ÚLTIMA HORA – Atualizado em 11/11/2000


VEXAME AMERICANO
"Barriga" histórica da CNN

Marinilda Carvalho

A mídia dos Estados Unidos fez das tripas coração para acompanhar a intenção de voto do até agora [9/11/00] previsível eleitor americano. Uma intenção totalmente errática. Nem jornais nem TVs nem analistas políticos contratados a peso de ouro – ninguém conseguia adivinhar o que faria este ano sua majestade, o eleitor.

A CNN cobriu muito bem a apuração dos votos. Botou na rua seu veteraníssimo time de repórteres, mas nem os cabelos brancos da experiência ajudaram. Todos tentavam explicar por que estados tidos como cabresto de um ou outro candidato subitamente rumavam para o curral adversário. Especialistas eram entrevistados para destrinchar o "fator Nader" – o efeito do sucesso do candidato verde Ralph Nader, que tirou votos preciosos de Al Gore especialmente na Flórida, estado-chave que terminou recontando as cédulas. Houve duelos verbais entre republicanos e democratas sobre a cédula, que na Flórida teria induzido eleitores a escolherem o reformista Pat Buchanam, cujo nome estava ao lado do de Bush. Tudo isso apareceu mastigadinho nas telas da CNN.

Saldo geral bom, o ponto negativo foi a pesquisite. Doença sazonal do jornalismo, na definição de Alberto Dines, atacou de forma fulminante a CNN. No início da madrugada de quarta, sua pesquisa de boca-de-urna na Flórida deu vitória ao conservador, e a emissora anunciou com todas as trombetas que o novo presidente dos Estados Unidos era George W. Bush. Uma hora depois, anunciava que errara.

Foi um atropelo. Contagiado por esse uso abusivo das pesquisas, o New York Post já saíra às ruas com a vitória republicana na manchete. The New York Times recolheu os 100 mil
exemplares que soltou dizendo que Bush "parecia" ter vencido. Mundo afora, jornais repetiram a "barriga". No Japão, o Asahi teve que recolher às pressas 20 mil exemplares com a notícia, que já estavam nos carros de distribuição. O tablóide Gendai, porém, tinha sua edição inteira pronta. O mesmo aconteceu com a maioria dos jornais de Seul, com o principal diário sul-africano, The Star, com o londrino Evening Standard. Os governos de Rússia, China, Grã-Bretanha, França, Holanda, Turquia, Indonésia, Japão, Coréia do Sul e a presidência da União Européia cumprimentaram Bush. Um vexame. A Suécia chegou a lamentar abertamente a vitória dele.

O estrago foi tão grande que até Gore ligou para cumprimentar Bush – e teve que descumprimentar depois.

A CNN fez mea culpa completa. Seus analistas pediram seguidas desculpas. Deram razão até às críticas da ONG Empower Democracy, que condenou duramente as emissoras de TV por divulgarem os resultados da contagem de votos da Costa Leste enquanto Costa Oeste, Havaí e Alasca votavam – o que a entidade considerou um desrespeito ao cidadão. Na noite de quarta-feira, a reportagem sobre a "barriga" ainda era repetida de tempos em tempos. Uma fieira de entrevistados foi convocada para dizer que esta eleição é a mais confusa da história americana.

Aqui, a Globo News, a mesma que em outubro praticamente ignorou a revolução na Iugoslávia, manteve equipe de repórteres e analistas noite adentro, inclusive o correspondente nos Estados Unidos, dando os resultados da apuração em tempo real.

 

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