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ÚLTIMA HORA – Atualizado em 11/11/2000
MST vs. FOLHA
Incra, Folha e (falta de) ética
Luiz Antonio Magalhães (*)
O Fórum Nacional pela Reforma Agrária e Justiça no Campo, que inclui entidades como a CPT (Comissão Pastoral da Terra) e o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), fez na semana passada uma denúncia envolvendo a Superintendência Regional do Incra do Paraná, o jornalista Josias de Souza e o repórter-fotográfico Alan Marques, ambos da Folha de S.Paulo.
De acordo com o Fórum, o Incra pagou uma viagem dos jornalistas – entre Curitiba e alguns assentamentos no interior do estado –, e estadias em hotel durante os dias 8 e 10 de maio. Em função disso, as entidades protocolaram, no último dia 9, na sede do Ministério Público Federal de Curitiba, uma representação contra a Superintendência Regional do Incra-PR.
O Fórum apresentou ao Ministério Público Federal uma série de relatórios internos da Superintendência onde é possível comprovar o financiamento das despesas de viagem e diárias de hotel por parte do órgão. Os papéis mostram também que o Incra-PR cedeu um veículo oficial com motorista para levar o jornalista aos assentamentos. As viagens tinham por objetivo, ainda segundo os documentos enviados ao MP, "subsidiar matéria sobre aplicação do Procera e Pronaf".
A partir desses documentos, membros do Fórum elaboraram um press release, distribuído à imprensa no dia 9, onde acusam o Incra de "usar a mídia como veículo de combate às legítimas causas do povo do campo e de tentar desmoralizar e criminalizar a luta dos trabalhadores rurais no Brasil". A referência é à matéria intitulada "MST desvia dinheiro de Reforma Agrária", assinada por Josias de Souza e publicada na Folha de S.Paulo em 14 de maio deste ano, logo após as viagens.
Outro lado
Josias de Souza confirmou a este observador que viajou aos assentamentos em carro cedido pela Superintendência, mas negou que tenha deixado de pagar as diárias de hotel e ironizou a vinculação que o Fórum fez entre a matéria e o pagamento da viagem: "Fico triste em saber que meu preço na praça é tão baixo: apenas uma viagem na Parati do Incra".
O jornalista da Folha contou que visitou a Superintendência do Incra no Paraná logo no início do trabalho de apuração da matéria, a fim de recolher dados sobre os assentamentos. Segundo ele, foi neste momento que uma funcionária da Superintendência – a então superintendente-adjunta Maria Rozalina Arend – ofereceu o carro, recomendando ser "mais seguro" aos jornalistas viajarem com o motorista do órgão.
Josias afirma que concordou com a oferta, com a condição de pagar todas as despesas. Quando foi acertar a conta, porém, a funcionária recusou o recebimento, alegando problemas contábeis para receber os pagamentos. "Acho bom que estejam entrando com representação no MP, pois assim talvez seja possível fazer o ressarcimento", disse o jornalista.
Questão ética
Além do problema jurídico que envolve a denúncia – o fato de um funcionário público fazer gentilezas para entidades privadas à custa do erário é crime –, existe uma questão de natureza ética a ser considerada.
O verbete "viagem" do Manual de Redação da Folha de S.Paulo diz o seguinte: "A Folha incentiva a realização de viagens pelo jornalista. Quando ela ocorrer a convite e resultar em reportagem, deve ser mencionada ao final do texto a identidade do patrocinador".
O verbete "convite" é ainda mais incisivo: "Qualquer convite que um jornalista receba como profissional da Folha deve ser comunicado a seu superior imediato antes de aceito. O jornal não se compromete a publicar reportagem sobre o assunto do convite apenas porque o aceitou. Devem ser previamente submetidos à Direção de Redação convites para viagens, colaboração com outros meios de comunicação, participação em conferências, palestras, seminários, cursos, bolsas de estudo, estágios ou encontros com autoridades públicas. A direção vai definir se a presença do jornalista deve se dar como representante do jornal ou em caráter particular. A Direção de Redação pode julgar a presença de um jornalista da Folha em alguns desses eventos incompatível com sua atividade no jornal. Jornalistas da Folha podem viajar a convite de instituições, governos ou personalidades. Se a viagem resultar em texto publicado, o jornal informa com clareza que o jornalista teve suas despesas pagas pelo patrocinador". O grifo é meu.
O problema todo é que na matéria do dia 14 de maio o jornal não avisou seus leitores sobre as condições em que a reportagem foi elaborada. Ora, Josias de Souza é diretor da sucursal de Brasília da Folha de S.Paulo e certamente não desconhece o manual do órgão em que trabalha há tantos anos. Na opinião do jornalista, o indicativo de que o Incra custeou a viagem de Curitiba aos assentamentos não era necessário porque a reportagem não foi feita "a convite" do órgão.
Na verdade, trata-se de um formalismo de Josias. Ainda que o Incra não tenha "convidado" o diretor da sucursal de Brasília e o repórter-fotográfico para conhecer os assentamentos, a informação de que um órgão governamental sabidamente antipático ao MST custeou parte da viagem era fundamental para que os leitores pudessem fazer um juízo correto do que estavam lendo. Aliás, a Folha poderia ter explicado que tentou, sem sucesso, fazer o pagamento das despesas: isto só aumentaria a credibilidade do jornal, pois a transparência dos procedimentos adotados é uma virtude do bom jornalismo.
Ombudsman
Este observador não está sozinho na avaliação de que a Folha de S.Paulo pecou ao não informar seus leitores sobre as relações entre o Incra e os jornalistas. Rentata Lo Prete, ombudsman do jornal, escreveu uma nota sobre o caso na última sexta-feira (10/11), em sua "Crítica Interna", agora disponível na internet para assinantes do conteúdo do portal UOL. Diz a ombudsman:
"No pé do texto ‘Entidade move ação contra Incra do Paraná’, a Folha qualifica como ‘absolutamente correto’ o procedimento do jornal, que usou carro e motorista do Incra para produzir reportagem em que acusou o MST de desviar dinheiro da reforma agrária. A afirmação contrasta com a regra do ‘Manual’ que manda ‘informar com clareza’ quando ‘o jornalista teve despesas pagas’ por fonte que não a Folha. Se julgou o suporte do Incra necessário para executar uma pauta considerada relevante, por que o jornal não reconhece que o correto teria sido dar conhecimento dessa circunstância ao leitor? A questão não é o valor da despesa, bastante modesto segundo as notas exibidas ontem pelo MST, mas sim o princípio. Ele merecia especial atenção em uma reportagem que: a) acusou os outros de falta de transparência; b) serviu como uma luva ao interesse do órgão patrocinador do traslado (no texto de hoje, o próprio superintendente do Incra no Paraná se encarrega de dizer que as matérias do jornal ‘possibilitaram a colocação de 1.300 técnicos do projeto Lumiar para fora dos assentamentos’)."
A Folha de S. Paulo manifestou-se duas vezes sobre o caso. Na nota a que se refere a ombudsman, publicada no pé da matéria sobre a denúncia do Fórum, na sexta-feira (10/11), e em editorial, no dia 11. Nos dois espaços, o jornal insiste em negar que tenha cometido qualquer irregularidade ou desvio ético. Na nota, não há uma linha de argumentação em defesa do "comportamento correto" dos jornalistas: o leitor simplesmente fica sabendo que a direção da Folha aprovou a conduta.
No editorial, intitulado "A farsa do MST", metade do texto apresenta a defesa do jornal. O argumento é um só: a Folha tentou pagar, mas não conseguiu e tem fitas gravadas que provam a tentativa. Na outra metade do texto, o jornal utiliza a velha tática de desqualificar os opositores, agredindo os sem-terra e afirmando que cabe ao MST provar que não desviou dinheiro dos assentados.
No fundo, o editorial pode ser entendido como uma confissão. O fato é que, ao escamotear as condições em que a reportagem foi feita, a Folha de S.Paulo rasgou seu próprio Manual de Redação e traiu seus leitores. Mas o pior de tudo foi insistir no erro, apresentando ao público uma desculpa esfarrapada, que não convence ninguém e só faz aumentar a suspeita de que a Folha esteja tomando partido nas reportagens que publica sobre o MST.
(*) E-mail: laccm@ig.com.br
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