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ÚLTIMA HORA – Atualizado em 25/8/2000
CASO PIMENTA NEVES, ENTRE ASPAS
CNN
"Jornalista é assassinada a tiros em São Paulo", copyright CNN, 20/8/00
"A jornalista Sandra Gomide, de 32 anos, foi assassinada no domingo [20/8] à tarde, por volta das 14 horas, com dois tiros – um na cabeça e o outro nas costas –, no Haras Setti, em Ibiúna, no interior do estado de São Paulo.
A polícia suspeita do jornalista Antônio Marcos Pimenta Neves, de 63 anos, diretor de redação do jornal O Estado de S. Paulo, como o autor do crime.
Pimenta e Sandra tiveram um relacionamento amoroso de quatro anos, rompido há cerca de um mês, na mesma época em que o diretor de O Estado demitiu Sandra do cargo de coordenadora da editoria de economia do jornal.
Até o final da noite de domingo, o suspeito não havia se apresentado à polícia. O delegado de Ibiúna, José Chaves, afirmou que nenhuma testemunha assistiu ao crime, mas acrescentou que há ‘evidências que indicam Pimenta como o assassino’.
‘Pessoas que estavam no haras disseram ter ouvido gritos de Sandra, encontrado a jornalista morta e visto Pimenta dar partida em seu carro’, disse Chaves.
O irmão de Sandra, o corretor de seguros Nilton Gomide, garantiu que pessoas que estavam no haras ouviram a vítima gritar ‘Não, não Pimenta’, instantes antes de ser assassinada.
O proprietário do haras, que se identificou apenas como Deomar, recusando-se a revelar seu sobrenome, disse que Pimenta havia chegado ao local por volta das 7 horas da manhã, apanhado um cavalo de sua propriedade e saído para cavalgar.
No início da tarde, ainda segundo Deomar, foi a vez de Sandra chegar ao haras, onde ela mantinha dois cavalos.
Pouco depois, teria havido a discussão que terminou no assassinato da jornalista.
Há 10 dias, Sandra havia registrado queixa no trigésimo-sexto Distrito Policial de São Paulo (no bairro do Paraíso) contra Pimenta, acusando-o de invasão de domicílio e agressão.
O jornalista, segundo amigos, estava deprimido com a situação de saúde de uma de suas filhas gêmeas. As filhas moram com sua ex-mulher, nos Estados Unidos."
Angélica Santa Cruz e Morris Kachan
"A notícia de um crime", copyright no. <www.no.com.br>, 21/8/00
A tragédia do Haras Setti, ocorrida na tarde de domingo passado, vinha sendo anunciada há pelo menos um mês na redação do O Estado de São Paulo. No trabalho, o diretor de redação Antônio Marcos Pimenta Neves, de 63 anos, dava sinais cada vez mais frequentes de descontrole. Andava armado pelas instalações do jornal e lançou-se em uma campanha ostensiva de difamação da ex-namorada Sandra Gomide, de 32 anos, ex-editora de Economia. Espalhou para jornalistas que Sandra recebia dinheiro do dono da Vasp, Wagner Canhedo, para censurar reportagens sobre outras companhias aéreas. Falava também em uma gravação na qual ela tentava conseguir de graça, usando de seu cargo no jornal, uma passagem da companhia para o Chile. A obsessão de Pimenta Neves acabou por interferir até nas reportagens do diário. Ele passou a censurar reportagens sobre a TV Globo, apenas porque duas amigas de Sandra trabalhavam na assessoria de imprensa da emissora. A capa do último caderno Telejornal, por exemplo, seria a minissérie Aquarela do Brasil, que estréia nesta semana. Por ordem dele, foi retirada da pauta, e nem uma pequena menção foi permitida. O veto à Globo durou uma semana.
Hospedado na casa do advogado do Estadão Manoel Alceu Afonso Ferreira, Pimenta responde a qualquer pergunta sobre o asssassinato fazendo ‘não’ com a cabeça. Não se defende nem se diz culpado.
De acordo com a família de Sandra Gomide, ela vinha sofrendo ameaças de morte há pelo menos um mês. Há duas semanas, registrou um boletim de ocorrência no 36 DP, no Paraíso, por agressão e invasão de domicílio. Sandra contou aos policiais que chegou em seu apartamento, na Vila Mariana, e encontrou Pimenta Neves mexendo no seu armário, com uma arma nas mãos. Durante pelo menos quinze minutos, ele tirou e colocou o revólver na cintura. Ameaçou matá-la. Disse que se mataria. Segurou a namorada pelos braços, sacudiu seu corpo e gritou ‘você vai voltar pra mim! Se não voltar, eu me mato. Ou mato você!’. Depois, vasculhou gavetas do armário e pegou de volta as jóias que havia dado de presente para ela. Ainda com o revólver na mão, foi embora. Sandra telefonou para uma amiga e as duas foram prestar queixa na delegacia. Na volta, trocou a fechadura da porta. As ameaças, no entanto, continuaram. O jornalista mandou emails ameaçadores para a ex-namorada e deixou recados na secretária eletrônica. Na última quinta-feira, Sandra telefonou para um amigo do jornal da casa de uma vizinha. Disse para ele que tinha certeza de que seu telefone estava grampeado. ‘Ela estava apavorada. Pensava em sair de São Paulo e até do País para livrar-se da brutalidade desse homem’, conta o irmão de Sandra, Nilton Gomide.
Nos dias que antecederam à tragédia, Pimenta estava transtornado. Comentava-se na redação do jornal que ele estava a ponto de se matar. Um velho amigo dos tempos em que Pimenta foi correspondente do Estado, da Folha de S.Paulo e da Gazeta Mercantil em Washington chegou a convidá-lo para uma viagem. Sugeriu os Estados Unidos, mas ele se recusou. Falou da intenção de matá-la para acabar com o mal que estava lhe atormentando. ‘Eu posso até ir com você para não perder sua amizade’, concluiu, ‘mas volto no primeiro avião para cá para matá-la’.
Foram pelo menos cinco semanas de clima terrível dentro do jornal. Pimenta enlouquecia, e depois pedia desculpas. Nesses dias, foi desenvolvendo uma obsessão: qualquer pessoa que entrava em sua sala, desandava a falar sobre os seus problemas de relacionamento com Sandra. Dizia, por exemplo, que o pai dela devia dinheiro a ele. Há um mês, depois de ter jantado com Sandra na noite anterior, decidiu demiti-la. Ela foi informada pela manhã e foi almoçar com amigos no refeitório. Quando começou a falar sobre o assunto, perdeu o controle e começou a gritar que não aguentava mais essa situação. No exame demissional Sandra disse à psicóloga que estava sendo demitida porque acabou o namoro com o diretor de redação. Por causa da denúncia, o departamento de Recursos Humanos da redação fez um relatório e encaminhou para a direção do jornal. O diretor do Grupo Estado Ruy Mesquita chamou Pimenta Neves para uma conversa. O jornalista negou as ameaças. Ainda assim, pediu demissão. Ruy Mesquita não aceitou e aconselhou o jornalista a fazer um tratamento psicológico. De acordo com nota emitida pela direção do jornal, Pimenta Neves submetia-se a acompanhamento psicológico. Ainda assim, continuou a dar sinais de descontrole. Demitiu, por exemplo, o repórter Carlos Franco. Motivo: soube que o jornalista havia ajudado Sandra a arrumar emprego no site Patagon. Tamanho era o descontrole do diretor, que, no dia seguinte, ele chegou a esquecer da demissão e perguntar pelo repórter.
Pimenta ficou revoltado com o depoimento de Sandra Gomide à psicóloga da empresa. Tentou provar que sua demissão era fruto de falta de ética. Então leu uma carta assinada por ele e Ruy Mesquita, na qual se dizia que ela foi demitida por ter retido uma informação em favor da Vasp - e que tivera um desempenho insatisfatório como repórter especial, apesar de ter sido promovida antes por duas vezes. Nesta carta, dizia ainda que ela botava os pés na mesa, notória descortesia, e que não cumprimentava as pessoas. Eram acusações pesadas e Sandra jamais teve a mínima chance de se defender.
Pimenta tinha fama de prepotente, mas nada que fosse muito além do papel de quem ocupava um dos postos mais importantes do jornalismo do País. Nunca teve o estilo de quem toma atitudes impensadas. Fora do prédio que abriga os jornais O Estado de S. Paulo e Jornal da Tarde, na Zona Norte da capital, sua vida era tida como um mistério até para os conhecidos mais próximos. Vivia praticamente sozinho. Recebia visitas raras e de pouquíssimos amigos. A relação de Pimenta com as mulheres nunca foi pautada pelo respeito. Sua primeira mulher, a americana Carol - com quem tem duas filhas gêmeas de 28 anos -, tem um vasto currículo de agressões físicas e verbais sofridas durante discussões com o ex-marido. Acabaram se separando. Com Sandra não foi diferente.
Depois do rompimento da relação que durou três anos, ele ficou ainda mais violento. Diante da família de Sandra, o jornalista também começou a adotar comportamento estranho. Chegou a telefonar para o pai da ex-namorada, João Florentino Gomide, falando que, apesar do fim do namoro, a amizade entre eles seria muito forte. ‘Eu mal o conhecia’, disse Florentino ontem , durante o enterro da filha. Um dia depois de ligar para a família de Sandra , Pimenta Neves foi até Ibiúna procurá-la. Esteve duas vezes no sítio de seus pais. De manhã, passou para tomar um chá - e acabou ficando para almoçar. À noite, voltou sob o pretexto de levar pães. ‘O tempo inteiro, ele demonstrava ansiedade, parecia estar esperando minha filha’, conta o pai.
Na manhã do dia seguinte, Pimenta Neves chegou cedo ao Haras Setti, onde Sandra costumava montar. Apareceu tenso, dirigindo um Clio, carro que raramente usava. O dono do lugar Deomar Setti, o Gaúcho, ainda o convidou para almoçar. ‘Ele recusou e foi andar a cavalo’. Por volta das 14 horas, Sandra chegou ao haras, junto com as sobrinhas de oito e doze anos. As garotas foram andar pelo lugar e Sandra foi até a selaria. Setti e sua família, que faziam um churrasco a poucos metros dali, ouviram uma discussão; Sandra gritou ‘Não, Pimenta. Não’. Em seguida, o barulho de dois tiros. Setti correu até a selaria e encontrou o corpo de Sandra no chão. Do lado de fora, Pimenta Neves manobrava o carro para sair. Dez minutos depois de sua fuga, o irmão da jornalista chegou ao haras. ‘Esse homem perseguiu e abateu minha irmã como se faz com uma caça’, disse ele.
Depois do assassinato, Pimenta deu vários telefonemas para a redação do jornal. Suas frases pareciam proferidas por alguém em surto psicótico. Dava a entender que nem sabia o local onde estava naquele momento, citava estradas de terra mas tinha dificuldade em estabelecer pontos de referência. Também ligou para um repórter e pediu que checasse com a Polícia Civil se Sandra tinha realmente morrido. Depois de certificar-se de que estava morta, telefonou também para Otavio Frias Filho, diretor de redação da Folha de S.Paulo. Para Frias, seu amigo, não pediu favor nenhum no sentido de aliviar o noticiário.
A tragédia de domingo acirra a batalha política na briga pelo poder dentro do Grupo Estado. Com a saída de Antônio Pimenta Neves, quem vai substituí-lo na direção do diário é Fernão Mesquita, ex-diretor do Jornal da Tarde - o que só alimenta a disputa familiar pelo controle do maior jornal do grupo. Entre a alta cúpula do Estadão, é sabido que Pimenta ocupava um posto estratégico nesta briga, justamente por não fazer parte da família. Sem esse homem forte, está aberta a temporada de briga pelo poder. Comenta-se que Ruy Mesquita teria tentado encorajá-lo a tirar uma licença, mas Pimenta não teria topado também por saber que Fernão o substituiria. Na noite do crime, todos esses personagens estavam sentados em torno da mesma mesa, discutindo como o jornal abordaria a notícia - e também acertando detalhes da estratégia de defesa de Pimenta. Para isso, convocaram às pressas o criminalista Antônio Claudio Mariz de Oliveira. Na avaliação do advogado, a defesa será difícil, justamente porque há vários elementos de premeditação. Na tarde de ontem, foi decretada a prisão preventiva de Pimenta Neves. Ele deve se apresentar amanhã ou depois.
O corpo de Sandra Gomide foi enterrado na tarde de ontem, no cemitério do Horto Florestal, em São Paulo. O cortejo foi acompanhado por cerca de 40 pessoas. Na hora de se despedir da filha, João Florentino debruçou-se sobre o caixão: ‘Eu tinha que saber que isso ia acontecer. Devia ter me colocado no seu lugar, minha filha’. Enquanto isso acontecia, Pimenta Neves ligou para Ruy Mesquita lamentado o fato, e dizendo que não quer envolver o jornal na história. O dono do jornal, quase chorando, em reunião hoje com os editores, disse que fez de tudo para Pimenta tirar licença médica.
O Estado de S. Paulo
"Nota oficial da empresa", copyright O Estado de S. Paulo, 22/8/00
"Consternada pela tragédia que envolveu dois de seus amigos e funcionários, a editora Sandra Gomide e o diretor de redação do jornal O Estado de São Paulo, Antonio Pimenta Neves, no último domingo, a redação de O Estado e a diretoria do Grupo Estado têm a declarar que:
1 - Lamentam profundamente o ocorrido e manifestam suas condolências à família de Sandra Gomide;
2 - Na manhã desta segunda-feira, o diretor Ruy Mesquita recebeu um telefonema de Pimenta Neves, que se mostrava também muito abalado pelos acontecimentos, informando que se encontrava em São Paulo, em local que não revelou; que constituíra Antonio Claudio Mariz de Oliveira seu advogado e que este estava entrando em contato com as autoridades para providenciar sua apresentação a elas;
3 - No dia 28 de julho último, Pimenta Neves apresentou pedido de demissão ao diretor responsável do Estado, Ruy Mesquita, que o recusou e sugeriu ao jornalista que tirasse uma licença para tratamento médico, sugestão que ele aceitou, iniciando o tratamento nos dias que se seguiram.
O Grupo Estado aguarda o desenvolvimento do inquérito policial para a definição das responsabilidades envolvidas, e se coloca à disposição das autoridades para fornecer as informações que lhe forem requisitadas. São Paulo, 21 de agosto de 2000. Ruy Mesquita, Diretor Responsável de O Estado de S. Paulo"
Alberto Dines
"A imprensa fez boa cobertura do caso", copyright no.<www.no.com.br>, 24/8/00
"A imprensa cobriu o caso Pimenta corretamente e de forma bastante razoável. Há dez anos atrás, não se veria a mesma cobertura que estamos vendo agora. Achar que não se cobriu direito é uma teoria conspiratória que não faz sentido. Se eu tivesse detectado algum tipo de corporativismo nesse caso, eu seria o primeiro a apontá-lo, mas acho que o tratamento foi adequado. A Globo chegou a interromper a novela das oito para entrar com um plantão sobre o caso. O próprio Estado de S. Paulo deu chamada de duas linhas na primeira página na segunda-feira, inclusive falando que Pimenta era o diretor do jornal.
Não vejo comoção pública em torno do caso. Houve sim, uma grande comoção no meio jornalístico e é perfeitamente natural que a sensibilidade dos jornalistas fique muito aguçada com uma tragédia como essa acontecendo no nosso ambiente. Quantos anos o Pimenta tinha de profissão? Uns 40. Era conhecido por muita gente, muitos profissionais conviveram com ele ao longo desses anos. Eu mesmo estive com Pimenta umas dez vezes na vida, temos amigos em comum. O lado trágico disso tudo é pensar que um sujeito já maduro, que deveria ser equilibrado, andasse armado e ainda fizesse uso dessa arma.
Não vejo nada demais no fato de a Folha, concorrente do Estadão, publicar um extenso currículo de Pimenta sob o título ‘Um notável currículo’. Pimenta tem 63 anos, e 40 de profissão. Seu currículo é notável mesmo. Sandra tinha apenas 32 anos, e uns poucos de profissão, onde não tinha feito nada de muito notável. Também acho natural que ele tenha sido tratado como suspeito pela imprensa antes de confessar o crime. Isso é de praxe do bom jornalismo, e é legítimo. E a Folha também deu bem, com chamada de capa no caderno Cotidiano."
Augusto Nunes
"Se eu fosse o Lalau, reivindicaria tratamento igual", copyright no. <www.no.com.br>, 24/8/00
‘A imprensa fala pouco dos delitos de jornalistas pelo corporativismo odioso que existe nela. Até achei que depois do livro ‘Notícias do Planalto’, de Mario Sergio Conti, a situação fosse melhorar. A imprensa fez o que não faria com ninguém. Na primeira edição depois do homicídio da Folha de S. Paulo e do Estadão o crime nem sequer foi citado na primeira página. É possível ser imparcial sempre. O Globo começou a tratar o caso como qualquer outro. Ele é um jornalista como nós, é penoso, mas nessas horas tem que ter imparcialidade.
Não sabíamos da invasão da casa de Sandra por Pimenta e os responsáveis aqui foram acusados de desinformação. Prefiro tratar como falha de cobertura. Uma notícia preliminar talvez tivesse sustado o escândalo. A decisão de jornais de publicar o currículo de Pimenta e nenhuma palavra sobre quem era Sandra, no primeiro dia, se deu porque eram jornais amigos. Corporativismo mesmo. Ele teve acesso direto aos donos de jornais e ela não. A apresentação do currículo é como se a imprensa dissesse: infelizmente hoje aconteceu um crime envolvendo um diretor de redação de um grande jornal... isso não faz sentido.
Pimenta confessou o crime desde o início para os próprios jornais. Trata-se de um homicídio. Se eu fosse o Lalau ou o Eduardo Jorge, reivindicaria o mesmo tratamento dado ao jornalista (tratado apenas como suspeito, no início). Ele assumiu desde o começo. Esse corporativismo nos desmoraliza. Está na hora de jornalista ser tratado como cidadão. O FHC é responsabilizado com mais facilidade, por fatos que os repórteres nem têm tanta certeza, do que um jornalista que comete um crime. E na calada da noite... some o nome do Pimenta Neves do expediente do Estadão, sendo que aqui se trata de um caso de uma demissão grave.
O jornal não se pronunciou sobre isso. É um problemaço que só se resolve de uma maneira: com verdade, com uma chamada do tipo ‘Diretor de redação mata colega de trabalho’. Se por algum motivo você é amigo dessa pessoa e fica embaraçado com a situação, se afaste e deixe que os outros trabalhem. Tem que ter objetividade absoluta."
Fritz Utzeri
"Se ele tivesse se suicidado, nem daríamos nada", copyright no. <www.no.com.br>, 24/8/00
"O assunto deve ser coberto como um crime comum. O fato de se tratar de um jornalista não o ajuda nem o prejudica. O Jornal do Brasil noticiou o caso o mais discretamente possível, não é assunto de primeira página. Se um camarada mata a mulher em São Paulo, não vai para a primeira página. O que chama a atenção é tratar-se de um formador de opinião, mas isso não significa que haja relação entre a atitude que tomou e o que se lê no jornal dirigido por ele.
É um assunto privado. Só há interesse público, jornalístico, porque é um formador de opinião. Se Pimenta Neves tivesse se suicidado, por exemplo, nem teríamos dado nada. Minha opinião é de que ele enlouqueceu. E nesse caso a posição social, o nível de educação, não têm influência alguma no desfecho. Pimenta não é, em princípio, perigoso para a sociedade, tudo gira em torno do seu ódio pela menina, do tipo ‘se não for minha, não será de ninguém’, a questão de ter o dobro da idade etc. Enfim, é uma questão privada.
Se fosse um caso de roubo de dinheiro público, por exemplo, ele seria de grande interesse jornalístico e estaria na primeira página. Pode até ter havido alguma proteção no fato de vários jornais terem-no tratado no primeiro momento como suspeito, e não criminoso, diferenciando de outros tratamentos. Mas aí deveria ser uma norma no jornalismo: alguém só é tratado como culpado se tiver sido condenado. A rigor, até o juiz Nicolau, até agora, é apenas suspeito.
Por outro lado, nas últimas semanas Pimenta vinha tendo um comportamento destrambelhado, dando sinais de perturbação. Este foi um fato importante, mas que ficou circunscrito ao ambiente da redação do Estado."
Luiz Garcia
"Em jornalismo, nem tudo é preto ou branco. Há decisões subjetivas", copyright no. <www.no.com.br>, 24/8/00
"Em casos como esse, nossa norma no Globo é apresentar o suposto criminoso como suspeito ou acusado. Ele passará de suspeito a agente do fato com uma confissão espontânea, por exemplo (que não tenha sido extraída depois de horas numa delegacia), ou se houver prisão em flagrante, no ato.
Mas no caso de Pimenta Neves, o fato crucial, que determinou o critério adotado pelo Globo, foi o seguinte: ainda não havia a confissão, mas havia uma considerável quantidade de elementos de convicção de culpa. Uma testemunha ouviu a vítima pedir para que Pimenta não atirasse, o jornalista fugiu correndo do local, e ainda tínhamos a informação de que ele telefonou em seguida para o Estadão admitindo o crime. Este dado, aliás, foi decisivo para a decisão do jornal de apontá-lo como culpado desde o início.
Não sei que critério o Estadão usou na cobertura do assunto, mas tendo havido esse telefonema, evidentemente há indício de espírito corporativo no tratamento da notícia. O mesmo espírito pode ter influenciado a cobertura em outros veículos, pois o caso envolve laços afetivos e o jornalista acaba tendo um tratamento diferenciado.
Mas a avaliação de que se trata de uma atitude passional está errada: foi um crime premeditado, no qual houve perseguição, até como uma variante de assédio sexual (depois que a relação entre os dois foi rompida). O próprio Pimenta, antes do crime, tomou a si a divulgação do problema, agindo e referindo-se a ele em público.
A decisão do Globo de apresentá-lo de imediato como culpado foi uma decisão subjetiva, não uma aplicação fria da norma. Em jornalismo, nem sempre é preto ou branco, há os territórios cinzentos onde são tomadas decisões subjetivas. Nesse caso, a soma dos elementos de convicção de culpa foi considerada suficiente."
Fernão Mesquita
"Íamos tomar providências, mas foi tarde demais", copyright no. <www.no.com.br>, 24/8/00
"O jornal tem quase um século e meio, com personalidade própria que independe das pessoas que contribuem para fazê-lo, e independe até do pensamento de quem o dirige. De um mês para cá, desde a demissão de Sandra, era notável sua alteração de comportamento, sinais de estresse.
Alterações súbitas de humor, para cima e para baixo. Suas decisões na redação já saíam da órbita profissional, misturava emoções e trabalho. Decidimos não acatar seu pedido de demissão, entre outros motivos, porque ele não tinha muitas relações fora do trabalho. Trabalhava das nove da manhã às dez da noite. Se ele saísse, poderia cair num processo de depressão anda pior.
Estávamos para tomar uma medida a respeito, mas foi tarde demais. Essa história podia ter acontecido em qualquer um dos dez jornais que ele dirigiu. Essa história é completamente inédita, nunca tivemos casos de chefes que promoveram suas namoradas. O fato dele ter trazida a Sandra para cá é uma violência ética.
Matinas Suzuki Jr.
"Mulheres", copyright iG <www.ig.com.br>, 21/8/00
"Minha jovem jornalista. Obrigado pelo cartão que vc me enviou. Não nos falamos há algum tempo, desde os Cartões Postais que eu te enviei sobre o colunismo na imprensa.
Eu sei que vc está chocada com o fato de jornalistas estarem nas seções policiais de hoje, mas, o que fazer? A atividade jornalística não tem imunidade contra as fraquezas humanas. A gente vai se esquecendo disso e, de repente, o caminhão da realidade, com toda sua brutalidade, passa por cima da gente.
Vc quer minha opinião, mas é difícil ter uma avaliação mais clara de como a imprensa está se comportando neste caso, uma tragédia nas suas próprias entranhas. Como mulher, vc não consegue ver atenuantes para a história e, no sentido da violência contra as mulheres, vc está coberta de razão.
Por outro lado, há uma série de circunstâncias que cada veículo tem de ponderar -incluindo aí, o quanto uma das figuras envolvidas contribuiu para o desenvolvimento e modernização do próprio jornalismo brasileiro para, de certa forma, atenuar o noticiário.
Enfim, mais um dilema em uma profissão que coleciona dilemas. Quando eu tiver uma posição mais sólida sobre este caso, eu te escrevo contando, OK (vc sabe que eu sempre digo que o jornalista não deve se levar levianamente pela vontade de julgar que é inerente à profissão)?
Bem, sobre a outra questão, eu só vejo com bons olhos o crescimento das mulheres na profissão. Não sei se vc viu, mas as mulheres já são maioria na Internet, nos EUA (no Brasil, elas crescem velozmente na Rede). Como público leitor e consumidor, as mulheres também tiveram a sua participação substancialmente ampliada. Com a audiência cada vez mais feminina, era natural que jornais, revistas, TVs e internet tivessem cada vez mais mulheres envolvidas na produção de conteúdos editoriais. De minha parte, sempre trabalhei bem com elas e pretendo continuar trabalhando. Um grande abraço,
M, de manchete, de modernização e de mulher
PS: Cada caso jornalístico tem a sua própria história. Os exemplos anteriores servem como balizadores, mas não como paradigmas. Quando o jornalismo perder a capacidade de absorver as diferenças, ele será menos interessante.
Míriam Leitão
"Foi uma bomba que explodiu na cara dos jornalistas", copyright no.<www.no.com.br>, 24/8/00
"Isso foi uma tragédia, a interrupção da vida de uma jovem, bonita, inteligente, uma bomba que explodiu na cara dos jornalistas. A cobertura da imprensa foi prejudicada por uma certa paralisia, os jornalistas ficaram abalados, um pouco sem saber lidar com um caso tão próximo.
Conheci o Pimenta há vinte anos, trabalhei com ele na Gazeta Mercantil e tinha muito contato quando ele estava no Banco Mundial. Como eu, acho que ninguém suspeitou de algo assim. A cobertura foi influenciada pela perplexidade, a dificuldade de saber como dar a notícia do que aconteceu dentro da redação. Os jornais ficaram tímidos na hora de explicar por que alguém bem-sucedido chega a esse ponto, e faltou mostrar que a personalidade dele vinha desmoronando aos poucos.
Pimenta estava incapacitado para dirigir um jornal e ninguém fez nada. A questão central, o tema para ser discutido pelos jornalistas, é a tolerância com as pequenas tiranias nas redações. A possibilidade de decisões como a proibição do noticiário sobre a série ‘Aquarela do Brasil’, da Globo, por motivo fútil (porque amigas da ex-namorada trabalhavam na divulgação do programa) é censura. Igualzinha à dos militares. Por que a redação não se revolta? É a aceitação das pequenas tiranias, aceitar que razões não jornalísticas determinem se vai se dar ou não dar uma notícia.
Antes do crime Sandra Gomide vinha sofrendo represálias e injustiças na redação, até seu desempenho profissional foi questionado. Neste ponto, me identifiquei com ela, lembrando dos momentos em que fui vítima de arbitrariedades de chefes. Uma vez, fui demitida do próprio Estadão por motivo fútil, pelo Augusto Nunes (hoje diretor de Época). Depois, sempre se encontra um motivo para justificar aquilo, o que no caso dela foram denúncias de favorecimento pela Vasp e de incompetência, o que é contraditório, por ter sido promovida.
A Justiça brasileira também costuma tratar com muita delicadeza o criminoso. É preciso saber até onde se mantém a reserva da mera suspeição. Esse assassino de uma brasileira nos Estados Unidos, por exemplo, não foi flagrado nem confessou, mas foi algemado e arrastado em público. Já as empresas, como as pessoas, têm personalidade, têm caráter, e não se pode aceitar que pessoas façam mau exercício do poder em nome de uma empresa. A lição desse episódio é discutir a conivência com as pequenas tiranias do cotidiano dos jornalistas."
Angélica Santa Cruz
"Evidências passionais", copyright no.<www.no.com.br>, 23/8/00
"‘Eu sei do Jayme’. A mensagem piscou no computador do apartamento da jornalista Sandra Gomide, no bairro de Vila Mariana, em São Paulo, na manhã de 29 de maio. Escrito pelo diretor de redação do jornal O Estado de São Paulo, Antônio Marcos Pimenta Neves, de 63 anos, o e-mail referia-se à troca de mensagens entre Sandra e Jayme Montilla, maior acionista e diretor geral do jornal Hoy, o terceiro maior do Equador. Na mensagem, Pimenta fazia várias referências ao ‘namorado equatoriano’ de Sandra. Também pedia que ela devolvesse jóias e roupas que ele lhe dera de presente durante três anos de namoro. O texto arrematava ‘depois disso, você pode voltar para sua vidinha de prostituta’.
Sandra conheceu Jayme Montilla durante uma viagem que fez a Quito, no início de maio, para apurar reportagem sobre a venda da Ecuatoriana de Aviación, uma das três companhias aéreas estrangeiras do empresário Wagner Canhedo, dono da Vasp. Em Quito, ela telefonou para Montilla para pedir informações sobre a cobertura que a imprensa local vinha destinando à companhia. Nos quatro dias em que ficou na cidade, conversou pessoalmente com o equatoriano pelo menos duas vezes. De volta ao Brasil, os dois continuaram se correspondendo por e-mail. Entre os investigadores da Polícia Civil que cuidam do caso, já não há dúvidas de que Montilla teria sido o estopim do rompimento do namoro entre Sandra Gomide e Pimenta Neves.
Casado, pai de dois filhos, Montilla estava de férias em um iate quando ocorreu o crime e só foi avisado hoje no início da noite. Chocado, confirmou ao no. que havia conhecido Sandra. ‘Nos conhecemos em maio deste ano por ocasião de uma reportagem que tratava da venda das ações da Companhia Equatoriana de Aviação para a Vasp’, disse. ‘Travamos um contato que se manteve por estes meses e ela colaborou com o jornal no sentido de transmitir para nossa redação algumas informações que havia apurado para sua matéria no Estadão’, concluiu.
Na manhã de ontem, o computador de Sandra foi levado para o Instituto de Criminalística de São Paulo. ‘Há uma série de mensagens trocadas entre ela e o equatoriano. Eles estavam se conhecendo’, diz o advogado dos pais da jornalista, Luiz Flávio Gomes. Os peritos do IC devem finalizar a perícia até o final de semana. Amigo de Sandra dizem que ela e o equatoriano não chegaram a namorar. Mas trocaram dezenas de mensagens e telefonemas. Em uma das ligações, quando Sandra já havia rompido o namoro com Pimenta, chegaram a falar em marcar um encontro no exterior.
Nas mensagens que Sandra enviou para Montilla, há várias referências ao comportamento transtornado que Pimenta Neves vinha demonstrando nos últimos dias. Nos textos, escritos em português, ela fala do comportamento violento do ex-namorado e cita a invasão de seu apartamento, no dia 5 de agosto. Mas conclui: ‘acho que, em breve, ele estará mais calmo’. Montilla respondia em espanhol e pedia para que ela tomasse precauções.
O flerte com o equatoriano pode, de fato, ter provocado a última crise de ciúmes de Pimenta Neves. Mas a relação entre os dois foi conturbada desde o início. Quando era diretor do jornal Gazeta Mercantil, por exemplo, ele protagonizou episódios que ficaram conhecidos na redação. Em um deles, Pimenta Neves encarregou um motorista do jornal de seguir Sandra durante uma viagem dela ao litoral de São Paulo. A jornalista desconfiou que estava sendo seguida e parou em um posto rodoviário. Interrogado pela polícia, o motorista acabou revelando que cumpria ordens do diretor de seu jornal. ‘Ele alternava momentos de carinho com outros de brutalidade. Mas nunca pensamos que chegaria a esse ponto’, diz o irmão de Sandra, Nilton Gomide.
‘Aconteceu. Minha filha morreu da maneira mais covarde’, disse o pai da jornalista, João Florentino Gomide, durante depoimento prestado ontem à Polícia Civil. No final da tarde, o Instituto Médico Legal (IML) divulgou laudo necroscópico que mostra que a jornalista foi atingida duas vezes pelas costas. Levou o primeiro tiro nas costas. O segundo, na orelha esquerda, quando já estava caída no chão. As duas balas ficaram alojadas em seu corpo. De acordo com o laudo, Sandra não teve chances de defesa.
Internado no Hospital Albert Einstein depois de tentar o suicídio por ingestão de doses do calmante Lexotan, Pimenta Neves recuperou ontem a consciência. Por meio de seu advogado, Antônio Claudio Mariz de Oliveira, confessou que matou Sandra e disse estar arrependido. O promotor do 1o Tribunal do Júri, Marcelo Milani, disse que pretende pedir a prisão preventiva de Pimenta Neves, por crime de homicídio qualificado. A prisão preventiva do jornalista, no entanto, já foi decretada. Assim que receber alta, Pimenta será preso. A ex-mulher de Pimenta, Carol, que vive nos Estados Unidos, embarcou ontem para o Brasil.
Operação Abafa
Com a confissão de Pimenta Neves, a partir de agora deve começar uma batalha jurídica entre seus advogados e os da família de Sandra. Entre outras coisas, o debate deve girar em torno da tentativa por parte da acusação, de provar que o crime foi premeditado. E, a todo momento, aparecem histórias que mostram o descontrole do jornalista, que alternava momentos de fúria com outros de tranquilidade. Nos períodos de calma, tentava abafar o que havia feito antes. Foi assim, por exemplo, quando Sandra deu queixa de agressão na polícia – semanas antes do assassinato. Uma semana antes do crime, um jornalista de Brasília esteve com Pimenta. Tomaram um café da manhã. Conheceram-se através de um amigo em comum, que teria transmitido a este jornalista a informação de que a editora de economia do Estadão (Sandra) havia sido demitida do cargo por desvio ético. Tratava-se de uma tentativa de se plantar uma informação falsa. Este jornalista apurou a informação, e constatou que nada havia de anti-ético na conduta de Sandra. Descobriu, portanto, o problema que havia entre os dois. E descobriu também o boletim de ocorrência que registrava a violência de Pimenta contra Sandra em sua casa, duas semanas antes. Por insistência de Pimenta Neves, este jornalista, que trabalha em um site, preferiu nada publicar. Pimenta ficou grato e convidou-o para um café da manhã, junto com este amigo em comum.
Paulo Sant’ana
"O dono da mulher", copyright Zero Hora, 22/8/00
"Este assassinato da jornalista Sandra Gomide, 32 anos, praticado pelo diretor de Redação do Estado de S. Paulo, Antônio Marcos Pimenta Neves, 63 anos, revela mais uma vez a verdadeira tirania que certos homens exercem sobre suas mulheres.
Pimenta era literalmente dono de Sandra. Trabalhavam juntos na Gazeta Mercantil. Quando ele foi para o Estado de S. Paulo, nomeou-a repórter e fê-la editora do mesmo jornal, durante o namoro que durou quatro anos.
Aí ela rompeu com ele. Imediatamente, o todo-poderoso diretor do jornal, a comprovar que seu cargo não estava imune às ondas febricitantes de sua alcova, demitiu-a.
Sandra resistiu bravamente e não se reconciliou com seu donatário. Como dava emprego a ela, como tirava emprego dela ao sabor de seus interesses, o plenipotenciário prosseguiu na chantagem, desta vez malsucedida, Sandra havia cansado de ser objeto profissional do namorado e se negava terminantemente a voltar para ele.
Então um editor do jornal que o soberano Pimenta dirigia encaminhou Sandra para que ela reconstituísse sua carreira num site da Internet. Sandra pegou no novo emprego, imaginando que estava livre da área de influência do seu déspota.
Pimenta soube e demitiu o editor. Tropelia sobre tropelia, com a impunidade dos chefes que têm comando acima do bem e do mal, sob a indiferença dos seus superiores e donos do jornal: diretor tem é que dirigir, o mandato que lhe é dado parece ter múnus divino, pode fazer o que bem entender com ele, até mesmo estraçalhar pessoas.
E Sandra resistindo galhardamente. Até que o dono da mulher, do seu cargo e do seu destino foi provar que tirava mais que o emprego dela e do seu colega solidário que a reempregara, tudo isso com requintes de covardia e perversidade: era capaz também por forma vil de tirar a vida dela.
E disparou o gatilho duas vezes anteontem contra a desditosa escrava que se rebelara, roubando-lhe a vida.
A par de repetir a saga das mulheres que às milhares são mortas por homens que abandonam, este caso é exemplar para desenhar o perigo do poder entregue a homens despreparados para seu exercício: são capazes de barbáries para satisfazer seus caprichos.
A ninguém que tenha o mínimo desequilíbrio pode ser concedido, em qualquer setor de atividade, pública ou privada, o poder de admitir, demitir, perseguir, sufocar vocações, punir inocentes ou premiar iméritos, sem exame criterioso e vigilância sensível do canal superior, exatamente porque a injustiça é filha natural da prepotência e das idiossincrasias.
Foi barbaramente assassinada uma jornalista, uma mulher tipicamente brasileira, sem estabilidade no emprego, mas que na última hora recusou-se a adquiri-la, por um traço de caráter que nem seu assassino conseguiu de todo arrancar-lhe: a dignidade.
Barbara Gancia
"Chato vestido de inglês é um clássico da Redação", copyright Folha de S. Paulo, 23/8/00
"Só se fala nisso. Até a empregada do vizinho veio me perguntar se conheço o ‘jornalista assassino’, como está sendo chamado Pimenta Neves, o diretor de O Estado de S. Paulo, acusado de matar a tiros a ex-namorada e subordinada.
Pois eu o conheço. De cor e salteado, para ser mais específica, mesmo que o tenha visto, no máximo, três vezes na vida.
Eis a razão de tanta intimidade: nos dez minutos iniciais de nosso primeiro encontro, em um jantar na casa de amigos em comum, pude perceber que Pimenta Neves é o típico chato de Redação.
Esse clássico do jornalismo brasileiro, com quem eu já tive de conviver em várias Redações (abençoada seja a Internet!), só muda de endereço.
É uma raça que parece não dar muita importância para a forma física, mas faz questão de andar fantasiada de inglês com direito a cachecóis e chapéus.
Eles não são lá muito afeitos ao convívio social. Preferem passar o tempo na companhia de livros e, quando estão com outras pessoas, costumam ser rígidos e econômicos com as palavras que não desperdiçam com gente cuja educação consideram inferior à sua própria.
Entre os colegas, o chato de Redação adora esbanjar o seu conhecimento e testar a cultura alheia. Geralmente ele só divide o seu olimpo com um ou dois outros mortais, com quem sente que pode conversar de igual para igual. Os eleitos costumam ser pessoas da sua idade, com trajetórias parecidas.
Mas, veja que interessante: de vez em quando, ele se encanta com algum pé-de-chinelo da Redação. Em muitos casos, não é nem atração física.
Vai ver que é a idade do chato, sabe lá, mas, quando ele elege algum jovem como pupilo, é capaz de se virar do avesso para ajudar o dublê de Tazio, o belo menino de ‘Morte em Veneza’.
Quando o chato de Redação tem cargo de chefia, então, sai de baixo. Já vi gente mortificada ao receber uma promoção que sabia não merecer.
Digamos que o caro leitor tivesse me perguntado há dez dias se eu achava que o Pimenta seria capaz de cometer um crime passional. Eu teria dito absolutamente que não.
Mas, pensando melhor, como todo chato muito culto, Pimenta é pomposo. E é só pegar um sujeito metido, adicionar uma paixão doentia e um revólver e ver a encrenca que dá. Só falta entender por que o psiquiatra do jornalista não conseguiu convencer a vítima do perigo que ela corria."
Adriana Gragnani
"Crime", in Painel do Leitor, copyright Folha de São Paulo, 24/8/00
"Com profundo abatimento tomei conhecimento do assassinato da jornalista Sandra F. Gomide. A violência assusta e machuca. E, por entender que, nesse caso, ela não deve ir além do fato trágico, lanço duas ponderações. A primeira se atém à veiculação dada ao suposto crime passional, construção indigna de defesa que encontra na própria história do ordenamento jurídico nacional manifestações de repulsa, como indica Susan Besse na obra ‘Modernizando a Desigualdade’, ao expor a luta dos juristas, após a Primeira Guerra, para ‘civilizar’ o amor passional, que resultou em tantos crimes. A segunda observação diz respeito à manifestação do órgão de imprensa onde colabora o agressor, que, antecipadamente, tentou justificar o brutal assassinato de Sandra ao mencionar dados privados de seu algoz, como uma pretensa licença médica para tratamento de saúde. Um crime não tem justificativa. É necessário apurar o crime e precisar seus motivos. Todavia há que se preservar a dignidade, a honra e a intimidade de Sandra, garantindo minimamente à vítima – já que a vida lhe foi tomada – o direito de defesa.’ Adriana Gragnani, advogada, conselheira do Núcleo de Estudos da Mulher e Relações Sociais de Gênero - USP (São Paulo, SP)
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