem aprender a fazer tudo.
Mas como se deve pagar um jornalista que trabalhe para várias mídias?
Miriam - Ele terá que receber por cada trabalho, separadamente. Se ele é contratado por um jornal e a informação que apurou está sendo veiculada por um sítio ou por uma rádio, o profissional precisa ser remunerado por isso. Caso contrário ele simplesmente estará sendo explorado.
Há quem defenda que o trabalho é um só, apenas está sendo usado mais de uma vez.
Miriam - Vamos pegar o caso fictício de uma rádio que ponha no ar notícias apuradas pelos repórteres de um jornal. A rádio tem o faturamento dela, vende seus anúncios, tem sua receita. Então, por que não paga pelo trabalho do jornalista que apurou a informação que está indo ao ar? Afinal, o anunciante paga à rádio e ao jornal separadamente. Ele não ganha anúncio de graça na rádio por estar anunciando no jornal.
Você pegou o tempo do papel-carbono, quando já não se pagava a veiculação do trabalho em mídas diferentes. Por que isso deve ser feito agora?
Miriam - Hoje em dia, o papel-carbono não resolve. O trabalho multimídia se sofisticou com as novas tecnologias e não dá para ser mais recorta-e-cola.
Como você virou multimídia muito antes da era Intemet?
Miriam - Basicamente, por necessidade. Comecei trabalhando em jornal e seis meses depois fui para o rádio. Por uma contingência, acabei ficando nas duas mídias – sempre recebendo separadamente por cada uma. Nos anos 80, comecei a constatar que o mercado de jornalismo impresso estava ficando pequeno. Eu trabalhava na Veja em São Paulo e entrei para a Abril Vídeo, onde fiz vários programas e participei de diversas experiências na área de TV. Mantive um pé lá, apesar de jornal ter sido sempre meu principal negócio. Hoje, vejo que fiz muito bem, porque tenho mais opções de trabalho.
A rotina de algumas redações, onde os repórteres passam informações em tempo real e depois escrevem a matéria, é adequada?
Miriam - Fico preocupada com a garotada ter de trabalhar correndo, sem tempo para absorver a notícia. Para passar em tempo real, muitas vezes você perde informação necessária à matéria do jornal. O repórter que é obrigado a fazer as duas coisas não faz nenhuma das duas direito, é humanamente impossível. O jornal precisa de uma visão global da história, porque só sai no dia seguinte. Como conseguir isso, tendo de interromper a apuração para passar um flash em tempo real? Eu não conseguiria fazer um stand-up para a tevê e ao mesmo tempo apurar uma matéria para o jornal. Muitas vezes, o que é notícia para um não é para outro. E na TV há outras preocupações, com luz, dicção, aparência. E muito complicado.
Então, o jornalismo multimídia cria um dilema?
Miriam - Com certeza. Quando o profissional aprende a trabalhar para mais uma mídia, ele tem mais uma ferramenta. Só que merece pagamento diferenciado. A formação multimídia não pode ser um truque para as empresas ganharem mais. É moderno que as pessoas tenham a remuneração adequada."
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