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Monitor da Imprensa

ÚLTIMA HORA – Atualizado em 11/12/1999

 

Faca de duas pontas

Os jornais norte-americanos caíram em uma armadilha que ele mesmos montaram. Na tentativa de reverter a perda de circulação que vêm sofrendo, os impressos embarcaram no festival das promoções, com exemplares custando até 1 centavo de dólar. A odisséia agora é determinar o que vale como circulação paga e convencer os anunciantes de que tal circulação é real, e não apenas circunstancial.

Conforme matéria de Felicity Barringer para The New York Times (29/11/99), o Audit Bureau of Circulation, órgão que contabiliza o volume de circulação de impressos nos Estados Unidos, não está conseguindo determinar o que vale como circulação paga. Os publishers dos jornais avaliam as regras do órgão como "caprichosas" e os resultados da circulação como "irracionais". Enquanto um exemplar do Rocky Mountain News, vendido por 1 centavo de dólar, conta como circulação paga, exemplares do Wall Street Journal, vendidos por peso às universidades, por vezes não são contabilizados.

The Los Angeles Times e The Orange County Register, que se sentem injustiçados pelo Audit Bureau, contrataram outra auditoria para contabilizar suas vendas. O medo dos jornais agora é que a circulação dos impressos não seja mais fidedigna ou não possa ser comparada, levando anunciantes a migrarem para outro tipo de mídia.

Tablóide processado

Os pais de JonBenét Ramsey, ex-miss Colorado mirim de seis anos encontrada morta no sótão de sua casa, em 1996, abriram um processo na justiça norte-americana contra o tablóide The Star, o qual afirmou, em maio, que Burke, irmão de JonBenét, a havia matado. Os pais pedem indenização de US$ 25 milhões por constrangimentos causados ao garoto, que na época do assassinato tinha nove anos.

"O que The Star fez para Burke Ramsey foi um ato ultrajante, uma mentira por lucros", afirmou o advogado da família Ramsey em entrevista à rede de televisão ABCNEWS.

Segundo matéria do ABCNEWS.com (30/11/99), The Star publicou seu pedido de desculpas logo depois de um advogado distrital ter afirmado em público que o garoto nunca foi suspeito. O jornal afirmou que, por já ter se desculpado, irá se defender agressivamente durante o processo.

Nova York em chamas

Desde o início de dezembro, em Nova York, três veículos impressos norte-americanos embarcaram em uma briga política recheada com acusações mútuas de parcialidade na cobertura da candidatura ao Senado da primeira-dama Hillary Clinton.

As revistas Newsweek e New York Magazine afirmam que o jornal The New York Post – voz conservadora de Nova York – está sendo tendencioso e fazendo críticas severas à candidatura de Hillary. Segundo matéria de John Podhoretz para The New York Post (4/12/99), Jonathan Alter, da Newsweek, teria afirmado que "The Post transforma qualquer tacada [de Hillary] em um fiasco".

Ainda segundo a matéria de Podhoretz, Michael Tomasky, da New York Magazine, escreveu uma coluna pedindo para que os jornais The New York Times e The Daily News façam algo para impedir uma cobertura tendenciosa por parte do The Post. "Esses jornais precisam encontrar uma maneira de levar a cobertura das eleições para seus termos corretos."

A matéria de Podhoretz defende que The Post não faz nada além de reportar os fatos como eles acontecem e acusa as revistas de serem pró toda a família Clinton.

Fogo de palha

Depois do lançamento das primeiras edições e com o fim da euforia causada pelas declarações de Hillary sobre seu marido em entrevista à revista, a recém-lançada Talk não causa mais suspiros nos Estados Unidos. É o que afirma o repórter Alex Kuczynski em matéria para The New York Times (29/11/99).

Segundo o repórter, a linha editorial da revista merece ser contestada. Talk, que é publicada por uma parceria entre a empresa Hearst Magazine e a Miramax, braço da companhia Walt Disney, teve em todas as suas quatro primeiras capas estrelas de filmes produzidos pela Disney. Além disso, metade dos artigos publicados na revista sobre a indústria cinematográfica tratava de filmes ou estrelas da mesma produtora.

Segundo o autor, a revista passa agora por um momento crucial. Na primeira edição, Talk realizou uma manobra estranha e determinou que os anunciantes interessados deveriam veicular suas propagandas nos quatro primeiros números. Deu certo. A determinação garantiu uma boa renda durante o início da revista. A dúvida agora recai sobre o próximo número, o quinto, que até agora parece não ter como garantir o mesmo sucesso em lucros.

Notícias do Potomac

O vice-presidente e candidato à presidência dos Estados Unidos Al Gore janta semanalmente com jornalistas. As conversas, a pedido de Gore, normalmente não são gravadas. John Cochran, que além de repórter da ABC News é amigo do vice-presidente, promoveu o jantar de 2/12.

A proximidade entre jornalistas e políticos nos Estados Unidos é reportada às claras pela imprensa. As informações são de matéria do New York Times, publicada no dia do jantar promovido por Cochran. Trinta jornalistas foram convidados, incluindo representantes do The New York Times, The Washington Post, CNN e The Wall Street Journal. A matéria afirma que os jantares fazem parte "de uma ofensiva do vice-presidente para levantar sua imagem com aqueles que influem na cobertura sobre ele".

Diferentemente daqui, a imprensa não se esconde debaixo do tapete. Bom para o leitor, bom para o eleitor.

Ocaso de um picareta

A saída de Matt Drudge do canal de televisão Fox News, no fim de novembro, fez com que alguns profissionais de mídia refletissem sobre as mudanças (leia-se: estragos) que o repórter trouxe para o jornalismo norte-americano.

Para quem não lembra, Drudge tornou-se famoso durante o escândalo Clinton-Lewinsk, quando reportava rumores maliciosos como se fossem fatos. Drudge é ainda o autor da frase "sou repórter, não sou jornalista", descompromissando-se com normas e parâmetros éticos que norteiam a profissão.

Segundo artigo de Frank Rich para The New York Times (4/12/99), Drudge deixou marcas na grande imprensa norte-americana. Para o Rich, as acusações sem provas sobre uso de drogas feitas a George W. Bush e as análises prematuras dos atiradores de escolas, mostram como fofocas e rumores estão sendo veiculados como notícias "com espetaculares e divertidas teorias antes de haver fatos".

Matt Drudge foi, entretanto, atingido por mudanças na mídia que ele nunca previu. Segundo Frank Rich, a idéia de Drudge de que, com a Internet, "todo cidadão pode ser um repórter", não é real. O autor aponta que alguns poucos conglomerados de mídia dominam quase toda a totalidade dos veículos. Ao mesmo tempo que esse novo cenário torna sujeitos como Drudge vulneráveis e passageiros, "a notícia ruim é que eles deixam pouco oxigênio para o jornalismo independente", escreveu Rich.

Jogo bruto

Pela primeira vez na história recente de Hong Kong, oficiais do governo invadiram, com um mandado de busca, a redação do tablóide The Apple Daily e investigaram, por quatro horas, mesas e papéis de repórteres e editores.

Vinte oficiais deixaram o jornal com caixas cheias de papéis e acusaram, em 1/12, um repórter e dois policiais de participarem de esquema de suborno. Segundo relatório dos oficiais, o repórter pagava mensalmente entre 500 e mil dólares a cada policial por furos de reportagem em investigações da polícia.

De acordo com matéria de Mark Landler para The New York Times (6/12/99), o escândalo, ainda que tenha se tornado manchete em todos os jornais de Hong Kong, trouxe mais preocupações aos rivais do Apple Daily do que prazer em ver o tablóide desmoralizado. Isso porque, em agosto, o governo propôs a criação de um conselho de imprensa que fiscalize e combata "coberturas sem qualidade". Críticos da formação do conselho afirmam que o projeto pressupõe sua ligação com o governo, tornando-o um instrumento de supressão a vozes dissidentes. "O governo quer controlar a imprensa", disse Mak Yin-ting, a presidente da Associação de Jornalistas de Hong Kong, ao jornal The New York Times.

A liberdade de imprensa em Hong Kong tem merecido preocupação dos jornalistas desde que a ex-colônia britânica foi devolvida à China, em julho de 97. Ainda que a imprensa local mantenha aparentemente o mesmo desempenho (23 jornais em chinês e 2 em inglês continuam circulando), alguns jornalistas temem que invasões a redações se tornem constantes. "Essa é a primeira vez na história de Hong Kong que a polícia entrou em uma redação e levou coisas", afirmou Yeung Wai-hong, publisher da revista Next. "Tenho medo de que seja só o começo."

Aposta na credibilidade

Depois de seis meses de busca, o jornal The Miami Herald anunciou, em 2/12, o nome de seu novo editor-executivo. Martin Baron, editor noturno do New York Times, assumirá, em 1º de janeiro, o cargo no jornal.

Baron, que foi chamado para tentar reverter o atual quadro do The Herald, é uma aposta na qualidade do jornal. Segundo matéria de Neil MacFarquhar para The New York Times (3/12/99), além da diminuição na circulação e cortes no orçamento, The Herald tem sofrido com o declínio de sua reputação. Jornalistas e críticos de mídia acusam a empresa matriz do jornal, Knight Ridder, de estar mais preocupada com lucros do que com bom jornalismo.

Segundo Mark Seibel, editor assistente de administração do Miami Herald, a redação gostou da nomeação de Baron para o cargo. "As pessoas se tranqüilizaram com o fim da procura e ficaram contentes por ser um sujeito de boa-fé e digno de crédito em jornalismo."



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