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MONITOR DA IMPRENSA

ÚLTIMA HORA – Atualizado em 27/04/2000

 

MÍDIA & LEITORES
Um abismo entre nós

O abismo entre público e repórteres se amplia. Os americanos desconfiam do que lêem nos jornais e o porquê está sendo discutido em um projeto pela Sociedade Americana de Editores de Jornais. Segundo reportagem de John Leo [U.S. News Online, 24/4/00], o projeto que discute o assunto virou mistura de baixo nível que levanta erros fatuais e gramaticais, somados ao quebra-cabeça de dar a notícia que os leitores realmente querem. Ninguém notou, no entanto, que "o buraco é mais embaixo".

O colunista do Washington Post Michael Kelly acha que "muitos jornalistas aprendem a ver o mundo de um ponto de vista padronizado, do qual decorrem as notícias diárias". Peter Brown, editor do Orlando Sentinel, afirma haver falta de sincronia entre jornalistas e leitores. Com ajuda de um instituto de opinião, Brown enviou questionários a repórteres de diferentes regiões dos EUA. As mesmas perguntas estavam sendo feitas aos leitores da região de influência do jornal. O resultado mostra que os jornalistas tendem a viver em padrão mais elevado e são menos inclinados ao trabalho voluntário, a freqüentar a igreja e a se apegar à comunidade.

Segundo a pesquisa, esse padrão não ocorre apenas com grandes jornalistas de grandes jornais. Estudantes de jornalismo, inclusive, tendem a vir de famílias influentes e de escolas particulares.

Há desequilíbrio também quanto às atitudes sociais: jornalistas são mais a favor que os americanos em geral à prática do aborto, desdenham os problemas dos subúrbios e das áreas rurais e se identificam mais com pessoas que se vêem como vítimas da sociedade.

De modo geral, os repórteres pertencem a uma elite e, conseqüentemente, suas reportagens refletem os valores convencionais dessa classe. Conclui-se que a desconfiança da população em relação ao que lê não se baseia em imprecisão ou má transmissão da informação, mas no confronto diário de pontos de vista entre emissor e receptor.

Em qualquer ramo, esta é uma situação explosiva, mas numa indústria em decadência é uma verdadeira mina de dinamite. Apesar disso, a indústria jornalística insiste no erro e, para solucionar a questão, promove simpósios e projetos para descobrir por que os clientes estão fugindo a passos largos, e em número crescente. Infelizmente, nunca se chega ao ponto fundamental da discussão, exposto prosaicamente por Michael Kelly e estudado seriamente por Peter Brown. Se se chegasse, talvez pudesse ser discutida a possibilidade de contratar jornalistas com diferentes pontos de vista e mais próximos do modo de ver o mundo de sua população local.

A importância da notícia não é julgada pela importância que ela possa ter para o leitor, mas por sua relevância pela perspectiva do jornalista. Uma série de notícias de mesmo peso sobre os EUA receberam tratamento e atenção diferentes devido aos valores do profissional do jornal. São efeitos de uma redação que cultiva a monocultura. Tentar diversificar a "plantação" na redação pode ser um meio de tirar muitos jornais do buraco. Antes disso, porém, é necessário entender onde é o buraco, cada vez mais parecido com um abismo.

 

REPÓRTER ONLINE
O grande salto na rede

A Sociedade de Jornalistas Profissionais organizou o seminário Febre do ponto-com no Marines Memorial em 13 de abril. Havia 25 pessoas ouvindo um quarteto contar seus respectivos saltos no mundo online. Editores e repórteres, no entanto, não estão saltando para qualquer "barco". Eles preferem empresas com maiores salários, como Healtheon/WebMD, Quicken.com, AllBusiness.com e BabyCenter, entre outros.

Dan Fost [San Francisco Chronicle, 20/4/00] os descreve como casos do chamado "quase jornalismo": requer as mesmas habilidades do profissional da antiga mídia, não estando porém a serviço da confiança , apenas preocupado com os acessos a suas páginas.

Antes, apenas repórteres de relações públicas estavam entrando na mídia eletrônica, considerada uma "humilhação". Todd Lappin, antigo escritor da Wired agora no Guru.com, brinca dizendo que também passou para o "lado negro". Como os outros, Lappin afirma que a mudança não foi por dinheiro. "Em vez de escrever sobre companhias e empregos, resolvi fazer um site de ligação entre ambos", diz.

No fórum, vários jornalistas que "fizeram o salto" aconselham seus colegas a segui-los. Michael Krantz assumiu em fevereiro a direção editorial do Keen.com, largando a chefia da sucursal de São Francisco da Time. Julgando seu antigo trabalho, avalia que "era um emprego amedrontador, um emprego que amava". Mesmo assim, largou-o porque "queria ver o mundo do ponto-com pelo lado de dentro". Ele não se considera mais um jornalista.

Marcia Parker, antiga editora-chefe do Contra Costa Times e atual editora-chefe assistente do Quicken.com, está entre os jornalistas que consideram a mídia online mais humana que a antiga. "Apesar de amar o jornal como meio, não consigo enxergar um crescimento", diz. "Não vejo a redação como um local vital para se fazer jornalismo."

Algumas comunidades jornalísticas têm expressado preocupação quanto ao colapso da ética, principalmente quando o jornalista cobre determinada companhia e depois começa a trabalhar nela. É o caso de Susan Smith Hendrickson, do San Francisco Business Times, que, enquanto entrevistava a AllBusiness.com para sua matéria era entrevistada pela mesma empresa para um emprego na firma.

Quanto aos salários, Steve Chin, antigo repórter da Examiner e atual empresário do jornal online Asian American (em construção), afirma que os números mudam rapidamente. "O que eu pagava aos editores há dois anos é provavelmente 20 mil a 30 mil dólares menos do que hoje", diz. Além de aconselhar que se peça sempre um salário mais alto que a média, Chin alerta os jornalistas que pretendem passar para o ramo eletrônico sobre a necessidade de ter um website com currículo e links, para mostrar sua intimidade com a internet aos futuros empregadores.

Logicamente há o perigo de o novo chefe menosprezar as sensibilidades jornalísticas do empregado. O maior risco, no entanto, é a falência da empresa. Apesar disso, se uma firma da internet implodir, o repórter que "fez o salto" não terá problemas em encontrar novo emprego. Será até mais fácil, pois outras empresas verão o jornalista como alguém que se arrisca, e este é um pré-requisito. Além disso, o jornalista que trabalhou numa empresa eletrônica falida provavelmente terá contrato para um livro com a descrição da experiência.

Ações – Na semana retrasada, as novas empresas midiáticas atingiram um dos piores índices na bolsa, e a recuperação na semana passada não foi das melhores:

  • Salon.com: de U$ 2,38 para U$ 3;
  • MarketWatch.com: de U$ 18,14 para U$ 16,25;
  • TheStreet.com: de U$ 5,50 para U$ 6,94;
  • ZDNet: de U$ 11,63 para U$ 13,00;
  • Cnet: de U$ 22,50 para U$ 31,50.

 

AIR FORCE ONE
Eles chegaram lá

Pela primeira vez jornalistas online foram convidados para acompanhar Bill Clinton em viagem. Mas a experiência resultou em desapontamento e muitas "pequenas mancadas". Acredita Declan McCullagh [Wired News, 20/4/00] que a mídia online tem o dever de agradecer ao presidente por reconhecer o status dos noticiosos online, mas muitos jornalistas dos 12 websites convidados para o tour do presidente pelos EUA, saíram insatisfeitos da experiência.

Três repórteres de jornais eletrônicos puderam viajar no mesmo avião de Clinton, mas, no geral, reclamaram do acesso limitado ao presidente. Brock Meeks, do MSNBC.com, não escondeu a frustração. "Em cada etapa do processo parecia que éramos secundários", disse. "Parecia que fomos convidados a uma festa, mas ninguém nos chamou para dançar. Éramos parte do evento, mas ao mesmo tempo não éramos."

Na lista de repórteres que fariam a cobertura completa da viagem, representando toda a imprensa, não havia jornalistas de noticiário eletrônico. "Éramos sombras de jornalista", acrescentou Meeks. O correspondente em Washington da Newsbytes, Robert MacMillan, disse ter ficado desapontado por não estar entre os três repórteres que viajaram no Boeing de Clinton. "Fomos postos para escanteio por organizações que ainda não têm presença firme no jornalismo eletrônico", disse. Mas MacMillan confessa: "Não ligaria se fosse convidado novamente."

Entre as organizações de mídia online estavam presentes Wired News, MSNBC.com, AllPolitics.com, da CNN.com, Voter.com, Access Magazine, Stardard Industry e Newsbytes. O diretor de imprensa eletrônica da Casa Branca, Mark Kitchens, disse que é natural que ocorram pequenas falhas, numa primeira experiência. "Fizemos de tudo para acomodar a imprensa da internet", disse. "Sentimos que fazia mais sentido ter a mídia eletrônica nos eventos para grupos digitais, e não necessariamente na viagem inteira."

 

JORNAIS
Reflexões de Bill Clinton

A Sociedade Americana de Editores de Jornais ouviu, em almoço em 13 de abril, a exposição da questão mais crítica para o jornal impresso em tempos de explosão da notícia via Internet: como manter os fundamentos tradicionais dos jornais e, ao mesmo tempo, continuar fazendo dinheiro para preservar a circulação? O peso dado à questão de deveu ao palestrante: presidente Clinton.

Matéria de Willian Raspberry [The Washington Post, 14/4/00] conta que o discurso do presidente foi inesperado, uma vez que partiu de pergunta "menos séria": "Que crítica construtiva Clinton poderia fazer aos jornais americanos?"

Como de costume, o presidente adotou uma longa resposta. "Acho que é difícil rodar um jornal hoje, num ambiente em que se está competindo com notícias da TV, da internet, do rádio e de entretenimento, que está ao lado da notícia", disse, "mas acredito que haja uma função especial para os jornais ‘fora de moda’ no dia-a-dia". A função seria ajudar o leitor a separar o falso do verdadeiro, o trivial do importante, o passageiro do significativo, e o entretenimento do que realmente importa.

"O que mais me preocupa é o fato de as pessoas terem todas as informações do mundo, mas não saberem como avaliá-las. É esse o desafio de vocês nesta nova era competitiva e explosiva da informação", afirmou. Como exemplo, Clinton citou a divulgação do seqüenciamento do genoma humano. "Quanto custará para que os jornais anunciem tudo o que diz respeito ao que é exatamente o genoma, quais suas implicações, como se deu e o que acontecerá daqui para frente? E quantas pessoas terão que ler essas matérias para que tenha valido a pena o investimento de publicá-las?"

E continuou: "Jornalistas de jornal impresso têm consciência de que não é a partir do jornal que se saberá das últimas notícias, mas, sim, a partir das notícias dadas brevemente por meios mais rápidos, que serão detalhadas nos jornais dos dias seguintes. Em outras palavras, o papel do jornal impresso é fornecer mais detalhes aos leitores. Hoje, no entanto, até os detalhes estão disponíveis na Internet, o que leva o jornal tradicional a uma questão literalmente existencial."

Raspberry, que assistiu ao discurso contou que, mais tarde, Clinton revelou-lhe ser aquele um assunto sobre o qual tem pensado muito. "Ele acha que estamos subestimando o verdadeiro valor do jornal impresso", disse Raspberry. "Temos hoje acesso a informações que estão além das nossas habilidades até de desejar transmitir."

No futuro, os jornais impressos precisarão, mais que tudo, dos editores. segundo Raspberry, que darão as diretrizes do que realmente interessa publicar. Questão que afeta unicamente os jornais impressos. Seria como a função do colunista. A interpretação poderia não ser de todo correta, mas três interpretações conflitantes ajudam mais que nenhuma. Por isto diz-se que os jornais tradicionais americanos têm seus nomes marcados com ferro quente: a equipe está treinada para selecionar as notícias confiáveis, menos tendenciosas e isentas de preconceitos.

Como afirmou Clinton em seu discurso: "As pessoas precisam de mais do que fatos. Elas precisam saber dos fatos precisos e ter uma perspectiva sobre o que eles significam e como se desenrolarão."

 

MÍDIA & NASDAQ
Um duplo desastre

O jornalismo, tanto quanto a economia, levou um grande susto com a queda livre do índice Nasdaq. Depois das matérias otimistas reverenciando o novo comércio eletrônico, toda a mídia americana teve que se redimir e falar do que não havia dito antes: o perigo de investir em novas mídias e a ilusão de fazer dinheiro fácil a partir dela.

Mark Jurkowitz fez matéria [The Boston Globe, 20/4/00] dizendo que a revista Newsweek publicou em setembro capa sobre a "vida eletrônica", mostrando-a próspera e fácil. A Newsweek da semana passada, no entanto, mudou o tratamento do assunto, falando de jovens investidores em comércio eletrônico que, desamparados, conversam nos bares sobre o futuro negro após a queda da bolsa.

Wall Street Journal alerta para a aproximação de uma "leve crise econômica" no comércio eletrônico. Los Angeles Times expõe um empresário da internet que participou da corrida frenética por aventuras capitalistas eletrônicas. New York Times retrata empregados do comércio eletrônico desiludidos ao perceber que a "terra prometida" não oferecia as riquezas esperadas.

A revista Upside não dá de todo o braço a torcer. A edição de maio apresenta a manchete "25 mulheres da web" e, abaixo, outra manchete, mais sinistra: "Estoque da internet: o céu está caindo?" O autor da reportagem, Aram Fuchs, afirma que a economia digital, antes promissora demais, agora é perigosa demais. Segundo ele, a realidade só será transparente quando "não houver 20 e poucos colegas cobrindo milionários que não têm 10 centavos".

Por muito tempo o enriquecimento rápido foi destaque na cobertura do comércio eletrônico. A revista Time de 27 de março, por exemplo, celebrou o sucesso da matéria de Stephen King "Quem precisa de Hollywood quando se pode fazer seus próprios filmes, livros e músicas?" "Todos alimentamos a mesma fogueira", afirma Gerry Gottlieb, editor-chefe da revista Netcommerce. "Não acho que as pessoas encararam o comércio eletrônico muito sobriamente."

O chefe da sucursal de Nova York da revista Industry Standard, James Ledbetter, diz que o erro jornalístico "foi o pouco rigor no exame de modelos de negócios". Ledbetter nota que talvez nenhuma indústria foi tão afetada pela revolução online quanto o noticiário de negócios. "A comunidade investidora atingiu tal grau que foi corrompida por seu próprio exagero, e inevitavelmente o primeiro reflexo apareceu no jornalismo."

A explosão da mídia online "realmente chocou muitas redações, que decidiram que há uma tendência a ser coberta pela mídia", afirma Jim Romenesko, antigo jornalista do Pioneer Press. A edição de março da American Journalism Review, por exemplo, documentou o grande êxodo de editores e repórteres das redações para o comércio eletrônico, em reportagem cuja manchete foi A fuga de cérebros para o ponto-com. A aliança do AOL com a Time Warner reforçou a idéia da onipotência com o comércio eletrônico.

Jon Katz, especialista em tecnologia e crítico da mídia, afirma que "a imprensa tende a oscilar de um extremo ao outro. O mar muda nas notícias eletrônicas. É tudo uma questão de encontrar a velocidade certa do navio, ou seja, de encontrar onde está a realidade", avalia. No momento, porém, esse mar não parece estar muito para peixe…

 

CANADÁ
Greve contra o barão

O barão mais poderoso da imprensa canadense, Conrad Black – que, diga-se de passagem, em muito lembra nosso Assis Chateaubriand –, após deleitar-se em uma troca recíproca de insultos com o bispo Frederick B. Henry, foi além de seu tradicional alvo esquerdista e atingiu a hierarquia da igreja por ele adotada: o Catolicismo Romano.

Denominado o "Deus da Imprensa", Black, 55 anos, tem cadeia de 61 jornais diários, a maior concentração do Ocidente. Em junho de 1999, o primeiro-ministro Jean Chrétien tentou evitar que a rainha Elizabeth II lhe concedesse título de nobreza. O barão processou o primeiro-ministro, acusando-o de abuso de poder por negar-lhe a chance de chegar à Casa dos Lordes. No mês passado, um juiz de Ontário rejeitou a apelação de Black, mas ele está recorrendo.

Segundo matéria de James Brooke [The New York Times, 17/4/00], Black usou seu The Calgary Herald para chamar o bispo de "bobo útil do leninismo" e "tapadinho candidato ao exorcismo". No National Post, última aquisição de Black, Ted Byfield, jornalista conservador, afirmou que "o Oeste parece estar fadado a ter, no mínimo, um bispo de esquerda".

O pecado de Henry foi encorajar Black a negociar com os trabalhadores do jornal, em greve há cinco meses. Calgary, cidade na qual se desenrola o conflito, é conhecida fortaleza conservadora. O dono do jornal declarou em entrevista: "A greve continuará por dois anos e depois não precisaremos mais manter seus empregos."

Quando Andy Marshall, um dos repórteres em greve do Herald, perguntou ao dono por que ele insulta seus antes valiosos empregados, Black respondeu: "Estamos apenas amputando alguns membros gangrenados."

 

IRAQUE
Profissional do ano

O filho mais velho de Saddam Hussein, Uday, 35 anos, foi eleito o "jornalista do século" por seus colegas iraquianos. De acordo com a notícia da AFP (19/4/00), Uday "contribuiu eficientemente e inovou a mídia iraquiana com honestidade e compromisso", nas "atuais circunstâncias históricas". Uday recebeu 678 dos 702 votos, além de ser reeleito líder da união dos jornalistas. É ainda presidente da união estudantil e editor de jornais, revistas e emissoras de rádio e TV. Em março, Uday foi eleito para o parlamento iraquiano pela primeira vez, com 99,99% dos votos.

 

LOS ANGELES TIMES
Anúncios de mau gosto

O Los Angeles Times tem publicado anúncios de gosto duvidoso, segundo matéria da AP (21/4/00). Campanha do jornal pretende mostrar ao leitor que os jornalistas do Times vão aonde for preciso para apurar matérias e tentam unir a contrastante população do sul da Califórnia.

Em um dos anúncios, uma mulher muçulmana com seu chador é justaposta a uma mulher de biquíni. Em outra, um homem bem acima do peso na praia contrasta com um soldado morto na rua. A comunidade islâmica e os próprios empregados do jornal reclamaram. Mais de 200 repórteres e editores assinaram petição contra o que consideram uma campanha ofensiva. "Creio que o anúncio em que aparece o morto é de gosto bem discutível, mas pelo menos não é ofensivo, como o outro", disse a repórter Lorenza Munoz. O jornal concordou em suspender os anúncios.

 

NEW YORKER
General sai atirando

Barry McCaffrey, general reformado que chefia o combate ao narcotráfico nos EUA, tenta impedir a publicação de matéria de Seymour Hersh na revista New Yorker. Segundo o artigo, as tropas de McCaffrey cometeram crimes na Guerra do Golfo, em 1991, matando prisioneiros de guerra iraquianos. O general afirma que o texto contém "afirmações alarmistas e difamatórias".

Reportagem de Connie Cass [Associated Press, 19/4/00] conta que McCaffrey acusa Hersh, vencedor do Pulitzer de 1969, de divulgar falsidades, como acusá-lo de crimes de morte no Vietnam e de propor empréstimo irregular de U$ 1,6 bilhão à Colômbia.

McCaffrey acusa o jornalista de malicioso e praticante de jornalismo sorrateiro – sem saber sequer se a matéria será publicada. "Amigos me avisaram de que Hersh estava empenhado numa reportagem com séries de acusações, do roubo de uma bicicleta aos 11 anos até atrocidades na Guerra do Golfo", disse o general. O jornalista nega estar agindo maliciosamente.

Hersh enviou carta ao editor da New Yorker, David Remnick, para deixar claro que não aceitará "ataques difamatórios". "Estou cuidando do meu trabalho, como faço há 35 anos", disse Hersh. "Faço perguntas, ouço respostas e tento analisar o que ouvi." Apesar de confiar cegamente no jornalista e apoiá-lo, a New Yorker quer evitar conflitos legais e iniciará a rotineira verificação dos fatos.

McCaffrey recusou-se a dar uma entrevista a Hersh – eles ainda não se falaram –, mas aceita receber questões por escrito. Neste meio tempo, o general reclamou a editores do New York Times e do Washington Post da tática do jornalista.

Os militares tomaram as dores de McCaffrey. "Não é a primeira vez que isso ocorre", disse a New Yorker. "Sempre que se trabalha com material sensível aparecem pessoas tentando se proteger."

 

CNN
General sai ganhando

A CNN tem pela frente mais uma batalha judicial, por conta da reportagem de 1998 em que acusou o Exército americano de usar gás sarin (que atua no sistema nervoso) na Guerra do Vietnam. Segundo matéria de David Bauder [Associated Press, 17/4/00], a CNN vai fazer acordo no processo iniciado pelo general John Singlaub, da unidade de elite acusada e uma das fontes da reportagem sobre a Operação Tailwind.

Singlaub falou à CNN sobre a necessidade de matar desertores americanos, mas a reportagem fez parecer que ele havia feito esforços para usar gás sarin contra eles. No processo consta matéria que a CNN fizera 8 meses antes, no programa Impact, em que se sugere o envolvimento de Singlaub no bombardeio de soldados americanos no Laos, para destruir provas de que estivera no país. Há ainda processos pendentes contra outras transmissões da CNN sobre a Guerra do Vietnam.

A CNN demitiu dois produtores e repreendeu o repórter-chefe Peter Arnett, que narrara a matéria, e que há pouco deixou a emissora. O advogado de Singlaub, Keith Mitnik, contou que em dois dias de audiência o general Singlaub pôde mostrar seu descontentamento, e os réus puderam responder. Mitnik declarou que os termos do acordo eram confidenciais. O general, por sua vez, começou se ser processado por April Oliver, produtora demitida da CNN. Segundo Mitnik, o processo foi abandonado.

 

CHINA
Imprensa desobediente

O Partido Comunista Chinês quer mais propaganda e menos marketing na imprensa. Segundo a AFP (17/4//00), pequenos jornais chineses vêm substituindo matéria propagandística do partido por reportagens "falsas" sobre as "necessidades do povo". Tais práticas contrariam o princípio fundamental do partido de "dirigir a opinião pública", disse Xu Guagchun, vice-ministro da Propaganda, sobre a demissão de Wang Yan, editor dos jornais Jinping Consumer’s Guide e China Business.

As tais reportagens, de acordo com Xu, têm "valores noticiosos burgueses", opostos ao conceito marxista de notícia do socialismo chinês. "A responsabilidade de cada jornal é guiar corretamente a opinião pública e liderar positivamente a ideologia com a propaganda noticiosa." O vice-ministro quer medidas mais duras para colocar a pequena imprensa "na linha".

Xu citou o erro dos pequenos jornais ao condenarem a proibição da seita Falungong. "É um exemplo de má imprensa." Outro "mau" exemplo: um "certo jornal" que noticiou os problemas financeiros de uma fundação agrícola.

Desde o início das reformas, há 20 anos, o mercado de jornais cresceu em progressão geométrica. Os jornais pequenos vêm tentam escapar do controle da imprensa pelo Estado com reportagens cheias de vida e cores, para aumentar as vendas.

 

IRÃ
Imprensa calada

Matéria de Jonathan Lyons [Reuters, 24/4/00] informou que 12 jornais reformistas foram fechados pelo Judiciário linha-dura do Irã. Os editores não crêem poder voltar logo a publicar seus jornais, mas autoridades afirmam que a proibição permanece até novas ordens.

A agência de notícias Irna disse na segunda-feira que oito jornais foram suspensos pelo Ministério da Justiça (controlado pelos aiatolás conservadores, contrários à abertura política dos reformistas) por ignorar os alertas sobre a publicação de material que "desafia o Islã e os elementos religiosos da Revolução Islâmica". Segundo autoridades, "o tom usado nas matérias trouxe sorrisos ao rosto dos inimigos da República Islâmica, e machucou os sentimentos de muçulmanos devotos".

Na semana passada, o líder supremo aiatolá Ali Kamenei disse que alguns jornais reformistas estão se tornam "bases dos inimigos". Foi a mais clara campanha contra a liberdade de imprensa promovida pelos conservadores. Mas, embora apanhada de surpresa, a imprensa iraniana recebera vários alertas de que haveria problemas. Entre os jornais fechados, os mais famosos são Fath, Asr-e Azadegan, Aban, Arya e Aftab-e Emrouz. Azad, também na lista negra, conseguiu publicar seu jornal na segunda-feira.

Behzad Nabavi, porta-voz da coalizão reformista que apóia o presidente Katami, pediu ao público para manter a calma e a cautela e evitar a violência. Desapontados, os leitores souberam da notícia nas bancas, normalmente lotadas. "Os conservadores assinaram a própria morte ao fechar os jornais", afirma um leitor do Asr-e Azadegan. "Não percebem que esse é o começo do fim deles." Katami, ligado à imprensa, encorajou a circulação de uma imprensa independente como parte essencial de sua campanha de abertura.

Sábado, o editor e jornalista Akbar Ganji foi preso porque acusou a polícia, também controlada pelos conservadores, de estar ligada a assassinatos em série de dissidentes.

 

HUNGRIA
Imprensa enquadrada

Daniel Langekamp [The Christian Science Monitor, 20/4/00] conta que uma editora do governo húngaro comprou a preço baixo o mais antigo jornal do país, Magyar Nemzet, o que provocou críticas dos Estados Unidos e de jornais independentes.

A União Européia também não parece gostar da história, o que torna ainda mais complicada a longa e tortuosa estrada da Hungria para ingressar na UE. "A mídia estatal não pode ter credibilidade se não tiver supervisão equilibrada e objetiva", disse o embaixador da UE em Budapeste, Michael Lake. A editora uniu o jornal ao Napi Magyarország, diário de direita. A primeira edição, com 110 mil exemplares, foi devorada nas bancas, colocando a publicação como segunda maior do país em assuntos políticos.

O governo justifica o baixo preço afirmando que a empresa tinha dívidas exorbitantes, e míseros 40 mil exemplares de circulação. Os críticos, no entanto, se queixam de não foi aberta ao público propostas para aquisição do jornal. O diretor e editor-chefe do jornal, Gábor Liszkay, diz que "a fusão foi prioritariamente por questões econômicas". Metade da equipe jornalística do Nemzet foi despedida.

O conflito começou quando o partido húngaro Fidesz assumiu o poder em 1998, e afirmou que a mídia "estava fazendo o papel da oposição". No ano passado o partido tomou medida extrema, criando comissão composta só por governistas para supervisionar a TV húngara, embora a lei exija número igual de opositores. O mesmo fenômeno ocorreu nas rádios húngaras. Segundo o analista americano Ben Flay, o caso só reforçou o fato de que a Hungria tem uma democracia aparente, negando-a na sua essência.

Sándor Orbán, diretor do Centro de Jornalismo Independente de Budapeste, afirma que seria um desastre se a TV pública fosse a única fonte de informação. "A situação é ruim, mas não trágica."

 

DIVERSIDADE
Redações brancas

O compromisso de manter a proporção étnica da comunidade nas redações tem exigido grande investimento e causado dores de cabeça a editores de jornais americanos. Ao chegar à convenção anual da Sociedade Americana de Editores de Jornais, Rick Rodrigues, editor-executivo do Sacramento Bee, soube que um de seus melhores repórteres iniciantes pedira demissão para trabalhar numa revista que oferece salários mais altos.

Segundo matéria de Felicity Barringer [The New York Times, 17/4/00], o fato trouxe novamente à tona a questão da distribuição étnica na redação. O repórter em questão é negro, e sua saída do Bee deixa o jornal ainda mais longe de seu compromisso com o equilíbrio das etnias: 37% da comunidade correspondem a minorias, contra 28% na redação.

A mesma preocupação atinge o Freedom Forum, que paga 350 dólares semanais aos estagiários, além de oferecer treinamento na Vanderbilt University. A fundação John S. and James L. Knight está investindo em campanhas de refortalecimento do jornalismo no ensino médio. N. Christian Anderson III, presidente da associação de editores, comenta que "a menos que se alargue o funil de entrada de jornalistas não há como fazer as redações refletirem a diversidade de leitores".

Apesar dos esforços, os resultados são frustrantes. O número de jornalistas negros caiu 0,1% no ano passado. "Isso mostra uma crise na confiabilidade dos jornais, à medida que o fracasso na contratação de negros significa uma cobertura menos voltada para este público", afirma Will Sutton, presidente da Associação Nacional de Jornalistas Negros. Sutton prevê um desinteresse da juventude negra pela profissão.

Pesquisa do Freedom Forum conclui que, para manter o compromisso do equilíbrio étnico, um em cada dois jornalistas contratados nos próximos 24 anos tem que ser de minoria étnica.

 

MTV
Beijo censurado

A MTV está filmando a nona edição de seu Movie Awards. Uma das categorias, a de melhor beijo do ano, é alvo de polêmica: Beleza Americana ficou entre os cinco finalistas, pelo beijo do quarentão Kevin Spacey e da adolescente Mena Suvari. Só podem concorrer cenas mostradas em clipe, mas a produtora DreamWorks não cedeu o filme. O produtor do evento, Joel Gallen, ficou desapontado. "É uma pena, ter o clipe exibido é a única maneira de concorrer ao prêmio". Segundo Gallen, a DreamWorks (produtora de Beleza Americana) sentiu que "aquele foi um beijo muito controverso e está fora do contexto geral do filme".

Porta-voz disse que a DreamWorks não quer a cena consagrada por uma premiação descompromissada. Na segunda-feira, a ausência do polêmico beijo entre os indicados foi o destaque. Ficaram apenas quatro concorrentes: Meninos não choram, com Hilary Swank e Chloe Sevigny; Segundas intenções, com Sarah Michelle Gellar e Selma Blair; Teaching Mrs. Tingle, com Katie Holmes e Barry Watson; e Nunca fui beijada, com Drew Barrymore e Michael Vartan.

Beleza Americana concorre em outras duas categorias, com clipes cedidos pela DreamWorks: melhor filme e melhor performance masculina, para Kevin Spacey. Que não deve estar muito abalado com o episódio: a estatueta do Oscar faz o troféu da MTV, um saco de pipoca de ouro, parecer insignificante.



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