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ÚLTIMA HORA – Atualizado em 12/9/2000
ASPAS 3
COMO FAZER...
Luís Nassif
"Manual de jornalismo", copyright Folha de S. Paulo, 09/09/00
"Um dos grandes desafios nossos, do jornalismo brasileiro atual, é a adaptação às novas formas de pensamento, rompendo com a linearidade que compõe o pensamento convencional. Por tal entenda-se o raciocínio linear, monofásico, a incapacidade da pessoa de conseguir ver mais do que um argumento da questão.
Em todas essas áreas, o ‘especialista’ – sujeito que se aprofunda só em um tipo de conhecimento- está sendo substituído pela pessoa com visão multidisciplinar, ou ‘sistêmica’, e as decisões individuais, por decisões colegiadas, para poder acabar com a ditadura da prioridade única.
Na imprensa brasileira, continuamos ferreamente presos a esse pensamento monofásico e, ao mesmo tempo, longe de incorrer no pecado dos especialistas, porque o fantástico show da mídia requer apenas o especialista em senso comum. Não viemos aqui para informar, mas para provocar emoções fortes, eis o lema.
Embalado nas lições dos mais experientes, o jovem jornalista sai da faculdade disposto ao seguinte decálogo para ser bem-sucedido:
1) nunca apresente mais que um ângulo da questão para não confundir o leitor. Jamais tente informar o leitor de que fulano, que cometeu determinado crime, pode ser um bom pai ou bom filho, porque vai confundir sua cabeça e parecer que você está tentando limpar a barra do acusado;
2) na hora de escrever sua reportagem, se você for repórter, exclua toda informação que possa atrapalhar a manchete forte, senão você não concorre à primeira página;
3) se for mancheteiro, jamais permita que uma reportagem bem-feita comprometa a grande sacada que você teve para a manchete principal;
4) o leitor quer jornalistas que não tenham dúvidas nem rabo preso com ninguém. Seja absolutamente parcial contra todos. Por exemplo, escrevendo uma reportagem sobre as eleições e desqualificando todos os candidatos e seus respectivos eleitores. Bons, só você e o seu leitor. Não se preocupe com argumentos. Seu leitor só merece adjetivos, mesmo;
5) nas suas reportagens, preocupe-se apenas com as conclusões, principalmente se não vierem embasadas em premissa nenhuma. Muita premissa obriga o leitor a pensar e, pensando, pode descobrir que seu texto tem a segurança dos ignorantes;
6) algum panaca pode vir com o preciosismo de achar que representar o leitor comum é compartilhar de suas preocupações, ir além, aprofundando suas dúvidas, trazendo elementos que ele, por comum, não perceba, e escrevendo de maneira a ser entendido por todos. Sua identificação com seu leitor tem que ir além disso: você tem que pensar que nem ele e jamais tentar avançar além do seu nível de conhecimento. Se seu leitor pode se confundir com aspectos de Direito, princípios de direitos individuais ou qualquer outro tema técnico, não corra risco de ser mal compreendido: mande a técnica às favas e jamais abra mão do senso comum. Assim, não permitirá que tecnicalidade nenhuma venha a romper essa ligação com o leitor, que lhe custou tanto conquistar;
7) homem que é homem não chora, jornalista que é jornalista não elogia;
8) se alguma iniciativa pode ser louvável, fuja da análise abrangente e fixe-se no detalhe que lhe permita exercer seu espírito crítico;
9) o que alguns consideram falta de escrúpulo ou falta de respeito a direito de terceiros, para você é o sagrado direito de o seu leitor poder admirar seu trabalho;
10) o leitor adora que se bata em arrogantes. Bata com toda a arrogância possível porque a arrogância é absoluta e prescinde de argumentos. Não se preocupe, porque arrogância, do lado da gente, é destemor.
Alguns colegas mais desanimados acham que esse estilo de jornalismo é inevitável no mundo moderno. Não é, não. É o último elo de ligação com um tipo de jornalismo anacrônico e pouco técnico, que a grande imprensa de outros países luta por abolir."
IMPRENSA vs. MST
Antony Devalle
"Stedile diz, na ABI, que grande imprensa está em guerra contra o MST", copyright Guia da Imprensa, 05/09/00
"A grande imprensa é uma das mais importantes frentes de guerra contra o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). No seminário ‘A Mídia e a Reforma Agrária’, realizado terça-feira, 5 de setembro no auditório da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), João Pedro Stedile, uma das mais expressivas lideranças do MST, debateu com jornalistas e estudantes de jornalismo as formas como os grandes conglomerados de comunicação censuram as informações relacionadas à luta pela terra e atuam de modo a estabelecer uma imagem negativa do movimento, preparando a chamada opinião pública para uma ‘aceitação’ dos assassinatos de sem-terra. Isso explica, segundo o coordenador do MST, o porquê de a mídia oligopolista brasileira desmoralizar tanto os sem-terra.
O presidente da ABI, Fernando Segismundo, abriu o seminário argumentando que ‘a grande mídia é inimiga das conquistas populares’ e que é necessário que cada jornalista reflita sobre um conflito que muitas vezes ocorre opondo uma ética pessoal a uma ética profissional. Numa carta oficial sobre o tema, a entidade defendeu que a reforma agrária seja urgentemente implementada. A realização do seminário ‘A Mídia e a Reforma Agrária’ foi uma iniciativa aprovada na última assembléia geral da ABI.
João Pedro Stedile considera que a grande imprensa ataca sistematicamente o MST porque o movimento traz novos valores e representa hoje uma alternativa popular aos modelos agrícola e de sociedade vigentes no Brasil. De acordo com ele, as elites brasileiras não querem fazer a reforma agrária, nem mesmo num molde capitalista, porque estão atreladas ao capital transnacional. A reforma agrária estaria na contramão do projeto neoliberal em que o Brasil se encaixa como economia subserviente ao mercado externo. A título de comparação, Stedile disse que enquanto no auge da mineração, foram sugados do Brasil 75 mil quilos de ouro (o equivalente a US$ 1 bilhão) durante duzentos anos, atualmente o país se vê espoliado em US$ 50 bilhões por ano.
João Pedro Stedile argumentou ainda que a reforma agrária é uma luta por um direito democrático, além do que a terra é uma dádiva da natureza a que todo ser humano deve ter acesso. Nesse sentido, o padre Geraldo Lima, da Comissão Pastoral da Terra, lembrou a campanha ‘Acabar com - 500 Anos de - Latifúndio: Repartir a Terra para Multiplicar o Pão’, que propõe uma emenda constitucional para estabelecer um limite máximo à propriedade da terra no Brasil. Um abaixo-assinado de apoio a essa iniciativa foi veiculado na edição de agosto da revista Caros Amigos. Falando ainda sobre a importância do plebiscito extra-oficial contra a dívida externa, Geraldo Lima perguntou ‘Onde estão os cristãos que não fazem com que o Ocidente se torne mais humano?’.
O jornalista José Arbex Jr., editor especial da revista Caros Amigos, disse que a mídia tece ‘uma cortina de fumaça muito bem urdida e bem tramada’ para moldar as consciências. Ele citou o programa ‘Você Decide’, da Rede Globo, para mostrar como a mídia opera no sentido de aprofundar os pré-conceitos que circulam na sociedade. A partir das respostas dos telespectadores – o programa apresenta uma história cujo final, entre dois propostos, deve ser escolhido pelo público – a TV Globo pôde traçar um perfil de opiniões da média da população a respeito de diversos assuntos. Essa espécie de catálogo de opiniões sem análise serve como mais um instrumento para a elaboração da linha editorial dos telejornais da emissora.
José Arbex Jr. utilizou a edição do jornal O Estado de São Paulo dessa terça para exemplificar a forma como a grande imprensa manipula as informações sobre o MST. Explicou que a manchete ‘Sem-terra diz que matou militante do MST’ induz o leitor a pensar que o movimento resolve as divergências internas a bala, pois somente quem lê a matéria tem condições de saber que o título se refere ao pistoleiro que assassinou dois sem-terra na fazenda de uma latifundiária, no Mato Grosso do Sul, e que esse pistoleiro não é proprietário de terra. Arbex ironizou a construção da manchete dizendo que uma parcela muito reduzida dos brasileiros possui terras. O editor especial da Caros Amigos ressaltou, no entanto, que O Estado de São Paulo não é uma exceção e que a censura e a manipulação dos fatos pela grande imprensa são sistemáticas.
O jornalista lembrou ainda o assassinato do sem-terra Antônio Tavares no Paraná, no dia 2 de maio, para ilustrar até que ponto a grande imprensa compactua com as classes dominantes. Pai de cinco filhos, Antônio Tavares foi morto aos 35 anos com um tiro no abdômen enquanto socorria um companheiro atacado por um cachorro da polícia. O presidente Fernando Henrique Cardoso declarou publicamente que a morte desse trabalhador era uma advertência à população brasileira. Arbex afirmou que percorreu as páginas dos jornais em busca de algum editorial que criticasse a declaração presidencial mas o que encontrou foram apenas ecos da afirmação. ‘Com essa frase, FHC transformou o Brasil num grande campo de concentração’, resumiu José Arbex.
Ele contou também que a Caros Amigos, uma das publicações que abre mais espaço para a reflexão acerca da reforma agrária, foi ano passado ao Paraná, a pedido de Stedile, a fim de apurar denúncias de perseguição política e tortura contra militantes do MST na região. A revista constatou que o governo estadual, aliado aos latifundiários, oprime de forma violentíssima os sem-terra, com policiais chegando inclusive a treinar tiro ao alvo sobre crianças de cerca de oito anos. Uma fita de vídeo entregue ao MST por um policial que teve crise de consciência desmente a versão oficial de que as violências não eram praticadas. Arbex se mostrou preocupado com o que provavelmente ocorre em regiões mais afastadas dos centros, como o Nordeste.
Para Mário Augusto Jakobskind, editor de internacional da Tribuna da Imprensa, a manipulação de conteúdos também é grave no jornalismo internacional. Ele citou a cobertura que a grande imprensa faz do presidente venezuelano Hugo Chávez como um exemplo disso. De acordo com Jakobskind, a mídia tenta associar Chávez às ditaduras militares. O jornalista argumentou que, apesar do presidente venezuelano haver de fato tentado um golpe de Estado em 1992, quando a mídia passa a idéia de que se trata de um ditador é com a intenção de desestruturar sua política de independência em relação aos Estados Unidos.
Para Mário Augusto Jakobskind, ‘o noticiário vem filtrado pelas agências internacionais’. Isso explica, segundo ele, porque a maioria dos jornalistas estrangeiros dispõem de poucas informações sobre o MST.
‘A não-presença da grande imprensa no auditório da ABI hoje demonstra a censura que os grandes meios de comunicação promovem’, afirmou Jakobskind, para quem o jornalista, que é um assalariado, deve sempre tentar atuar nas brechas do sistema e mesmo ampliá-las. O editor de internacional da Tribuna considera, porém, que a busca e a divulgação, por parte do jornalista, da verdade a respeito da luta pela terra no Brasil é difícil.
Mas setores da imprensa vêm contribuindo no sentido de combater a censura contra o MST. Além da Caros Amigos, um exemplo importante desse tipo de veículo é a revista Cadernos do Terceiro Mundo. Beatriz Bissio, diretora da revista, ouviu do próprio João Pedro Stedile que a publicação não só dedica especial atenção ao MST, como também é utilizada para fortalecer o sentimento de amor à América Latina entre os assentados.
Ela lembrou a importância de se pensar o jornalismo como um registro da história do cotidiano, criticando a falta de contextualização dos acontecimentos. ‘Podemos comparar a mídia àqueles espelhos de circo que deixam a pessoa exageradamente gorda ou magra. A mídia deturpa a realidade quando deveria espelhá-la sinceramente’, disse Beatriz. Em relação ao MST, ressalta a diretora, essa compreensão é indispensável, na medida em que o movimento é o grande protagonista das lutas sociais no Brasil e no Terceiro Mundo."
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