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ÚLTIMA HORA – Atualizado em 25/8/2000
Internet versus papel
Luiz Antonio Magalhães
Comentários sobre a "revolução" que a internet está provocando na vida das pessoas já estão virando clichê. Quando o assunto é jornalismo, os profetas do apocalipse adoram assinar por antecipação o atestado de óbito dos jornais em papel. Analistas mais prudentes garantem que as duas mídias vão conviver por muito tempo, quem sabe para sempre.
Enquanto o futuro não chega – e no Brasil parece que vai chegar mais tarde –, melhor analisar o presente. O caso do assassinato da jornalista Sandra Gomide é uma ótima oportunidade para comparar o desempenho dos jornais tradicionais com a mídia eletrônica.
Até o fechamento desta edição (quinta-feira, 24/8, no início da noite), a parcela da população com computador, modem e linha telefônica tinha a seu dispor mais informações sobre o que aconteceu no Haras Setti do que os sem-internet. De maneira geral, quem navegou nos principais sites de notícias durante a semana passada pôde conhecer detalhes sobre o crime que os jornais não publicaram.
Para não cometer injustiças, vamos comparar aqui o desempenho os dois principais diários paulistanos – Folha de S.Paulo e O Estado de S.Paulo – com os sites de notícias Folha Online, Agência Estado, Último Segundo e no. (este, de "notícia e opinião")
O assassinato no papel
A cobertura dos dois jornais foi muito parecida, a começar pelo destaque dado ao assassinato da jornalista. Ambos chegaram a noticiar o caso na primeira página, mas o assunto não apareceu na capa dos cadernos em que eram publicadas as reportagens – Cotidiano, na Folha, e Cidades, no Estado.
O leitor do Estadão, até quinta-feira passada, não teve a chance de conhecer a cara do acusado pelo crime nem a da vítima: o jornal não publicou fotos de seu ex-diretor de Redação e de sua ex-editora de Economia. A Folha também agiu com cautela: uma pequena foto de Sandra Gomide saiu na edição de terça-feira. O rosto de Pimenta Neves só apareceu na quinta-feira. Nunca é demais lembrar o modo afoito com que os mesmos jornais publicaram fotos dos "assassinos" do Bar Bodega, que o tempo revelou serem inocentes.
O conteúdo das reportagens dos dois jornais também foi muito parecido. Em ambos, note-se, as matérias não foram assinadas. No primeiro dia da cobertura (segunda-feira), o leitor da Folha e do Estado foram brindados com os currículos de Pimenta e Sandra, mais um relato sucinto do que se presumia ter acontecido no Haras Setti. Na terça, o destaque foi para o enterro da jornalista e para o pedido de prisão preventiva de Pimenta. Nesse dia, o Estadão publicou uma nota oficial da direção da empresa, reproduzida também na Folha [veja íntegra abaixo].
Na quarta-feira, as diferenças entre os jornais concorrentes começaram a surgir, apenas no que diz respeito ao conteúdo – a discrição da cobertura continuou. Enquanto o Estado destacou, no alto da primeira página, a tentativa de suicídio de Pimenta, a Folha preferiu dizer que o jornalista fora internado no hospital Albert Einstein "devido a intoxicação causada por ingestão excessiva de tranquilizantes". A palavra suicídio não apareceu na Folha. De resto, as informações se repetiam.
Na quinta-feira, o tom continuou diferente. O Estado destacou a entrega da arma do crime pelo advogado de defesa e, em pequeno box, a tese, atribuída ao advogado da família de Sandra, de que a internação de Pimenta era uma estratégia da defesa. Na Folha, o destaque foi para o "assassinato hediondo", segundo o promotor encarregado do caso e para a suspeita de manobra da defesa no episódio da internação do jornalista.
É interessante ainda notar que, à exceção de Barbara Gancia e José Simão, da Folha, os colunistas dos dois jornais se abstiveram de comentar o episódio. A discrição foi mesmo o tom da cobertura.
Sangue na internet
Quem teve a chance de acompanhar o assassinato de Sandra Gomide pela internet saiu ganhando. Os sites de notícias se mostraram bem pouco discretos em relação aos jornais. Na noite de domingo, horas depois da morte da jornalista, a rede já estava repleta de notícias sobre o acontecimento.
Os internautas conheceram a cara de Sandra e de Pimenta Neves antes dos sem-rede: já na segunda-feira, a Folha Online e o Último Segundo publicaram diversas fotos dos dois jornalistas.
O maior diferencial da cobertura dos sites, porém, não foi rapidez. Foi informação.
Na internet, o público ficou sabendo da existência de um terceiro personagem na trama, o jornalista e diretor-geral do jornal equatoriano Hoy Jayme Montilla. De acordo com reportagem publicada no site no., Montilla seria o pivô do crime: "O flerte de Sandra Gomide com Jayme Montilla, proprietário do terceiro maior jornal do Equador, é considerado pela polícia o estopim de seu rompimento com Pimenta Neves. Há intensa troca de emails entre Sandra e Jayme, que ela conheceu numa viagem profissional a Quito em maio", escreveu a repórter Angélica Santa Cruz. Na Folha Online e no Último Segundo, os leitores tomaram conhecimento de uma nota do jornalista equatoriano negando o envolvimento com Sandra Gomide. Nada disso saiu na Folha ou no Estadão.
Para demonstrar a goleada dos sites sobre os jornais, mais alguns fatos que só apareceram na internet:
Campanha de difamação - "[Pimenta Neves] andava armado pelas instalações do jornal e lançou-se em uma campanha ostensiva de difamação da ex-namorada Sandra Gomide (...). Espalhou para jornalistas que Sandra recebia dinheiro do dono da Vasp, Wagner Canhedo, para censurar reportagens sobre outras companhias aéreas. Falava também em uma gravação na qual ela tentava conseguir de graça, usando de seu cargo no jornal, uma passagem da companhia para o Chile." (no.)
Censura à Globo - "[Pimenta Neves] passou a censurar reportagens sobre a TV Globo, apenas porque duas amigas de Sandra trabalhavam na assessoria de imprensa da emissora. A capa do último caderno Telejornal, por exemplo, seria a minissérie Aquarela do Brasil, que estréia nesta semana. Por ordem dele, foi retirada da pauta, e nem uma pequena menção foi permitida. O veto à Globo durou uma semana." (no.)
Quem hospedou Pimenta Neves - Segundo o site no., o jornalista esteve hospedado na casa do advogado do Estadão Manoel Alceu Afonso Ferreira, que negou o fato em nota oficial. Depois que o jornalista foi internado no Albert Einstein, o Último Segundo divulgou a notícia de que Pimenta fora levado ao hospital pelo publicitário Ênio Mainardi, que teria oferecido um apartamento de sua propriedade para Pimenta se esconder.
Demissão de repórter - " [Pimenta Neves] continuou a dar sinais de descontrole. Demitiu, por exemplo, o repórter Carlos Franco. Motivo: soube que o jornalista havia ajudado Sandra a arrumar emprego no site Patagon. Tamanho era o descontrole do diretor, que, no dia seguinte, ele chegou a esquecer da demissão e perguntar pelo repórter." (no.)
Telefonemas depois do crime - " Depois do assassinato, Pimenta deu vários telefonemas para a redação do jornal. (...) Também ligou para um repórter e pediu que checasse com a Polícia Civil se Sandra tinha realmente morrido. Depois de certificar-se de que estava morta, telefonou também para Otavio Frias Filho, diretor de redação da Folha de S.Paulo. Para Frias, seu amigo, não pediu favor nenhum no sentido de aliviar o noticiário." (no.)
Sucessão do diretor de redação - " A tragédia de domingo acirra a batalha política na briga pelo poder dentro do Grupo Estado. Com a saída de Antônio Pimenta Neves, quem vai substituí-lo na direção do diário é Fernão Mesquita, ex-diretor do Jornal da Tarde - o que só alimenta a disputa familiar pelo controle do maior jornal do grupo." (no.)
Os sites não venceram a batalha apenas no campo da informação. Há muito mais opinião sobre o caso na internet do que nos jornais. É interessante notar que tanto a Folha como o Estado de S.Paulo não se interessaram em ouvir jornalistas e editores a respeito do episódio, como costumam fazer em coberturas de eventos polêmicos. Na internet, era possível ler a opinião, entre outros, de Augusto Nunes, Alberto Dines, Fritz Utzeri, Míriam Leitão e do provável substituto de Pimenta Neves (até o fechamento desta edição, o Estado não havia confirmado oficialmente a troca de comando), Fernão Mesquita – para quem a contratação de Sandra por Pimenta para o Estadão foi uma "violência ética".
Que os sites disponibilizem mais informação dos que os jornais impressos é até natural, em função do espaço quase que ilimitado na rede mundial. A omissão de informações importantes por parte dos dois maiores diários de São Paulo, porém, pode não estar relacionada apenas com a questão de espaço. Resta saber, então, por que a goleada foi tão grande em favor dos sites. A questão é ainda mais intrigante se lembrarmos que Folha Online e Agência Estado são "irmãos" digitais da Folha de S.Paulo e do Estado de S.Paulo. O que o público da internet tem de diferente para merecer, por parte desses grupos de comunicação, tratamentos tão diferentes? Está criada a divisão dos sem e com internet?
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