ÚLTIMA HORA – Atualizado em 11/11/2000


DOSSIÊ VEXAME
OPINIÃO vs. PROPENSÃO
Jornalismo em tempo de eleição

Como muitas idéias lunáticas, as de Leonard Downie têm alguma lógica interna: se opiniões estão corrompendo, não tenha opiniões. Downie, editor-executivo do Washington Post, é bem conhecido por acreditar que, a serviço da objetividade, um jornalista em sua posição não deveria votar.

Escrevendo na página de opinião do Post no dia 25 de outubro, Downie foi ainda mais longe. Disse que não permite nem a si próprio a luxúria de decidir em quem votará.

Segundo matéria de Michael Kinsley [The Washington Post, 7/11/00] – editor do Slate.com, muitos jornalistas consideraram isso um exagero. Jornalistas ainda são cidadãos, com os direitos e deveres da cidadania. Jornalistas são também pessoas, na maior parte do tempo, e pessoas naturalmente desenvolvem opiniões sobre o mundo que as cerca.

Não se trata de uma capacidade que se pode ligar e desligar. As faculdades críticas que constróem o bom jornalista provavelmente purificam-no de todas as opiniões relevantes ainda menos plausíveis.

Downie certamente está correto de que não há lógica em não votar oficialmente se vota-se mentalmente. Mas concluir, a partir daí, que não se deve votar até mesmo mentalmente, é perder-se na falácia de que ter opinião é o mesmo que ter propensões. A diferença é que tendências são falhas que abafam opiniões ou que as expressam e defendem abertamente. Entre outras dificuldades, objetividade não é uma grande área segura. Há uma linha tênue entre propensões e relativismo insondável. Não se espera que jornalistas sejam neutros entre fato e falsidade, ou sobre alguns valores partilhados. Pode-se dizer, grosso modo, que dois e dois são quatro e pode-se igualmente presumir, sem evidências de apoio, que democracia é bom. Mas para além disso, a névoa de desacordos se instala.

Assim, objetividade perfeita não só é impraticável, como indefinível, o que não a faz um falso ideal. Evitar tendências é uma aspiração mais razoável que evitar a opinião em si. Se se rejeitar a "Solução Downie", porém, deve-se achar uma forma alternativa de demonstrar falta de propensões.

Felizmente, o campo florescente da ética jornalística oferece soluções para quase todos os dilemas éticos atuais.

Se um jornalista não se priva de votar, por que não permitir que seus leitores saibam como votou para, assim, poderem julgar sua objetividade por si mesmos? Se se pede aos leitores para confiar no jornalista apesar de suas opiniões políticas, não deveriam eles saber quais são essas opiniões? Se o jornalista crê estar fazendo um trabalho adequado ao evitar que suas opiniões caiam na informação tendenciosa, de que teme?

Nesse espírito, a e-zine Slate.com convidou toda a equipe de redação para declarar em quem estão votando e por que. O exercício era voluntário, mas a maioria dos jornalistas aderiram. O resultado não surpreendeu: a maioria votou em Al Gore.

Não há dúvidas de que a maioria dos jornalistas vota do Partido Democrata, assim como muitos executivos de negócios votam nos republicanos, mas nenhuma das tendências é tão pronunciada quanto seus respectivos críticos acreditam. Não se trata de produto de qualquer conspiração, mas de um resultado natural em uma sociedade diversificada, em que há pessoas atraídas por diferentes carreiras.

O fato de que repórteres tendem a ser liberais não diz nada sobre sua tendência a ser tendencioso. Há tantos outros preconceitos e pressões construídos na imprensa, que a tendência política crua é quase desprezível.

 

NOVO JORNALISMO POLÍTICO
Bernstein em nova empreitada

Se há alguém que não teme remar contra a maré, é Carl Bernstein. Apesar de a política resistir à sirene alardeada pela internet, Voter.com, sítio em que a estrela do Watergate se apresenta como editor-executivo, espera forjar um jornalismo político moderno que "abre portas a novos mundos da informação a nossos consumidores", de acordo com Bernstein.

"Política é o último negócio sem cercas nos Estados Unidos", afirma. Segundo matéria de Greg Brouwer [The Industry Standard, 1/11/00], em um conjunto de artigos, colunas e plebiscitos, Voter.com promete ser um armazém de todas as informações eleitorais em 2001.

Voter.com não é o único sítio que está tentando mudar o perfil do jornalismo político, mas parece ser, de longe, o melhor. A Forbes chamou o "filho" de Bernstein de melhor sítio político na internet, enquanto a Business Week colocou-o entre os quatro melhores. São cerca de 100 empregados e 40 milhões de dólares circulando, apesar dos poucos anúncios, devido à ideologia de manter dinheiro fora da esfera política. Em vez de basear-se no modelo tradicional, com parcerias publicitárias, Voter.com levanta fundos com seu registro de usuários, cujas informações são valiosas fontes demográficas para campanhas políticas e interessados em pagar ao sítio para receber o material.

Dois anos após seu ingresso na internet, Bernstein ainda parece maravilhado. "Percebi que a rede trata de tempo e espaço infinitos", diz, "TV é restrita por tempo; jornais por espaço."

Bernstein acredita que, oferecendo links a documentos complementares ou essenciais, pode revolucionar o conceito de jornalismo político. "Tal possibilidade permite-nos saltar a barreira em que a imprensa é freqüentemente acusada de tendenciosa."

 

DOMINÓ
Onde a vaca vai...

Em uma sucessão de eventos, o decisivo estado da Flórida moveu-se para o lado de Gore, para o de Bush e, ao final, ao "muito acirrado para conclusões", como telespectadores e âncoras, tontos com a corrida acirrada dessas eleições que não terminou ao nascer do sol.

"Isso prova que os sistemas são incrivelmente falíveis", disse Av Westin, antigo vice-presidente da ABC News, referindo-se à projeção inicial e prematura de que Gore havia vencido na Flórida. "Prova que a pressão em ser o primeiro pode conduzir a erros – alguém deve ter esquecido de fazer as lições de casa."

Jornais também correram para imprimir a declaração da vitória de Bush transmitida pelas emissoras – seguida de congratulação de Gore a Bush, pouco após desdita, com a recontagem de votos no estado.

A criticada reportagem das TVs, segundo matéria de Mark Jurkowitz [The Boston Globe, 8/11/00], esquentou pouco antes das 20h, quando a NBC anunciou vitória de Gore na Flórida, momentos antes de outras emissoras. Pouco depois, Karl Rove, estrategista de Bush, apareceu na NBC dizendo que o anúncio havia sido prematuro. Seu medo era que, dando o estado como vencido por Gore, as emissoras poderiam pressionar o público de Bush ao oeste.

Em desenvolvimento memorável, o assunto resumiu-se em drama da noite. As emissoras – sendo a NBC a última –, finalmente recolocaram a Flórida em categoria de incerteza, horas após o primeiro anúncio.

Talvez a grande surpresa tenha vindo nas primeiras horas da manhã seguinte, depois de declarada vitória de Bush. As emissoras deixaram suas profecias de que Bush venceria, Gore cancelou seu planejado discurso de concessão e jornais correram a eliminar suas últimas edições com as eleições ainda correndo.

‘Muito acirrada para qualquer conclusão’

A corrida foi mais acirrada que o previsto, em partes devido à humilhação do diz-desdiz das emissoras em relação às apurações das urnas na Flórida.

"Isso é um celeiro pegando fogo, como prometemos", disse Brian Williams, âncora da MSNBC em sua quarta hora de cobertura, pouco antes de meia-noite. Jeff Greenfield, da CNN, previu "uma longa e fascinante noite" e provavelmente viu sua predição tornar-se verdade.

O desando da Flórida revestiu a cobertura noturna de uma sombra, dando-lhe de alguma forma uma aura de manicômio – de acordo com matéria de Tom Shales [The Washington Post, 8/11/00]. Um dos dados reais que se obteve de toda a confusão foi que, subitamente, a mídia fez parte de uma reportagem enquanto estava reportando-a.

A CBS News, que deu a cobertura mais agressiva e espalhafatosa – mas talvez não a mais sonora – também saiu de um limbo ao ser a primeira emissora a dar a Gore a vitória da Pensilvânia, apesar de que eleitores de algumas regiões do estado ainda não tivessem votado.

A NBC News aguardou mais de uma hora após o fechamento de todas as urnas da Pensilvânia, enquanto a ABC News esperou 10 minutos mais.

Uma das mais hábeis reportagens foi feita por Tim Russert, da NBC News, munido com lousa branca, apagador e caneta hidrográfica. Hora após hora, com o destilar dos resultados, Russert calculou, recalculou e re-recalculou várias equações para a vitória no colégio eleitoral.

Na maioria das emissoras, a cobertura começou ordenadamente e foi se perdendo com o passar da noite. A CBS News fez-se notar ao dar a vitória da Flórida a Gore às 19:50h. De fato, o programa "60 minutos" do superstar Mike Wallace havia apenas começado uma reportagem sobre comerciais de campanha quando Dan Rather, âncora da CBS responsável pela cobertura das eleições, reapareceu na tela, pedindo desculpas a Wallace pela interrupção e notificando um boletim sobre a Flórida. A reportagem de Wallace foi ao ar 40 minutos depois.

Rather parecia ter ficado realmente agitado às cerca de 22h, quando teve que iniciar a hora admitindo o erro a recolocando a competição na Flórida sob o rótulo de "muito acirrada para qualquer conclusão."



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