MONITOR DA IMPRENSA

ÚLTIMA HORA – Atualizado em 15/01/2001


POSSE DE BUSH
Jornais continuam a recontagem


Poucos dias antes de Bush assumir o cargo de presidente dos Estados Unidos e a imprensa continua sua empreitada democrata de, por conta própria, realizar a recontagem de votos na Flórida.

Enquanto o Miami Herald cambaleia por entre as cédulas defeituosas em sua recontagem dos chamados "undervotes" – votos a menos – na corrida presidencial da Flórida, um consórcio de oito organizações noticiosas, que inclui o New York Times, o Washington Post, o Los Angeles Times e a CNN, está submergindo em sua contagem de votos paralela.

"Achamos que estamos próximos a assinar um acordo com uma empresa de pesquisas, mas ainda não chegamos lá", disse John Broder, da sucursal de Washington do New York Times e representante do jornal no consórcio. "Estamos determinados a reexaminar essas cédulas. Não decidimos quem o fará, quem não o fará, quem irá pagar por isso."

Segundo Felicity Barringer [The New York Times, 10/1/01], as principais companhias de contabilidade rejeitaram o pedido das organizações noticiosas de participar da recontagem.

O Herald, de acordo com a Editor & Publisher (8/1/01) estendeu sua contagem em andamento para cerca de dois terços dos 67 municípios do estado. "Tivemos complicações mínimas", disse Mark Seibel, editor do jornal. Segundo ele, há cerca de 12 repórteres trabalhando tempo integral e mais 30 disponíveis caso haja necessidade. No dia 9 de janeiro, o USA Today anunciou aliança com o Herald na empreitada.

Seibel enxerga uma competição saudável entre sua equipe e a do consórcio. "Não temos um deadline. Com essa pauta, não nos sentimos obrigados a cumprir um prazo."

 

O interminável vexame e o caso Jeb-Harris


Os tablóides de supermercados Star e National Enquirer revelaram que há três testemunhas atestando que o governador da Flórida Jeb Bush e a Secretária do Estado Katherine Harris tiveram um caso amoroso.

De acordo com John LeBoutillier [Newsmax, 10/1/01], as três testemunhas aparentemente passaram pelos testes detectores de mentiras. A partir daí, seria interessante analisar o comportamento da mídia local: dará crédito à história? Ou agirá como agiu nove anos atrás, quando o Star estourou uma reportagem sobre o caso Gennifer Flowers-Bill Clinton e a equipe do então presidente fez de tudo para desmentir?

Na época, a reportagem do Star foi desacreditada e desvalorizada pela grande imprensa norte-americana. Nove anos depois, os Estados Unidos estão prestes a ver se os mesmos padrões serão aplicados a ofensores do Partido Republicano.

Desde o tumulto de reportagens sobre a recontagem de votos na Flórida, tem sido noticiado que as principais revistas semanais e alguns jornais estão farejando o caso Bush-Harris, mas nada foi, até o momento, publicado.

 

A mídia penhorada agradece


O jornalismo deveria ser glorificado por seu trabalho no epílogo selvagem das eleições de 2000, segundo Tom Rosenstiel e Bill Kovach [The Los Angeles Times, 27/12/00].

Uma razão pela qual o povo americano pareceu calmo, porém fascinado, durante o espetáculo foi que a imprensa fez todo o seu processo de forma transparente. Ninguém poderia pensar que havia roubo nas eleições. O episódio completo de recontagens e processos ocorreu aos olhos da platéia.

Alguns momentos memoráveis das eleições foram noticiados utilizando-se baixa tecnologia, sinal de que as notícias, na híbrida cultura de mídia do século 21, ainda são as boas e velhas notícias.

Foi fascinante, empolgante e até educativo ouvir a gravações de fitas da Suprema Corte na TV uma hora após a Corte ouvir os argumentos. Sem gráficos extravagantes, sem análises de âncoras.

Alguns jornais demonstraram o papel mais clássico da imprensa em descobrir coisas. Os maiores jornais dos Estados Unidos exibiram inteligência, diligência e fontes para seguir outras vertentes.

As eleições prorrogadas terminaram diferentemente de como começaram. O espetáculo de jornalistas tentando ler e traduzir uma opinião confusa da Corte ao vivo na TV não poderia ser mais distante da onisciência falsa de âncoras da TV chamando e errando estados na noite eleitoral, baseados nos dados instáveis das bocas-de-urna.

A lição que se tira é sobre a humildade de nunca fingir saber mais do que se sabe. As notícias são sempre mais interessantes do que os jornalistas que as emitem. O epílogo da campanha das eleições presidenciais de 2000 foi histórico. A imprensa se redimiu ao cobrir a história, ao invés de explorá-la.

 

Emissoras reportam seus erros


Emissoras de TV contaram cegamente com dados falhos sobre a votação e ignoraram suas próprias reportagens sobre projeções errôneas do vencedor da Flórida na noite eleitoral, segundo investigações de duas grandes emissoras, CBS e NBC, anunciadas isoladamente no dia 4 de janeiro.

A CBS, por exemplo, foi alvo de grandes críticas devido a suas reportagens falhas. A equipe da CBS responsável por noticiar as eleições não estava antenada em agências noticiosas ou em sua própria cobertura. Estava, sim, confiando nos dados do VNS.

Segundo Martha T. Moore [USA Today, 5/1/01], as emissoras também afirmaram que precisam gastar mais dinheiro em sua própria cobertura nos estados mais concorridos, adicionando analistas políticos e contagem de votos.

O documento da CBS, de 87 páginas, é o mais abrangente até agora. A ABC, a CNN e a Fox anunciaram mudanças e continuam com suas investigações. A CBS planeja mover sua "equipe de decisões" de um andar separado para o estúdio de transmissão.

 

Controvérsia vira oportunidade


Quando os nomeados do presidente acabam vítimas de controvérsia, como ocorreu com a colunista Linda Chavez, a maioria dos jornalistas volta a exercer seu antigo dever, sendo logo reconduzida à pilha enorme de sucatas de notícias do dia anterior.

Chavez, no entanto, criatura da mídia que culpa a própria mídia por sabotar sua nomeação para secretária do trabalho, poderá tornar a adversidade em oportunidade.

Segundo Tim Jones [Chicago Tribune, 11/1/01], o Sindicato de Criadores, pool de jornalistas sindicalizados que incluía Chavez até o momento em que ela parou de escrever sua coluna, na primeira semana de janeiro, está em alvoroços pela possibilidade de retorno do "poderia ser" da colunista como secretária do trabalho.

Richard Newcombe, presidente do sindicato, espera que o número de jornais carregando a coluna de Chavez salte, aproximadamente, de 50 para 400. O evento, em suma, sugere novos mercados à coluna de Chavez, que voltou a escrever em meados de janeiro.

Editores de editoriais de diversos jornais disseram-se ansiosos por seu retorno. "Pessoas de direita sempre tiveram respeito por ela. Entre os conservadores, há suspeitas de que Bush a vendeu, e isso pode torná-la mártir", disse Richard Burr, editor de editoriais do Detroit News.

Nem todos, porém, estão preparados para dar boas vindas ao retorno de Chavez, devido, em partes, a seu papel obscuro como conselheira da campanha de Bush quando sua coluna estava no sindicato. Nem o Sindicato de Criadores, nem os jornais que abarcam a coluna de Chavez estavam a par das relações da colunista com a campanha de Bush.


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