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ÚLTIMA HORA – Atualizado em 10/03/2000

DOSSIÊ
O cinema e o crime entre aspas: João Moreira Salles e Marcinho VP

Ivan Finotti

"Cinema-crime vai além das telas", copyright Folha de S.Paulo, 3/3/00

"Até que ponto vai a relação entre um cineasta e o criminoso objeto de sua filmagem? Nesta semana, o documentarista João Moreira Salles revelou que, após entrevistar Marcinho VP para o vídeo ‘Notícias de uma Guerra Particular’, pagou para que o traficante largasse o crime e escrevesse um livro.

É uma intimidade até então inédita nos bastidores do cinema policial brasileiro, seja ele de ficção ou documental. Uma intimidade que parece estar aumentando de 40 anos para cá. Em 1959, o diretor Roberto Farias filmou a história do temido assaltante Promessinha. Baseou-se em um roteiro feito a partir de notícias veiculadas em jornais e nem sequer cogitou entrevistar o criminoso.

Trinta e oito anos depois, seu sobrinho Régis Faria assinou um termo de responsabilidade para entrar em um presídio goiano sem proteção policial e filmar Leonardo Pareja. Acabou com uma faca no pescoço.

Anos dourados

Com menos de 20 anos, Antonio ‘Promessinha’ Rossini já era famoso por ter realizado mais de 40 assaltos. Tão famoso que Roberto Farias foi chamado para fazer um filme sobre o assunto. O nome seria ‘Cidade Ameaçada’. ‘A história já estava escrita, baseada em notícias. O filme, aliás, criticava a polícia e a imprensa, que fabricavam bandidos para vender jornal’, diz o diretor. O contato de Farias com Promessinha foi zero. ‘Havia a preocupação de dizer que era baseado em fatos reais, mas era ficção também. Tanto que, no filme, Promessinha virou Passarinho’, lembra Farias, que nunca mais ouviu falar no criminoso.

Três anos depois, Farias se baseou em outro crime carioca para fazer ‘O Assalto ao Trem Pagador’. ‘Queria algo com mais responsabilidade, mais agudeza na análise das coisas’, diz Farias. ‘Então procurei o delegado que estava caçando os bandidos e participei das buscas. Cheguei a ver alguns deles sendo presos, mas não tive contato com eles.’

Anos rebeldes

Outro clássico do cinema nacional baseado em crimes reais é ‘O Bandido da Luz Vermelha’, que Rogério Sganzerla lançou em 68. João Acácio Pereira da Costa, o bandido, foi condenado por 88 crimes, incluindo 77 roubos, 4 assassinatos e diversos estupros. ‘Escrevi meu ‘Bandido’ a partir de minha imaginação, quando estava no exterior. Quando voltei, apareceu esse cara, que tinha apavorado São Paulo. Isso propiciou a produção do filme; apareceram sócios. Eu queria entrevistá-lo, mas a polícia nunca deixou’, conta Sganzerla,que acabou pesquisando os crimes nos jornais.

O diretor conheceu João Acácio apenas em meados dos anos 90. ‘Foi uma iniciativa da imprensa. Me levaram lá no presídio. Foi legal. Disse que eu tinha feito o filme; ele me abraçou, elogiou. Tiramos fotos. Era solitário, mas achei que era respeitado na cadeia.’

Quando João Acácio foi libertado, Sganzerla não conseguiu encontrá-lo entre sua libertação, em agosto de 97, e sua morte, quatro meses depois. ‘Pretendo fazer outro filme sobre o assunto. Já tenho 40 minutos prontos. Seria o personagem após cumprir a cadeia. Mostrar o que piorou no país, estabelecer essas relações.’

Nove anos depois de Sganzerla, o cineasta Hector Babenco dirigiria ‘Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia’ (77), sobre o assaltante de bancos carioca que denunciou a corrupção policial. Babenco não conheceu Lúcio Flávio Vilar Lírio, que havia morrido assassinado na cadeia (queima de arquivo, disseram) no início de 75. Mas o Esquadrão da Morte continuava vivo. ‘Minha casa foi metralhada, fui ameaçado, me mudei. Mas não quero falar desse assunto. Prefiro não alimentar esse folclore entre arte e criminalidade’, afirma.

Babenco também preferiu não falar no caso de ‘Pixote, A Lei do Mais Fraco’ (80), um dos mais dramáticos da relação de cineastas com marginais. ‘O que representou a morte do menino...’, começa Babenco, sem terminar. O menino a que se refere é Fernando Ramos da Silva, garoto pobre de Diadema que protagonizou o drama sobre crianças de rua ‘Pixote’. Alçado a estrela, Fernando passou anos tentando se tornar ator, mas não conseguiu outros papéis de destaque. Em 87, acusado por policiais militares de roubar um carro, foi morto com seis tiros nas costas, aos 18 anos.

Anos incríveis

Em agosto de 96, o cineasta Régis Faria colocou sua vida em risco para filmar o documentário ‘Leonardo Pareja’. O assaltante e sequestrador estava preso em uma penitenciária de Goiás. ‘Quisemos entrar sem a polícia e assinamos um termo de responsabilidade sobre nossas vidas. Eu e uma equipe de mais quatro pessoas. Primeiro, entrevistei ele para fazer um roteiro. Depois, ficamos uns sete dias gravando as entrevistas’, conta Faria.

Segundo o documentarista, Pareja era muito vaidoso: ‘Denunciava um monte de coisas, mas não por real preocupação, porque sabia que a opinião pública ficaria do seu lado.’ No último dia de filmagem, o diretor levou seu irmão, o ator Marcelo Faria. ‘De repente, no meio da entrevista, eles começaram uma rebelião. Um monte de presos com facas na mão; puseram no nosso pescoço e nos colocaram nas celas. Então disseram que era brincadeira, só para a gente sentir a adrenalina, ver como é que é sabe?’

Nos quatro meses seguintes, até morrer assassinado pelo seu melhor amigo na cadeia, Pareja continuou a telefonar aos irmãos Faria. ‘Ligava para o nosso celular e queria saber quando o programa iria ao ar’, diz o diretor.

O documentário, com algumas cenas dramatizadas (nas quais Pareja é interpretado por Maurício Branco), foi ao ar, pelo Canal Brasil, um ano após a morte do criminoso. ‘Apesar da brincadeira de muito mau gosto, eu torcia para o Pareja se regenerar, para as coisas mudarem na vida dele. Fiquei triste quando ele morreu. Até o ano passado, sonhava com ele.’

Outro cineasta que teve pesadelos recentes com seu retratado foi Alex Prado. Pudera: finalizando um filme sobre Francisco de Assis Pereira, o Maníaco do Parque, o cineasta dormiu por 30 noites na própria cama do criminoso. ‘Fiquei amigo da família’, conta Prado, que entrevistou Pereira três vezes. ‘Para pesquisar a vida dele, passei a morar na casa deles, em Guaraci (interior de São Paulo). Pior foi para minha mulher, que ficou apavorada por dormir lá.’

Não é a primeira obra de Prado baseada em crimes reais. Especializado em fazer filmes baratos para exibir na periferia, Prado convenceu o ex-policial e justiceiro Clidenor Anselmo Brilhante, o Esquerdinha, a interpretar a si mesmo na fita ‘Esquerdinha, Braço Forte da Lei’. ‘Ele dizia que tinha matado, com seu grupo, uns 600 criminosos na região do ABC paulista’, conta Prado. ‘Ficamos amigos. Passeávamos e jantávamos juntos.’ O ‘astro’ foi assassinado junto com o lançamento do filme, em janeiro de 92."

 

Armando Antenore

"O cineasta, o bandido e o mecenato social", copyright Folha de S.Paulo, 3/3/00

"É difícil, por enquanto, afirmar que o documentarista João Moreira Salles não agiu de boa-fé quando resolveu patrocinar Marcinho VP, um dos líderes do narcotráfico nos morros do Rio. Deu-lhe, conforme relatou à imprensa, uma ajuda de R$ 1.200 durante quatro meses do ano passado. Em troca, impôs duas condições: que escrevesse uma autobiografia e deixasse o crime.

Há quem veja no acordo mais do que altruísmo e prefira tomá-lo por um ato de coragem, de empenho cívico, de rebeldia contra papéis sociais preestabelecidos, de compreensão generosa da tragédia urbana carioca e até de vanguarda artística. Foi assim que psicanalistas, escritores, antropólogos e políticos definiram o gesto de Moreira Salles no decorrer da semana.

Cacá Diegues -diretor de ‘Orfeu’, filme em que o personagem Lucinho exibe traços de Marcinho VP- distinguiu no documentarista sinais de um ‘herói moderno’, sôfrego por apaziguar ‘a cidade partida’. O próprio Moreira Salles, herdeiro do Unibanco, parece se sentir como uma espécie de embaixador da tolerância, um diplomata que busca modificar os contatos corrosivos entre a elite e a miséria.

Em artigo no jornal ‘O Globo’, escreveu: ‘De tudo que está sendo dito a respeito desse caso, o mais importante é o fato de que duas pessoas que jamais se encontrariam, segundo todas as normas do que é próprio e impróprio neste país tão desigual, acabaram se encontrando, conversaram e tentaram com franqueza entender seus respectivos pontos de vista’. Para o cineasta, a arte aproxima e humaniza os dois pólos. A arte pode regenerar Marcinho. ‘Ele é um cara que tenta se civilizar. Leu Albert Camus, leu ‘O Homem Revoltado’ e quis entender cada parágrafo’, explicou à Folha em entrevista publicada na terça-feira.

O arquiteto e prefeito do Rio, Luiz Paulo Conde, disse o mesmo com outras palavras: ‘O julgamento (do episódio) ficará por conta da qualidade da obra de arte que (o traficante) produzir. Houve transgressão, mas, se a obra trouxer benefícios para a sociedade, esta transgressão poderá ser permitida’.

Ocorre que, antes de firmarem um compromisso artístico e ético, Marcinho e Moreira Salles estabeleceram uma relação comercial. Este, sim, é o fato mais importante de todo o caso -porque revela muito sobre seus protagonistas (o cineasta com pedigree de banqueiro, o negociante de drogas com pretensões intelectuais) e sobre o mundo que habitam.

Moreira Salles conheceu Marcinho no morro Dona Marta, zona sul do Rio, enquanto rodava o documentário ‘Notícias de uma Guerra Particular’. Conta que se impressionou com a inteligência e o discurso por vezes visionário do traficante. Decidiu, daí, afastá-lo da marginalidade.

Foram dezenas de conversas. Quando percebeu que não dispunha de mais argumentos para dissuadir Marcinho do crime, lançou a proposta: ‘Escreva o livro. Eu pago’. Existia algo entre os dois que lembrasse amizade? Moreira Salles dá a entender que sim. Fala, ainda, em cumplicidade, respeito, fidelidade. Só que, às tantas, o dinheiro entrou na história -e, aqui, o relacionamento do cineasta aristocrático com o jovem excluído perdeu tudo o que pudesse ter de inovador ou cívico. As coisas voltaram para o ponto de sempre. O dono do capital fez uma oferta, e o morador do morro aceitou.

Se na Renascença os Medici financiavam os melhores artistas da época, Moreira Salles escolheu bancar aquele que já se declarou ‘o melhor bandido do Brasil’. Encomendou-lhe não uma pintura, mas um livro-testemunho e o arrependimento. Praticou o que se pode chamar de mecenato social -o humanista propondo-se a moldar índoles pela forja do dinheiro. E de que maneira decidiu quanto pagaria? ‘Informei-me de que a bolsa corrente para um escritor iniciante oscila entre R$ 1.200 e R$ 1.500’, respondeu na entrevista de terça-feira à Folha. O mercado o pautou.

Onde, então, a rebeldia? Onde a transgressão de um encontro que, nas palavras de Moreira Salles, contraria ‘todas as normas do que é próprio e impróprio neste país tão desigual’? O documentarista talvez tenha desrespeitado o Código Penal, mas em que momento subverteu de fato a ordem dominante? Que contribuição deu para, como pretendia, renovar, arejar, questionar as relações entre ricos e pobres no país -relações que se tornam cada vez mais dramáticas justamente por se guiarem pelas regras de mercado?

Repito: do ponto de vista individual, não há o que julgar na atitude do cineasta. É impossível medir quanto de esperança, idealismo, dor e culpa motivam o coração alheio. Mas também é impossível deixar de ver que a lógica cruel responsável pela separação social de Marcinho VP e João Moreira Salles permanece rigorosamente intocada."

 

Luciano Trigo

"Relações perigosas", copyright O Globo, 6/3/00

"Quando foi noticiado, alguns anos atrás, que Herbert de Souza, o Betinho, aceitara doações do jogo do bicho para campanha contra fome a imprensa caiu sobre ele de forma impiedosa. Não faltaram reações indignadas ao que seria uma relação promíscua com a contravenção, embora ninguém ousasse levantar dúvidas sobre a destinação nobre do dinheiro.

Causa estranheza, portanto a diferença de tratamento dada pela imprensa à notícia que o cineasta João Moreira Salles pagou mesada a um traficante foragido, ainda que com as melhores intenções. No noticiário recente chegou-se mesmo perto de tênue limite de entronização de Marcinho VP como herói ou vítima da sociedade, e quase se esqueceu que ele é um criminoso condenado - segundo a mesma imprensa, com assassinatos no currículo, fora as mortes que causou indiretamente , através da prática hedionda do tráfico, impossíveis de quantificar. Trata-se de uma conversão de valores perigosa - e revoltante para os trabalhadores que se esfolam um mês inteiro para ganhar de salário uma pequena fração da bolsa para a VP - entre eles policiais honestos, pois nem só de ‘banda podre’ é feita a polícia.

O caso Betinho era eticamente muito menos ambíguo e complicado que o de João Moreira Salles. Tratava-se apenas de saber se era preferível tirar o pão da boca de crianças famintas a admitir que o pão fosse financiado por bicheiros; o certo é que , para que m tem fome, o gosto do pão não muda. Aqui alguém poderia perguntar, , cinicamente: quer dizer que deslocar dinheiro da contravenção para combater a fome é condenável, nas financiar um traficante em duvidoso processo de regeneração é ato de altruísmo? Mas não é esta a questão.

Também não é a questão discutir o peso ponderado dos traficantes do morro na equação do tráfico de drogas. É fato que os favelados são usados como ‘bucha de canhão’, mas nem por isso são menos bandidos que aqueles que financiam, e que geralmente permanecem impunes, no asfalto. Mas o fato de os maiores responsáveis pelo tráfico não estarem no morro não equivale a uma autorização moral para um favelado traficar, seqüestrar ou matar. Este é o tipo de argumento débil que só serve para desviar a discussão e não leva a lugar nenhum. Até porque as favelas estão cheias de histórias de superação de situações sociais adversas, de indivíduos que escaparam de forma honesta, através do estudo e do trabalho, da conspiração de fatores que os empurra - mas não os força - ao caminho da criminalidade. Alegar que VP virou criminoso porque lhe recusaram uma bolsa de estudos é brincar com a inteligência do leitor.

A questão é outra. Betinho era um cidadão acima de qualquer suspeita, admirado por todos quantos o conheciam. João Moreira Salles, embora menos conhecido publicamente, é igualmente admirado e respeitado por tudo o que já fez, não apenas como documentarista de enorme talento, mas também como patrocinador de projetos sociais importantes. Mais que isso, é um indivíduo pessoalmente engajado nos seus ideais, capaz de trocar o conforto herdado com seu sobrenome para dar aulas a crianças carentes numa favela, ou de viajar para a África e trabalhar voluntariamente como chofer de ambulância.

Como cineasta, particularmente, João Moreira Salles, pode filmar o que quiser, e seu documentário ‘Notícias de uma guerra particular’ é uma obra notável, capital para se compreenderem as tensões sociais na sociedade carioca e seu entrelaçamento com o tráfico de drogas. Não são poucos os casos de obras primas no cinema e na literatura inspiradas na vida de marginais, obras que ajudam mesmo a interpretar e a transformar a sociedade.

Mas uma coisa é a liberdade artística de um indivíduo como criador. a outra é a sua atividade como cidadão. A qualidade da obra de João , seu currículo e mesmo suas qualidades pessoais não mudam o fato de que ele se envolveu - a julgar pelo que saiu na imprensa - num episódio no mínimo moralmente discutível. Da mesma forma, Betinho não foi condenado nem precisou se retratar por causa de sua obra, de seu currículo e de suas qualidades, mas por causa de um gesto moralmente ambíguo.

(Aliás, pode ser ignorância de leigo, mas não entendi a declaração de juristas famosos afirmando que se não há intenção não há crime. Num homicídio culposo, não há intenção mas há crime. Quem dirige bêbado, atropela e mata não tem intenção de matar, mas é criminoso).

João Moreira Salles, descreveu seu contato com Marcinho VP como ‘o encontro de dois ingênuos’. Já está claro que de ingênuo VP não tem nada, mas a atitude de João - neste caso específico, por genial que ele seja como cineasta e como cidadão - é mesmo, na melhor das hipóteses, ingênua e insólita. Ao que consta VP ganhava R$ 30 mil por semana com o tráfico, e é difícil imaginar que uma bolsa de R$ 1200 mensais fosse suficientemente tentadora para fazê-lo mudar de vida, ainda que este valor seja uma quimera para a imensa maioria dos brasileiros honestos.

Mas todo indivíduo - e talvez ainda mais o artista - tem direito de ser ingênuo e insólito de vez em quando. Quem não tem direito, sob hipótese alguma, de agir de forma ingênua e insólita são as autoridades e a imprensa. Caso contrário vai ficar cada vez mais difícil convencer as novas gerações que o crime não compensa."

 

Paulo Vasconcellos e Renato Lemos

"Entre o céu e o inferno", copyright Jornal do Brasil, 5/3/00

"O documentarista João Moreira Salles saltou no último domingo de trás para a frente das câmeras. Ele é o centro nervoso de uma polêmica sobre os limites permitidos numa relação entre o artista e o personagem de sua obra. Ou sobre a atração que um exerce sobre o outro. João teria rompido essa tênue linha ao destinar, durante quatro meses, R$ 1.200,00 para que o traficante Márcio Amaro de Oliveira escrevesse um livro. Não se trata propriamente de uma novidade. Envolvimentos mais ou menos intensos já costuraram uma série de ligações perigosas entre a intelectualidade e a marginalidade, mas poucas vezes uma delas ganhou tanto espaço nos jornais - não se sabe se pelo tamanho do patrimônio da família de um ou se pelo poder de fogo do outro. O projeto do livro, segundo João Moreira Salles, queria resgatar Marcinho VP do mundo do crime. Agora é João é que está na linha de tiro.

João Moreira Salles prefere não debater mais o caso. Falou pela última vez no depoimento à polícia na quinta-feira. Ele conheceu Marcinho VP durante as filmagens de Notícias de uma guerra particular e se envolveu com a história do personagem a ponto de poupá-lo na edição final do documentário. Nas entrevistas que concedeu durante a semana, o cineasta listou justificativas para sua atitude: amizade, camaradagem, generosidade, ingenuidade até. Entrega, em última instância. Uma visão compartilhada com a maior parte das pessoas que viveu situações semelhantes.

O escritor José Louzeiro sabe bem o que é estar na linha de fogo. Ao escrever um livro sobre a vida de Lúcio Flávio - inimigo público n° 1 da polícia carioca na década de 70 - foi acusado de transformar o bandido em herói. Anos depois, escreveu a novela Guerra sem fim, para a TV Manchete, com 50 capítulos sobre o poder do tráfico no Rio amarrados por uma história de amor real: o romance de Maria Paula do Amaral, filha de Francisco Amaral, vice-governador de Wellington Moreira Franco, com o traficante Meio-Quilo, morto em 1987.

José Louzeiro não acha nem que tenha caído na esparrela de glamourizar as relações entre a intelectualidade com a marginalidade nem se arrepende da intensidade da relação que manteve com Lúcio Flávio. ‘Sou contra limites, pois isso significaria preconceito e autocensura. Das entranhas da transgressão é que surge a luz de uma nova razão’, diz. ‘Creio que é essa região nebulosa que os artistas procuram, sem se incomodar se estão indo para o céu ou queimando no fogaréu do inferno.’

Nesse caso, João Moreira Salles, com certeza, está vivendo seu inferno. O Ministério Público instaurou inquérito para investigar se a ajuda dada ao traficante constitui crime de favorecimento pessoal. Está previsto no artigo 348 do Código Penal - que trata de atos contra a administração da Justiça. A pena para o caso é de seis meses a um ano de prisão e multa de até R$ 1 milhão. A lei não é curadora de arte e, na rigidez do vocabulário jurídico, boas intenções e culpa podem significar exatamente a mesma coisa.

‘Um intelectual não pode se restringir a temas e personagens’, defende o jurista Evandro Lins e Silva. ‘João Moreira Salles não se associou a um traficante, das mesma forma que eu, por ser advogado, não me transformo em cúmplice dos crimes dos meus clientes.’ O antropólogo Gilberto Velho, que nos dias 23 e 24 de maio coordena o seminário Mediação e cidadania na sociedade brasileira para falar dos responsáveis - poetas, intelectuais, músicos, políticos - pelo trânsito de idéias em mundos socialmente tão diferentes como o do asfalto e da favela, vai mais além. ‘A idéia de que a recuperação é possível é mais do que legítima: é a única aceitável. A outra é a condenação à morte’, afirma.

O antropólogo Hermano Vianna, que prepara para o seminário o artigo Hélio Oiticica e a Mangueira, vai dedicar algumas linhas do trabalho às ligações do artista plástico, morto em 1980, com Cara de Cavalo. Um dos mais temidos criminosos do Rio nos anos 50/60, Cara de Cavalo se tornou amigo de Hélio Oiticica nos ensaios da Mangueira. ‘Meu artigo é mais sobre a inspiração do samba nos parangolés do artista, mas a atração dos intelectuais pela marginalidade é quase inevitável num país tão desigual’, afirma.

‘A arte não pode falar de um mar de rosas num país como o nosso’, concorda o poeta Wally Salomão. ‘Sobre o que querem que se escreva ou filme? Sobre Thereza Collor e Narcisa Tamborindeguy?’ Autor da biografia de Oiticica, Qual é o parangolé, Wally Salomão acredita na salvação pela arte.’O que está em discussão nessa história toda é se apostamos numa segunda chance ou nos rendemos à velha tese de que bandido bom é bandido morto.’ Quando a polícia de Carlos Lacerda matou Cara de Cavalo, foi Hélio Oiticica quem decretou: ‘Seja marginal, seja herói’. A frase talvez seja hoje a síntese da polêmica em torno da sedução dos artistas pela vida bandida."

 

Maurício Dias

"Roteiro escrito no Terceiro Mundo", copyright Jornal do Brasil, 5/3/00

"Certo dia, o filósofo italiano Norberto Bobbio foi surpreendido por um repórter que bateu à sua porta estendendo um papel e perguntando à queima-roupa: ‘O senhor escreveu isso?’

Bobbio, já então um consagrado pensador humanista de esquerda, olhou o papel e confirmou a autoria. Era uma carta escrita por ele da cadeia, quando jovem, dirigida às autoridades. Preso por militância anti-fascista, Bobbio, para se livrar da prisão declarou, sem jurar amor à causa dos camisas-pretas, que era inocente. Safou-se. Muitos anos depois, diante de um repórter certamente perplexo, fez considerações mais ou menos assim: ‘Tive medo. Talvez um outro, mais corajoso do que eu não fizesse o que fiz. Eu errei’.

A história nasceu e morreu por ali, soterrada pela dignidade de Bobbio.

Por aqui, nos trópicos, não costuma acontecer assim. O episódio envolvendo o documentarista João Moreira Salles e o traficante Marcinho VP, que podia terminar em um curta-metragem, ganhou fôlego de um longa. Tudo porque Moreira Salles tenta fazer do erro que cometeu um roteiro de ficção-social, escrito em co-autoria com sociólogos bem intencionados, amigos preocupados e, como sempre, com uma parte da esquerda que se esmera no papel de linha-auxiliar das elites brasileiras.

Há um outro exemplo envolvendo um brasileiro que todos admiram: Betinho. Movido pela preocupação com sofrimento dos miseráveis lançou a campanha contra a fome (campanha que hoje, aliás, está à míngua) e em algum momento foi atrás dos bicheiros em busca de apoio financeiro. João e Betinho fizeram a aproximação sigilosamente. O sigilo denuncia, em princípio, a consciência do erro.

Os bicheiros, como se sabe, usaram uma maquiagem social até que foram desmascarados pela argúcia da juíza Denise Frossard que, enfrentando toda a sorte de problemas, mandou-os para a prisão por formação de quadrilha armada, responsável por uma infinidade de crimes. Por muito tempo artistas, empresários e intelectuais mantiveram uma convivência promíscua com aqueles homens.

Anos depois de ter sentado ao lado de primeiras-damas do Jogo do Bicho, foi a vez de Betinho atender a um repórter que bateu à sua porta. Surpreendido, negou no primeiro momento. Refeito do susto, confirmou a história e não insistiu em justificar sua ação. Como a vida de Betinho é maior do aquelas circunstâncias, sua memória é reverenciada.

Pelo que se sabe da história momentosa de agora, Moreira Salles não se tornou um marginal pelo que fez e nem Marcinho VP regenerou-se como ingenuamente - admitamos - se supunha. Se houve crime no caso só a Justiça dirá. Mas o que deve ser destacado em meio a esse bulício, não está visível no roteiro policial. E, sim, no debate que mostra o quanto estamos atolados no atraso. Desenvolvimento e modernidade de um país, devem ser medidos menos pela quantidade de riqueza material que se vê nas ruas e mais - muito mais - pelo nível da crítica e da autocrítica na circulação das idéias. Nesse item, estamos ferrados."

 

P. V. e R. L.

"A vida não é um filme", copyright Jornal do Brasil, 5/3/00

"Entre abril de 1998 e abril de 1999, os cineastas Paulo Caldas e Marcelo Luna deixaram parte de suas vidas na prisão. Filmavam O rap do pequeno príncipe contra as almas sebosas, documentário que investiga a violência na Grande Recife. Um dos principais personagens do filme é o criminoso Hélio José Muniz, 44 processos nas costas, condenado, até agora, a 99 anos de prisão. No filme, Hélio fala sobre crimes, descreve crimes, faz suas defesas e seus ataques. A câmera dos cineastas o acompanha. Só isso: ‘A partir do momento que ligamos a câmera, nada mais é real, tudo é manipulável. Mas nem sempre ela está ligada. Saía do presídio emocionalmente arrasado. O sonho de qualquer cineasta é modificar o mundo através do cinema’, diz Paulo Caldas.

Na idéia de modificar o destino de gente de verdade - e não de personagens de ficção - está a raiz da guerra particular travada por cada artista que se arrisca no flerte com a marginalidade. ‘Existe uma glamourização do bandido no cinema brasileiro desde os filmes sobre Lampião até o Bandido da luz vermelha’, diz a cientista social Alba Zaluar. ‘Os filmes americanos são mais realistas. No Brasil, o bandido está incorporado à sociedade, é real, é sempre alguém que luta por Justiça e por um mundo melhor, mas acaba soterrado pelo sistema.’

A lista é grande. O criminoso Lúcio Flávio que Hector Babenco apresentou nas telas podia ser malvado, mas a polícia que o perseguia era pior. Babenco voltou a namorar com a ambiguidade do mundo do crime em Pixote, a lei do mais fraco, mas neste caso a realidade foi mais forte: o protagonista Fernando Ramos acabaria se transformando em bandido e morreu justiçado pela polícia. Em 1997, Régis Farias documentou a vida de Leonardo Pa reja, o bandido sedutor. Lampião sempre revelava um lado humano mesmo em meio ao banho de sangue que era capaz de provocar nas telas. Em Baile perfumado, de Paulo Caldas e Lírio Ferreira, o dia-a-dia do cangaceiro era retratado pela ligação de confiança com o fotógrafo Benjamin Abraão.

Mesmo o perfil violento de João Acácio, o temido Bandido da luz vermelha, era abrandado pela estética do cinema marginal capitaneada por Rogério Zganzerla. ‘Eu nunca me aproximei do Acácio, a polícia não deixava. Mas não acho que fazer documentário seja só ligar a câmera’, diz Zganzerla. ‘João Salles quer parecer isento para iludir a consciência culpada. No fundo, explora a gente que finge retratar.’

‘Não creio que Marcinho VP tivesse talento literário para merecer tanto investimento’, afirma Alba Zaluar. ‘Se João Moreira Salles acreditava na possibilidade de recuperação de um chefe de quadrilha, que precisa ser cruel a ponto de mandar matar os desafetos, não bastava dar dinheiro para que ele escrevesse um livro. Seria preciso também que o traficante mostrasse arrependimento suficiente para ajudar a desmantelar o sistema do tráfico.’

O episódio, de qualquer forma, revela ainda o desconforto de uma intelectualidade pega de surpresa pela reação da sociedade. ‘A intelectualidade está totalmente dividida’, afirma o antropólogo Gilberto Velho. ‘É uma questão que tem que ser discutida. Não há antagonismo na percepção da possibilidade de recuperar um criminoso e no risco de se atropelar a lei. Trata-se de um debate sobre a responsabilidade individual e social do artista.’ Evandro Lins e Silva põe molho na discussão. ‘Jean Genet era um marginal que virou um grande artista graças ao apoio de gente como Jean Paul Sartre’, cita o jurista. ‘A poetisa Elizabeth Bishop, muito amiga de Carlos Lacerda, dedicou uma ode a Micuçú, um dos maiores bandidos cariocas, sem nenhum pudor diante do discurso que a direita brasileira costuma impingir sobre a atração que a intelectualidade sente pela marginalidade’, diz Wally Salomão. ‘É preciso preservar a liberdade na relação entre artista e personagem senão não se constrem personagens ricos. Mas um documentarista não é um artista, é um pesquisador. É bom preservar um certo distanciamento’, afirma Alba Zaluar.

Sandra Werneck nunca mediu distâncias. Quando fez A guerra dos meninos escolheu em que lado da trincheira fincaria sua câmera para relatar o extermínio de menores no Brasil. Ficou com os meninos. ‘Fazemos um trabalho de investigação e numa investigação não podemos colocar limites. No fundo, partimos sempre da utopia de que podemos modificar a realidade’, diz a cineasta. A polêmica não tem fim. Entre retratar a realidade e a utopia de ajudar a mudá-la vai uma distância muito maior do que a soma de todos os fotogramas já gastos no mundo. A vida não é um filme."

 

Jornal do Brasil

"Cinema americano paga para fazer", copyright Jornal do Brasil, 5/3/00

"No cinema americano, vida real é vida real, arte é arte. E indústria cinematográfica são as duas coisas juntas. Filmes baseados em fatos reais (o que por si só já é um pleonasmo já que todo fato é - ou deveria ser - real), por mais que sejam fiéis ao que relatam, jamais deixarão de ser filmes. Não há chance de que uma produção seja rodada sem que contratualmente estejam definidos direitos e obrigações de ambas as partes. Os departamentos jurídicos a cada dia ganham mais força dentro dos grandes estúdios de Hollywood. São eles que indicam o limite do que pode ser filmado. A década de 30, com a depressão, fez o cinema americano retirar seus bandidos reais dos becos e jogá-los nas telas. Scarface (32), de Howard Hawks, mais ou menos inspirado na vida de Al Capone, é síntese da época. Mas nunca o cinema americano se relacionou com tanta intimidade com o mundo do crime quanto no período que vai do fim da década de 60 ao início de 70. Eram filmes inspirados em casos reais, certro. Mas com muito glamour. Em Bonnie e Clyde, dirigido por Arthur Penn em 67, a dupla de ladrões era vivida por Warren Beaty e Faye Dunaway. Butch Cassidy e Sundance Kid (70), de George Roy Hill, tinha Paul Newman e Robert Redford. A bandidagem só recebeu tratamento mais seco com Um dia de cão (75), de Sidney Lumet, ainda que escorregasse em concessões sentimentais.

Um dos casos mais surpreendentes de envolvimento entre autor e obra estréia no Brasil no próximo dia 17: Hurricaine - O furacão, de Norman Jewison. O filme conta a história de Rubin Hurricane Carter, um boxeador preso sob a acusação de matar três pessoas em New Jersey, em junho de 1966. Um caso real. Carter foi condenado à prisão perpétua. Graças ao apoio de um grupo de militantes dos direitos humanos, o caso foi revertido e, 22 anos depois, o boxeador foi inocentado e solto. ‘O ódio me colocou na prisão, o amor me libertará’, dizia Carter. Com essa história, com Denzel Washington no papel principal, Jewison vem enfrentando críticas (inclusive da família dos mortos) de que transformou Carter num herói sem defeitos. Jewison responde que não filmou a vida de Carter. Filmou sua autobiografia The sixteenth round. Pagou por ela. Ainda assim, comenta-se que a polêmica teria afastado o filme da disputa pelo Oscar nas principais categorias, com exceção de melhor ator."

 

Mona Bittencourt

"Marcinho é figurante", copyright O Globo, 3/3/00

"Márcio Amaro de Oliveira, o Marcinho VP, do Morro Dona Marta, continua provocando polêmica. Classificado como um bandido sanguinário e perigoso pelo governador Anthony Garotinho e pelo secretário de Segurança, Josias Quintal, há quem o considere um ‘bandido sem expressão, um figurante’ no mundo do crime. A opinião é do deputado e ex-chefe de polícia civil, Hélio Luz.

Hélio Luz foi arrolado como testemunha no julgamento de Márcio Amaro, em 1995, quando o traficante foi condenado a 25 anos de prisão. A atual procuradora, Cristina Menezes de Azevedo, na época promotora, atuou no caso e lembra as circunstâncias em que o delegado acabou sendo convocado a juízo. ‘O Hélio Luz fez a maior confusão, dizendo que o Marcinho não era o Marcinho’, disse.

Hélio Luz retruca. Segundo ele, apenas explicou à juíza Denise Frossard -inicialmente responsável pelo caso na 10ª Vara Criminal-, que havia confusão de nomes. ‘O verdadeiro Marcinho VP, que está preso há três anos em Bangu 1, é um traficante, homicida e seqüestrador, que usa o VP por causa do bairro Vila da Penha. Esse Márcio Amaro é um falastrão que começou a ser confundido com o outro e aceitou’, explica Hélio Luz.

Segundo o deputado, Márcio sempre foi apenas um gerente de boca-de-fumo de um ‘morro sem expressão no tráfico’. ‘O Dona Marta não tem nenhuma importância, a não ser para o pessoal da Zona Sul. E só continua tendo boca-de-fumo por incompetência do 2° Batalhão (da Polícia Militar, em Botafogo). Qual vagabundo tem processo por calúnia em sua folha penal? Esse Márcio Amaro gosta é de aparecer, é um mitômano. Qual chefe de facção que dá entrevista, fica falando por aí, e fica na pior como ele? Esses caras movimentam milhões. Só quem não conhece o assunto, pode acreditar nessa história.’

Até a fuga da carceragem da Polinter, em 1997, creditada à maquinação de Márcio Amaro, é desmentida pelo deputado. ‘Aquela fuga foi do Lambari e do Rogério, esses, sim, chefes do tráfico no Jacarezinho. O Márcio teve que dar grana ao Lambari para fugir junto’, conta.

Apesar de tudo, a procuradora Cristina Menezes de Azevedo está convencida de que o Marcinho VP do Dona Marta é mesmo perigoso. ‘Ele é um matador, um cara frio, completamente envolvido com o tráfico de drogas’, encerra a procuradora."

 

CINEMA
Três olhares sobre O Informante

Paulo Polzonoff Jr.
(*)

Há três olhares possíveis para O Informante (The Insider, 1999), de Michael Mann, com Al Pacino numa atuação digna do adjetivo brilhante: a primeira nos remete ao antitabagismo e a segunda ao jornalismo; é, no entanto, o terceiro olhar o que mais interessa.

Primeiramente, a história. Jeffrey Wigand é um alto executivo de uma fábrica de cigarros. Logo nos primeiros minutos, ele é demitido. Ao mesmo tempo, Lowell Bergman, produtor do respeitadíssimo 60 Minutes, recebe uma caixa contendo documentos sobre a Phillip Morris. Lowell contata Wigand para auxiliá-lo na dissecação dos documentos que recebeu e acaba por saber do drama do cientista desempregado. Desconfiado de que há algo por trás da demissão sumária, Lowell fica sabendo que Jeffrey Wigand tem algo muito interessante para contar e tenta convencê-lo disso. Só que Wigand fez um acordo de sigilo ao ser demitido. Falar o que sabe sobre a indústria tabagista é, portanto, um dilema ético e legal. É sobre as implicações desta decisão de dizer ou não o que sabe que discorre o filme.

Para quem o entende como mais um exercício de cinema, convém assim analisá-lo. O Informante é um exercício primoroso de direção e interpretação. O já citado Al Pacino é Al Pacino, em mais uma impecável atuação; Christopher Plummer, no papel do jornalista americano Mike Wallace, é também um dos pontos altos, assim como Russell Crowe, indicado ao Oscar pelo papel de Jeffrey Wigand.

Quê de fascismo

O diretor Michael Mann - mais competente do que Sam Mendes, por sinal - consegue reflexões muito sutis e pertinentes a partir de um filme que tinha tudo para ser mais um daqueles filmes rasteiros que enfocam a questão da ética na mídia, como Truman Show e O advogado do diabo, este último tendo ganho por aqui ares de filme cult. Mann mantém sabiamente a câmera em close-up no rosto dos envolvidos. O espectador, com isso, é capaz de sentir toda a tensão da história. Não, o recurso não é novo; pelo contrário, remonta, ao que parece, a D. W. Griffith, mas Mann dá ao close-up um sentido todo especial: o da responsabilidade do espectador.

Sim, porque quem assiste ao programa americano 60 Minutes, assim como quem está assistindo ao O Informante, é co-responsável por esta e todas as histórias que a mídia produz para seu prazer, na forma de entretenimento ou informação. Mostrando toda a ciência dos clichês de filmes do gênero, Mann derruba-os um a um, a começar pela trilha sonora, marcada por uma quase inaudível guitarra a acompanhar as cenas de maior tensão; o drama, ao contrário, é pontuado por performances quase góticas. O roteiro prima pela tensão que consegue manter nas quase três horas de projeção. A fotografia, clássica, trabalha incessantemente focos alternados, induzindo o espectador a perceber algo que está por trás da situação.

Aos três olhares, pois.

O olhar menos interessante do filme está no que se refere ao antitabagismo. Há um quê de fascismo em nome dos tais Direitos Humanos nesta questão. Estão em jogo bilhões de dólares que só interessam ao governo porque seus gastos com saúde pública superam as divisas que o cigarro gera. Mann trata do assunto de forma bastante maniqueísta como, de resto, o fazem todos os diretores que trataram do tema nas últimas duas décadas. Disse e repito: este é o olhar menos interessante de se assistir ao filme. A luta entre o bem (a "Saúde Pública") e o mal (o cigarro) é enfoque menor e um pecado leve cometido pelo roteirista Eric Roth, como na cena em que a filha de Jeffrey Wigand aparece tendo um ataque de asma. Dispensável.

Profissão cinematográfica

Certamente o olhar que mais atrairá comentadores será o do jornalismo. Assim foi com Truman Show e com O advogado do diabo", entre outros. É uma visão necessária. Sob esta ótica, o que estaria em jogo é a diferença entre um homem de negócios e um jornalista. A certa altura, é o que Lowell pergunta: "Are you a businessman or a newsman?

Questões éticas pertinentes à profissão, tal como "sigilo da fonte" e a velha mas esquecida regra de sempre checar a notícia antes de publicá-la pontuam o enredo. O produtor do 60 Minutes, por este prisma, é um verdadeiro abnegado. Ficamos constrangidos de ver tanta honestidade. Mike Wallace, por outro lado, parece mais pragmático: ele pesa prós e contras e age de acordo com a razão o mais aplicada possível. Se o que está em risco é seu emprego, paciência.

Há, neste contexto, e como não poderia deixar de ser, os vilões, os executivos que pensam antes no dinheiro, depois na implicação que isto terá. Jornalistas do mundo, regozijai-vos! O cinema parece ter-se rendido a vocês e às questões existenciais que tão cinematográfica profissão oferece.

Utopia hollywoodiana

O terceiro olhar, muito mais significativo, é também o mais abstrato. O Informante é muito mais do que um filme sobre as relações entre a mídia e a fonte, ou sobre os males do cigarro; é um filme sobre caráter. O que se discute nas quase três horas não é esta ou aquela manobra de Lowell, Mike ou do próprio Wigand. A pergunta que dita o filme é: o que você seria capaz de fazer para permanecer íntegro? Quanto vale seu caráter? Wigand não questiona o ato de fumar em si, nem tampouco as estratégias da indústria de cigarro para manter seus consumidores; questiona é a extensão de sua responsabilidade como cientista diante de uma ameaça a milhões, no caso uma substância cancerígena que estaria sendo adicionada à nicotina.

Lowell, por sua vez, não está simplesmente preocupado com o que deve ou não ir ao ar e por quê. Preocupa-o bem mais a segurança da sua fonte e a que ponto o homem, o indivíduo, possuidor de um nome, uma família, um emprego e, principalmente, dignidade, até que ponto este homem está disposto a ir para manter-se íntegro, em paz com sua remota "ética".

Lowell, Wigand e Wallace redizem a velha frase: "Se caráter é caro, eu pago o preço." O quanto isto é utopia hollywoodiana é outra história.

(*) Jornalista

 

VEJA E A FERRARI
Sonho indigno

Jofir Avalone Filho

Sou antigo e assíduo leitor de Veja, indiscutivelmente a melhor revista semanal do Brasil. Por conseguinte, tenho as necessárias isenção e imparcialidade para manifestar minha profunda indignação e veemente repúdio à matéria "Eu amo minha Ferrari" ("Fanáticos pelas super-máquinas italianas transformam o Brasil no nono maior comprador dos carros mais cobiçados do mundo"), publicada na última edição.

Com efeito, o texto, que parece matéria paga da Ferrari e tem o indisfarçável estilo Nova, inicia com a originalíssima frase "a primeira volta em uma Ferrari ninguém esquece" e prossegue numa linguagem que escapa à compreensão do homo medius, por estar radicalmente apartada da realidade brasileira: "É impossível apagar da memória o ronco agudo do motor, o cheiro e a maciez do couro que recobre o estofamento ou o brilho do capô Rosso Ferrari, o mesmo tom de vermelho que remonta ao começo do século"; "Ter uma Ferrari é um ótimo negócio"; "Nesta semana, a legião mundial de amantes das Ferrari deve suspirar mais fundo com a jóia conversível que a empresa pretende exibir na Suíça, durante o Salão de Genebra"; "Uma força infernal, capaz de fazê-lo atingir 325 quilômetros por hora. Atualmente é o motor mais potente já desenvolvido pela fábrica para ser usado fora de competições"; "Chegar aos 80 quilômetros por hora numa acelerada que dura três segundos é como tomar um golpe e ser atirado contra o banco. A partir dessa velocidade qualquer conversa dentro do carro é impossível. O ronco agudo reina absoluto e reverbera nos ossos. "Dar um racha num carro desse é uma sensação incomparável."

Informando que "o Brasil é o nono maior comprador da marca em todo o mundo, atrás apenas de países riquíssimos como Estados Unidos, Japão, Inglaterra, Alemanha e os produtores de petróleo do Oriente Médio", a única reflexão crítica insinuada na matéria é a frase: "É no mínimo curioso um país pobre como o Brasil abrigar fanáticos como Assaf".

A cada um uma chance

Ora, no mínimo curioso, diante de fato tão inusitado e revoltante, é Veja acrescentar (na edição online) o som de uma Ferrari; mais que isso, no mínimo curioso é a revista não explorar a imagem da "Belíndia" (o Brasil é parte Bélgica, parte Índia). Isso porque, a despeito de não ser tão subdesenvolvido como um todo, o Brasil ainda mantém vergonhosos bolsões de pobreza que revelam uma profunda desigualdade social (segundo dados do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento - PNUD, no início da década de 90, nosso país apresentava um dos maiores índices de desigualdade social do mundo): a taxa de desemprego medida pelo IBGE subiu em janeiro/2000 para 7,6% da população economicamente ativa; 20% dos brasileiros mais ricos ganham 32 vezes mais que os 20% mais pobres (dados da ONU); cerca de 50 crianças a cada 1.000 morrem antes dos 5 anos (dados d Unicef); 2 em cada 10 brasileiros estão desempregados (dados do Dieese); 20 milhões de analfabetos; metade da população rural vive abaixo do nível de miséria.

Diante deste quadro, a indigitada matéria certamente evoca nossa herança escravocrata, que produziu uma mentalidade subserviente de indiferença em relação à desigualdade, à violência e a todas as formas de exclusão. Quem lê a matéria tem a impressão de ser corriqueiro, natural e até desejável ("ter uma Ferrari é um ótimo negócio") que a opulência de poucos que podem pagar R$ 1,5 milhão por um carro conviva com a pobreza impassível de milhões, que os poderosos estão acima da lei ("Dar um racha num carro desse é uma sensação incomparável") ou que o salário mínimo deve continuar indigno para manter os privilégios de poucos às custas da supressão dos direitos da maioria.

Todos os que ainda acreditam que o respeito aos direitos humanos básicos é a principal bandeira de uma sociedade que pretenda construir um justo e igualitário Estado de Direito democrático sabem que a imprensa desempenha papel relevantíssimo neste mister. Também é cediço que, se o fim da ditadura militar trouxe a mobilização da sociedade, incrementou o debate político e revelou a indignação popular diante da injustiça, teve e tem a imprensa (notadamente Veja) um papel relevante de investigação e denúncia, que indubitavelmente não combina com matérias (ou merchandising) de teor acrítico, apático, servil e adulador. Afinal, como disse um herói brasileiro do século 20, "os ricos não podem mais viver numa ilha rodeada de um mar de pobreza. Nós respiramos todos o mesmo ar. Devemos dar a cada um uma chance, ao menos uma chance fundamental" (Ayrton Senna).

 

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