Indice A imprensa em questao O circo da noticia Caderno da cidadania Entre aspas Caderno do leitor

MONITOR DA IMPRENSA

ÚLTIMA HORA – Atualizado em 10/03/2000

 

Pesquisa: Isabela Nogueira

 

Babitsky solta o verbo

Depois de ficar seis semanas desaparecido, o jornalista russo Andrei Babitsky, que cobria o conflito na república separatista da Chechênia para a Radio Liberdade, voltou para sua casa, em Moscou, em 29 de fevereiro.

De acordo com matéria do serviço de notícias Agence France-Presse [Yahoo!News, 2/3/00], em entrevista coletiva para jornalistas ocidentais, um dia depois de seu retorno, Babitsky acusou o exército russo de torturar e matar civis durante o conflito na Chechênia. O jornalista afirmou também ter sido espancado e torturado por soldados durante os dias que passou no campo de Chernokozovo, utilizado pelas forças russas para separar rebeldes chechenos de civis. "Isto é um campo de concentração em todos os sentidos. Praticamente não há rebeldes lá. Eles estão arrastado civis para Chernokozovo e os matando."

Durante a coletiva, Babitsky afirmou que todo o material que havia coletado sobre as brutalidades dos russos na Chechênia foi confiscado por tropas russas. "Na Chechênia, há um estado policial russo que efetivamente governa por meio do medo." Ele fez ainda duras acusações ao presidente russo Vladmir Putin, dizendo que os russos que o capturaram trataram-no "da mesma maneira que Putin está tratando a Chechênia".

O ministro do interior da Rússia Vladimir Rushailo, sob cuja alçada estão tropas que controlam o campo de Chernokozovo, negou as acusações de brutalidade feitas por Babitsky. "Eu acredito que nós fizemos o máximo por Babitsky. Todas essas histórias sobre 250 pancadas com um porrete - eu seriamente não acredito nelas, assim como eu acho que ninguém acredita", afirmou o ministro.

Babitsky desapareceu em meados de janeiro, quando foi detido por tropas russas que alegaram "falta de credenciamento adequado" que lhe permitisse estar na zona de conflito. O jornalista já tinha sido acusado pelo governo de Moscou de ser simpatizante dos chechenos - e, por isso, um traidor.

No início de fevereiro, governo russo veiculou uma fita de vídeo por meio da qual tentava mostrar que Babitsky havia sido entregue aos chechenos em troca de soldados russos. Muitos jornalistas e analistas discordaram dessa possibilidade, defendendo que os russos encenaram a troca para esconder o verdadeiro paradeiro do jornalista [veja remissões abaixo].

Em sua coletiva, Babitsky conta que realmente concordou com a troca, mas afirma que ele foi entregue a chechenos pró-Moscou, que estavam acompanhados de homens do Serviço de Segurança Federal russo. Duas semanas depois da troca, Babitsky foi levado ao Daguestão com passaportes falsos, sendo imediatamente preso pela polícia local. Foi o primeiro contato do jornalista com sua mulher desde seu desaparecimento em meados de janeiro. Depois de uma intervenção inesperada do presidente Vladimir Putin, Babitsky foi levado a Moscou, onde obteve permissão para ir para casa.

 

Tráfico de imagens falsas

O jornalista Frank Hoefling foi demitido pela estação de TV alemã N24 em 29 de fevereiro depois de mentir sobre sua autoria em filmagens que supostamente trariam cenas dramáticas de russos torturando chechenos.

As imagens, que mostram corpos de rebeldes chechenos amarrados e arrastados por veículos militares russos e depois enterrados em valas comuns, foram, na verdade, compradas de um jornalista russo, o qual declara ter informado a Hoefling que os corpos eram de guerrilheiros mortos em combate.

Dezenas de redes de televisão veicularam partes do vídeo em todo o mundo, fazendo crescer acusações de violação de direitos humanos contra a Rússia. "Frank Hoefling violou todas as regras do jornalismo e fez mau uso da confiança que depositamos nele. N24 pede desculpas ao jornalista Oleg Blotsky pela omissão de seus direitos autorais", afirmou a rede de televisão N24, em pronunciamento oficial. Ainda segundo a rede, Hoefling só admitiu que não estava presente durante as filmagens depois que retornou à Alemanha, em 29 de fevereiro. O jornalista foi demitido no mesmo dia.

Versão russa

De acordo com matéria do website ABC News <www.abcnews.com> de 1º de março oficiais russos descreveram o incidente como uma falsificação deliberada feita pela mídia ocidental sobre eventos da guerra na Chechênia.

Enquanto as cenas eram veiculadas pela mídia ocidental como tortura, em Moscou advogados e militares russos repetiam que as imagens mostravam corpos de chechenos mortos em combate sendo enterrados em valas comuns por problemas sanitários e falta de melhores condições de armazenamento. Estes corpos seriam futuramente exumados e identificados.

Oleg Blotsky, que vendeu o vídeo a Hoefling, afirmou à ABC News que tem certeza de que os ferimentos encontrados nos corpos foram feitos durante a batalha, e que não notou indícios de tortura enquanto realizava as filmagens.

 

Cobertura sob suspeita

A revista de esquerda Living Marxism, que acusou jornalistas do serviço de notícias britânico ITN (Independent Television News) de distorção e adulteração de imagens em 1992, durante a guerra da Bósnia, está participando de julgamento no qual tenta provar que suas acusações não foram um "ataque à reputação e integridade profissional" dos jornalistas.

De acordo com matéria de Tim Jones para o jornal britânico The Times (29/2/00), Living Marxism acusou dois jornalistas do ITN - serviço que fornece reportagens a emissoras de TV privadas do Reino Unido - de transmitirem imagens deturpadas que sugeriam a existência de campos de concentração mantidos pelos sérvios na Bósnia.

A revista, com circulação mensal de 10 mil exemplares, afirmou que os jornalistas ficaram emocionalmente envolvidos com a guerra e tomaram partido ao manipular e procurar defender os muçulmanos em detrimento aos sérvios.

No artigo "A imagem que fez o mundo de bobo", publicado pela revista, o jornalista alemão Thomas Deichmann afirma que a imagem de um muçulmano esquelético e com o peito desnudo atrás de uma cerca de arame farpado, que rodou o mundo em 1992, foi obtida por meio de distorções. Segundo a revista, a filmagem não teria sido feita num campo de concentração, mas num centro de refugiados, onde todos estavam livres para partir. Até mesmo o arame farpado teria sido artificialmente incluído na imagem, por meio de um truque de manipulação da posição da câmera.

De acordo com Michael Hume, editor de Living Marxism, a equipe do ITN "fabricou e difundiu uma filmagem grosseiramente distorcida e fez sensacionalismo do tratamento recebido pelos muçulmanos". O advogado do ITN, Tom Shields, continua a defender que as imagens foram obtidas fielmente, enquanto duas equipes do serviço de notícias se dirigiam a um campo de batalha. No caminho, uma dessas equipes teria despistado os guardas que as escoltavam e a outra teria feito as imagens do suposto campo de concentração. "Vocês verão imagens das condições físicas de alguns homens e os guardas armados que estavam lá, e verão como ficaram chocados aqueles que visitaram o campo", afirmou o advogado.

 

Burocracia e censura

O único grande jornal de oposição da Malásia foi obrigado a cancelar sua edição de 1º de março porque o governo do país ainda não decidiu se renovará sua licença para circular.

De acordo com matéria do serviço de notícias Agence France-Presse [Yahoo!News, 1/3/00], os executivos do quinzenário Harakah solicitaram a renovação da licença - obrigatória segundo leis da Malásia - em novembro. Hishamuddim Yahya, diretor-executivo do jornal, afirmou que não sabe se o ministro do Interior atrasou a renovação deliberadamente ou se é "um caso de pura ineficiência".

Mantido pelo partido de oposição Parti Islam SeMalaysia (PAS), o Harakah tem incomodado o governo malaio tanto pelo aumento de sua circulação quanto por suas críticas. Zulkifli Sulong, editor do jornal, está sendo julgado desde janeiro por um artigo que escreveu sobre a prisão de um ex-deputado. "Não pretendemos brigar com as autoridades no momento, afirmou o diretor-executivo Hishamuddim. "Nós deixaremos que seu bom senso avalie a situação." Se a permissão realmente não for aprovada, os próximos passos a serem tomados pelo jornal serão decididos pelo partido PAS.

Harakah atingiu em novembro (mês de eleições) circulação de 377 mil exemplares quinzenais, superior à maioria dos jornais da grande imprensa malaia - em geral pró-governo e mantida por empresários que têm interesses garantidos pelo partido atualmente no poder, o Mahathir.

 

LEIA TAMBEM

Trocado, preso ou executado? - Fabiano Golgo

Babitski vivo no Daguestão - Fabiano Golgo



Mande-nos seu comentário

Início da página





Observatório | Índice da edição | Busca | Objetivos | Purposes
Caderno do Leitor | Edições anteriores | Observatório impresso
Modo de Usar | Banca | Jornalistas na Net | Equipe | Quem é você