O rock já foi mais safadinho
Marcus Drummond (*)
O Rock in Rio 3 é uma visão colorida e perfumada do Rock in Rio 1. Musica? Vou ouvi-la na Lapa. Mas estamos no ano 2001 e o mundo já não é o mesmo há muito tempo. Fusões, incorporações, clonagens, globalização, alimentação transgênica e uma penca de novidades mudaram a nossa maneira de ver as coisas, de se vestir e ouvir música, sentir as coisas.
Com o advento da informação digital, do wireless ,do GPS e outras novidades, em pouco tempo perderemos a noção do que é real e do que é virtual. Na verdade, grandes transformações ocorreram muito rapidamente. Na música não poderia ser diferente e eu até me arriscaria a dizer que os Beatles foram quem primeiro colocaram um smoking no velho e bom rock’n Roll.
Não estou falando de indumentária, obviamente, pois Bill Halley e Seus Cometas se vestiam muito bem. Mas, conceitualmente, depois dos cabeludos ingleses o rock passou a ler partituras e se infiltrou nas orquestras empertigado e de fatiotas.
A partir daí foi uma sucessão de roupas loucas, coloridas e algumas vezes maltrapilhas, entoando o estilo musical que tomou conta do mundo. Os Beatles tocavam canções genuinamente roqueiras e as mesclavam em seus discos com arranjos sinfônicos. Depois deles, a geléia virou Geléia Geral e sob um imenso guarda-chuva chamado rock’n roll abrigou-se uma filharada de estilos musicais, alguns puro-sangue, sem dúvida, e muitos mestiços. Um verdadeiro vale-tudo que gera cifras milionárias e que a garotada e alguns marmanjos gastam muita grana e energia para assistir.
É dentro deste contexto que, como músico, estou procurando analisar o Rock in Rio, inegavelmente um sucesso como megaevento, muito bem produzido e administrado por Roberto Medina.
O rock’n roll é atualmente o estilo musical que melhor se utiliza da estrutura do show business. O casamento perfeito, grandes investimentos e altos patrocínios acionam uma máquina que mobiliza multidões de jovens. Neste evento no Rio de Janeiro, embalados pelo refrão "Por um mundo melhor". Ironicamente, duas gerações atrás a juventude "caminhava e cantava", também por um mundo melhor.
Piegas, claro que sim, mas depois de andarem perdidos de caras pintadas por tanto tempo, é melhor estarem atentos a alguma coisa a mais do que apenas sexo, drogas e rock’n roll.
Afora a megalomania do Medina em querer que fosse decretado feriado nacional nos dias do festival, o Rock in Rio é o mais importante evento cultural desta temporada. Uma festa onde são esperadas mais de 250 mil pessoas por dia, com a apresentação de astros nacionais e internacionais de peso. Fica difícil a gente ser contra. É como a Copa do Mundo: tem gente que nem se toca com o futebol, mas no dia do jogo do Brasil está lá, grudadinho na televisão.
É a mesma coisa com este festival: rock’ n roll, argh!!! Mas, espera lá: tem o Milton Nascimento, o Sting, abertura com a Orquestra Sinfônica Brasileira, Tenda disso, Palco daquilo. Ué , não tem roqueiro, não?
Tem: Iron Maiden, Gun’s’Roses, R.E.M, Pepeu Gomes, Barão Vermelho, Red Hot Chili Peppers, vários artistas africanos, finlandeses e por aí vai. Agora, para ouvir tudo isso, vai ter que encarar a Sandy, que, aliás, é ótima cantora. Só que o rock já foi mais safadinho.
As coisas realmente mudaram muito desde o lamaçal de Woodstok. Um festival como o Rock in Rio é uma fábrica a todo vapor e está gerando muitos empregos, para várias categorias, até para alpinistas. Sem contar os recursos que serão destinados para obras sociais. Bom, aí se você me pergunta, como músico o que eu acho disso tudo, em termos musicais.
Ah! Deixa prá lá. Fock’n roll é pauleira, é diversão, é um jeito de viver a vida e haja tímpanos. Estou torcendo para que este evento seja mesmo um grande sucesso, "por um mundo melhor", vá lá ... Com muita música muita paz e amor, como nos velhos tempos.
Mas por favor: Sem Fogos de Artifício!
(*) Músico e economista
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