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ÚLTIMA HORA – Atualizado em 12/9/2000
Um motivo adormecido
Vera Silva (*)
A escritora Agatha Christie deu a um de seus romances o título de Um crime adormecido. Nesse romance, assistindo a uma peça de teatro, uma mulher se lembra parcialmente de um crime a que assistira quando criança e que estava "adormecido" em sua mente. Evidentemente não vou contar o final, algum leitor pode ficar curioso e ter o prazer do suspense estragado pela revelação do criminoso.
O que me fez lembrar do romance foi o esquecimento do motivo do crime do Sr. Pimenta por grande parte dos que falaram sobre ele – o machismo. Sandra foi morta porque era mulher, porque um homem considerou que ela não tinha o direito de deixar de amá-lo e ir embora, porque um homem considerou que ela era sua propriedade, porque um homem considerou que a perda de sua posse ameaçava a honra dele.
Tão esquecido estava este motivo que o Observatório da Imprensa publicou uma entrevista com um jornalista amigo do assassino e em nenhum momento o entrevistador lembrou-se de trazer o machismo à tona. Destaquei alguns trechos dessa entrevista, para ilustrar meu argumento:
"[......] No caso específico, é preciso lembrar que qualquer que seja o crime, por pior que seja o delito, a lei garante a todos o direito de ser julgado com isenção. Depois das cenas da televisão, porém, isto ficou comprometido. Há um pré-julgamento do réu na cobertura de boa parte da imprensa. [......] foi e é um bom pai, um cidadão correto. Está sendo tratado por muitos veículos de comunicação como um bandido contumaz, coisa que não é, e não sou eu apenas quem digo, é a sua biografia, é tudo que fez durante 63 anos de vida. É óbvio que não acho correto qualquer tipo de violência, mas nada justifica o linchamento moral de uma pessoa" [Trechos da entrevista de Luiz Antônio Magalhães com Roberto Müller, "Cobertura leviana, invasiva, parcial e sensacionalista", rubrica A Imprensa em Questão, Observatório, edição 97, 5/9/2000, remissão abaixo].
Duas visões
Mesmo considerando que a gravação ilegal do depoimento do Sr. Pimenta foi um ato indigno, apontá-lo como assassino não o é – há testemunhas e ele mesmo confessou o crime; dizer que ele é um cidadão correto é uma ação de amigo – assassinato não é uma ação de cidadania. Portanto, tanto o entrevistador quanto o entrevistado esqueceram-se de que as estatísticas identificam os matadores de mulheres como bons pais, bons cidadãos, bons vizinhos, bons homens como tantos que conhecemos e amamos.
Os crimes contra as mulheres têm uma especificidade que não pode ser ignorada. Eles ocorrem em razão de um treinamento sóciocultural que considera a mulher como propriedade do homem e obrigada ao amor eterno e incondicional de mãe por este homem até que ele não a queira mais e passe a amar outra mulher. A fidelidade e o amor são considerados compulsórios e dependentes da vontade do homem. À mulher compete apenas a concordância. Esta é, sem subterfúgios, a origem dos chamados crimes masculinos em defesa da honra.
Curiosamente, de tudo o que li sobre o crime do Sr. Pimenta, os homens se preocuparam em defender a privacidade e a moral do assassino e as mulheres em apontar o machismo que levou um homem ao crime.
Acaso? Certamente que não. A separação dos direitos humanos em padrões masculinos e femininos provoca a violência doméstica. É real e praticada na maioria dos relacionamentos entre homens e mulheres, mas, da classe média para cima, principalmente entre os profissionais qualificados, universitários e ocupantes de cargos elevados, essa separação é adormecida pelo discurso de direitos iguais que, na prática, se transforma em dupla jornada para a mulher. E em dupla moral para os homens.
Muito a aprender
É compreensível que os jornalistas não queiram admitir que um deles possa ser machista, que um deles possa ser sexista, e que possa haver assédio sexual nas redações dos jornais. A lógica não aceita o machismo, mas a emoção não suporta a finitude e a condicionalidade do amor.
É mais fácil então ressuscitar "o mesmo discurso hipócrita em defesa da cidadania do homicida, que tão friamente planejou e executou o seu crime [......]" [Ana Lúcia Amaral em "O poder que apodrece", O.I. de 5/9/00, remissão abaixo] Ou então, trazer à luz o sistema de poder pelo poder que impera nas redações.
Separando-nos da similaridade com o criminoso ou com a vítima, deixamos de nos sentir culpados por sustentar a violência doméstica responsável pelo fato de as mulheres serem obrigadas à maternidade fruto de estupro; às longas e, na maioria das vezes inúteis, pendências judiciais para obrigar os homens a assumir a paternidade dos filhos de ambos; responsáveis pelo fato de as mulheres ganharem menos do que os homens por trabalho igual; por serem minoria em parlamentos e ministérios; e outras discriminações.
Para pessoas com grande treinamento nas artes do pensamento, perceber a própria incoerência e omissão que as fazem cúmplices da violência é mesmo aterrorizante. Contudo, não há por onde escapar. Ou os homens entram conosco na luta contra a violência sobre a mulher, ou os crimes vão continuar acontecendo nas redações, em nossas casas, nos grandes condomínio fechados, nas boates da moda.
"Felizes todos nós quando aprendermos a perseguir o ideal do proveito mútuo, quando conseguirmos deixar de lado a lei do proveito próprio" [Cláudia Rodrigues, no artigo "Imprensa infeliz na intimidade", O.I. 5/9/00, remissão abaixo].
(*) Psicóloga
Leia também
"Cobertura leviana, invasiva, parcial e sensacionalista" – Luiz Antonio Magalhães
O poder que apodrece – Ana Lúcia Amaral
Imprensa infeliz na intimidade – Cláudia Rodrigues
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