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E-NOTÍCIAS
ÚLTIMA HORA – Atualizado em 27/9/2000
ASPAS
INTERNET GRÁTIS
Luís Roberto Demarco
"Internet dos empreendedores x internet dos investidores", copyright Folha de São Paulo, 22/09/00
"A internet de uso comercial ainda não completou o curso primário. Com menos de 10 anos de vida, dá ao mundo a possibilidade de sua maior revolução, permitindo a disseminação de informações da maneira mais instantânea e com a cobertura mais ampla jamais vista.
A capacidade de desintermediação, segmentação, pulverização e acesso à Internet vai transformar o modo de fazer negócios e de nos relacionarmos. Mas, como toda revolução tecnológica, a Internet nasce e tem fundamentos essencialmente técnicos.
A ‘Internet dos Empreendedores’ é responsável pela primeira onda pós-universitária, ou o que chamamos de ‘Fase Zero’ da indústria. Os empreendedores desse período são ‘nerds’, jovens introvertidos no melhor estilo Bill Gates. Eles criaram sites e complexos mecanismos de busca para qualquer coisa... Yahoo!!!
A perspectiva de mudança do mundo rapidamente foi detectada pelo mercado financeiro. O palco dessa recém-nascida indústria se transferiu das garagens para os sofisticados escritórios de Wall Street. Era a largada para a ‘corrida do ouro’, ou ‘Fase Um’ da Internet -uma indústria que cresce três dígitos percentuais a cada ano.
Obviamente essa ‘Internet dos Investidores’ atraiu muito maior interesse. Todos os dias uma ou duas empresas pontocom eram lançadas na Nasdaq. Qualquer coisa ligada à Internet passava a valer bilhões de dólares em segundos. Os investidores e as organizações eram cobrados e compelidos a atuar na indústria, a definir sua estratégia de Internet.
Essa ‘angústia.com’ criou um ciclo terrível e enganoso, uma vez que valia mais quem investia do que em quem era investido, já que ninguém sabia exatamente o que era a tal nova economia. Se o Chase ou o Citi apostavam numa empresa, então ela era bom investimento.
O Brasil, com o seu segmento de ‘Private Equity’ dominado por banqueiros de investimento, exponenciou a já falada bolha da ‘Internet dos Investidores’ no primeiro trimestre de 2000. Entre 50% e 70% dos espaços publicitários foram tomados pelas pontocom. As redações se esvaziaram com a ida dos jornalistas para a nova economia. Multiplicaram-se os ‘líderes da América Latina’, os milhões de usuários, os milhões de dólares investidos ou de prejuízo. Tudo em nome da promessa de que todos ficariam milionários. O foco no dinheiro atraiu o que há de pior para qualquer negócio: gastos exuberantes; publicidade para o investidor, e não para o cliente; divulgação de informações duvidosas; profissionais sem ligação com a Internet.
Afora pouquíssimas exceções, o Brasil quase pulou a ‘Internet dos Empreendedores’. Os que levantaram a bandeira do lucro não mereciam atenção. Segundo os analistas, eles não acompanhariam a ‘velocidade’ da Internet e seriam engolidos. Bacana mesmo era anúncio de página dupla de jornal celebrando 1 milhão de usuários, casas de show caríssimas, estruturas com centenas de funcionários e alguns deles fantasiados nas capas de revistas.
O estouro da bolha da Nasdaq jogou por terra as perspectivas especulativas dessa indústria no Brasil. Enquanto a Bolsa americana caiu pouco mais de 20%, as pontocom despencaram de 80% a 98%, pulverizando as chances dos novos aportes de capital. Um desespero ainda não visível ao grande público tomou conta dos banqueiros controladores da Internet nacional. Em meio a demissões e a fechamentos de operações ‘quase’ silenciosos, o discurso virou para o velho lado da ‘Internet dos Empreendedores’.
Nesse novo cenário darwiniano, a Internet brasileira curva-se a diversas realidades:
a) os internautas são cerca de 3% dos 170 milhões de brasileiros. Aqui a Internet é coisa de elite;
b) o país possui 10 milhões de computadores e 25 milhões de linhas telefônicas fixas;
c) a TV a cabo brasileira, cuja rede de fibra ótica é plataforma para a banda larga, possui hoje menos assinantes do que a Internet;
d) os celulares com acesso WAP representam um percentual mínimo da base instalada e seu uso prático é questionável;
e) existem limitações culturais e jurídicas impedindo o desenvolvimento de alguns setores.
Nos EUA, por exemplo, o e-Bay dá garantia a seus produtos leiloados. No Brasil, para comprar um carro, consultamos dois mecânicos, um despachante e um amigo e ainda ficamos desconfiados.
Nos próximos 12 meses, os reflexos desses ajustes devem se impor de forma implacável aos discursos publicitários:
a) cerca de 90% das pontocom brasileiras deixarão de existir;
b) dificilmente provedores de acesso gratuito ou sites de leilão sustentarão suas atividades.
Os primeiros são um modelo que não funcionou em nenhum lugar do mundo; os segundos sofrerão com as práticas locais;
c) fora os grandes portais Globo.com, Terra e UOL, são escassas as chances de outros baseados em receitas de publicidade;
d) os empregos das pontocom puras serão reduzidos à metade até o final de 2000;
e) a crise de credibilidade se estenderá aos controladores das pontocom com problemas.
Essa chamada ‘Fase Dois’ da Internet, ou a volta aos princípios básicos, não representa o fim do sonho. A natureza simplesmente vai depurar o sistema e depois permitir o seu crescimento sustentado. Afinal não existe uma nova ou uma velha economia nem um mundo real ou um virtual. Como já se disse, 99% do resultado ainda é pura transpiração. (Luís Roberto Demarco, 37, é sócio controlador da InternetCo Investments e executivo-chefe da aceleradora de Internet Nexxy Capital)"
L.R.D.
"O desencontro entre informação e realidade na Internet", copyright Gazeta Mercantil, 22/9/00
"Acessos, page views, hits, usuários cadastrados, usuários ativos, milhões de dólares de investimentos, parcerias...a internet é notícia todos os dias. O que pouca gente sabe é que para muita empresa pontocom, como são conhecidas as empresas de internet, a contínua divulgação de notícias constituí o foco central da operação da empresa, acima inclusive dos resultados. Isso não ocorre sem razões. Em uma indústria incipiente, mas com perspectivas promissoras e revolucionárias, seria de esperar uma grande preocupação com a imagem. Como não existe um histórico de longo prazo, a maioria das decisões na internet é tomada com base em percepções e impressões, muitas vezes advindas de análises de páginas de jornais e revistas. Junte-se a isso que a jovem internet traz consigo o natural desconhecimento (ou inexistência) de parâmetros e referências para o sucesso corporativo.
Muitos executivos dedicam mais da metade do seu dia de trabalho em press conferences, cujo objetivo é manter constantemente o nome de sua pontocom no topo da linha dos inovadores ou líderes do seu segmento. Antes da crise da Nasdaq, em março deste ano, dizia-se no mercado financeiro que uma pontocom era avaliada por um múltiplo de seus anúncios de imprensa, em vez das funções de vendas, lucro ou geração de caixa operacional, utilizados na velha economia.
O foco absoluto no investidor produziu uma grande guerra de informações – nem sempre verdadeiras e quase nunca auditadas – que chamou a atenção até da Securities and Exchange Commission (SEC), a CVM americana. Apresentamos a seguir alguns dos principais pontos de desencontro entre a informação e a realidade da internet. A observação cuidadosa de cada um deles nos permite desnudar os verdadeiros líderes dessa nova indústria.
Números de audiência : é importante uniformizar a unidade de medida e checar como é feita a auditoria dos dados. O termo ‘acesso’ é usado sem diferenciar users (usuários visitando o site), page-view (número de páginas visitadas) ou hits (objetos existentes em cada página). Isso provoca uma enorme distorção, pois em média um usuário visita dez páginas que, por sua vez, produzem dez hits cada uma. Assim, ao escutarmos 100 mil acessos diários, dependendo da medida, podemos estar falando em mil, 10 mil ou 100 mil visitantes. Poucos são os sites brasileiros auditados de forma padronizada. A mais reconhecida é a medição feita pelo IVC.
Qualidade da audiência : o tráfego importante e de valor é aquele que representa um hábito cotidiano, tal qual o de acompanhar uma novela d televisão. Muitos sites se utilizam de artifícios para aumentar seu placar de audiência, sem que isso signifique valor adicionado. Os principais artifícios são: a) publicação do número de usuários cadastrados como se fossem ativos – muito usado por provedores de acesso gratuito, esse recurso ode distorcer em centenas de vezes a realidade. Além de um usuários poder se cadastrar inúmeras vezes e nunca se utilizar do serviço, existem listas de milhões de usuários de internet sendo vendidas no mercado; b) Spam – consiste no envio de milhões de e-mails já contendo o acesso ao site; c) Pop-ups – são aqueles ‘quadradinhos promocionais’ que aparecem quando se acessa um site e que geram a duplicação involuntária do número de page-views; d) Sites de sexo/mulheres famosas – embora não representem um usuário habitual de valor agregado, atraem grande audiência momentânea; e e) Webhammer – o ‘martelo da Web’ é uma ferramenta usada por hackers para tentar tirar um site do ar, exatamente porque produz artificialmente uma enorme quantidade de acessos em um curto período de tempo.
Geração da receita : em uma indústria que permite enormes prejuízos no curto prazo, deve-se prestar muita atenção nas origens das receitas e nas suas perspectivas de perpetuação. Algumas práticas: a) a ‘troca de publicidade’ entre sites; b) a receita ‘subsidiada’, quando companhias (de internet ou não) do mesmo grupo controlador da pontocom compram os anúncios ou serviços do site; e c) a ‘troca de mídias’, quando a empresa pontocom coloca outdoors ou faz propagandas de TV, anunciando os seus patrocinadores ( o prejuízo da pontocom permite que ela compre um anúncio com o seu cliente nas mídias tradicionais, em troca de metade desse valor que o cliente ‘anuncia’ em seu site).
Apresentação do resultado financeiro : embora incorreto, muitas pontocom apresentam seus enormes gastos com publicidade na forma de ‘investimentos para construção da marca’, em vez de ‘despesas de marketing’. Geralmente, a distorção ocorre porque, na verdade, grande parte da publicidade é fundamental para a continuidade da operação e das receitas do site no curto prazo.
Receitas alternativas: o licenciamento de marcas e a incorporação de negócios tradicionais com suas receitas contabilizadas como se fossem de internet podem distrair o investidor na determinação do valor da empresa pontocom. Uma empresa líder de internet como a Yahoo vale 160 vezes a s suas vendas anuais e mais que a centenária Ford (que por sua vez vale menos que 1/3 de suas vendas). Obviamente, uma incrível aquisição da Ford pela Yahoo mudaria dramaticamente esses múltiplos. Muitas receitas de e-commerce atribuídas a um site na verdade podem ser provenientes de revendas de automóveis, papelarias ou floriculturas operando tradicionalmente no mundo real ( e valendo sensivelmente menos, dadas as limitações de crescimento).
Investimento por performance: a escassez de dinheiro para investimentos em internet colocou a criatividade em alta. Com o objetivo de ‘sinalizar’ um valor da empresa para o mercado investidor, a pontocom anuncia que recebeu, por exemplo, US$ 100 milhões por 20% da empresa. Dessa forma, o ‘valor da empresa’ seria de US$ 500 milhões. O que se omite é que o dinheiro entra em etapas e é condicionado à performance do plano de negócios da empresa. Assim, no exemplo, a empresa realmente captou US$ 5 milhões por 1%. Nos 19 meses seguintes, caso a empresa cumpra as metas preestabelecidas para cada mês, o investidor é requisitado a colocar US$ 5 milhões a cada período. Se não cumprir ( o que geralmente acontece), o investidor decide, por vontade própria, se coloca ou não o dinheiro. (Luís Roberto Demarco é sócio controlador da IntenetCo Investments e CEO da Naxxy Capital)"
Ricardo P. Cesar
"E o acesso grátis?", copyright IDG Now <www.idgnow.com.br>, 9/00
"Depois do que aconteceu com o Super11.net, a dúvida sobre a viabilidade do modelo de provimento de acesso grátis está mais viva do que nunca. Mas o fim de um provedor gratuito não quer dizer que o modelo é inviável. A verdade é que existem vozes que merecem ser ouvidas nos dois lados da trincheira.
Uma delas é a de Caio Túlio Costa, que comanda o maior provedor de acesso pago da América Latina, o Universo Online. Ele diz que o modelo de acesso gratuito não é viável no Brasil, nem nos EUA e muito menos na Europa, ‘onde parecia que ia dar certo, mas não deu.’ Recentemente, Caio Túlio comentou que o caso Super11 explica as dificuldades insuperáveis deste modelo. ‘Não existe mercado de publicidade e comércio eletrônico capaz de dar sentido a esta aventura’, diz. Marcelo Lacerda, do Terra, engrossa o coro. Por outro lado, é óbvio que o Nizan Guanaes, presidente do iG, defende o modelo.
Nos EUA
E então? Na hora do aperto, é bom dar uma olhada no mercado norte-americano – o mais maduro em Web. Cinco dos maiores provedores de acesso à Internet nos EUA são gratuitos, mas é um erro assumir que esses ISPs são tão utilizados quanto os pagos. Os gigantes 1stUp.com e NetZero possuem mais de 4 milhões de inscritos cada. Esses números, no entanto, enganam, já que essas empresas contam qualquer pessoa que assinou o serviço, mesmo que não o utilize regularmente.
Poucas empresas informam o número de clientes que estão usando o serviço ativamente. É o caso do NetZero e do Juno, companhias que oferecem acesso grátis e que já fizeram sua estréia na bolsa de valores nos EUA. São considerados usuários ativos aqueles que utilizam o serviço pelo menos um vez por mês. Apenas 2 milhões dos 4,5 milhões de assinantes da NetZero – 44% de sua base de usuários – acessaram o serviço em junho, por exemplo. No mesmo mês, apenas 31% dos assinantes do Juno entraram na rede por meio da conexão da empresa. De um modo geral, as ações dos provedores gratuitos estão em queda acentuada nos últimos meses.
Por aqui
No Brasil, o maior provedor gratuito não divulga o número de usuários ativos. O iG afirma ter 2,9 milhões de e-mails cadastrados, mas não diz quantas pessoas utilizam a sua conexão pois, como não exige senha e login para oferecer o serviço, fica difícil realizar um controle preciso. Mas jura vender 72 milhões de minutos de conexão por dia – número não auditado.
O diferencial do iG é mesmo o seu modelo de receitas, baseado em venda de um projeto de comunicação completo para clientes de grande porte – um pacotão que pode envolver criação de banners, desenvolvimento de Web sites e até pensar a estratégia de mídia offline. ‘Usamos o acesso grátis como ferramenta para fidelizar nosso usuário e funcionamos como uma agência de publicidade que também é operadora’, afirma Aleksandar Mandic, vice-presidente de novos negócios. ‘É assim que geramos a maior parte de nossas receitas’.
Investidores
Tem muito investidor que ainda acha que o acesso grátis tem futuro. Sérgio Cavalcanti, diretor para América Latina do fundo de investimentos Europatweb (braço de investimentos em Internet do Grupo Arnault) acredita no modelo. Tudo bem que a companhia controla parte do Liberty Surf, maior provedor grátis da França. Mas Cavalcanti – que por muito pouco não conduziu a compra do Super11 – salienta que cerca de 30% das receitas do Liberty Surf são geradas pelo acordo com as operadora de telefonia da França, que pagam uma porcentagem pela linha usada pelos internautas quando se conectam via Liberty Surf. No Brasil, a Anatel ainda não permite essa prática – sem dúvida um entrave ao modelo dos free ISPs, que por aqui precisam se contentar com as receitas de publicidade (maioria) e comércio eletrônico (ainda insignificantes).
Outra voz interessante de ser ouvida é a de Alberto Tamer Filho, diretor de private equity do BankBoston Capital. O braço de investimento de risco do BankBoston deve desembolsar algo próximo de US$ 1,2 bilhão em todo o mundo só este ano. Tamer acredita no modelo de acesso gratuito por um simples motivo: se os provedores gratuitos não vingarem, os pagos vão morrer também, mesmo que demore mais. ‘Só os recursos gerados pelas assinaturas não sustentam nenhum provedor. Se a publicidade e o comércio eletrônico não explodirem, todos vão quebrar. Os gratuitos primeiro, mas depois os pagos também. Que diferença faz morrer com 18 tiros no peito ou três nas costas?’, indaga.
Pode ser verdade. Mas, para Caio Túlio, trata-se de uma análise que está defasada há uns seis meses, ‘antes de o mercado encontrar sua realidade’. Cerca de 70% das receitas do UOL ainda advêm de assinaturas. A fórmula considerada ideal pelo provedor seria baixar isso em 50%, complementando o restante com comércio eletrônico e publicidade. O fato é que as maiores pontocom nacionais devem começar a ter lucro somente no segundo semestre de 2001, se tudo der certo. É preciso muito fôlego para agüentar até lá, e sem dúvida as assinaturas serão um aliado fundamental nessa missão. Quem não tiver essa fonte de receitas vai ter de fazer malabarismos para continuar no jogo.
Apertando o cinto
Super11.net praticamente quebra e tem que se reestruturar para manter uma sobrevida. StarMedia corta 125 funcionários. AltaVista lima um quarto de seu pessoal. O que está acontecendo de errado? Resposta: nada. Antes é que estava errado. A verdade é que muitas pontocom são empresas deficitárias que se comportavam como se fossem altamente lucrativas, com equipes grandes e gastos impressionantes em marketing. Durante um bom tempo foi assim – e todos gostariam que isso continuasse. Mas há um probleminha: essas empresas não dão lucro.
A essa altura, quem parece mais capitalizado no Brasil é mesmo a Globo.com, que recentemente vendeu cerca de 30% de participação para a Telecom Itália por mais de US$ 800 milhões. A AOL Latin America (AOLA) está recém-saída de uma oferta pública inicial de ações (IPO) de mais de US$ 200 milhões, mas o detalhe é que boa parte das ações foi comprada pelos próprios acionistas da empresa – o Grupo Cisneros e a nave-mãe, a AOL Inc. A AOLA teve a modesta receita de US$ 4 milhões no segundo trimestre do ano, que contrasta fortemente com o investimento US$ 20 milhões para ser patrocinadora oficial do Rock in Rio, por exemplo. O balanço final do trimestre mostra um prejuízo de US$ 46,7 milhões.
O Universo Online, que amarga déficit de mais de R$ 80 milhões por trimestre, está agora fazendo as contas para voltar à estabilidade. Voltar? Sim, embora pouca gente se lembre, a empresa estava no azul até março de 1999, mas foi obrigada a fazer investimentos de peso desde então para enfrentar a compra do Zaz pela Terra/Telefónica, a chegada da AOL, dos provedores gratuitos e da Globo.com. E, ao mesmo tempo, expandir sua atuação para mais seis países.
Agora parece que o provedor vai mesmo partir para um IPO – de longe o mais aguardado do mercado nacional. Caio Túlio garante que pretende fazer a oferta pública ainda este ano, se as condições de mercado forem favoráveis. Será interessante ver o desempenho das ações da primeira grande empresa brasileira de Internet a debutar na Nasdaq. (Ricardo P. Cesar é editor do WebWorld <www.webworld.com.br>)"
Argemiro Ferreira
"Reportagem do NY Times analisa disputa pela internet no Brasil", copyright Panorama Brasil, 21/09/00
"Em reportagem ilustrada por três fotografias em destaque, enviada do Rio de Janeiro e que ocupou quase uma página inteira de seu caderno e-Commerce, o New York Times apresentou hoje aos seus leitores sugestivas informações e dados sobre a disputa do mercado online no Brasil.
A matéria faz referência especial aos provedores Universo Online (UOL), Internet Grátis (iG), e Globo.com, da Rede Globo.
‘Conspicuamente ausente da lista dos grandes está o maior do mercado dos EUA, America Online, assinala o texto do correspondente Larry Rohter. ‘Trabalhando com o Grupo Cisneros da Venezuela, o AOL entrou atrasado no mercado brasileiro. E ao chegar descobriu que o nome de seu domínio pertencia a um pequeno provedor de província, o que o forçou ao incômodo de adotar o nome americaonline.com.br’.
O Times observa ainda que, ‘com 170 milhões de pessoas e mais de 10 milhões de computadores, cinco vezes o número de cinco anos atrás, o Brasil é o mercado mais promissor de Internet e e-commerce da América Latina’. E que ‘é responsável por 80%, ou cerca de US$ 400 milhões, das vendas na América Latina em 1999, segundo recentes estudos de mercado’.
Mas o comércio eletrônico no Brasil, como também destaca, ainda está na infância e ‘só 6% das 500 maiores companhias do país têm sites e-commerce completos, de acordo com uma avaliação conduzida no início do ano. Espera-se, diz o texto, que as vendas online dobrem este ano e o façam de novo em 2001. E dezenas de provedores de acesso buscam a melhor estratégia de atrair os consumidores para a Internet.
O texto refere-se também à experiência do Bradesco – iniciada no final de 1999, quando passou a oferecer Internet grátis – para a venda de produtos que variam de livros a autopeças, já imitada por outros bancos. Sobre a divergência de opiniões em torno da Internet grátis, atribui-se ao publicitário Nizan Guanaes, da iG, a afirmação de que é o modelo ideal para o Brasil e a América Latina, onde provedor pago é um luxo.
Graças a ele a iG, iniciada há seis meses, diz ter agora 2,5 milhões de usuários e 11 milhões de acessos diários a páginas, crescendo à média de 10 mil usuários por dia e já podendo ser lucrativa ‘no fim do próximo ano’. Mas o jornal lembra que é o UOL (Universo Online, do grupo Folha de S. Paulo), provedor pago, o líder do mercado, com 780 mil assinantes - 50% mais do que no ano passado. E cita a crítica de seu diretor geral, Caio Túlio Costa, à Internet grátis.
‘É matematicamente e logicamente impossível prevalecer no Brasil o modelo do acesso gratuito, por uma simples razão’, diz enfaticamente Túlio Costa. ‘Simplesmente não se conseguirá obter lucro dessa forma. A conduta do mercado, não apenas aqui mas em toda parte, já está mostrando que a publicidade não fornecerá receita suficiente para se fazer dinheiro’.
A terceira opinião destacada na reportagem é do diretor executivo da Globo.com, Luís Carlos Boucinhas: ‘Nós já somos provedores em banda larga (broadband) e estamos apostando que será esse, juntamente com o acesso sem fio (por celular), o caminho do futuro’. Mas o texto assinala que todos os provedores ainda dão prejuízo – e cita ainda o Terra Networks e o StarMedia.
O Times lembra os obstáculos específicos para o e-commerce no Brasil e na América Latina. ‘Gente que compra tem de confiar no sistema postal. Os serviços de correio privado, tipo Federal Express, UPS e DHL, estão crescendo muito mas países como o Brasil, maior do que os EUA, e seus vizinhos Colômbia e Peru, têm áreas remotas demais para serem servidas pelos sistemas convencionais de transporte’.
E a principal barreira em toda a América Latina, diz o texto, nem sequer é a infraestrutura e sim a economia. ‘Somente 10% da população do Brasil tem receita mensal de US$ 300 ou mais. E é esse grupo que constitui mais de 80% dos cinco milhões de usuários da Internet’. Assim, só com queda significativa nos custos associados à Internet aumentará o número dos que poderão comprar via online.
Guanaes previu a queda nos preços de computadores e a explosão dos celulares. ‘Acho que até 2005 o Brasil será um dos três maiores mercados de Internet no mundo’, disse. Mas o Times cita a cautela de outros, que preferem ser céticos: ‘Em 1995 todo banco e companhia de investimento do Brasil previa mais de 10 milhões de assinantes de TV paga em 2000. No entanto eles hoje são só 2,5 milhões’. No que a reportagem errou em parte, já que atualmente existem 3,5 milhões de usuários de TV por assinatura no Brasil, de acordo com dados da Abta, entidade que representa o setor."
Daniela Braun
"Portais Internet lutam para sobreviver", copyright Computerworld <www.computerworld.com.br>, 8/09/00
"A mina de ouro que serviu como base de provedores de acesso e portais brasileiros começa a esgotar-se. ‘A Internet está se moldando à realidade financeira e tivemos também que nos recolocar’, afirmou o diretor de desenvolvimento de negócios do provedor gratuito Super11.net, após o anúncio da demissão de 15 funcionários – a maior parte ligada à área de conteúdo – no dia 17 de agosto.
Na ocasião, o executivo garantiu que as baixas terminavam por ali e confirmou que o provedor que começou a operar no Brasil, em 14 de janeiro deste ano, e que tem entre os seus acionistas o Banco Safra, negociava a venda de seu controle para uma companhia européia.
Para os que ficaram, a data de pagamento dos salários também sofreu modificações. Na última semana de agosto, o provedor reuniu seus atuais 120 funcionários e comunicou o adiamento do pagamento daquele mês para o quinto dia útil de setembro, também como um reflexo das negociações de sua aquisição.
‘Várias empresas fizeram contratações com valores não factíveis aos valores de mercado’ refere-se Luciano Balbim, diretor operacional e um dos fundadores do provedor Zip.Net em 1996, à crise envolvendo equipes de conteúdo como no caso do Super11.net e de um de seus concorrentes, o provedor de acesso grátis Tutopia. Em julho, o provedor de acesso grátis dispensou nove de seus 24 funcionários, terceirizando o conteúdo de seu portal.
‘Ninguém aqui foi contratado a peso de ouro’, dispara o executivo que responde aos boatos gerados pela demissão de quatro funcionários da área de e-commerce na semana passada. ‘Na mesma semana, contratamos mais seis pessoas – quatro programadores e duas pessoas para o canal infantil’, informa Balbim.
Nas próximas semanas, dois executivos aumentam o time de 300 funcionários do Zip.Net que tem, atualmente, 60 pessoas dedicadas à área de conteúdo.
Na quarta-feira, dia 6, o presidente do Super11.net, Nagib Georges Mimassi, informou, também via assessoria de comunicação, que os salários seriam pagos nesta sexta-feira, dia 8, assim como haveria a decisão sobre o aporte estrangeiro que deverá resgatar a ‘saúde’ financeira do portal.
O fantasma da crise nas operações pontocom também vem assombrando o provedor Starmedia, desde que as ações da empresa sofreram uma queda brusca na Nasdaq.
A empresa que também se enveredou pelos caminhos da Internet gratuita, com o lançamento do Gratis1.com, em fevereiro, também amargou prejuízos recentemente. No segundo trimestre deste ano, o grupo reportou uma perda de US$ 44 milhões, ou US$ 0,67 por ação.
Os rumores de demissões no provedor aumentaram no dia 17 de agosto, quando a Starmedia Network Brasil anunciou mudanças em seu comando executivo que passou a reportar-se diretamente ao Starmedia Interactive Group, na sede da empresa, em Nova Iorque.
‘Em sua nova posição, Pyr Marcondes será responsável por integrar todas as propriedades da Starmedia (Cadê?, Zeek!, GuiaSP, GuiaRJ, GuiaBH, Guia Salvador, BatePapo.com.br) e plataformas de distribuição Web, mobile e broadband’, informou o comunicado.
Desde o comunicado oficial, a saída do ex-diretor-geral do Starmedia chegou a ser noticiada, na sexta-feira, dia 1º, por veículos como Meio & Mensagem, do qual o executivo já foi vice-presidente. Tanto as demissões quanto a saída do executivo são desmentidas pelo departamento de comunicação da empresa.
Os rumores de compra da operação, no entanto, pelo grupo mexicano Televisa, no entanto, não são desmentidos pela Starmedia. ‘Starmedia é um candidato perfeito à aquisição, pois perdeu valor de mercado considerável e ainda há dúvidas sobre sua lucratividade’, afirmava um relatório da corretora Valores Finamex, divulgado pela agência Reuters, na quarta-feira, dia 6.
O diretor operacional do Zip.Net, Luciano Balbim, confirma que o foco em serviços é a tendência dos ISPs no país. O provedor, adquirido em fevereiro pela PT Multimedia - braço de Internet da operadora Portugal Telecom - em uma negociação de US$ 365 milhões, promete lançar cinco novos serviços nos próximos dois meses."
André Siqueira e Carla Jimenez
"Começa a fase de `seleção natural' na Internet", copyright O Estado de S. Paulo, 17/09/00
"As empresas de Internet começam a viver, na prática, o que já vinha sendo anunciado por qualquer estudante de Administração depois da brutal queda em abril das ações de tecnologia: a fase da seleção natural do setor.
Ficarão os mais fortes e os que não tiverem grande estrutura vão desaparecer.
O mercado americano já registrara a morte de alguns sites sem rentabilidade.
Mas o Brasil viveu sua primeira baixa significativa esta semana. O provedor Super11.net, fundado com um capital de US$ 11 milhões em abril deste ano pelo empresário Nagib Mimassi, fechou as portas na terça-feira depois de cinco meses de operação e de ter alcançado um total de 800 mil usuários.
Na quarta e na quinta-feira, outro susto na Internet. Dois portais internacionais anunciaram medidas drásticas para garantir a antecipação dos lucros e levantar um pouco o valor das suas ações. O portal latino-americano Starmedia e o site de buscas Altavista promoveram cortes na carne da companhia para evitar um futuro remédio mais amargo. O primeiro demitiu 15% dos seus funcionários, o que atingiu profissionais no Brasil, para economizar US$ 20 milhões. O segundo cortou 25% da sua equipe, ou 225 pessoas, para chegar ao fim de janeiro do próximo ano com balanço positivo.
‘Para mim não é fácil promover essas demissões, mas sei que é o correto neste momento’, diz o presidente mundial da Starmedia, Fernando Espuelas, que há seis meses se debruçava sobre uma planilha de custos, até chegar ao número de demissões atual.
Embora o quadro pareça cruel, os especialistas em empresas de Internet asseguram que tudo era previsível. ‘É como a desvalorização do real em janeiro do ano passado’, compara o diretor do BankBoston Capital, Alberto Tamer Filho. ‘Todo mundo sabia que ia acontecer um dia, até que aconteceu’, diz.
Corda no pescoço - Outras empresas menos consistentes também já estariam com a corda no pescoço, o que não configura o fim do segmento. ‘Dizer que vamos ter quebradeira é relativo, o momento agora é de reconceituação do que é uma pontocom’, pondera o diretor de Estratégias da E-Consulting Corp., Daniel Domeneghetti. ‘Entre novembro de 1999 e abril deste ano, foram criadas várias pontocom, mas umas por oportunidade e outras apenas por oportunismo’, afirma Domeneghetti, cuja empresa registrou o termo e-consulting, sinônimo de consultoria para Internet.
De acordo com o diretor de Internet para América Latina do banco Credit Suisse First Boston, Will Landers, os cortes nas empresas não representam dificuldades nos portais. ‘Acontece que há menos recursos no mercado do que no ano passado e as empresas precisam segurar o capital que têm disponível’, diz Landers.
Para Tamer Filho, as eventuais quebras de empresas, como a do Super11, fazem parte do jogo. ‘Isso não significa que os investimentos em empresas do ramo vão parar’, afirma. Ao contrário, um concorrente direto do Super11, o Tutopia, que já havia promovido cortes há alguns meses em busca de resultados, levantou um investimento de US$ 20 milhões, no dia 1º. de setembro, do banco suíço UBS, apenas duas semanas antes da quebra do Super11.
A quebra do provedor, no entanto, criou um debate sobre o modelo de acesso gratuito assumido por alguns portais. Para o diretor do BankBoston, questionar a viabilidade dos provedores gratuitos equivale a lançar dúvidas sobre o próprio modelo dos provedores de acesso. ‘Nenhum grande jornal sobrevive só de assinaturas’, compara. O problema é que a publicidade e o comércio eletrônico na rede ainda não conseguem sustentar financeiramente os portais, que ainda estão fechando no vermelho. O publicitário Nizan Guanaes, presidente do Internet Group (iG), já se convenceu disso, e lançou uma série de serviços pagos para incrementar a receita do provedor, como o licenciamento da marca.
Tamer Filho, porém, não perde o otimismo. E garante que ainda há espaço para novas investidas na Web. Para o executivo, a Internet motivou os primeiros passos de venture capital (ou capital de risco) no Brasil e esse novo mercado já dá sinais de maturidade por acompanhar o segmento sem se intimidar com os fracassos da nova economia. ‘Hoje existe menos espaço para novos sites, mas ainda há muito o que explorar’, aposta.
Fôlego - Alguns especialistas acreditam que o mercado está definido para os internautas brasileiros, que já elegeram seus portais prediletos. Com esse quadro, só sobrevive quem tiver maior fôlego financeiro para manter esse espaço. ‘O mercado está passando por uma verdadeira limpeza entre os com e sem dinheiro’, sentencia o diretor do portal Submarino Murillo Tavares. Os menos abastados e sem audiência terão que se unir aos grandes portais horizontais ou, definitivamente, jogar a toalha.
Para o analista do banco Pactual Rodrigo Pereira, os únicos grupos capazes de entrar hoje na briga por espaço em Internet são as grandes corporações da velha economia, capazes de movimentar o mercado de B2B (negócios entre empresas) e as grandes redes de varejo, no caso das vendas diretas ao consumidor. ‘O jogo agora é ditado por tamanho e espaço no mercado, numa disputa entre poucos que não se sabe ainda por quem será ganha’, afirma.
Mesmo os que têm recursos em caixa dependem do número de internautas que acessam as suas páginas. Para o publicitário Nizan Guanaes, esta é a hora da verdade. ‘Quem não tem audiência, não vai sobreviver’, aposta.
De fato, numa semana em que o Instituto Media Metrix divulgou a preferência dos 8,6 milhões de internautas brasileiros, dá para perceber alguma relação com os fatos da semana. O Super11, por exemplo, não conseguiu entrar na lista dos 50 mais vistos no Brasil. Já o portal da Starmedia ficou entre os dez mais assistidos. E entre os cinco primeiros, estão o iG e o Universo On Line (UOL). ‘A meta de todos agora é capitalizar esse ganho de público, revertendo isso em publicidade’, diz a diretora da Media Metrix, Angela Marsiaj. (Colaborou Marli Prado)"
Daniele Carvalho
"Provedores de acesso gratuito à Internet buscam alternativas para sobreviver", copyright Jornal do Brasil, 21/9/00
"A onda de serviços de acesso gratuito à Internet não emplacou em diversos países. Poucos locais na Europa, como Portugal e Inglaterra, continuam investindo em provedores não-pagos. Apesar disso, o Brasil reúne diversas empresas do setor, dispostas a sobreviver em meio à disputa por internautas.
Para Jaques Rosenzvaig, diretor da IXL, empresa especializada em e-consulting, existem apenas três caminhos de sucesso para os provedores gratuitos: aliança com empresas de telefonia, investimentos pesados em conteúdo, ou exploração de um determinado segmento ou categoria da sociedade.
A primeira alternativa já está sendo utilizada por alguns provedores nacionais. Este é o caso do IG, que formou parceria com a Telemar. A mesma estratégia foi adotada pelo portal Terra, que tem participação da Telefônica.
‘Isto diminui os custos do provedor. Além disso, aumenta a renda, já que os usuários pagam os impulsos telefônicos. É uma forma indireta de arrecadação, além da venda de banners’, comenta Rosenzvaug.
Opinião semelhante tem o diretor executivo da Associação Brasileira de Provedores de Internet (Abranet), Wilson Mariani, Ele também acredita que os banners não são suficientes para manter os lucros de um provedor gratuito e questiona a prática destas alianças. Ele diz que a Anatel deveria verificar as participações de telefônicas em provedores de Internet.
Já o modelo de atuar em um determinado segmento da sociedade é destacado pelo diretor da IXL como uma maneira simples de manter page-views e conquistar usuários. ‘Ele pode optar, por exemplo, por oferecer acesso gratuito a advogados ou a médicos. Este é um importante diferencial’, comenta.
Viver de banners é desafio que só deve ser encarado por portais com grande número de page-views. Não ter observado este aspecto foi um dos erros apontados pelos especialistas para o fim do Super 11, que teve de fechar as portas quando os investimentos acabaram. Não havia outra fonte de renda que pudesse manter o site no ar.
‘A maior parte dos usuários só pagam Internet com a finalidade de manter endereços para a troca de e-mails. Os provedores pagos já não estão oferecendo diferenciais em relação aos gratuitos. Há espaço para o serviço gratuito no País, mas é preciso cautela’, completa Rosenzvaig."
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