ÚLTIMA HORA – Atualizado em 15/01/2001


ROCK IN RIO
Pior do que a gororoba é a marmelada


Alberto Dines

A revista Veja chamou este 3º festival carioca de Rock de "gororoba sonora carioca" (edição 1682, de 10/01/01). O semanário da Abril é duplamente suspeito:

* Porque jamais conseguiu esconder certa má-vontade com o Rio.

* Porque o festival está sendo patrocinado pela AOL, grande concorrente do UOL (do qual a Abril detém participação acionária).

O conteúdo musical do evento é, efetivamente, uma mixórdia. Autêntica gororoba que, segundo o Aurélio, pode ser definida como comida mal feita ou como mistura indigesta de ingredientes. Mas essa discussão fica a cargo dos especialistas da área musical (veja os textos de Arnaldo Dines e Marcus Drummond).

O que nos interessa no caso é a enorme, gigantesca, marmelada jornalística que envolve a cobertura. Segundo o mesmo dicionário, além do doce, marmelada significa negócio desonesto, mamata, conluio. Da qual participam tanto os que badalam a favor como aqueles que, como Veja, torcem o nariz.

Mais uma vez ficaram evidentes os perigos que envolvem a associação de empresas jornalísticas com eventos comerciais. A cobertura de um veículo "dono" de um evento nunca será isenta. Seja um show, corrida de automóvel ou partida de futebol. O veículo fatalmente será obrigado a torcer e distorcer para favorecer os acionistas. O mesmo com relação à cobertura dos veículos concorrentes, cujos proprietários não têm o menor interesse em encher as burras do adversário. Seus interesses contrariados poderão estar desservindo os leitores.

Quando O Globo martela durante duas semanas consecutivas, no alto da primeira página, um evento do qual é parceiro comercial, está confundindo sua missão de informar a sociedade com imparcialidade, colocando-a a serviço de sua natural vocação para tomar conta do "mercado". Acontece que O Globo nunca está sozinho, está sempre muito bem acompanhado pela Rede Globo que manda nos corações e mentes da nação brasileira, pela Época, Globo.com etc. etc. O JB, modesto concorrente de O Globo, não tem outra saída senão a de tentar uma lambida na gororoba, também o empertigado Estadão. Mesmo o discreto muxoxo da Folha (que se considera dona do rock no Brasil e em geral toma todas as dores do UOL) não impediu que escancarasse a cobertura de um evento que ela sabe medíocre e, sobretudo, enganoso.

O Rock in Rio é o exemplo clássico do factoíde – o pseudo-fato magnificado ad infinitum e reiterado ad nauseam até que seja assimilado como fato inquestionável. Mas quando o fabricante de factóides não é um político, mas um veículo ou uma rede de veículos jornalísticos que obriga os demais a acompanhá-la, então compromete-se a credibilidade de uma instituição garantida pela Constituição.

A marmelada mediática (ou midiática, como reclamam alguns leitores) vem acompanhada de uma marmelada moral: essa coisa dos três minutos de silêncio para mudar o mundo é uma falácia. Xuxa, a garota propaganda do festival, não quer mudar o mundo. Xuxa e seus associados precisam que o mundo fique exatamente como está – entregue à ganância, imbecilizado, inculto, falsamente erotizado e entorpecido.

Este rock do Rock in Rio nada tem a ver com a banda sonora do Blackboard Jungle (1955, com Glenn Ford, direção de Richard Brooks, alguém ainda lembra?). É uma representação do que o mundo de hoje tem de pior – a comercialização de todos os valores, a conspurcação dos anseios juvenis, a transformação da música em som e ruído, a avacalhação da cultura, a entronização da violência camuflada como "arte".

Há muito tempo, talvez desde os tempos da ditadura, não se via tal exibição de cinismo e descaramento. Não se sabe o que é pior: ver George W. Bush assumindo a presidência dos EUA ou ouvir Xuxa acompanhada de outras estrelas globais cantando o refrão do evento:

"Se a vida começasse agora, se o mundo fosse nosso outra vez, se a gente não parasse mais de cantar..."

A gente quem, cara pálida?!

N.R.: Este texto foi escrito antes do incêndio que destruiu na última quinta-feira o cenário do programa Xuxa Park no Projac, deixando mais de 20 pessoas feridas. Sobre este assunto, leia a quarta nota do Imprensa em Questão.



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