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QUALIDADE NA TV
ÚLTIMA HORA – Atualizado em 12/12/2000
ASPAS
RACISMO
Rodrigo Carneiro
"Racismo na tela tem ampla discussão", copyright O Estado de S. Paulo, 5/12/00
"O ator Sérgio Cardoso, pintado de negro com rolhas a engrossar-lhe os lábios e o nariz, interpretando o personagem título da novela global A Cabana do Pai Tomás, em 1969, é apenas um dos episódios incômodos lembrados pelo cineasta e escritor Joel Zito Araújo no livro A Negação do Brasil - O Negro na Telenovela Brasileira (Editora Senac), que será lançado hoje no Espaço Unibanco de Cinema. No lançamento, será exibido o documentário em longa-metragem A Negação do Brasil. Ambos resultam da tese de doutorado que o autor desenvolveu no Núcleo de Pesquisa de Telenovela da Escola de Comunicações e Artes da USP.
Segundo Araújo, a escolha de Sérgio Cardoso para o papel principal da novela foi uma imposição da agência de publicidade Colgate-Palmolive, uma das subsidiárias norte-americanas que patrocinavam a produção de tramas nacionais nos anos 60. O ator era responsável também por boa parte da redação do script. Fracasso de audiência e detonadora de uma das primeiras e maiores polêmicas sobre a questão racial na televisão brasileira - com direito a protestos de rua encabeçados pelo dramaturgo Plínio Marcos, A Cabana do Pai Tomás causou tanto mal-estar que o próprio Sérgio Cardoso se adiantou à possível pecha de racista. No período o ator afirmou coisas do tipo: ‘Tenho vários amigos de cor que são como meus irmãos; tenho afilhados pretinhos que amo como se fossem meus filhos.’
‘O ator Milton Gonçalves (contratado pela Rede Globo desde 1965 e, entre outros, um dos fundadores do grupo teatral Arena) conta que todas as vezes que se encontravam, Sérgio Cardoso tinha sempre a preocupação de se justificar’, diz Araújo. O final reservado à novela foi ainda mais caótico.
Um incêndio destruiu os estúdios da Rede Globo em São Paulo. As gravações foram transferidas para o Rio e Sérgio Cardoso pediu ao diretor Walter Negrão que escrevesse os capítulos derradeiros. ‘Li os últimos capítulos e vi que havia um bando de brancos e negros brigando, fiz com que os negros subissem em árvores e transformei no maior faroeste’, é o depoimento, absolutamente ilustrativo, do novo escriba no livro.
Se, por um lado, Araújo avalia o episódio A Cabana do Pai Tomás como positivo. ‘Nunca mais ouve na história da teledramaturgia brasileira um caso de blackface’, diz. O autor lembra também o profundo trauma causado pela maquiagem e pelas rolhas. ‘Levou mais de 30 anos para que uma atriz negra, a Taís Araújo, protagonizasse a telenovela Xica da Silva, na década de 90.’
A ressaca pôde ser notada nos anos 70. Mesmo que o rompimento com o estilo clássico do melodrama cubano inaugurasse a modernização da teledramaturgia na época, nenhum folhetim da década se ocupou das demandas da comunidade negra. ‘As produções da Globo e da Tupi, emissoras hegemônicas no segmento (e maiores fontes de estudo para o livro e para o documentário), deram de ombros’, lembra Araújo. A exceção ficou por conta de autores como Jorge Andrade e Janete Clair, que introduziram personagens negros de classe média em suas tramas - ainda que em papéis de pouca densidade em relação ao tema central. ‘A grande tragédia era esse embranquecimento apresentado nas telas; uma coisa até mesmo inconsciente dos produtores brancos que têm uma distância natural do universo das outras raças’, continua. ‘Nesse sentido, a telenovela fazia uma negação do negro e da diversidade racial no Brasil’, diz Araújo.
O autor lembra também que as tramas da Rede Globo que enfocavam a escravidão sempre confirmaram a versão histórica oficial de que a libertação dos escravos foi fruto da benevolência da princesa Isabel. O que vem diretamente ao encontro do estereótipo do serviçal dócil e alheio - as ações dos negros revoltosos e a movimentação dos quilombos foram solenemente ignoradas. O irônico é que a única personagem afro-brasileira a demonstrar consciência de sua época e orgulho próprio foi a escrava Isaura, adaptação de Gilberto Braga. A escrava em questão era interpretada pela atriz Lucélia Santos.
Corpo a Corpo, do mesmo Gilberto Braga, traria, em 1985, uma família de classe média negra. A trama colocava em pauta o romance inter-racial vivido pelos personagens interpretados por Zezé Motta e Marcos Paulo. Na análise de 34 anos de produção de telenovelas, no período que vai de 1963 a 1997, Araújo detecta mudanças estruturais e positivas culturalmente, na década de 90. Além da já citada Xica da Silva, da extinta TV Manchete, o autor se refere às tramas Por Amor (marido branco teme ter filhos com a esposa negra pereocupado com a cor de pele que terão) Anjo Mau, com Taís Araujo e Fera Ferida, com Norton Nascimento e Camila Pitanga, como exemplos. ‘Houve conquistas substanciais durante a década’, observa.
Ainda que livro e documentário tragam em suas considerações finais a influência da atmosfera otimista da década passada, no fim do ano 2000, Araújo pensa de outra forma. ‘Eu estava mais otimista quando escrevia o livro’, continua. ‘Não vejo hoje o desenvolvimento das conquistas dos anos 90’, diz ele, estabelecendo um paralelo com a estética dos anos 70.
‘Decididamente, o tabu não está superado, a dificuldade de visibilização do negro é evidente.’
Origem - A gênese das produções que o autor lança hoje está num projeto anterior. Em 1993, Araújo ganhou uma bolsa da Fundação MacArthur para pesquisar o papel do negro na cultura audiovisual norte-americana, em especial a TV. ‘Andei por toda costa leste estabelecendo contato com diversos realizadores e assistindo a muita coisa interessante’, conta. Em meio à pesquisa, ele se deparou com o clássico documentário Color Adjustment, do falecido militante negro Marlon Freggs. A obra retrata o processo de integração da comunidade negra na sociedade norte-americana sob a ótica dos meios de comunicação. ‘Tive uma reorientação depois dessa viagem.’ Ao voltar para o Brasil, ele deu início ao trabalho que resultaria no livro e no documentário.
Dentro dos próximos projetos do autor estão a produção de dois novos documentários. Um longa-metragem sobre negros e índios na teledramaturgia latino-americana. ‘Quero investigar porque essas populações amam tanto as tramas que não as representam.’ E o outro, um curta que discutirá a profusão de apresentadoras infantis loiras na televisão brasileira. (A Negação do Brasil - O Negro na Telenovela Brasileira. De Joel Zito Araújo. Editora Senac - SP. 323 páginas. R$ 28,00. Após o lançamento do livro, às 21h30, será exibido o filme A Negação do Brasil, dirigido pelo próprio autor. Hoje, às 19h30. Espaço Unibanco de Cinema. Rua Augusta, 1.470, tel. 288-4591)"
SEM POKÉMON
PanoramaBrasil
"Turquia proíbe seriado do Pokémon na televisão", copyright PanoramaBrasil (www.panoramabrasil.com), 8/12/00
"Um canal de televisão da Turquia recebeu ordens do comitê de censura para que deixe de exibir o popular desenho Pokémon, depois que duas crianças pularam de varandas de prédios, em casos separados, acreditando terem os superpoderes que os personagens do desenho possuem.
Os acidentes com as crianças, de sete e quatro anos, ocorreram no mês passado. O ministro da Saúde turco, Osman Durmus, ligou os dois casos à série japonesa, baseada nas aventuras de 150 monstros.
O Alto Conselho de Televisão e Rádio puniu o canal ATV, deixando-o fora do ar durante um dia, em resposta a uma reclamação do Ministério da Saúde. O diretor da ATV, Zuhtu Sezer, disse que a Turquia seria a primeira nação a banir da programação televisiva o desenho, exibido em 60 países. ‘Aonde isso vai levar? Será que eles vão proibir também os brinquedos do Pokémon? Acho que esse é um infeliz episódio no momento em que a Turquia tenta fazer parte da União Européia. Onde está a liberdade de expressão?’, protestou Sezer. A emissora irá apelar da decisão."
CRÍTICA / FICA COMIGO
Hélio Schwartsman
"O sexo na gôndola", copyright Folha de S. Paulo, 3/12/00
"Perfeita em seus atributos e essências, Fernanda Lima deve, pelo princípio de razão suficiente, apresentar um programa perfeito.
Resta então identificar em que sentido ‘Fica Comigo’, exibido pela MTV, é perfeito. Para os que não conhecem, a atração é a versão pop de ‘Namoro na TV’, de Silvio Santos. O intuito, como atesta o site da emissora, é unir ‘solitários de plantão’. Cada episódio conta com a participação de um(a) ‘querido(a)’, aquele(a) que procura um(a) namorado(a), e quatro ‘interessados(as)’. As inscrições são feitas pela Internet. Apenas os ‘interessados’ têm acesso a informações prévias a respeito do ‘querido’, o que inclui a aparência física.
No programa, o ‘querido’ fica sem ver os pretendentes. Conversa com eles e pode até tocá-los, cheirá-los e apalpá-los, mas não olhá-los. A cada bloco, um dos cortejadores é eliminado pelo candidato, que, ao final, decide, por meio de um beijo, se leva adiante o comércio amoroso. Um ósculo no rosto indica que o ‘querido’ não se entusiasmou com o ‘interessado’; na boca, que a permuta espiritual e carnal achou terreno para prosperar.
É inescapável a sensação de que estamos num supermercado sexual, em que o ‘querido’ apanha na gôndola o produto de sua preferência, depois de ser submetido a ‘informes publicitários’ do mesmo sobre o mesmo. Antes de prosseguir, esclareço que não sou um daqueles que choram pela ‘boa e velha ordem moral perdida’. Nada tenho contra formas heterodoxas de iniciar relacionamentos nem contra uma suposta mercantilização do sexo, que, salvo engano, existe desde que o homem desceu das árvores, talvez antes.
O interessante aqui é que o programa se torna um retrato fiel, quase um tipo ideal, de uma nova sexualidade que se apresenta. Em primeiro lugar, o sexo já não se esconde. Ainda que apenas insinuado (não há cenas ‘fortes’ em ‘Fica Comigo’), ele deixou de ser assunto de alcova para ganhar platéia e transmissão pela TV. Isso é sem dúvida um subproduto da revolução sexual dos anos 60. Ainda que ninguém mais leve a sério as idéias de Wilhelm Reich (ele acreditava, por exemplo, que a liberação sexual traria o socialismo), algo daquele discurso forjado na esteira do feminismo, da pílula anticoncepcional e na crença em que o homem é senhor do próprio destino permaneceu, apesar da Aids e de algumas ofensivas conservadoras, aí incluídos Ministério da Justiça e Juizado de Menores.
Mais do que isso, o sexo já não hesita em mostrar-se como produto de consumo. É um pouco a lógica de mercado ocupando seu espaço nas subestruturas sociais. Pessoas hoje fazem suas escolhas sexuais no atacado (orientação sexual) ou no varejo (este ou aquele pretendente), mais ou menos da mesma forma que optam por uma linha ou marca de produtos. Mais importante, desfrutar de prazer sexual, qualquer que seja ele, é no limite uma obrigação, cientificamente determinada.
Vivemos a era dos sexólogos. A mesma MTV de ‘Fica Comigo’ exibe ‘Erótica’, em que um médico e uma mulher bonita falam sobre sexualidade com famosos, e o público faz perguntas, à personalidade convidada, ao médico ou à mulher bonita. Revistas femininas e masculinas se tornaram verdadeiras enciclopédias de sexo, abordando da anatomia a parafilias que a maioria de nós nem sabia que existiam. Não há portal da Internet que não dedique gigabites ao assunto.
Como sustenta Jean-Claude Guillebaud em ‘A Tirania do Prazer’, o sexo foi transformado em função orgânica. É claro que, num certo sentido, ele o é mesmo, e o esforço de levar informação às pessoas só pode ser louvado. Para muita gente, descobrir que aquela ‘encanação’ que tem está dentro da ‘normalidade’ pode significar a diferença entre uma vida razoavelmente feliz e uma existência atormentada.
O problema é que, quando despachamos o sexo para a categoria de objeto de especialidade médica, sacrificamos algo da dimensão cultural que o envolve e determina. Quando desvios (sim, eles existem) são tratados como disfunções, a própria noção de interdito sexual se torna fluida. E, a antropologia já o provou, não há sociedade humana sem interditos sexuais.
Não importam os conteúdos das proibições, mas é preciso que elas existam para, por um lado, dar liga aos laços sociais e, por outro, renovar as fontes de erotismo para cada indivíduo isoladamente. Não interessa o que é proibido, mas algo deve estar fora dos limites, ou o ato sexual regride para o plano da animalidade, em que ele é puramente fisiológico, fugaz e não-elaborável. Numa tradução prosaica, se pudéssemos possuir todas as mulheres que desejamos, não teríamos assunto no bar.
‘Fica Comigo’ obviamente está longe de propor a anulação dos tabus sexuais. O programa é até bem-comportado demais para o meu gosto, o que o torna um pouco maçante. Mas ele se coloca como um jogo de ‘livres’ escolhas que é a metáfora perfeita - a exemplo das formas da apresentadora- de uma sexualidade alienante e alienada, que é mercadoria mas se pretende libertador. E falamos aqui de uma libertação impossível, cuja completa realização nos custaria nossa própria humanidade."
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