Indice A imprensa em questao O circo da noticia Caderno da cidadania Entre aspas Caderno do leitor

MONITOR DA IMPRENSA

ÚLTIMA HORA – Atualizado em 12/9/2000

 

CUBA DE FIDEL
Mais perto do Tio Sam

O governo cubano autorizou a instalação de uma sucursal dos jornais Dallas Morning News e Chicago Tribune em Havana, capital de Cuba. O News e o Tribune serão os primeiros jornais norte-americanos a operar dentro do país desde os anos 60.

O anúncio foi feito na cidade de Nova York pelo Ministro do Exterior cubano Felipe Pérez Roque. "Esse é um importante reconhecimento da função do Dallas Morning News em trazer compreensão de latino-americanos ao Texas e ao resto dos EUA", disse Burl Osborne, presidente da Belo Publishing Division, compania que publica o News, e editor do jornal. "Isso nos permitirá fazer um trabalho ainda melhor no futuro, à medida que as distâncias entre os países e entre as pessoas continuamente diminuem."

Segundo matéria de Alfredo Corchado [The Dallas Morning News, 8/9/00], sucursais em Havana foram muito requisitadas pelas companhias midiáticas norte-americanas, desde quando o New York Times retirou-se do território, no inícios dos anos 60, logo após Fidel Castro assumir o poder. A Associated Press foi a última organização dos EUA a deixar Cuba, em 1969. Desde então, apenas duas companhias puderam se instalar no território: a CNN recebeu autorização em 1997 e a Associated Press voltou a operar no país em 1998.

O Departamento de Estado em Washington disse que as sucursais não são sinal de mudança de política para com Cuba. "As relações EUA-Cuba foram e continuam sendo difíceis", disse uma fonte. "Cuba continua sendo um país sem liberdade de imprensa ou imprensa independente e que reprime direitos humanos."

"A história de Cuba deve ser contada apropriadamente e estar lá permite isso", disse John Madigan, presidente do Tribune. "Temos muito interesse em eventos de Cuba e a instalação da sucursal é a melhor forma de trazer aos leitores cobertura completa."

O embargo econômico dos Estados Unidos em Cuba, no entanto, torna as negociações mais complicadas. Não basta que Fidel Castro autorize as operações; o presidente Clinton também precisa dar o aval.

De acordo com matéria de Andrew Stern [Reuters, 8/9/00], há cerca de 100 repórteres estrangeiros em Havana. Nas últimas décadas, muitos jornalistas foram expulsos da ilha.



CONCORRÊNCIA
NYPost reduz preço

O New York Post reduziu o preço de seu exemplar nas bancas de 50 para 25 centavos de dólar a partir de 4 de setembro, seguindo seu principal concorrente, o Daily News, o qual afirmou que distribuiria edições vespertinas gratuitas.

De acordo com matéria de Jason Blair [The New York Times, 1/9/00], ambos os jornais já experimentaram baixa de preços anteriormente. O Post reduziu o preço do exemplar para 25 centavos de dólar em Staten Island durante dois anos. Quando o preço retornou a 50 centavos, a perda de assinantes foi bem menor que o ganho obtido com a redução, segundo executivos da companhia.

A intenção do Post – segundo Ken Chandler, editor do jornal – era atrair mais leitores. Apenas a edição de domingo continuará circulando com preço normal.

O Post, que enfrenta forte competição por anúncios com o New York Times e o Daily News, acredita que preços mais baixos e melhorias na impressão ajudarão na captura de maior número de leitores locais.



ELEIÇÕES AMERICANAS
Cobertura contraditória

Se para o público Al Gore e George W. Bush estavam se degladiando ou não no dia 30 de agosto, isso dependeu do veículo em que obteve suas informações. Nas proximidades das eleições, notícias não acontecem por si só, mas são cuidadosamente selecionadas de acordo com a pimenta que jornalistas inserem. A pimenta, por sua vez, varia de acordo com as intenções políticas dos jornalistas.

Segundo matéria de Howard Kurtz [The Washington Post, 31/8/00], o exemplo mais recente foi a contradição entre matérias do USA Today, do New York Times e do Los Angeles Times. O primeiro afirmava que Bush partiu para a ofensiva, após duas semanas de defesa das acusações de Gore. O segundo, ao contrário, dizia que os candidatos estão se ignorando mutuamente. Já o Los Angeles Times, com informações da Associated Press, apresentou uma terceira versão.

A decisão de publicar matérias separadas sobre Gore e Bush – ou combiná-las – dá um tom diferente à cobertura, pois matérias híbridas tendem a apoiar um ou outro lado. Mesmo sabendo disso, os jornais, obviamente, insistem em comparar e confrontar os candidatos sob uma mesma manchete, de forma a atrair positiva ou negativamente a atenção do leitor para um dos candidatos.



O microfone estava ligado

Em 4 de setembro, o candidato à presidência dos Estados Unidos George W. Bush tornou-se notícia de capa ao chamar Adam Clymer, jornalista do New York Times, de "imbecil da liga nacional". A gafe foi filmada e reprisada repetidamente pelas emissoras. A cena mostrava Bush conversando com Dick Cheney, colega de campanha: "Aquele é Adam Clymer, um imbecil (‘asshole’) da liga nacional", dizia Bush. "Sim, ele é", respondeu Cheney. Bush não notou que o microfone próximo estava ligado.

Clymer é um repórter que escreveu recentemente que uma propaganda de Bush sobre prescrição de drogas tinha "zero" de precisão.

"Bush esqueceu uma regra do jogo", disse John Roberts, da CBS. "Não diga que você não gostaria que sua mãe ouvisse perto de um microfone." Segundo matéria de Howard Kurtz [The Washington Post, 5/9/00], diversos jornais amanheceram no dia seguinte comentando o caso. A palavra suja, que costuma ser evitada em "jornais de família", foi criativamente insinuada. Eis um exemplo de como um incidente pequeno pode ser magnificado na TV apenas por ter sido filmado.

O New York Daily News deu ao acidente uma manchete de capa típica de tablóides: "Aquele cara é um @$#&*!". O New York Post também protegeu seus leitores do palavrão proferido por Bush, assim como o Washington Times, que se safou do dilema de forma criativa, dizendo que Bush chamou Clymer de "um [deletado] da liga nacional."

O Boston Globe, o USA Today e o Los Angeles Times também tentaram ser discretos, evitando dar destaque ao incidente e negando-se a publicar o palavrão. Já o Washington Post, não se inibiu em publicar o termo "asshole" – um pouco mais forte que "imbecil".

O New York Times protegeu a cria. "Esta é, no mínimo, a oitava campanha de Bush", disse Joe Lelyveld, editor executivo do jornal. "O Times nunca recebeu alguma reclamação da campanha de Bush sobre Adam. Se tiverem alguma reclamação, devem fazê-la a nós, para revermos nossa cobertura."

Outra matéria de Howard Kurtz [The Washington Post, 6/9/00] questiona se Bush poderia ganhar votos ao xingar um jornalista e se a TV não se cansará de reprisar a gafe. "Creio que chamar um repórter de [insira um palavrão aqui] poderia até causar ganho de votos nos EUA", disse Roger Simon, da U.S. News & World Report. As três maiores emissoras de TV aberta transmitiram a notícia no dia 4 à noite, e emissoras a cabo reprisaram as imagens da gafe a cada oito ou nove minutos.

Ao ser questionado se seu chefe costuma desprezar jornalistas, Ari Fleischer, porta-voz de Bush, disse que Bush, "com ou sem microfone, tem grande respeito por membros da imprensa". Logo após a gafe, Clymer foi cercado por fotógrafos, câmeras e gravadores. De sua parte, o jornalista disse aos repórteres que estava surpreso com o linguajar de Bush.

Outras coberturas

De acordo com matéria de Alicia Montgomery e Anthony York [Salon, 6/9/00], à exceção da Fox as grandes emissoras encobriram o termo "asshole" na execução das imagens. "Nossa política não permite proferir termos de baixo calão", disse a ABC. "Determinamos que a palavra pode ser ofensiva a alguns telespectadores." Executivos da CBS, da CNN e da NBC disseram basicamente o mesmo.

A cobertura das agências foi dividida. A Reuters utilizou o termo, enquanto a Associated Press recusou-se a divulgar o palavrão. Nos noticiários online, "asshole" esteve em todos os lugares. Da mesma forma, a cobertura das rádios não teve grandes pudores.

A palavra da vítima

A equipe do New York Times ficou indignada com o xingamento a que Clymer foi submetido. Segundo matéria de Maureen Dowd [The New York Times, 6/9/00], Al Siegal, o árbitro de linguagem do jornal, disse para a equipe referir-se à expressão de Bush como "vulgar", e não como "obscena" ou "profana". De acordo com o jornal, a parte realmente crítica foi o complmento "da liga nacional", que se seguiu ao "asshole". O candidato se recusou a desculpar-se. O comando de sua campanha argumentou que Bush apenas está cumprindo o que prometeu: "discurso livre."



Volta ao índice

Monitor da Imprensa – bloco anterior



Mande-nos seu comentário





Observatório | Índice da edição | Busca | Objetivos | Purposes
Caderno do Leitor | Edições anteriores
Modo de Usar | Banca | Jornalistas na Net | Equipe | Quem é você