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ÚLTIMA HORA – Atualizado em 12/9/2000


Imprensa fora de foco

Comissão de Cidadania e Reprodução (*)

Existem pelo menos duas maneiras de distorcer uma imagem. A primeira é estar num ponto de observação muito distante e não conseguir enxergar detalhes, nuances e contornos. Fica-se com uma idéia difusa demais. A segunda maneira é estar tão perto a ponto de fazer com que a imagem fique fora de foco. Foi esta falta de foco por excesso de aproximação que acometeu as grandes redações quando o jornalista Antônio Pimenta Neves, ex-diretor do Estado de S. Paulo, assassinou a namorada a tiros. No exercício da profissão há 40 anos, Pimenta Neves tem amigos nas redações dos jornais paulistas, e conhecidos em todas as grandes redações do país. Talvez exatamente por tomar a distância certa – nem longe demais a ponto de não perceber a importância do caso, como fez o Jornal do Brasil, nem perto demais como fizeram a Folha e o Estadão nos primeiros dias –, a cobertura de O Globo e da revista eletrônica no.com.br tenham sido mais imparciais e, ao mesmo tempo, contundentes, conforme o assunto exigia.

Recapitular as atitudes de Pimenta Neves depois do crime ajuda a entender a parcialidade da cobertura do Estadão e da Folha. A primeira providência que tomou foi, justamente, comunicar ao plantão da redação do Estadão que tinha atirado em Sandra Gomide, ex-editora de Economia do mesmo jornal.

Pelo relato da reportagem de capa da revista Época, Pimenta não só comunicou o crime que cometera – embora, ao primeiro telefonema, não aparentasse ainda ter consciência de que os seus dois tiros haviam matado Sandra – como começou imediatamente a tentar controlar a forma como o noticiário sobre o crime iria retratá-lo. "Estou com um problema", disse ele ao jornalista de plantão no Estadão, como se o assassinato da ex-namorada pudesse vir a ser tratado como uma questão de foro íntimo de um importante diretor de jornal.

Surrado e velho clichê

Numa arrogância típica dos que estão acostumados a lidar com a versão dos fatos e têm plena consciência da diferença que faz uma edição de jornal a respeito de qualquer assunto, Pimenta também telefonou para o diretor da Folha de S. Paulo, Otavio Frias Filho, seu amigo há 20 anos, e perguntou: "Qual vai ser a manchete?". O mesmo expediente se repetiu – e pôde ser visto no Jornal Nacional – durante seu primeiro depoimento à polícia, prestado ainda numa sala improvisada do Hospital Albert Einstein:

– O que estou dizendo é que é inútil esse tipo de interrogatório, porque se eu não sentar e escrever vai sair muita besteira aqui – impacientou-se o homem de pijama azul. – Ninguém tem memória para registrar esses pormenores. Eu sou especialista nisso.

Especialista em quê? Ora, bons jornalistas seriam profissionais capazes de apurar notícias e relatá-las de forma isenta, mas ao mesmo tempo crítica. É um árduo exercício cotidiano, nem sempre bem-sucedido. Pimenta demonstrava, naquela cena, que não confiava na capacidade da imprensa de ser isenta e crítica? Ou simplesmente não queria estar sob a avaliação crítica da imprensa que ele conhece por dentro?

O noticiário dos jornais de São Paulo sofreu durante toda a semana com o fenômeno da falta de foco por excesso de aproximação. Felizmente, a crítica da ombudsman da Folha, Renata Lo Prete, na edição do domingo seguinte ao crime, apontou os problemas. A essa altura, os jornais já tinham começado a cometer os mesmos erros que foram registrados inúmeras vezes – e que se poderia julgar sepultados – na cobertura de crimes contra a mulher. Até porque, excluindo o fato de que o assassinato foi cometido por um diretor de redação contra uma ex-editora de Economia, o crime de Pimenta é um surrado e velho clichê emblemático da violência contra mulher.

Albertina Costa, pesquisadora da Fundação Carlos Chagas, na apresentação de um livro sobre violência contra a mulher já constatara:

"Os domingos são um risco para as mulheres, este é o dia da semana com maior incidência de maus tratos e violência doméstica. As estatísticas sobre o perfil dos vitimados por violência são eloqüentes a respeito do maior grau de insegurança doméstica para a população feminina, a porcentagem de mulheres atacadas por parentes e conhecidos é significativamente maior do que aquela agredida por estranhos (esta tendência se inverte no caso masculino). Na maioria dos casos o local da ocorrência é a residência da vítima. (...) Carro-chefe das reivindicações feministas no início da década de 80, elemento catalisador e marca significativa do movimento das mulheres brasileiras, a mobilização sob o lema "quem ama não mata" contra os assassinatos de mulheres justificados pela legitima defesa da honra, repercutida por seriados na Rede Globo , alcançou eco na opinião pública levando à experiência internacionalmente inédita da criação, em 1985, da primeira Delegacia de Defesa da Mulher pelo governo Franco Montoro em São Paulo. A opção preferencial pela violência deu feições próprias ao feminismo brasileiro que o singularizaram no quadro do movimento internacional (...).

Assim como o crime, a reação do criminoso também é uma espécie de "revival" dos anos 70 e 80. Seu depoimento girou em torno da velha idéia de que a desqualificação da vítima justifica o crime. Sandra, a "traidora", foi relatada por Pimenta Neves como uma mulher que praticamente "merecia" o castigo aplicado. Nestes tempos modernos, Pimenta descobriu que, além de uma "reputação moral" a ser destruída, as mulheres agora têm também uma "reputação profissional", contra a qual ele investiu mais fortemente ao relatar que as promoções salariais de Sandra estavam ligadas, apenas e exclusivamente, ao fato de que ela era sua namorada. Em nenhum momento ele parece ter se incomodado com o fato de que se a jornalista não merecia a promoção ter aumentado seu salário o desqualifica como diretor de Redação.

Máxima do corporativismo

Reportagem na revista no.com.br mostrou a quantidade de (pequenas) atrocidades que Pimenta Neves vinha cometendo dentro da redação do Estadão. O mais espantoso não eram as suas loucuras, mas o silêncio da sua equipe sobre elas, conforme tão bem apontou a jornalista Miriam Leitão em artigo na mesma revista:

"Pimenta estava incapacitado para dirigir um jornal e ninguém fez nada. A questão central, o tema para ser discutido pelos jornalistas, é a tolerância com as pequenas tiranias nas redações. A possibilidade de decisões como a proibição do noticiário sobre a série ‘Aquarela do Brasil’, da TV Globo, por motivo fútil (porque amigas da ex-namorada trabalhavam na divulgação do programa) é censura. Igualzinha à dos militares. Por que a redação não se revolta? É a aceitação das pequenas tiranias, aceitar que razões não jornalísticas determinem se vai se dar ou não dar uma notícia. Antes do crime Sandra Gomide vinha sofrendo represálias e injustiças na redação, até seu desempenho profissional foi questionado."

Miriam, mesmo observando de perto – no texto, ela conta que já trabalhou no Estadão e que tinha trabalhado com Pimenta Neves na Gazeta Mercantil –, nos mostra que o interior das redações de jornal reproduzem, e muitas vezes amplificam, os mesmo problemas que os jornalistas localizam – e criticam – na sociedade. É neste momento que entra em cena uma regra não-escrita das redações que reza: "Jornalista não é notícia".

Esta máxima do corporativismo vale para evitar que grandes jornais tratem, no noticiário, de feitos e defeitos dos seus pares. Neste caso, serviu apenas para embaçar a visão de quem estava perto demais do criminoso a ponto de perder a capacidade de avaliar que um assassinato brutal não é assunto privado entre as normalmente tão fechadas paredes da imprensa, mas tema de interesse do público em geral. Por mais que esta atitude signifique deixar a luz vazar pelas lentes com que se observam, de fora, as redações de jornais.

(*) Comissão de Cidadania e Reprodução <www.ccr.org.br>




CARTAS

Imunes ao desequilíbrio

Realmente eu ainda não consegui entender por que afirma-se diariamente que a imprensa foi duramente afetada por este trágico acontecimento. Duas pessoas sentiram- se atraídas, uniram-se, uma delas rompeu o relacionamento e a outra a matou. Apesar de trágico, acontece diariamente em todas as "tribos". Devo entender então que os que compõem o universo jornalístico achavam-se imunes aos desequilíbrios emocionais. Se achavam, então nem valem o meu comentário, que por sinal vou finalizando. Uma última coisa: a jornalista Magda de Almeida realmente conseguiu uma proeza, escreveu em círculos. Pensei que isto fosse impossível.

Emanuel Gadelha



Trágica relação de poder

A relação entre a jornalista Sandra Gomide e o jornalista Antônio Pimenta Neves, diretor de Redação de O Estado de S.Paulo, na minha leitura, não é um caso amoroso. É muito mais trágico; é uma relação de poder. Daqui de Porto Alegre não tenho condições para saber como eram os padrões de conduta do jornalista e de que maneira exercia seu poder, só posso ficar na suposição. Mas, qualquer que tenha sido sua conduta no desempenho de suas funções psicologicamente ele ali dentro não era ele, e sim a família Mesquita, isto é, o próprio jornal. A família deveria saber que a cama andava funcionando pela redação, e não tomou nenhuma atitude.

Isak Bejzman



Fim da união

Qual a diferença, hoje, no jornalismo de um repórter especial e um de "confiança"? Antes, lutava-se nas redações contra a censura. Donos de jornais e jornalistas estavam unidos. Hoje, quem ousa enfrentar a censura dos donos dos jornais? Como são escolhidos os diretores de Redação, os editorialistas? O reflexo dessas questões, creio, explicam o Caso Pimenta Neves. Teria este crime tratamento semelhante nos tempos de Cláudio Abramo ou Mino Carta?

Vital Battaglia, jornalista,



Ação civil

Não caberia uma ação civil publica (processo) contra a Globo a favor do cidadão, no caso da filmagem do depoimento do jornalista?

Mauro Campos de Oliveira



Abaixo-assinado

Na página do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo <www.sjsp.org.br>, na área Temas em Discussão/Justiça para Sandra Gomide, você encontra o texto do abaixo-assinado [ver a seguir] contra a farsa que se procura montar para criar atenuantes no julgamento do assassino de Sandra Gomide, Antônio Pimenta Neves. Abra-o e imprima, colha assinaturas e encaminhe para o Sindicato, rua Rego Freitas, 530, sobreloja, CEP 01220-010, Centro, SP, ou assine na página mesmo, para tanto, basta publicar uma NOTA com o seu nome, RG e e-mail. Estamos abrindo, também, uma lista de discussão sobre a luta.Angela Couto, jornalista, RJ angelac@domain.com.br

"Justiça para Sônia Gomide! Campanha de Saúde Pública Mental contra o Machismo, o Racismo, a Xenofobia, a Tortura e as "regras do jogo" que induzem ao crime, na Cultura e na Mídia! A exemplo do que ocorre na França, na Inglaterra e, agora, na Alemanha. Para que tenhamos uma sociedade mais civilizada e sadia, onde justiça signifique muito mais que vindita. Onde o respeito à vida seja um anseio e um direito individual e coletivo. E não mais um bem sempre vivido sob espúrias ameaças."




NOTA OFICIAL

O assassinato de Sandra Gomide

O Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo dirige-se à população de São Paulo e a todos os brasileiros para que se mobilizem e exijam justiça no caso da jornalista Sandra Gomide, assassinada pelo ex-diretor de Redação do jornal O Estado de S. Paulo, Antônio Pimenta Neves.Nesse sentido, e para que este não seja mais um caso de impunidade, o Sindicato está criando, juntamente com familiares da jornalista, colegas, cidadãos, entidades de defesa dos direitos da mulher e outras entidades da sociedade civil, a Associação Justiça para Sandra Gomide. Nossa luta é para que crimes como esse, que repete um roteiro tão conhecido – homem contrariado pela mulher resolve a pendência tirando-lhe a vida – deixem de existir.

Somos contra qualquer forma de opressão e de discriminação, favoráveis à vida, à igualdade entre homens e mulheres. Que seja feita Justiça!



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