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ÚLTIMA HORA – Atualizado em 11/11/2000
DOSSIÊ VEXAME
Howard Kurtz
"Mídia mostrou ‘incompetência inimaginável’ na eleição", copyright Washington Post / O Globo, 10/11/00, tradução: Gilberto Scofield Jr.
"Washington – Numa inimaginável mostra de incompetência, a mídia eletrônica americana falhou – duas vezes. Seria difícil até mesmo para um escritor em busca de sucesso instantâneo bolar um cenário em que as redes de tevê, em apenas seis horas, dão a vitória presidencial a Al Gore; e então a George W. Bush – só para acordar os telespectadores na manhã de ontem com a mesma manchete exibida loucamente durante semanas: ‘Vitória apertada’. Na verdade, os plantões extraordinários das tevês, às 2h17 da madrugada de ontem, declaravam Bush o novo presidente e até enganaram Gore, que ligou para o adversário para admitir a derrota. Mas aí as redes tiveram que se retratar, Gore ligou para dizer que não admitia derrota nenhuma e ainda vivemos a recontagem dos votos na Flórida, com 1,7 mil votos separando um candidato do outro.
Vários jornais, incluindo ‘The New York Times’, ‘The St. Louis Post-Dispatch’, seguiram os plantões das tevês e declararam Bush o vitorioso, alguns em seus sites na Internet. O site do ‘Washington Post’ declarou Bush o presidente por 45 minutos até tirar a notícia do ar. É o ‘Dewey bate Truman’ da era cibernética. ‘Bush ganha!’, declarou o ‘New York Post’ numa manchete em letras vermelhas.
Em pouco tempo, todo o sistema de plantões extras baseado em prévias nas urnas e telefonemas das assessorias dos candidatos – mesmo os mais incompletos dos retornos – entrou em colapso da maneira mais espetacular, confundindo toda uma Nação a respeito das mais disputadas eleições numa geração. Na ABC, por exemplo, Peter Jennings deu a vitória de Bush na Flórida às 2h17m da madrugada: ‘A menos que ocorra uma calamidade, George W. Bush, pelas nossas projeções, será o próximo presidente dos EUA’. Mas houve uma calamidade e às 4h30m Jennings afirmava: ‘Nós vamos deixar o resultado da Flórida em suspenso porque a votação está ainda muito apertada’. Duas horas e meia depois, Charlie Gibson dizia no ‘Good Morning America’: ‘A eleição para presidente virou um caos. Se você foi para cama às 22hs ontem, você achava que Al Gore tinha vencido as eleições’ Se a recontagem na Flórida empacar, dizia Tom Brokaw em ‘Today’, ‘os mercados financeiros sofrerão e a segurança nacional correrá riscos’. ‘Se você está chateado com a gente, eu não o culparia’, disse Dan Rather, da rede CBS, culpando o plantão da madrugada, calcado numa ‘informação suspeita’. Judy Woodruff explicou que ‘nós não confiamos totalmente nas informações que temos’."
Elio Gaspari
"Jornalismo sem repórter é uma catástrofe", copyright Folha de S. Paulo, 10/11/00
"Este é um artigo destinado às pessoas que acreditam na globalização das comunicações, na instantaneidade da informação, na revolução tecnológica e em todos os conceitos grandiloquentes que acompanham essa presunção de onisciência. O desastre mundial desencadeado pelas redes de televisão americanas na madrugada de ontem não tem paralelo na história da imprensa. Misturou empulhação, propaganda enganosa, inépcia e prepotência. Produziu no público a impressão de que os jornalistas não são capazes de manter a calma e fazer uma conta de somar. A verdade é que, mesmo sendo capazes de somar, eles padecem (inclusive o signatário) de uma sofreguidão compulsiva. A catástrofe ocorrida ontem derivou do colapso dos mecanismos que o ofício recomenda para minimizar os efeitos desse comportamento anômalo.
As TVs dos EUA empulharam o público dando-lhe a impressão de que tinham a capacidade de projetar com precisão os resultados das pesquisas de boca-de-urna. As urnas da Flórida ainda estavam abertas quando as emissoras deram os seus 25 votos para Al Gore. Aos 58 minutos de ontem (hora do Brasil), mandaram o Estado para a lista dos colégios duvidosos. Como lembrou, no ar, o republicano William Bennett, a colocação da Flórida no pote dos democratas foi uma leviandade.
Órgãos de imprensa empulhando o público não são novidade, mas todas as TVs dos EUA empulhando-o ao mesmo tempo foi coisa inédita. Isso aconteceu porque se beneficiavam de uma propaganda enganosa. Cada rede apresentava as projeções como suas quando, na verdade, todas vinham de uma só fonte. Tratava-se dos serviços comprados da Voter News Service. Cada rede informou às suas vítimas que suas projeções cravavam a vitória de Bush. Era engodo. Deveriam ter dito (e repetido) que essas projeções eram da empresa que terceirizara o serviço. Mais: deveriam ter dito que a patuléia estava diante de um teatro, pois todas as redes estavam usando os mesmos dados. (Fica mais barato assim.) Não disputavam a primazia das projeções, mas a rapidez de transmissão da projeção do serviço terceirizado. Isso explica, por exemplo, que a CNN tenha proclamado a vitória de Bush (pela conquista da Flórida), interrompendo um comercial, às 5h18.
A lambança espalhou-se pelo mundo, provocando o maior carnaval de manchetes erradas de todos os tempos. Noves fora o vexame dos telegramas de governantes a Bush. O candidato republicano ganhava por 2.000 votos, tendo perdido a margem de 10 mil que tivera horas antes. Mais: os votos de um reduto democrata ainda não tinham sido contados.
É nessa hora que, pelo menos no caso da CNN, entra a inépcia. Ela tinha oito jornalistas no ar. Cinco na bancada em Atlanta, mais Larry King e Richard Novak. Todos barões. Repórteres, só dois, um em Nashville (cobrindo os democratas) e outra em Austin (cuidando dos republicanos). O baronato passou batido quando a ex-governadora do Texas disse que na Flórida estavam acontecendo coisas ‘interessantes’. Basta olhar para as rugas e os cabelos de Ann Richards para perceber o peso da expressão, vinda de tão refinada raposa. Ao longo de toda a noite, a CNN não colocou no ar uma única palavra da Flórida. Revelou que não tinha meios para saber os números do Wisconsin, a menos que telefonassem para alguém. A primeira imagem da Flórida entrou no ar, por cortesia de uma emissora local, às 8h.
Terceirizaram o caroço da eleição, deixaram a cobertura na mão dos barões e, como seria de esperar, não conseguiram informar, a qualquer hora da noite, que as leis da Flórida exigem que os votos sejam automaticamente recontados se a diferença ficar em menos de 0,5%. Um estagiário baseado em Miami poderia ter salvo a CNN de horas de confusão.
Uma cobertura com oito barões e dois repórteres tem tudo para dar errado tanto na eleição presidencial americana quanto na do prefeito de Tauá, no sertão cearense. A certa altura, a baronesa Judy Woodruff, na sua cadeira em Atlanta, perguntou aos colegas quanto é 5% de 5 milhões e explicou: ‘Estou sem a minha calculadora’. Estava-se numa situação em que a CNN cobria a eleição sem repórteres, sem vivalma na Flórida, sem calculadora e sem neurônios suficientes para descobrir que 5% de 5 milhões dá 250 mil.
A prepotência entrou em cena quando as emissoras perceberam que disseram bobagem e fugiram do pedido de desculpas que devem ao mundo e que certamente terão de apresentar (a um custo moral maior).
A quem interessar possa: é imprópria qualquer comparação com a bobagem feita pelo ‘Chicago Daily Tribune’, em 1948. O ‘Tribune’ estava em greve, com uma pequena equipe inexperiente. Preparou uma edição com a manchete ‘Dewey derrota Truman’ e os fura-greve rodaram um texto que tinha até pedaços em branco (no lugar dos números). Percebido o erro, correram atrás dos exemplares que saíram da gráfica. Não capturaram todos, um deles caiu na mão de Harry Truman e permitiu-lhe a célebre fotografia.
A catástrofe de ontem foi produzida pelos sábios da revolução das comunicações que acreditam na terceirização dos serviços de apuração jornalística e na prevalência do baronato sobre os repórteres. Repórter é aquele sujeito chato que teria feito a seguinte pergunta: vocês realmente confiam nesse números da Flórida?’
Luis Fernando Verissimo
"A única questão", copyright O Globo, 9/11/00
"Quando escrevo, já se sabe que o sobrenome do novo presidente americano tem quatro letras, só não se sabe quais são. Urnas extraviadas, eleitores desorientados, contagem suspeita - enfim, essas coisas de Terceiro Mundo - atrasaram a apuração na Flórida e só na noite de ontem se saberia o resultado final. Tudo indicava que aconteceria o contrário do esperado: Gore teria a maioria dos votos populares, Bush a maioria dos votos eleitorais, com os da Flórida, e a Presidência.
Mais nervosa do que qualquer um dos candidatos e seus seguidores, ontem, estava a Bolsa de Nova York. Afinal, candidatos e eleitores só estavam ameaçados de perder sua razão ou suas ilusões, mas investidores na Bolsa perderiam dinheiro, a única questão real desta encenação toda, se Gore ganhasse. Como Clinton, Gore é um republicano disfarçado, mas parece ser um pouco mais sincero, ou ingênuo, nas suas preocupações com ambiente e saúde pública. Tanto que ontem na Bolsa, enquanto se esperava o resultado da Flórida, a grande dúvida era como se comportariam as que passaram a ser chamadas de ‘Bush stocks’, ou ações que decolariam no caso de uma vitória do outro republicano, o confiável. Ações das companhias de tabaco, dos fabricantes de remédio, das grandes empresas de assistência privada, da Microsoft, que conta com o fim dos seus problemas com o Governo numa administração Bush etc.
Enquanto distraem nossa atenção com o drama eleitoral, é sempre educativo ler as seções de economia de jornais como o ‘New York Times’ ou os editoriais do ‘Wall Street Journal’, que é a bíblia não só da grande empresa mas da direita respeitável, em contraste com a direita lunática, americana, para saber o que realmente está em jogo por trás da pantomima. Decidiram que havia mais do que retórica populista na plataforma de Gore, e o consideraram um Clinton mais conseqüente, portanto uma ameaça. Só isto explica a quebra - se é que houve quebra - de uma regra antiga, a de que em tempo de prosperidade o partido no poder é sempre reeleito nos Estados Unidos. Gore pode ter perdido não porque não o levaram a sério, mas porque levaram."
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