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ÚLTIMA HORA – Atualizado em 27/9/2000

 

ENTREVISTA / MATINAS SUZUKI JR.
O futuro da internet gratuita

O fim do provedor de acesso gratuito Super11.net reacendeu nas últimas semanas a polêmica sobre o modelo mais adequado para a internet brasileira. Entre alguns analistas, há crescente desconfiança de que a internet grátis está com dias contados no país. Segundo esse raciocínio, a falência do Super11.net é apenas a ponta de um enorme iceberg: nenhum grande provedor brasileiro – gratuito ou pago – conseguiu até hoje apresentar resultados positivos. E, pelas regras da "velha economia", empresas que não dão lucro estão fadadas ao desaparecimento.

As especulações sobre o futuro da internet grátis no Brasil não surpreenderam Matinas Suzuki Jr., diretor de conteúdo do iG, o maior provedor gratuito do país. Em entrevista a este Observatório, Matinas explica que já esperava a falência de algumas empresas pontocom. E ilustra seu raciocínio com uma lembrança recente: "Em fevereiro e março deste ano, eu recebia pelo menos 10 pedidos de reuniões por dia para avaliar um site ou um projeto para a Internet. Não precisava ser nenhum Prêmio Nobel de Economia para adivinhar que não haveria dinheiro para todo mundo. Eu diria que mais do que uma bolha que explodiu, o que houve foi um choque de realidade".

Sua entrevista:

O destino da internet é viver em regime de bolhas?

Matinas Suzuki Jr. – A internet é contemporânea da fase ultra-especulativa do capital financeiro. Este capital investe não só em papel, mas também em negócios de risco. É o chamado venture capital. A convergência do avanço da internet – ou melhor, da sua inevitabilidade – com a procura de negócios de valorização rápida deu na chamada bolha. Este foi o momento do loteamento virtual. Ou, como preferem outros, da ocupação de posições no mercado virtual. Embora o ciclo histórico e as realidades econômicas sejam bastante diferentes, a título de exemplo podemos pensar, sem nenhum rigor metodológico, em uma comparação com as grandes navegações que inauguraram o mundo moderno. Elas também procuravam ocupar posições. E também eram negócios de alto risco. Poderiam, literalmente, dar com os burros n’água.

O ciclo da alta valorização em curto prazo já passou. Primeiro, houve o ajuste no mercado financeiro. As ações das empresas pontocom, na média, caíram bastante. No caso das empresas latino-americanas, o ajuste foi superior a 70%. Agora, estamos vendo o ajuste interno das empresas. Começaram os cortes de custos, as demissões etc. Ou seja, passou a fase de se tomar leite nas tetas da mamãe loba – agora, as empresas precisam procurar seu alimento sozinhas na selva do mercado. Tudo isso não significa que a internet deixou de ser um bom negócio. Significa apenas que, como todo negócio, não há espaço para todos e nem para todas as idéias. Significa que o dinheiro retornará mais lentamente, ainda que não em ritmo de tartaruga.

Em fevereiro e março deste ano, eu recebia pelo menos 10 pedidos de reuniões por dia para avaliar um site ou um projeto para a Internet. Não precisava ser nenhum prêmio Nobel de Economia para adivinhar que não haveria dinheiro para todo mundo e que os projetos precisavam de consistência econômica de médio prazo, além de um posicionamento estratégico correto. Muitos projetos nasceram dentro do setor financeiro, pois as pessoas desse segmento sabiam que havia dinheiro procurando a internet; sabiam em que tipo de projetos os investidores estavam interessados e lançaram negócios como se fossem melodia para os ouvidos desses investidores – e não projetos que estavam ancorados em possibilidades reais de negócios. Havia também muita ilusão quanto aos resultados do comércio eletrônico. Eu diria que mais do que uma bolha que explodiu, o que houve foi um choque de realidade.

Isso não coloca o seu futuro na esfera do imponderável?

Matinas – O meu imponderável, que existe em todo negócio novo, tem certas balizas. No jornalismo, por exemplo, os custos elevados são barreiras quase intransponíveis para se lançar um novo jornal ou uma nova revista. Jornalismo de televisão, então, nem pensar. Na internet, com um bom posicionamento estratégico e com juízo na folha de pagamento, um projeto jornalístico pode andar sozinho em um prazo razoável de tempo. O nosso jornal Último Segundo, por exemplo, já está no azul operacional. Tem receitas maiores do que as despesas. Em poucos meses, ele ocupou um espaço na imprensa que era quase que uma reserva de mercado dos grandes grupos tradicionais de mídia no país. Criamos um jornal que adquiriu um valor expressivo como investimento em prazo curtíssimo e que mostrou saber conviver com custos menores do que o tamanho da receita.

A internet grátis é uma conquista democrática, garantia de acesso universal à rede. No entanto, o mercado publicitário está tendo dificuldades em assimilar esta "vantagem competitiva". O que está havendo? As agências e anunciantes não tiveram acuidade para perceber o alcance da inovação?

Matinas – De uma maneira geral, o mercado publicitário ainda não está explorando o potencial da internet como um todo. Em parte, como sempre lembra o Nizan Guanaes, a culpa é dos portais dos provedores pagos que não se interessaram em valorizar a participação da publicidade na receita. A conta vinha sendo inteiramente paga pelos assinantes – o que não é justo e nem é o melhor modelo de negócios.

Não existe nenhum negócio no mundo da informação que se sustente exclusivamente pela circulação, pois as pessoas querem serviços cada vez mais sofisticados (portanto cada vez mais caros) pagando menos por eles. Esse é o desafio da televisão gratuita e da televisão paga, das revistas, dos jornais e da internet também. Até o L'Unità, o legendário jornal do Partido Comunista Italiano, sucumbiu à falta de publicidade, como bem analisou o Observatório da Imprensa [veja remissão abaixo]. A questão do provimento pago versus o provimento grátis é uma falsa questão, na medida em que os dois são dependentes do mercado publicitário para viabilizar modelos lucrativos. Sob este aspecto, não foi só o nosso negócios que ganhou com o acesso grátis, mas a indústria da internet como um todo: aumentou-se consideravelmente a base de usuários, o que é bom para vender mais anúncios, e o iG, liderado por um profissional altamente qualificado para fazer isso, o Nizan, operou um rally no mercado publicitário que está chegando a números que eram impensáveis nas projeções realizadas no final do ano passado. O ano 2000 será o ano da virada da publicidade brasileira na Internet.

Você não teme que o mercado publicitário venha ai perder o bonde?

Matinas Historicamente, o mercado publicitário é conservador. Ele procura a proteção de marcas e canais conhecidos. Com isso, às vezes ele perde grandes oportunidades. Teve um investidor, na França, que em vez de colocar o dinheiro dele em sites ou portais, comprou todos os espaços reservados para banners durante um ano inteiro. E revendeu esse espaço bem mais caro, ganhando dinheiro na valorização desta mídia quando ela ocorreu um pouco mais tarde no mercado francês. É ocioso ficar discutindo se a internet é ou não uma boa mídia. O importante é descobrir quais são as oportunidades de bons negócios para as agências e para os clientes das agências que a internet está gerando diariamente.

Diversos bancos lançaram-se no segmento do acesso gratuito sem dispor da necessária credibilidade como provedores de conteúdo. Fornecem apenas o e-commerce. Conseguem sobreviver? Caso positivo, não seria o caso de promover uma conjugação destes com os provedores de conteúdo?

Matinas – A teoria prega que o comércio eletrônico é tanto mais eficaz quanto mais perto do conteúdo ele estiver. Daí concluiu-se que os sites de comércio deveriam também produzir conteúdo, o que não se mostrou verdadeiro. A Amazon é respeitada como uma excelente prestadora de serviços no varejo de livros, mas não é respeitada como uma autoridade para comentar livros. O ideal é que as lojas tenham seus pontos nas melhores ruas do conteúdo – não sendo requisito necessário que elas produzam este conteúdo. Os investidores do iG sempre tiveram muito claro que o valor do projeto seria criado a partir do conteúdo – e não do provimento de acesso e do comércio eletrônico. Está lá, escrito no memorando que originou o iG.

Nós somos um modelo inovador no mundo. A grande maioria dos provedores de acesso grátis no mundo não trabalha como produtor de conteúdo para a internet. O provimento de acesso grátis foi uma catapulta para nos proporcionar uma base de usuários muito grande em curtíssimo período, o que foi fundamental. Com isso, nosso conteúdo pôde entrar pela porta principal e se sentar à mesa do grandes no banquete da internet brasileira. E foi um dos processos mais inteligentes e mais bem sucedidos que se conhece na história da internet: em 9 meses estamos chegando a 3 milhões de cadastrados, um número inimaginável antes da existência do acesso gratuito.

Além disso, construímos uma marca de altíssimo valor agregado. Criamos sites que viraram paradigmas no mercado, a ponto de serem copiados por portais bem mais veteranos na internet. Agora mesmo, estamos vendo o UOL promover, com todo aquele conteúdo de qualidade que tem e pelo qual eu tenho o maior respeito, duas cópias de quinta categoria do nosso site <www.babado.com.br> para tentar fazer face ao sucesso do site de informações sobre personalidades que criamos aqui no iG. Estamos sendo percebidos como os líderes das mudanças de hábitos na internet brasileira. Fomos os primeiros a praticar radicalmente o jornalismo na internet – e os veículos tradicionais foram obrigados a investir mais em seus sites noticiosos. Nosso portal foi lançado em março deste ano e com seis meses na rede já está entre os três de maior audiência, com uma velocidade da curva de crescimento impressionante.

O conteúdo foi a chave do negócio, portanto?

Matinas – Estou dizendo tudo isso justamente para mostrar como deslocamos estrategicamente o valor do nosso negócio. De provedor de acesso com uma invejável plataforma de usuários nós passamos a ser um dos três principais fornecedores de conteúdo da internet brasileira. Este conteúdo gera valor e este valor gera receitas. Receitas publicitárias, receitas de comércio e outras formas de receitas, como o leasing de nossas marcas. E agora, muito antes do que estava previsto inicialmente, nos transformamos em um grupo de negócios dentro da internet. Temos negócios que geram receitas na internet para celulares, na internet para a banda larga, no leasing da marca, em uma empresa que montará sites para outras empresas, em uma empresa de consultoria para negócios na internet, em uma empresa que venderá agendas eletrônicas corporativas e em outros negócios que estamos estudando. [N.R. : No evento "Tecnologia e conteúdo na mídia digital", com a presença de Michel Bloomberg, realizado em 25/9/00, em São Paulo, Nizan Guanaes, CEO do iG, anunciou que entre os planos imediatos do portal está o lançamento de um canal de TV e outro de rádio, ambos na esteira do provimento pago de acesso em banda larga.] A dinâmica é impressionante. Tudo isso sem perder a nossa vocação inicial de produtores de conteúdo focados na internet. Os grupos tradicionais de mídia no país dizem que são eles que vão sobreviver na internet porque eles estão no negócio de comunicação há muito tempo. O argumento é respeitável. Mas eu digo que nós vamos sobreviver justamente porque nós não estamos neste negócio há muito tempo. Nós já nascemos com a cultura, com a velocidade, com a agilidade e o entendimento pleno do novo mundo criado pela internet. E é por isso que nós chegamos em meses a um resultado que eles levaram vários anos para atingir.

Estamos às vésperas da regulamentação da internet?

Matinas – Creio que sim. Existem vários procedimentos que precisam de uma regulamentação. Do ponto-de-vista pessoal, acho que o melhor seria uma regulamentação da sociedade, e não dos governos.


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