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ÚLTIMA HORA – Atualizado em 11/11/2000
DOSSIÊ VEXAME
Alberto Dines
"É Flórida", copyright Jornal do Brasil, 11/11/00
"Barriga jornalística do século ou do milênio? Pool televisivo ou cartel mediático? Deterioração do sistema representativo americano e do seu emblema, o Colégio Eleitoral? Fim do protocolo da boas maneiras e retorno às realidades do faroeste? Totalitarismo dos radicais, no caso os Verdes, que não sabem distinguir diferenças? Fraude ou irregularidade? Contaminação do Estado Ensolarado - o Sunshine State - pela diáspora sul-americana que o elegeu como segunda pátria?
Charles Baudelaire, poeta maldito e genial, sentenciou que todos os dias assistimos a funerais, coveiros permanentes de eras, fases, períodos, costumes, tradições (nous célébrons tous quelque enterrement). Só arrogantes e reacionários não percebem o ritual diário do féretro que passa. Acreditam que o jogo está feito. Para sempre, como nas histórias da carochinha.
Qualquer que seja o resultado das presidenciais americanas - o voto dos ausentes é só uma das incógnitas -, este 7 de novembro de 2000, um mês antes do aniversário do aniquilamento da frota americana no Pacífico pela aviação japonesa (1941), será sempre lembrado como uma espécie de Pearl Harbour institucional. Nos píncaros do seu poder que breve completará um século, os Estados Unidos anunciam que estão mudando. Têm que mudar.
O sintoma mais revelador pode não ser o friforó eleitoral da Flórida, mas a vitória de Hillary Clinton e do marido, Bill, em Nova Iorque. Pouco menos de dois anos depois de terem sido literalmente estraçalhados pelos grandes conglomerados de direita e pelo sistema mediático a seu serviço, os Clinton, mesmo perdendo nas presidenciais, reintroduziram a questão ideológica no glossário político americano.
É significativo que no dia seguinte à votação, a CNN - vitrine sinóptica do país - tenha mostrado as ideologias em confronto na Bolsa: sinais positivos nas ‘ações Bush’ (petróleo, tabaco, indústria farmacêutica) e queda das ‘ações Gore’ (tecnologia e meio ambiente). Os Bush são donos de empresas de petróleo no Texas e o filho candidato não concorda com a campanha contra o cigarro. Por que razão subiu a cotação dos fabricantes de fármacos? Porque Gore prometeu investigar o que existe por trás dos preços abusivos dos remédios. Sobre o caso específico da Microsoft, Bush foi inequívoco na campanha: ‘Estou interessado em inovação e não em litígios’ (I’m for innovation, not litigation).
O escritor Gore Vidal (parente de Al Gore), numa entrevista à Rádio Eldorado (São Paulo) na última sexta-feira, disse que Bush sofre de dislexia - incapacidade de compreender o que lê. Mas Bush sabe repetir direitinho o que os assessores martelam em sua cabeça: o litígio é justamente a pedra de toque do sistema democrático e o Caso Microsoft vai entrar não apenas para a jurisprudência mas para a história econômica. Demonstrou que o capitalismo pode ser controlado num país onde as instituições são livres para litigar e coibir abusos de grupos cujo poder jamais foi contestado.
Nossa imprensa, repetidora virtual da matriz americana, não está conseguindo explicar por que razão Bush irritou-se tanto com o segundo telefonema de Gore anulando o reconhecimento anterior da sua vitória. Bush - ou alguém por ele - percebeu que vinha litígio pela frente. Por isso imediatamente anunciou a formação de uma equipe de transição. Equipe de transição só se anuncia quando há um vitorioso, de facto ou de jure
Esse anúncio não foi golpe publicitário. Foi golpe de mão, golpe de Estado, legítimo, irretorquível. Do mesmo quilate daquele que os republicanos aplicaram em 1981 quando Reagan levou um tiro e quem anunciou que estava no comando do país foi o Secretário de Estado Alexander Haig Jr. e não os sucessores constitucionais do presidente.
Não é aqui o lugar para examinar com detalhes o grande fiasco das redes de televisão na Madrugada Negra da mídia americana, quando fizeram duas projeções precipitadas com base nas sondagens de boca de urna. Mas a afirmação de que na cobertura faltou repórter (veiculada por um opinionista em importantes jornais brasileiros) é tão primária quanto a decisão de todas as redes de TV de montarem um pool para divulgar os resultados. Com o apoio de mil repórteres teriam cometido a mesma barriga.
Faltou competição, ingrediente fundamental para o exercício do bom jornalismo. Quando o sistema mediático, por si monolítico, articula-se num pool para a cobertura de um fato político dessa magnitude, fica evidente que não está preocupado com confrontos. E litígios. Quer consumações. O próximo passo será o cartel (detalhes dessa discussão logo mais no www.observatoriodaimprensa.com.br)
‘É Flórida!’, velha expressão jocosa - certamente carioca -, servia antigamente para designar algo tremendo e aberrante. Doravante irá juntar-se a panamá na lista de toponímicos convertidos em substantivos comuns. Para significar viradas, surpresas. Ou - de novo a gíria - melação."
Carl Bernstein
"Uma noite para lembrar", copyright no (www.no.com.br)/Voter (www.voter.com), 8/11/00
"Na CNN, a âncora Judy Woodruff fazia suas contas a mão, quando os computadores da gigante da tevê já tinham se provado incapazes de fazer o serviço. ‘Pelas minhas contas são uns 500 votos’, disse sobre a diferença aparente entre os votos recebidos por George Bush e Al Gore na Flórida, vindos de quase seis milhões de eleitores. Isso tinha sido às 4 da manhã. ‘Bush aparentemente eleito’, o ‘Washington Post’ publicara meia hora antes, logo acima da surreal manchete ‘Falecido governador do Missouri eleito para o Senado’.
‘Não consigo acreditar que tudo isto está acontecendo numa eleição no ano 2000, mas está e é real’, falou Tim Russert da NBC às 4h10. ‘Pode ser hoje de manhã ou mais tarde na semana até sabermos o vencedor’ notou o âncora da NBC Tom Brokaw. Al Gore declarou-se perdedor por volta das 3h num telefonema para Bush, e então sabiamente voltou atrás mais ou menos ao mesmo tempo em que um sonolento membro da Comissão Eleitoral da Flórida explicava para Bernie Shaw e Jeff Greenfield na CNN que havia uns 29 condados onde as cédulas provavelmente precisavam ser recontadas, isso além dos milhares de eleitores no exterior cujos votos poderiam demorar ainda uns 10 dias para serem apurados.
Os números voavam pelo ar. A margem de Bush na Flórida, da espessura de uma navalha, era de 2.000, talvez 500, talvez 250, dependendo de se os dados viessem de Peter (Jennings na ABC) ou Dan (Rather na CBS) ou Judy ou Tom. Em alguns dos canais os votos dos eleitores em trânsito já tinham sido contados; em outros eles estavam em algum lugar da camada do ozônio.
Enquanto isso, eleitores idosos em alguns dos condados da Flórida (era em Dade, Broward, Palm Beach, todos eles? - as coisas estavam indo rápidas demais para acompanhar) estavam reclamando que seus votos para Gore tinham na verdade sido creditados para Patrick Buchanan porque as cédulas eram confusas.
E então as eleições americanas pareciam estar adquirindo características normalmente associadas a republicas de banana, não ao colosso do norte. Gentilmente Paul Begala da MSNBC reparou a anomalia de que o estado sendo contestado é governado pelo irmão do presidente aparentemente eleito (ou presidente aparentemente não eleito).
Parece que vai ser Jeb Bush quem vai presidir o processo de seja lá o que for que a nação vai passar nas próximas horas ou dias na escolha de seu próximo presidente. Enquanto isso o mesmo governador da Flórida continua aconselhando seu irmão (apesar de que ainda devemos ouvir alguma coisa de Bill Clinton ou do FBI sobre se a Flórida deve ser submetida a algum tipo de curadoria).
A Flórida, claro, sempre celebrou sua face bizarra, seja na forma de lutas com crocodilos no pantanal, nas reminiscências das brigadas de Ton Ton Macoute no Haiti, nos exilados cubanos obcecados com conspirações, na procuradora-geral Janet Reno, ou ainda nos romances policiais de Elmore Leonard. Mas agora estamos prestes a ver quão bizarras as coisas podem realmente ser.
‘Incrível, impressionante, inacreditável’, disse Russert na NBC.
Mais cedo Jeb Bush tinha estado no telefone com seu irmão, em Austin, Texas, sabiamente encorajando-o a questionar a decisão dos canais de tevê de presentear Gore com os 25 votos do colégio eleitoral da Flórida. Eles não hesitaram em declarar que o estado pertencia ao vice presidente, devendo isso à propensão jornalística de acreditar em pesquisas e modelos estatísticos ao invés de em votos de verdade. Aí voltaram atrás. ‘Nós não temos apenas ovos em nossa cara, temos um omelete’, Brocaw diria lá pelas 5h, quando Gore parecia estar vencendo pelo voto popular.
Por semanas a imprensa tem especulado sobre o cenário vindo de um pesadelo em que um dos candidatos vence no voto popular enquanto o outro conquista a maioria no colégio eleitoral. Mas nenhum profeta poderia ter antecipado o pesadelo que estava se desenrolando.
Se Bush vencer ‘talvez seja necessário’, disse a historiadora Doris Kearns Goodwin, ‘montar um governo de coalizão’ para satisfazer o país dividido, principalmente depois das promessas do governador de promover a cortesia em Washington. ‘Nós não queremos que o país se envolva numa grande confusão com os mercados financeiros ou nossos adversários no exterior’, respondeu gravemente Brokaw.
Por 40 anos tem sido uma peça de fé republicana que o falecido prefeito Richard Daley, em Chicago, roubou a eleição de 1960 de Richard Nixon e entregou-a para John Kennedy. Então não deve ter sido sem ironia que a família Bush viu o filho daquele prefeito, o gerente de campanha de Gore, William Daley, subir ao palco em Nashville por volta das 5h para falar aos milhares de democratas que agüentaram o passeio de montanha-russa da noite.
‘Deixem-me dizer, estou na política há muito tempo, mas não creio que tenha jamais havido uma noite como esta. Apenas uma hora atrás os canais de televisão deram a vitória desta corrida para o governador Bush’, ele notou. ‘Agora parece que sua garantia foi prematura.’ Com 99,9% dos votos contados ‘existe uma margem de apenas 1.200 votos entre milhões, com mais de 5.000 votos por serem contados’ - forçando uma recontagem automática definida por lei. ‘Até que os resultados na Flórida sejam oficiais, nossa campanha continua’, Daley falou a medida que a multidão urrava.
‘É Bush’, proclamou o ‘Austin American-Satesman’ numa enorme manchete que durou por volta de uma hora.
‘História ainda sendo processada’ foi o título seguinte do Satesman.
Continuem ligados. (Carl Bernstein é editor executivo e vice presidente de voter.com; tradução de Pedro Doria)"
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