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ÚLTIMA HORA – Atualizado em 25/8/2000
CASO PIMENTA NEVES
Dois tiros nas redações
Alberto Dines
Foram disparados num haras, em Ibiúna, a duas horas de São Paulo. Cinco dias depois continuam ecoando, comovendo e angustiando as redações brasileiras.
Jornalistas acostumados a colocar-se acima das paixões, treinados no penoso mister de distanciar-se dos eventos transcendentais para avaliá-los com frieza, estão perplexos diante de uma história tão velha e tão trágica quanto a própria condição humana.
Cada matéria sobre o assunto é discutida, revirada, questionada. Porque o caso do covarde assassinato de Sandra Gomide, 32 anos, jornalista da área econômica, pelo ex-namorado Antonio Pimenta Neves, 63 anos, até aquela data diretor de Redação de O Estado de S.Paulo, não está previsto nos manuais.
Não há precedentes, aqui ou no exterior, de como cobrir uma tragédia deste porte e que radiografa de forma tão cruel as entranhas do universo jornalístico. Sobretudo, as relações de trabalho. Sobretudo, o processo de premiar e punir, promover e demitir.
Junto com a obsessão e o ciúme que levaram um dos jornalistas mais experientes e credenciados do país a cometer tamanho desatino está exposto pela primeira vez um dos ingredientes básicos de um processo que Sigmund Freud chamaria de "psicopatologia do cotidiano jornalístico": a onipotência.
E porque não havia precedentes – e porque, enquanto instituição, já pressentiu que está sendo observada por todos os ângulos –, a imprensa brasileira comporta-se até o momento com naturalidade. Se há constrangimento é pelo inusitado e, não, pelo impulso de esconder, manipular, acusar ou inocentar.
O Estado de S.Paulo, diretamente envolvido como cenário onde gestou-se a brutalidade, vem dando ao assunto um destaque que não daria se os protagonistas tivessem outra profissão. Isso desde o primeiro dia (edição da segunda-feira, 21 de agosto), com uma chamada na primeira página em que apresenta seu diretor como principal suspeito do crime. Publicou nota oficial no segundo dia e no quarto comunicou o afastamento do seu diretor.
A Folha (em cuja empresa o assassino confesso trabalhou e certamente deixou amigos), concorrente direto, tem noticiado o caso com bastante destaque e desenvoltura sem denotar qualquer envolvimento emocional para encobrir ou denegrir. Os colunistas, aparentemente, não foram orientados para omitir-se [veja, no Aspas desta rubrica, artigo de Barbara Gancia].
O Globo e TV Globo têm dado grande exposição ao crime e aos protagonistas no estilo e entonação apropriados aos veículos de grande circulação.
Se a cobertura da mídia impressa e televisiva está sendo ultrapassada e batida pela cobertura da cibermídia é porque nos últimos 20 anos desaprendemos a arte da reportagem policial, reproduzindo apenas boletins e releases oficiais. E como o jornalismo on-line está começando da estaca zero, reaprende a contar uma história policial [veja, nesta edição, artigo "Internet versus papel" e, no Aspas desta rubrica, matérias do no. e do iG].
Se dentro das redações dos principais veículos as matérias estão sendo examinadas com cautela – porque é a primeira vez que isto acontece –, para quem lê e conhece o caso o resultado é positivo.
O que falta discutir (e não será agora que isto vai acontecer) é o código de conduta para o caso de casamentos ou relacionamentos entre profissionais dentro da redação. Algumas empresas já haviam estabelecido em passado recente que casais não deveriam estar engajados no mesmo ambiente de trabalho. Recuaram porque se a cautela poderia prevenir dissabores privava uma redação de profissionais competentes só porque eram casados ou relacionados. Ao que consta nenhuma empresa jornalística voltou a adotar a proibição.
Mas o assunto não deveria ser descartado no foro pessoal. O fato de um profissional namorar outro profissional no mesmo nível não viola nenhum princípio funcional. Mas um(a) chefe namorar um(a) subordinado(a) cria uma situação embaraçosa e constrangedora capaz de gerar mal-entendidos. Se a empresa não interveio, se não há no Brasil Conselhos de Redação onde situações funcionais anômalas poderiam ser desativadas, cabe aos profissionais levar em consideração que ao lado da ética jornalística deve pulsar a ética funcional. Evitar-se-ão privilégios, injustiças.
E tragédias.
[Texto fechado às 17 horas de quinta-feira, 24/8]
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