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OFJOR CIÊNCIA 2000

OfJor Ciência 2000 – Oficina OnLine de Jornalismo Científico é uma iniciativa do Observatório da Imprensa, Labjor e Uniemp.


ÚLTIMA HORA – Atualizado em 12/9/2000


SCIENCE vs. NATURE
Os cinco minutos
da porquinha clonada

Luciana Christante de Mello (*)

Depois de publicar a clonagem da primeira ovelha em 1997 e do primeiro camundongo em 1998, a Science trouxe na edição de 18 de agosto de 2000 o experimento japonês que clonou o primeiro porco. A pequena Xena, uma porquinha de pelagem negra, veio para anunciar a possibilidade de, no futuro, órgãos e células suínas serem transplantadas em pacientes humanos; são os chamados xenotransplantes, que poderiam produzir em escala industrial órgãos como rins, coração e fígado para a quilométrica fila de pacientes à espera de transplante.

Assim como no caso da ovelha Dolly, a notícia teve grande repercussão, só que desta vez não propriamente pela originalidade do feito, mas porque a revista rival Nature antecipou-se e liberou para jornalistas o acesso eletrônico a dois artigos que mostravam que os xenotransplantes suínos podem infectar o organismo receptor com um tipo de retrovírus residente no genoma dos porcos, cujos efeitos na saúde humana são absolutamente imprevisíveis. Foi um balde de água fria em cima de Xena e da promessa dos xenotransplantes alardeada pela Science.

Mas vejamos a seqüência dos fatos. Três dias depois de a Science enviar a edição (embargada até 18/8) que apresentava Xena aos jornalistas cadastrados, a Nature soltou o comunicado à imprensa antecipando a publicação eletrônica dos dois artigos na contramão da notícia da rival americana, e que ainda não tinham data prevista para publicação em papel. Diante disso, a Science reduziu em um dia o embargo da matéria sobre Xena, e as notícias chegaram às páginas dos jornais brasileiros no dia 17/8. Mas a polêmica ainda teria outros atores. No início da semana um instituto escocês, que já havia clonado cinco porquinhos três meses antes sem publicar a informação na literatura especializada – e que também tinha participado da clonagem de Dolly –, anunciou que abandonara a linha de pesquisa em xenotransplantes suínos. O motivo: a empresa americana que financiava os estudos perdera o interesse diante das evidências de infecção pelo retrovírus suíno. De fato, Xena jamais seria tão famosa e cobiçada como Dolly.

O maior dos furos

Mas não é estranho que as duas publicações científicas mais prestigiadas no mundo exibam comportamentos comumente adotados pela grande imprensa, como o furo e a contranotícia? Sim, bem estranho, mas interessante. Tradicionalmente existe uma barreira que divide os mundos da ciência e da imprensa. Jornalistas se queixam do hermetismo do conhecimento científico, e cientistas reclamam da banalização presente na cobertura jornalística da ciência. Isso todo mundo já sabe. Interessante é que o caráter híbrido de publicações como Science e Nature revela que essa barreira não é intransponível, ou melhor, que pode haver zonas de interseção, que o comportamento jornalístico dessas revistas, longe de banalizar o assunto, o traz à tona em cores mais vivas e mais interessantes ao público que costuma assistir passivamente todos os dias ao anúncio de mais uma grande descoberta científica.

E a polêmica não parou por aí. Para esquentar mais a já agitada semana, o governo britânico, numa atitude nada conservadora, quebrou o tabu e, pela voz do premiê Tony Blair, pronunciou-se oficialmente a favor das pesquisas sobre o uso de células-tronco de embriões humanos para finalidades terapêuticas, mais especificamente para o transplante de órgãos para seres humanos, tema de reportagem especial na New Scientist da mesma semana. Isto significa que a tão temida e já há muito tempo anunciada discussão sobre a clonagem humana pela primeira vez bate à porta de uma instância política, que é o parlamento britânico, discussão essa que provavelmente será amplificada durante a campanha pela sucessão presidencial nos Estados Unidos.

A pobre Xena bem que teve seus cinco minutos de fama, mas ao contrário de Dolly vai rapidamente cair no esquecimento. Depois de ser desmascarada como portadora de uma infecção desconhecida, ela e sua porta-voz, a Science, saíram de cena com o rabinho entre as pernas e tiveram que ceder os holofotes aos embriões humanos clonados que, ainda hipotéticos, já começam a invadir imaginação fantasiosa das pessoas. Com todas as implicações éticas, morais, religiosas e comerciais que o tema encerra, o debate está só começando, mas talvez não demore muito até sabermos qual delas afinal, Science ou Nature, dará o furo da clonagem do primeiro embrião humano.

(*) Farmacêutica, aluna do curso de Jornalismo Científico da Unicamp <christante@bol.com.br>



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