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QUALIDADE NA TV
ÚLTIMA HORA – Atualizado em 12/12/2000
ASPAS
PROGRAMA PARA GAROTAS
Renato Janine Ribeiro
"Por que a velha profissão ainda seduz", copyright O Estado de S. Paulo, 3/12/00
"Capitu roubou a cena. Em toda novela, personagem secundária tem sua semana de glória. Em Laços de Família, a prostituta de cachê alto, muito sofrimento e bom coração atingiu destaque superior à média. Revistas, jornais, programas de TV se puseram a discutir as garotas de programa.
E isso numa tônica só: alertar as jovens para os riscos dessa carreira. É curioso que, vinte anos atrás, a ‘mais antiga profissão do mundo’ parecesse fadada à extinção, como o mico-leão-dourado e o urso panda. O sexo bom ao alcance de todos e a liberação sexual tornariam desnecessária a dupla moral sexual, diferente para o homem e a mulher. Sexo, só por amor ou prazer - não por dinheiro.
Mas o fato é que a prostituição se reciclou, pelo menos na sua franja mais alta, a das garotas de programa de classe média. O que os alertas da TV indicam é que inventar Capitu mexeu em vespeiro. Senão, por que avisar tanto às mocinhas que a venda do sexo não traz a felicidade? Deve haver muito fascínio pela prostituição chique para que seja preciso lembrar os riscos - reais - que ela traz para a saúde, a integridade física e a psique.
Ora, por que se tornou sedutora - até para a classe média - essa carreira profissional? Penso que isso tem a ver com o prestígio que a mídia, televisiva e impressa, conferiu às modelos. Uma revista já publicou na seção de serviços ‘o que fazer para ser modelo’ e outra afirmou na capa, em enorme exagero, que ‘dez entre dez meninas’ sonham com a passarela. Embora a Constituição e acordos internacionais proíbam o trabalho de menores de 16, a mídia incita os pais - e sobretudo as mães - a encaminhar as filhas para uma carreira de exibição do corpo e do charme.
O psicanalista Flavio Gikovate costuma insistir na diferença entre o erotismo masculino e o feminino. O homem se excita vendo (daí a importância das revistas com mulheres nuas), a mulher sendo vista. Assim, a campanha da mídia, exortando as meninas a serem modelos, investe pesado no desejo feminino de se exibir e no masculino de olhar.
É claro que a mulher controla hoje as condições de sua exibição. O nu continua convertendo a mulher em objeto, mas hoje várias mulheres governam essa sua constituição em mercadoria. São objeto, mas também sujeito. São mercadoria, mas também negociantes. Acabou a época em que o desnudamento tinha algo de humilhante.
Mas é precoce investir nesse jogo de desejo quando a mulher em questão mal alcançou os dois dígitos de idade! Resultado: a personalidade nem se formou, e já os pratos da balança estão desiguais. Ela nem brincou, nem estudou o bastante, e é jogada num mundo em que o prazer (de ser vista, para as modelos, ou de fazer amor, para as prostitutas) se converteu em trabalho. O gratuito virou negócio, o brinquedo erótico virou rigor e disciplina. Qual psique agüenta isso?
Conclusão: se devemos alertar as meninas contra os riscos de ser garota de programa, vamos às causas e não aos sintomas. A causa está em prestigiar uma vida que é pura visibilidade, superfície, sem profundidade. A solução está em não abreviar o tempo de brincar e estudar. Só assim a pessoa terá uma personalidade rica para enfrentar um mundo cada vez mais complexo - um mundo fascinante, mas difícil. E assim sairemos da hipocrisia de recomendar o sucesso pela beleza, e depois alertar contra o risco de vendê-la fora das passarelas. (Renato Janine Ribeiro é professor de Ética e Filosofia Política da USP)"
CÉSAR COELHO PERDOADO
Lauro Jardim
"Coelho: demissão revogada", in Radar, copyright Veja, 13/12/00
"Arnaldo César Coelho foi defenestrado pela Globo quando apareceu no programa eleitoral de televisão ao lado do irmão, então candidato a prefeito do Rio. Os funcionários da casa são proibidos de participar de campanhas políticas por um rigorosíssimo código de conduta. Nem mesmo o segundo homem mais popular do esporte na emissora escapou. Na semana passada, sem o mesmo alarido da época da demissão, a Globo o chamou de volta. Começa em janeiro, comentando o Torneio Rio-São Paulo. Aliás, a Globo quer ver suas máquinas registradoras tilintando no mesmo ritmo dos dribles dos atacantes. Dona dos direitos de todos os principais campeonatos do país, está disposta a dividir as transmissões com quem se interessar em pagar por isso. Já está negociando com a Rede TV!."
CRÍTICA / VIDAS CRUZADAS
Leila Reis
"Velha-guarda acha abrigo na Record", copyright O Estado de S. Paulo, 2/12/00
"No momento em que a contenda entre a Globo e o juizado carioca mexe com os nervos do autor e com os índices de Laços de Família, as histórias melhor comportadas da vizinhança seguem sem tropeços.
Vidas Cruzadas, que estreou na Record com 9 pontos de média no ibope (na Grande São Paulo), vem segurando a média do horário entre os níveis de 6 e 7 pontos, o equivalente a cerca de 5,5 milhões de telespectadores. A nova trama da Record tem o mesmo jeitão mexicano de sua antecessora, Marcas da Paixão, ou seja, um texto cheio de clichês, um enredo meio capenga e excesso de pancake. No setor dos ricos, as mulheres usam costumes de seda e jóias para esperar o marido para o jantar, passear pela praia ou dar em cima do marido das outras. Os homens não dispensam o terno nem o gumex.
A precariedade da produção, no entanto, não esmaece o brilho de intérpretes maravilhosos como Laura Cardoso, Sérgio Brito e Gianfrancesco Guarnieri.
Mesmo impermeabilizada por laquê e pela maquiagem pesada, Laura dá um show como a atormentada Natália. O maior mérito de Vidas Cruzadas, no entanto, é dar trabalho para atores que já pertenceram ao primeiro escalão da Globo. O investimento em teledramaturgia sempre surge como uma dádiva para atores veteranos - idosos ou não. A necessidade que a Globo inventou de lançar caras novas a cada produção e rejuvenescer os personagens acaba expurgando os experientes. No elenco de cada novela da emissora deve ter, por baixo, dez personagens jovens para cada idoso. Em Malhação essa proporção cresce consideravelmente.
Esse hábito faz com que até atores jovens que um dia foram a sensação do momento na Globo, sejam descartados em favor do exército da renovação. É o caso de Alexandre Barillari, apontado como a revelação de Salsa e Merengue, de Gabriela Alves, festejada como o talento da vez quando surgiu em Despedida de Solteiro, Felipe Folgosi ou de Narjara Tureta, a garota-prodígio que foi a filha rebelde da Malu Mulher, que estavam fora do vídeo há muito tempo.
Mesmo que não seja um primor, Vidas Cruzadas mostra que a Record está no bom caminho insistindo em produzir novelas porque, como já foi escrito nesta coluna, em TV é fazendo que se aprende. Tanto a Bandeirantes, responsável pelo épico Os Imigrantes, quanto o SBT, que até tem na gaveta a quarta versão de O Direito de Nascer, desistiram da teleficção.
Silvio Santos ameaçou disputar para valer com a Globo quando emplacou Éramos Seis, fez as contas e optou pelas enlatadas. Seu público adora dramalhões mexicanos e responde bem à oferta: Esmeralda (que custa dez vezes menos do que uma produção nacional) tem registrado 14 pontos de média no ibope, contra 9 das anteriores Fascinação e Os Ossos do Barão. Como o objetivo da TV tem sido fazer dinheiro e não programas de qualidade, não será surpresa se a maldição mexicana baixar no terreiro da Record."
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