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ÚLTIMA HORA – Atualizado em 12/9/2000
CASO PIMENTA NEVES
No lugar de notícia, ódio e rancor
José Antonio Palhano (*)
"E, no entanto, o réu não era um monstro. Os atributos que todos lhe reconhecem – talentoso, culto, maduro, situado em posição de responsabilidade – tornam seu gesto ainda mais incompreensível e mais grave a carga de infâmia que recai sobre seus ombros. Não sabemos quase nada sobre os abismos do psiquismo."
"A relevância de Pimenta Neves fica mesmo na sua condição trágica, uma notícia que o seu antijornalismo não pode deformar nem sonegar."
O primeiro parágrafo é de autoria de Otavio Frias Filho, pinçado do seu artigo "Pimenta Neves" [Folha de S. Paulo, 31/8/00]. O segundo é da lavra de Janio de Freitas, fecho do seu "No lugar de notícia", publicado na mesma Folha, mesmíssima data. Se os dois jornalistas tivessem combinado antes, jamais produziriam uma peça tão fantasticamente contraditória como essa, didática e edificante maneira como o maior jornal do país achou por bem apresentar um assassino confesso aos seus leitores. Frias Filho foi acometido por um incontrolável acesso de corporativismo, muito mal disfarçado em míseras tiradinhas politicamente corretas: "...disse isso a ele na visita que me vi obrigado a lhe prestar, na condição de alguém que o respeitava e admirava fazia 25 anos, desde que Cláudio Abramo nos apresentou na Folha".
Traduzindo, um sujeito do seu calibre profissional se mostra constrangedoramente incapaz de assumir uma visita pessoal a um cidadão às voltas com a Justiça na conta de um gesto subjetivo, íntimo, do qual não está obrigado a dar satisfações a ninguém. Numa monumental crise de insegurança, obriga-se a publicá-lo, em sôfrega busca de uma dispensável legitimidade, visto que tal visita jamais poderia pretender ser mais que uma – no seu caso, previsível – demonstração de solidariedade. De quebra, faz pouco dos seus leitores, por tão descaradamente lhes oferecer, para a devida reflexão, semelhante "atenuante". (O Pimenta matou mas é gente boa, tanto que fui visitá-lo, vê lá como vocês vão julgá-lo).
Até aí, ainda passa. Afinal, trata-se do proprietário do jornal, e faz dele o que quiser. Espanta apenas que arrisque tanto em desqualificá-lo em favor de um homicídio culposo e duplamente qualificado. Agora, vir com essa história de que "todas as revistas – capa em todas elas – pintaram-no como vilão rematado, a TV entregou-se prazerosamente a seu linchamento moral", já é demais. Ou Frias Filho está a censurar os colegas, reprimindo-os por supostamente terem exagerado na cobertura ou, muitíssimo pior (se isto é possível), parte firme para renegar o oficio, por sugerir, de forma não tão sub-reptícia, que o assassinato de Sandra não foi fato jornalístico relevante a ponto de merecer as capas das semanais. Ou, se foi, que os editores dessas, na certa uns imbecis alarmistas, o pintassem não como "vilão rematado", ora bolas, mas quem sabe como "uma pobre e infeliz vítima da diabólica mania que as mulheres, essas malvadas estúpidas, têm de terminar relacionamentos amorosos quando bem entendem". Os homens, afinal, são evoluídos o bastante para ler e entender Frias Filho, para quem "não sabemos quase nada sobre os abismos do psiquismo".
Ótimo. Que tal juntar aí alguns desses pretos favelados que infestam delegacias imundas e matriculá-los, a ferros, naturalmente, nos abismos do psiquismo de policiais e delegados, para que aprendam de uma vez por todas que sua missão na terra é se lhes oferecer em tortura? Quem sabe assim a patuléia toda, inclusive aquela que lê a Folha, entenda legal porque os abismos do psiquismo de Pimenta Neves, apesar de não totalmente decifrados, lhe garantem vaga numa clínica cinco estrelas.
Sem dó nem piedade
Quanto a Janio de Freitas, este não perdeu a chance. Não é todo dia que um colega famoso, que cometeu a heresia de comandar um jornal que ele detesta com toda a força da sua alma sombria e rancorosa, lhe aparece com a cabeça na bandeja. Pimenta Neves surpreendeu e chocou o país todo, menos Janio. Este teve o sangue frio de produzir um texto que, além da biliose costumeira, é um primor do seu incontrolável apetite por vivissecções. Impressiona, além da crueldade em si, como se entrega, a despeito da sua tão propalada independência jornalística, a moralismo tão chinfrim: Eu não disse? Um cara que passou a vida inteira enganando todo mundo, só podia dar nisso. Bem feito. Escreveu no Estadão, puxou saco do governo, falou mal dos procuradores... eu sabia que ele, por tão incompetente, ainda acabaria por disparar dois tiros pelas costas em uma mulher...
O dono da Folha anda preocupado com o "linchamento moral" do assassino promovido pelo distinto público açulado pela mídia concorrente e sedenta de sangue. Engano. Basta ler seu jornal com mais atenção. Foi um dos seus mais caros colaboradores quem o esfolou sem dó nem piedade. O povo, além de notícias (mais ainda as policiais, o que se há de fazer?), quer apenas que se faça justiça. Quem quer sangue e ódio é Janio. No lugar de notícia, como ele mesmo fez questão de dizer no título.
(*) Médico, editorialista e colunista político da Folha do Povo, em Campo Grande, MS
Leia também
"Pimenta Neves" – Otavio Frias Filho
"No lugar da notícia" – Janio de Freitas
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