TRAGÉDIA EM SÃO JANUÁRIO
A culpa foi só dele?
Luiz Antonio Magalhães
O deputado federal Eurico Miranda (PPB-RJ) sem dúvida alguma é uma personalidade polêmica. Pelo que faz e desfaz, de tempos em tempos aparece nas primeiras páginas dos jornais, nas reportagens das revistas e das emissoras de rádio e TV.
Suas bravatas ficam famosas e rapidamente passam a fazer parte do folclore que ele mesmo cultiva. Mais da metade dos atos do parlamentar não passam de puro teatro, destinado a garantir sua sobrevivência política no contexto de um palco a cada dia mais concorrido: o dos líderes populistas.
É cedo para saber, mas o fato é que o acidente em São Januário, no final do ano passado, pode ter representado o rompimento da tênue fronteira que, no Brasil, garante a impunidade de gente como Eurico. O juiz Lalau, Fernando Collor e seu escudeiro PC Farias são exemplos de membros da elite que infringiram as regras de, digamos assim, etiqueta da classe que manda no país. Foram todos devidamente punidos. Uns mais, outros menos.
Sociologismos à parte, é interessante notar que a imprensa se comporta de uma forma mais ou menos "padronizada" quando um dos "seus" – membros da classe dirigente – é pego em flagrante. O primeiro ato em geral se dá com uma enxurrada de manchetes, artigos e imagens que procuram personalizar o delito. Desta forma, foi o Lalau que roubou o dinheiro do tribunal (será que só o Luiz Estevão também sabia?); foi a dupla Collor-PC que montou o grandioso esquema de corrupção no início da última década (existem corruptores sem corrompidos?).
Agora, a mídia quer nos fazer crer o deputado Eurico Miranda é o grande vilão da tragédia de São Januário e da desorganização do futebol brasileiro.
O segundo ato vem depois que a opinião pública fica satisfeita com a explicação e punição do responsável. O assunto que gerou a polêmica é então esquecido. Em outras palavras, o problema que desencadeou o episódio – certamente complexo e sistêmico – passa a ser ignorado. Quando um caso semelhante torna a acontecer, o ciclo recomeça do início: foi mais um malvado que resolveu agir, quem sabe inspirado na personalidade anteriormente defenestrada.
Traduzindo para o caso Eurico Miranda: é possível que o deputado tenha seu mandato cassado, que seja processado, julgado e condenado. E só. Tudo vai continuar como dantes no quartel de Abrantes.
É preciso entender que a responsabilidade pelo que ocorreu em São Januário não é só do deputado pepebista, embora o lamentável espetáculo a que todos assistiram na televisão o tenha como grande protagonista.
Para começo de conversa, Eurico Miranda é presidente eleito do Club de Regatas Vasco da Gama. Não tomou posse ainda. No momento da partida, o deputado tinha o cargo de Vice-Presidente de Futebol da agremiação, que contava com um Presidente em exercício, Antonio Soares Calçada, em última análise o principal responsável pelas condições do estádio e pela venda excessiva de ingressos, se a última vier a ser comprovada.
Também é bom lembrar que o presidente do Vasco, junto com toda a diretoria do clube, assinou uma nota oficial em que o deputado Eurico Miranda é defendido das acusações que lhe estão sendo feitas. Nota oficial que foi publicada nos principais jornais do país na semana passada.
Os jornais, porém, ignoram as notas que publicam e seguem impávidos na tarefa de achar indícios para incriminar Eurico Miranda, tornado agora o grande vilão do Brasil neste início de 2001. Quase todos esquecem-se de que o episódio de São Januário não foi uma tragédia, foi o resultado de um processo.
Desde a década de 70, o futebol brasileiro é conduzido por gente da estirpe de Eurico. Não à toa, o dirigente vascaíno é deputado federal. Política e futebol têm se misturado promiscuamente desde sempre por estas plagas. E, de tempos em tempos, aparecem denúncias de evasão de renda dos estádios, de desvio do dinheiro da venda do passe de jogadores, etc. etc. A lista de falcatruas é longa, muito longa.
A resistência do mundo do futebol às tímidas e recentes tentativas de higienizar o ambiente – as Leis Zico e Pelé – mostram que os problemas são sistêmicos e não se limitam às "euriquices".
Tudo somado, o que aconteceu durante a decisão da Copa João Havelange não deixa de ser um prato cheio para o bom jornalismo: estabelecer relações, pesquisar outros casos, levantar denúncias similares, cruzar dados, entrevistar juristas, enfim, revelar a complexidade que cerca o (sub)mundo do futebol.
Como se vê, a cobertura poderia ser muito diferente do que é. Mas, dizem por aí, essas coisas não vendem. Já as "euriquices"...
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