QUALIDADE NA TV

ÚLTIMA HORA – Atualizado em 12/12/2000

 

JÔ SOARES & JOÃO GORDO
Ivan Angelo

"O mundo do programa de dois gordos", copyright Jornal da Tarde, 7/12/00

"Separados por uma hora na programação e por muitos quilômetros de conteúdos e significados, dois gordos comandam talk shows no fim da noite na televisão. Às 23h, somente às segundas-feiras, no MTV, o João Gordo comanda a atração Gordo a Go-Go; por volta da meia-noite, de segunda a sexta, na Globo, Jô Soares apresenta o Programa do Jô. A única coisa que os aproxima é o ponteiro da balança.

De certa forma, os programas dos dois gordos se complementam. Um é o mundo do trash, do escracho, da esculhambação, do underground, do rebelde rechaçado, da cusparada; o outro é o establishment, o palco dos vitoriosos, dos aceitos pelo sistema, dos ilhéus de Caras, dos emergentes que fazem festas milionárias para a cachorrinha, dos artistas em evidência.

Os cenários refletem os dois mundos. No de João Gordo, um visual bem lixo, vermelho e preto, iluminação pobre, uma mesa, um sofá vermelho para os convidados, ao lado uma poltrona da mesma cor, à qual se senta e da qual nunca se levanta o apresentador, um telefone pretão da antiga CTB, mesinha de centro com tampo de vidro sobre uma figura de mulher sado-masô de quatro, ao fundo um manequim feminino tipo loja pornô, e é tudo. Aí rolam as entrevistas bárbaras e os barbarismos do primeiro Gordo. No cenário do Jô, um show de tecnologia, de iluminação, conforto e funcionalidade, compatível com os conteúdos apresentados.

A fala de um e de outro apresentador também é significativa, veículo adequado e expressivo dos dois universos. A de João Gordo é freqüentemente chula, mal-articulada, carregada de gírias que o telespectador nem sempre entende. A de Jô é culta, freqüentemente poliglota; quando ele recorre à gíria é para explicá-la, deliciar-se com ela como criação ‘popular’. Ele busca o humor, o divertimento. João Gordo não veio para explicar, veio para bagunçar. Não faz humor, faz política. Jô procura vestir-se como um dândi; João tem o visual da periferia, de rapper misturado com punk e metaleiro: bermudão preto, óculos pretos fechadões, braços tatuados, três furos nos lábios cravados de brincos, boné.

Bocão - O Jô todo mundo sabe o que busca nas entrevistas: humor, entretenimento, informação até certo ponto. Já o João é um escândalo. Informação o tempo inteiro, porque a simples contemplação das figuras que vão ao programa é informação nova. Não é informação estruturada, o que passa é um modo de ser.

Não quer convencer a ninguém de que aquilo é bom ou ruim nos padrões do espectador, quer só mostrar. Como se dissesse: conheça outro tipo de gente, uma gente com a qual você não vai conversar nunca, talvez nem cruzar, porque seu mundo é outro. Desfilam punks, ratos de porão, tatuadores que explicam a linguagem daquelas figuras, rappers, gangues de som, lutadores de luta-livre, metaleiros, produtores caseiros de discos, bandas radicais e às vezes alguma banda que fez sucesso sem renunciar à linguagem da turma, como o Sepultura.

Na última segunda, o Supla, filho da prefeita, foi um dos entrevistados. Ao falarem do passado, o Gordo, com a grossura e os palavrões habituais, perguntou: ‘Você comeu a Nina Hagen, cara?’ Supla desconversou. Falaram da boca da Hagen, ‘ela tem um bocão, né cara?’, sensacional, reconheceu o Supla, ‘mas vem cá, ela fez uma chupeta pra você, cara?’, e o Supla novamente desconversa; passam o clipe de Linda Garota de Berlim, close na bocona... É assim a bagunça do Gordo.

Depois chamou o pessoal da Associação Brasileira de Luta Livre. É, ainda existe, arma ringue em Itaquera. No meio da turma, uma loirinha de aparelho nos dentes, lutadora iniciante, chamada Penélope. O Gordo: ‘vem cá, você está num bar, pinta uma treta, você dá porrada mesmo?’ Ela: ‘Com certeza’. O Trovão, voz rouca presa na garganta, diz que não se deve confundir marmelada com show: o que fazem é um show, não é bem uma luta. E o Gordo, para a loirinha: ‘Vem cá. quando você tá com TPM você luta com mais raiva?’ Ela:

‘Com certeza’.

Esse mundo certamente não apareceria no Jô nem na Globo. E muitos argumentarão que não se ganha nada por conhecê-lo. Talvez não se ganhe mesmo, a não ser o conhecimento de um bolsão da sociedade. A mesma coisa que se ganha ao conhecer o mundo de Caras."




CNN CORTA GASTOS
Jim Rutenberg

"Sob nova direção, CNN reduzirá gastos", copyright Folha de S. Paulo/The New York Times, 10/12/00

"Em 1972, quando era estudante na Universidade Cornell, Steven J. Heyer, hoje com 48 anos, se ocupou de uma atividade extracurricular pouco comum: construiu um tanque como os usados pelo Exército, com peças avulsas que encomendou pelo correio.

Essa história o acompanhou durante toda sua carreira profissional porque é interessante e revela muito sobre sua personalidade. Na verdade, o próprio Heyer às vezes é descrito como um tanque pela rapidez com que consegue passar por cima de tudo numa grande empresa e arrasar o que vê como sendo desperdício e resultado de gestão ineficiente.

Agora o tanque está em ação mais uma vez. Presidente da Turner Broadcasting System, Heyer está aplicando seu estilo arrasador à CNN, filhote favorito do patriarca e fundador da rede, Ted Turner. Até este ano, apenas Turner era o responsável último pelos orçamentos da CNN. Mas, desde que a empresa-mãe da CNN, a Time Warner, fundiu-se com a America Online, Turner abriu mão do controle de sua cria.

Heyer emergiu como figura-chave nas mudanças abrangentes previstas pela CNN em seu pessoal e sua programação, que muito provavelmente vão resultar em menos programas de entrevistas noturnos e menos ênfase em pacotes de notícias de alto custo. Heyer ordenou enxugamentos que podem levar à eliminação de centenas de cargos na CNN.

Os produtores e executivos da CNN viveram por algum tempo num clima visto por muitas pessoas do ramo do jornalismo de TV como um paraíso. Tinham relativa liberdade para gastar quanto achassem preciso para cumprir sua missão de fazer uma cobertura completa das notícias.

Mas, à medida que essa cultura foi crescendo, os executivos financeiros da CNN foram recuando diante do que viam como os excessos de seus executivos jornalísticos. Suas 39 redações produziram programas de jornalismo que nunca chegaram a ser veiculados em nenhuma das redes CNN, nem nos EUA nem no exterior. Uma divisão não sabia o que a outra estava fazendo. Basicamente, julgou-se que a organização não estava em condições de satisfazer as necessidades da empresa resultante da fusão da AOL com a Time Warner, na qual terá de produzir programas de notícias que sejam veiculados na televisão, em PCs domésticos e em máquinas sem fios.

Consta que os profissionais da CNN não deixam de ver as novas diretrizes com algum grau de otimismo. O novo presidente e executivo-chefe operacional da CNN, Philip Kent, homem de confiança de Heyer e ex-diretor da TBS International, vem cooperando estreitamente com Johnson e os executivos de notícias da rede para desenvolver novos programas de jornalismo centrados em nomes de talento reconhecido como Wolf Blitzer e Jeff Greenfield.

Ainda não se sabe se previsões otimistas vão se concretizar, já que tampouco se sabe exatamente quantos profissionais vão perder seus empregos ou como será a nova grade de programas da rede. (Tradução de Clara Allain)"




COBERTURA INTERNACIONAL
Nelson Ascher

"A grande e real telenovela", copyright Folha de S. Paulo, 10/12/00

"Quando os atuais distúrbios do Oriente Médio estavam ainda no começo, Madeleine Albright convenceu Ehud Barak e Yasser Arafat a se reunirem em Paris para, com a mediação dela e de Jacques Chirac, negociarem um acordo de paz. Consta que, tão logo o primeiro-ministro israelense e o presidente francês se encontraram, este deixou bem claro para o primeiro que julgava os israelenses culpados pela situação. Barak teria perguntado a Chirac como é que ele podia estar tão seguro disso, quando as circunstâncias eram complexas e ele, Barak, nem tinha tido ainda a chance de expor sua versão dos fatos. Parece que o francês retorquiu que a TV mostrava, sem sombra de dúvida, quem era o agressor, e, diante de tal argumento, o israelense arrematou ironicamente que achava estranho o presidente da França confiar na TV como sua principal fonte de informação.

Barak estava obviamente certo. Só que Chirac não estava errado. Independentemente de a televisão exibir fidedignamente ou não a realidade empírica do conflito, suas nuances e o emaranhado de suas causas, ela mesma é um campo importante de batalha. E neste, sobretudo após a morte televisionada de um garoto palestino durante um tiroteio, Israel andava perdendo feio.

Foi necessária, mais do que o linchamento de dois reservistas israelenses, a imagem de um linchador palestino exibindo orgulhoso suas mãos ensanguentadas para que se chegasse, nas telinhas de todo o mundo, a uma espécie de empate técnico. Como é que os palestinos permitiram que isso acontecesse? Bom, eles não o permitiram, e a história de como a jornalista italiana que, arriscando o pescoço, gravou essas imagens e conseguiu fazê-las furar o bloqueio palestino poderia ser o enredo de um filme.

Esse filme já existe. Trata-se de ‘Sob Fogo Cerrado’ (Under Fire,1983), uma versão ficcionalizada de um episódio real da guerra civil da Nicarágua (1979), na qual os rebeldes sandinistas enfrentavam a ditadura de Anastasio Somoza. O ditador em questão teve o apoio dos EUA até chegarem ao público deste país as imagens de um soldado do Exército somozista executando a sangue-frio um repórter norte-americano (vivido nas telas por Gene Hackman; o fotojornalista que registra a execução é interpretado por Nick Nolte).

Diante da indignação nacional, o governo americano foi forçado a suspender o apoio a Somoza, garantindo a derrota de seu regime. Embora seja essa sua trama central, o filme, uma autêntica e discreta obra-prima, é ainda mais rico. As imagens, no filme assim como na guerra nicaraguense, eram um campo de batalha secundário que se tornava inesperadamente decisivo. No Oriente Médio, devido ao incomparável poder de fogo dos israelenses, a ocupação da telinha importa, como prêmio de consolação ou ‘arma dos fracos’, mais para os palestinos. Mas o papel da TV na atual ‘campanha pós-campanha’ presidencial nos EUA é um fenômeno de outra magnitude.

Essa magnitude decorre, antes de mais nada, da cobertura ininterrupta, algo que só poderia ocorrer num contexto norte-americano. Descontada alguma catástrofe superlativa, nada que não interesse aos americanos poderia garantir a atenção total de uma CNN, e as únicas coisas que podem interessá-los assim são as que acontecem nos Estados Unidos.

O julgamento de O. J. Simpson é um bom exemplo de um evento que, para os restantes 95% da população do planeta, não tem qualquer relevância. O escândalo que levou, ou melhor, foi usado para chegar ao ‘impeachment’ do presidente Clinton (um quase golpe de estado tramado e orquestrado pela direita do país, ‘a vast right-wing conspiracy’, como bem o dissera Hilary Rodham Clinton) pertence, por seu turno, à categoria de acontecimentos que parecem dizer respeito apenas aos EUA, mas têm de fato uma importância global. O mesmo se pode dizer da disputa pós eleitoral entre Gore e Bush.

Curiosamente, durante a campanha, o papel da televisão até que foi modesto. Depois das eleições, todavia, a constatação do empate, a corrida contra um relógio biológico dotado de ponteiros capazes de serem acelerados ou retardados pela (im)paciência da população e o peso puro e simples da opinião pública (e quem não se lembra de que foi a inamovibilidade desta que evitou a deposição de Clinton?) foram todos elementos que colaboraram para tornar substancialmente maior o papel da TV.

Se, no episódio do ‘impeachment’, muito de determinante ocorreu atrás de portas fechadas e longe das câmeras, desta vez boa parte do drama está se desenrolando, em tempo real, diante delas, enriquecida, além do mais, por uma dose nada desprezível de suspense, reviravoltas diárias, atores-personagens que crescem e/ou encolhem diante de nossos olhos, heróis, vilões e tudo mais a que uma audiência exigente tem direito.

Acrescente-se que a própria televisão, por meio de suas decisões, por meio de seus repórteres e comentaristas, formulando as perguntas das pesquisas cujos resultados são usados para pressionar um contendor ou o outro etc., também é uma personagem ativa, e o que temos é a grande telenovela dos dias de hoje, uma telenovela que faz, por exemplo, as da Globo parecerem amadorísticas."



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