QUALIDADE NA TV

ÚLTIMA HORA – Atualizado em 12/12/2000

 

ASPAS

BAIXO NÍVEL OU CENSURA?
Waldenyr Caldas

"TV mostra o país da escatologia e da insensatez", copyright O Estado de S. Paulo, 3/12/00

"Já faz tempo que a televisão no Brasil é considerada o mais importante veículo de comunicação de massa. Se registrarmos que 87% dos lares brasileiros possuem um ou mais aparelhos de televisão e que, diariamente, 120 milhões de pessoas assistem parte da programação, então logo se constata a força extraordinária deste veículo.

Ao mesmo tempo, boa parte da cultura lúdica e do entretenimento do cidadão brasileiro passa hoje pela televisão comercial. Em outros termos, o imaginário coletivo de diversos segmentos da nossa sociedade, é formado basicamente pela mídia eletrônica. E o destaque maior é para a televisão.

Assim, em face da sua influência, devemos pensar a televisão sobretudo como eficaz instrumento de formação da opinião pública, da formação do gosto, das idéias e até mesmo do caráter nacional. Não há como negar, portanto, a importância desse veículo no que diz respeito à disseminação de elementos políticos, sociais, culturais e até mesmo religiosos, que possam aprimorar a visão de mundo do homem médio brasileiro.

A questão, nesse caso, passa por uma avaliação acerca do que a própria televisão pensa de si mesmo. Existe uma crítica televisiva capaz de analisar com acuidade a própria televisão? A nós, parece que não. A televisão, em que pese seu inegável avanço técnico, deixou para trás a crítica sobre si mesma.

Há pelo menos três aspectos que merecem ser apreciados.

O primeiro diz respeito à teledramaturgia. O discurso da época do autoritarismo militar mudou, é claro, porque o País também mudou. É notório que nesse aspecto, temos hoje uma narrativa mais libertária, mais democrática que leva o telespectador ao encontro de um conceito mais apurado de cidadania. Entretanto, é preciso dizer também que questões raciais ainda permanecem como antes. O negro, por exemplo, permanece na subalternidade.

Não só no seu papel de figurante, mas também na escala social na trama da telenovela. Ou seja, o que vemos, é exatamente a reprodução do ‘status quo’.

Nada mudou.

O segundo aspecto envolve questões político-ideológicas. A televisão ainda não se liberou do partidarismo político, especialmente nos noticiários, na cobertura política do cotidiano de Brasília, das Assembléias, etc. O que se percebe é uma tendenciosidade atávica e sutil no conjunto das notícias.

E finalmente, refiro-me aos programas populares.

Isto porque, o Programa do Ratinho (lembram o Homem do Sapato Branco?) não tem limites éticos. Vale tudo! Desde o homem que teve relações sexuais com uma novilha, passando pelo rapaz de quatro braços e pênis de anzol, e chegando à mulher que expele charutos da sua genitália. Mas o programa não pára por aí. Somos ‘convidados’ a assistir lutas corporais, humilhação de pessoas humildes, exaltação à esperteza espúria, e outras inomináveis ‘baixarias’.

Tudo isso, no entanto, em busca de maior audiência e em nome das ‘liberdades democráticas’. O que é isto, senão uma crise de valores éticos e morais? É necessário pensarmos, urgentemente, em como se fazer programas televisivos com melhor qualidade. É necessário ainda se pensar na audiência, claro. Mas ela não deve ser o único instrumento de influência na qualidade estética dos chamados programas populares. Se a televisão não tem obrigações com a formação cultural do nosso país, com certeza tem compromisso constitucional com a ética e a democracia.

O Brasil não é e não deverá ser o país das escatologias dos homens insensatos. Nesses termos é que constata-se a ausência de uma crítica televisiva mais atuante em nosso país. Ela não só não atinge seus objetivos, como deixa de cumprir importante função sociocultural na formação do povo brasileiro. (O autor é ensaísta e vice-diretor da Escola de Comunicações e Artes da USP)"

***

"O Brasil tem direito a uma televisão decente", copyright O Estado de S. Paulo, 10/12/00

"As últimas notícias e comentários sobre a televisão brasileira têm apontado para uma direção: a possível volta da censura.

Isso é tolice e desinformação. Hoje, em nosso país, não há mais espaço para os censores da cultura. Do mesmo modo, não deveria haver espaço também para os usurpadores da lei e do bom senso.

Explorar a libidinagem, por exemplo, no horário da novela das 19 e 20 horas é, quando menos, desrespeitoso para com nossas crianças. E isso acontece cotidianamente, todos nós sabemos. Não se trata de esconder da criança, questões da sexualidade, não é isso. Trata-se, isto sim, de evitar e até impedir que esta criança tenha sua formação sexual desvirtuada.

É claro que cabe à escola e à família a formação sexual de seus filhos. Mas a televisão, se não tem e não quer assumir um compromisso social dessa magnitude, pode muito bem não atrapalhar. E a melhor forma seria evitar a bolinagem gratuita e perversa à formação sexual de nossas crianças.

Em nome da maior audiência (está implícita a tirania do lucro) nossa televisão caminha, e nos leva juntos, para uma profunda crise de valores morais e éticos, extremamente perigosa para a formação dos jovens nas mais diversas faixas etárias. E o que mais se ouve como argumento de defesa dessa mediocridade, é o seguinte: ‘Ah, nós estamos numa democracia, somos livres para nos manifestar como quisermos.’

Ora, não é bem assim! Democracia nada tem a ver com libertinagem, muito menos com desrespeito. As desventuras humanas não podem, qualquer que seja o regime político, servir de instrumento de audiência dos veículos de comunicação de massa. Isto só evidencia ainda mais a crise de valores éticos e morais porque passa a sociedade brasileira. A violência física, a corrupção de alguns políticos que às vezes nos fazem duvidar do poder público, a bandalheira generalizada das transações comerciais, são alguns exemplos do nosso declínio ético e moral. A eles se soma boa parte da programação da televisão. E isso vem piorando cada vez mais.

Não tem sentido, por exemplo, convivermos com programas sem escrúpulos, onde o mais importante não é o telespectador, mas o sensacionalismo espúrio e oportunista.

Não se pode, em nome das liberdades democráticas, praticar o linchamento moral de pessoas inocentes. Isto ocorreu, como todos sabemos, com três jovens acusados de assassinato de uma moça em Moema. Eles foram escorraçados, presos e torturados. Provada a sua inocência mais tarde, foram soltos, mas até hoje sofrem a humilhação e a pecha por uma coisa que não fizeram. E este caso não é um fato isolado. Basta ficarmos atentos aos noticiários sensacionalistas. Cidade Alerta é um deles. É o mais fiel herdeiro do famoso programa Aqui, Agora.

O que se deseja não é a censura, evidentemente. Se deseja, isto sim, respeito às nossas crianças, o fim da humilhação às pessoas humildes e maior equilíbrio moral de quem cria programas televisivos desta natureza.

Tudo isso se faz em busca de maior audiência e em nome das ‘liberdades deocráticas’. O que é isto, senão uma crise de valores éticos e morais? É necessário pensarmos, urgentemente, em como se fazer programas televisivos com melhor qualidade. É necessário ainda se pensar na audiência, claro. Mas ela não deve ser o único instrumento de influência na qualidade estética dos chamados programas populares. Se a televisão não tem obrigações com a formação cultural do nosso país, com certeza tem compromisso constitucional com a ética e a democracia. O Brasil não é e não deverá ser o país das escatologias dos homens insensatos."



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