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ÚLTIMA HORA – Atualizado em 25/8/2000
Lições do drama
Victor Gentilli
Um diretor de redação mata uma editora com a qual mantinha um vínculo afetivo de mais de três anos. A cada nova informação que chega às redações, mais lições. O drama atinge a todos, não adianta fingir. Evidente, a jornalista morta é a maior vítima, mas o conjunto de lições que o episódio traz é inesgotável. Cada ângulo de análise permite perceber uma nova questão.
Um fato real da vida corporativa alcançou o status de manchete. Todos noticiam, mas os cuidados nunca deixam de se evidenciar. O suposto criminoso continuou "suposto" por muitos, mesmo depois que o advogado informou que ele assumiu a autoria.
Os limites entre vida privada e vida pública que o sistema midiático insiste em desconhecer aparecem dolorosamente neste fato real, privado e indiscutivelmente noticiável.
Enquanto a Rede Globo alcança piques de audiência com a exposição de pessoas alegadamente "no limite", um diretor de redação teria escrito uma mensagem privada admitindo "não ter limites".
E o fato torna-se público.
A ultrapassagem dos limites humanos é feita, de verdade e na realidade, haja drama e ironia, por um respeitável diretor de redação de um jornalão.
A biografia e o currículo de Antônio M. Pimenta Neves jamais serão os mesmos, seja qual for o desfecho judicial do episódio. Mas sua contribuição à história da imprensa brasileira contemporânea não pode ser esquecida.
A imagem que a imprensa faz da jornalista Sandra Gomide – indispensável registrar – não corresponde à realidade. É significativo o fato de nenhuma publicação ter uma foto recente da jornalista assassinada. Ela não era e não pretendia ser uma pessoa pública. As fotos de Sandra Gomide expostas nos jornais certamente têm mais de dez, senão quinze anos.
Ora, um profissional de direção com 62 anos envolve-se afetivamente com uma profissional cuja idade é aproximada daquela de suas filhas. E a imagem pública da vítima ainda aparece muito mais jovem do que efetivamente era.
Pimenta e Sandra são reais, vivo e morta. As imagens de Pimenta e Sandra expostas à opinião pública pelos seus colegas de profissão expõem, com uma nitidez surpreendente, os limites de uma profissão que trabalha sempre no limite.
Algumas lições parecem terem sido imediatamente apreendidas. Outras, insistem dolorosamente em bater na alma de cada um.
As vísceras expostas pelo crime conformam aqueles truques do cotidiano profissional que não poderiam se tornar públicos. O crime exigiu que os jornais praticassem meta-jornalismo. Jornais e jornalistas se viram constrangidos a expor, a exemplo de Mister M, os truques que tornavam a profissão fascinante.
O fascínio do jornalismo que jamais algum jornal ou jornalista permitiu manchar tornou-se dolorosamente humano, com seus vícios e pecados expostos à exaustão e levados ao paroxismo.
Passado o furor noticioso, as práticas profissionais retornarão às suas rotinas. As lições estão aí, disponíveis para quem desejar aprender com o episódio.
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