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ÚLTIMA HORA – Atualizado em 11/11/2000
VEXAME AMERICANO
Pesquisite aguda, versão USA
Acute Pollsitis acompanhada de Poolitis morbida e uma recaída do Delirium reportoralis.
Alberto Dines
Os comentaristas americanos estão usando o adjetivo amazing (espantoso) para descrever os desdobramentos da Madrugada Negra (quarta-feira, 8/11/00). A agência inglesa Reuters descreveu-a como surrealista. O caso só assombra aqueles que jamais se preocuparam com o visível e contínuo processo de deterioração da mídia. Aqueles que há mais de quatro anos acompanham este Observatório (nas versões on line e televisiva) podiam adivinhar que as aberrações e abusos de um sistema que se comporta como se comportou no Caso Monica Lewinsky só poderiam multiplicar-se. A surpresa reside apenas na dimensão do fiasco. Por sinal, monumental.
Estamos falando em mídia e sistema mediático (ou midiático, os filólogos decidirão) mas o vexame específico foi do telejornalismo, mais precisamente do segmento televisivo como um todo. Se alguns jornais correram atrás da TV com precipitadas edições extras, o problema não é do jornalismo impresso mas daqueles jornais que esqueceram os limites e, sobretudo, as vantagens do jornalismo diário e impresso. Embarcaram no frenesi da instantaneidade e quebraram a cara.
O que aconteceu na Flórida e irradiou-se pelos Estados Unidos foi uma dupla inflamação: polls (sondagens, apuração) e pool (associação, parceria).
Antes do pleito foi aquele tumulto de placares contraditórios que, se por um lado foi bom porque não garantia a vitória a nenhum dos dois, pelo outro deixou desnorteado o eleitor sem opções partidárias. Mas nos dois dias anteriores à eleição, os jornais mais sérios (New York Times e Washington Post) abstiveram-se voluntariamente de publicar pesquisas – o que não deixa de ser meritório, comparado com o Brasil, onde a Justiça Eleitoral permite e até as estimula.
Essa foi a pesquisite aguda ou, em inglês, acute pollsitis que já conhecemos na versão cabocla e dela estamos tratando há alguns anos.
Durante a contagem dos votos manifestou-se outra enfermidade, nova e virulenta: a poolitis morbida. Sua etiologia é conhecida: as quatro redes de TV criaram para estas eleições um pool sob a forma de uma empresa – a Voter News Service – com o propósito específico de fazer a cobertura tanto da boca-de-urna (exit polls) como da apuração de votos (vote counting).
Em linguagem clara: combinaram não competir. Acontece que o jornalismo livre pratica-se através da concorrência – não a concorrência selvagem mas a concorrência pela qualidade. No exato instante em que as redes de TV americanas abriram mão de concorrer entre si equalizando resultados e previsões, começou a articular-se o vexame.
Estava formada a Rede das Redes.
O que aconteceu em seguida foi o espetacular aborto de um cartel em gestação. O pool de cobertura nada mais é do que o Estágio 1, camuflagem para encobrir a associação dos conglomerados de mídia. Os CEO’s fizeram as contas e perceberam que o preço da competição livre, na escala em que operam, é impossível. Partiram para a vaquinha. E deu no que deu.
Causa espanto que Ralph Nader, protocruzado em defesa do consumidor, não tenha percebido isso. Não teve tempo: com a consciência culpada, passou os últimos dias justificando-se porque não retirou a sua candidatura-suicida – o que teria evitado a imensa patuscada eleitoral.
Acreditar que a "barriga" resultou da fatalidade, erro de cálculo ou falta de planejamento das redes de TV é minimizar um monumental colapso sistêmico. Mas afirmar que foi causada pela falta de repórteres em campo é um nonsense tão ou mais absurdo quanto a "barriga" em si.
Este Observatório, estatutariamente, destina-se a fazer a crítica institucional e conceitual da imprensa. Não alimenta polêmicas pessoais. Por esta razão não será nomeado o opinionista que nas edições de quinta-feira (8/11), da Folha de S.Paulo (primeira página) e O Globo (página 37), foi novamente acometido de um delírio reporterístico. Apontou como causa do fiasco americano a falta de repórteres.
Se o malfadado Voter News Service tivesse contratado cinco mil repórteres o resultado teria sido o mesmo. O problema naquela apuração não seria resolvido pelos contratados porque reside, única e exclusivamente, nos contratantes – o malfadado pool.
O disparate, portanto, não foi profissional, mas político.
O opinionista tem todo o direito de pretender converter-se em santo padroeiro do reportariado nacional. Mas conviria usar argumentos mais consistentes. Há poucos meses propôs um pacto entre o Ministério Público e os Repórteres. E por que não com a Imprensa? Repórter edita matérias, toma decisões do que sai ou sobra? Repórter faz a primeira página? É evidente que repórteres podem desenvolver-se em outras direções, além da investigação, dentro de uma empresa jornalística. Mas, enquanto repórteres, não produzem o jornal, revista ou noticiário de rádio ou TV.
A tese lembra a estapafúrdia explicação do fofoqueiro Matt Drudge, o colunista da internet que há dois anos resolveu antecipar-se às investigações do Newsweek e estourou o Caso Monica Lewinsky. Entrevistado sobre a leviandade e a falta de ética ao precipitar a divulgação da história, respondeu: "Não sou jornalista, sou repórter".
A volta do repórter e a sua revalorização como buscador da verdade é causa que deve unir profissionais de imprensa de todo o mundo. Mas as catástrofes como a da Madrugada Negra só ocorrem quando os executivos das empresas sentam no lugar de jornalistas.
[Veja, abaixo, DOSSIÊ VEXAME]
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