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ÚLTIMA HORA – Atualizado em 25/8/2000
CARTA À OMBUDSMAN
Por que cancelei minha assinatura
Maria Otilia Bocchini
Querida Renata. Tenho enviado a você, de vez em quando, observações sobre a qualidade do jornal e não tenho do que me queixar quanto à acolhida e aos encaminhamentos de sua parte. Até assinei o jornal há um ou dois meses. Mas, a cobertura não tem mostrado uma qualidade mínima que justifique o que custa o jornal para o assinante, de forma que acabo de cancelar a assinatura.
A gota d'água foi a "reportagem" sobre o assassinato da jornalista Sandra F. Gomide, que optou por substituir os simples fatos pelo endeusamento do currículo do suspeito e pelo linchamento moral da morta. Há muito tempo eu não via tanto preconceito e machismo. Não conheço as personagens. Fico sabendo, pela Folha, que enquanto ele dirigiu, foi e aconteceu, ela foi promovida, contratada, demitida, passou, chegou a tal cargo, sempre pela mão do suspeito, "durante seu relacionamento" com ele. A vida profissional dele acontece em determinados anos; a dela, em tal ou qual pedaço do relacionamento. Sugere-se que ela era uma incompetente, elevada a altos cargos por dormir com o chefe. Sugere-se que ele demitia subalternas por não mais dormirem com ele.
Ele disse a amigos que o comportamento profissional dela não era ético. Que amigos a Folha ouviu? Se ouviram, porque ficam na sombra? Ela afirmava tal e tal coisa ao delegado. A ação dele é pretérito perfeito. O que ela disse vem manchado pela dúvida do pretérito imperfeito. Na Folha, a morta não tem currículo, só tem atuação profissional dependente da relação amorosa. No Estadão, ela é uma pessoa com vida própria, com currículo, estudos, fatos e anos. O Estadão dá o currículo do suspeito e deixa ao leitor a tarefa de avaliar se é notável.
Ameaçar e matar uma mulher desarmada não melhora o currículo de ninguém. É um crime bárbaro, hediondo. Mais ainda se se comprovar a premeditação, como parece sugerir a ameaça comunicada à polícia e o porte da arma. O risco de morrer estava claro para a vítima (que denunciou a ameaça) e para a família, que estaria providenciando outro endereço para a moça. O episódio nos faz refletir sobre a absoluta falta de ação da polícia para proteger pessoas ameaçadas. A violência de namorados, maridos e companheiros contra as mulheres, chamada violência sexista, ainda campeia solta, apesar das delegacias especializadas e dos esforços dos movimentos de mulheres.
Não é à toa que em mais de 150 países do mundo, e também no Brasil, as mulheres estejam realizando neste ano a Marcha Mundial de Mulheres contra a Pobreza e a Violência Sexista. Esteja certa de que usarei os textos da Folha e do Estadão sobre o assunto, em minhas aulas de Edição de Texto, no Departamento de Jornalismo e Editoração da ECA- USP. Os estudantes precisam ter clareza sobre o que se pode fazer com as palavras e o quanto as palavras revelam sobre as posturas ideológicas de quem as usa.
Agradeço sua atenção. Espero que você consiga, com suas críticas, melhorar esse jornal em que trabalha. Espero que você consiga ver algum balanço positivo ao final do período como ombudsman. Um abraço carinhoso.
(*) Professora do Departamento de Jornalismo e Editoração da ECA- USP
MAIS CARTAS
O suspeito como suspeito
Os jornalões de São Paulo fizeram o que sempre deveria ser feito. Tratar suspeito como suspeito. Mas não é sempre assim. No caso, um ilustre jornalista, mesmo diante de vários relatos, foi tratado como suspeito. Os cidadãos comuns deveriam receber o mesmo tratamento no dia-a-dia das redações. Não raras vezes, uma simples suspeita serve para derrubar toda uma história particular de vida. Que todos sigam o exemplo deste assassinato. Vale lembrar o triste caso da Escola de Base.
Lúcio Pérez, jornalista, Belo Horizonte
Cortando a própria carne
É digna de nota a maneira como a imprensa vem tratando o lamentável episódio. A edição do Estadão da segunda-feira, 21 de agosto, estampou uma discreta manchete na primeira página: "Diretor do Estado é suspeito de assassinato". E a matéria, de um fato dramático envolvendo o próprio diretor de Redação do jornal, começa com a expressão: "A jornalista Sandra Gomide, de 32 anos, perdeu a vida ontem, por volta das 14 horas, no Haras Setti, em Ibiúna (SP)". O jornal abriu mão, no lead, do termo "foi assassinada", e optou por "perdeu a vida", bem menos dramático e sem o tradicional emocionalismo que acompanha as notícias policiais.
Pimenta Neves é tratado na matéria como "suspeito" do crime – isso apesar do relacionamento tumultuado dele com a vítima, das ameaças deixadas na secretária eletrônica de Sandra Gomide, do testemunho de diversas pessoas que estavam no haras etc. E a condição de "suspeito" não é dita diretamente pelo jornal, mas numa citação de palavras do irmão da vítima. A mesma cautela em tratar Pimenta Neves como "suspeito", "suposto assassino", "acusado" foi observada em outros meios de comunicação. Há algo de errado nisso? Muito pelo contrário. A cobertura sem emocionalismo, discreta, até certo ponto "fria", do caso Pimenta Neves–Sandra Gomide deveria ser a norma de procedimento da imprensa em situações semelhantes.
Infelizmente, não é isso o que ocorre. Um suspeito, dependendo de quem seja, é logo transformado em assassino, ladrão, assaltante. O princípio de que ninguém deve ser considerado culpado sem a condenação da Justiça é constantemente desrespeitado pela imprensa. O famoso caso da Escola de Base, em São Paulo, é um dos exemplos mais evidentes. Os indícios podem apontar que Pimenta Neves é o assassino de Sandra Gomide, mas ele deve ainda ser tratado como "suspeito" ou "suposto assassino" porque ele simplesmente ainda está nessa condição – não confessou oficialmente o crime nem foi condenado pela Justiça. A questão é: por que ele recebe esse tratamento, digamos, "privilegiado" da imprensa? E se o principal "suspeito" do crime fosse o José de Tal? Acusado de assassinar uma jornalista, teria o mesmo tratamento? O caso Pimenta Neves pode ser uma boa oportunidade para reflexão.
Por uma infeliz peça pregada pelas circunstâncias, o suspeito de assassinar Sandra Gomide é um profissional respeitado da imprensa, diretor de Redação de um dos mais respeitados jornais do país. E a coisa complica quando é preciso cortar a própria carne.
Adriano Rodrigues de Faria
O que é "pessoa de bem"?
Um homem na faixa dos 60 anos de idade, com uma sólida carreira profissional, respeitado em seu meio e sem antecedentes criminais seria um exemplo de "pessoa de bem". Seria "pessoa de bem" uma etnia, uma raça superior, ou o quê? Desde o começo desta polêmica a respeito da proibição/restrição ao porte de armas que ouço as mais variadas manifestações a favor e contra. Nas manifestações contra, quase em todas, senão em todas, é usado o termo "pessoas de bem", alegando que as tais não deveriam estar privadas do porte de armas por serem o que a expressão diz: pessoas de bem.
De acordo com a "tese" da "pessoa de bem" não haveria casos como o do jornalista Pimenta Neves, nem haveria muitos outros casos de réus primários. Na verdade nenhum de nós, em sã consciência, é capaz de dizer, avaliar ou imaginar por quais caminhos nossa vida nos levará e quais as atitudes que tomaremos. Surpreendemo-nos constantemente conosco, para melhor e para pior também. Portanto, se não somos capazes disso em relação a nós mesmos, que dirá dos outros.
Aos senhores comunicadores/jornalistas peço também a devida atenção para que quando em suas entrevistas tais termos/expressões, como este em questão, forem citados, questionem o entrevistado pedindo definição do tal termo/expressão utilizado.
Márcia Cruz Lima
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