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QUALIDADE NA TV
ÚLTIMA HORA – Atualizado em 25/8/2000
NO LIMITE
Bafafá sem limites (*)
Alberto Dines
Bem-vindo ao Observatório da Imprensa. Hoje excepcionalmente participo deste programa dos estúdios da TV Cultura, São Paulo. Quais são os grandes temas nacionais neste momento? Você sabe: corrupção, reforma agrária, eleições municipais, sucessão presidencial, retomada do crescimento. Se quiser, acrescente a crise na Seleção que vai disputar a Copa do Mundo e que reflete a grande crise que corrói o futebol brasileiro. Mas nesta pauta foi plantada artificialmente um programa de televisão. Um programa de entretenimento com pretensões de ser jornalístico. Trata-se do novo campeão de audiências, da TV Globo naturalmente. No limite. Já apareceu no Jornal Nacional, já foi assunto de primeira página de grandes jornais e recentemente foi capa do mais importante semanário brasileiro, Veja. Justifica-se o bafafá? Nos EUA, onde tudo começou com o programa Survivor, as peripécias dos personagens ficam confinadas às publicações especializadas. Na Europa, um programa similar porém mais pesado, o Big Brother, faz enorme sucesso mas não se confunde com os fatos efetivamente reais. Apesar do nome "reality-shows", esses programas nada têm a ver com a realidade. São encenações manipuladas pela fantástica capacidade da TV de converter qualquer coisa, inclusive a fantasia, em verdade. E na condição de programas de entretenimento e entretenimento pesado, permanecem na esfera específica, sem extrapolar. No Rio de Janeiro, o frenesi de No limite chegou a provocar uma crise no comando de um grande jornal popular furado pelo concorrente na disputa para antecipar o desfecho. Esse é o assunto que ocupará a edição de hoje do Observatório [terça, 22/8). Preste atenção nessas "realidades" para não ser surpreendido por outras.
(*) Editorial do Observatório da Imprensa na TV, edição nº 116, no ar em 22/8/00
CARTAS
Mídia popular se cala
Gostaria de ter lido nos jornais voltados para as camadas populares do Rio, como Extra ou O Dia, comentários e análises como as que li no site do Observatório da Imprensa a respeito do programa No Limite. Infelizmente, o jornal Extra pertence às empresas Globo, e não tem autonomia para fazer esse tipo de crítica de TV, e O Dia não tem essa preocupação.
Bernadete Travassos, São João de Meriti, RJ
Big Brother
O "dar limites" aos programas de televisão requer um cuidado muito grande. Afinal, poderíamos muito bem, por esse caminho, também chegar ao Big Brother do George Orwell.
Hélio e Rosanne Sigres sigres@gbl.com.br
Técnicas de manipulação
O filósofo Adorno já há muito teorizou sobre estas técnicas de manipulação.
Marcelo Henrique Pereira
Deslumbrados e banais
Programas tipo No limite já existem em outras TVs, como na MTV, por exemplo, há muito tempo. Só que não ficam deslumbradas ou caem matando em cima do marketing do programa, como a Globo, que está estraçalhando uma idéia que poderia dar audiência durante anos, se bem trabalhada, para descarregar todas as balas de uma só vez. Ejaculação precoce de uma TV infantil, banal e boba. Que tem um público, infantil, banal e bobo também. Nosso povo é muito "tapado" e cair na esparrela das TVs.
O massacre da mídia sobre o assunto só mostra o quanto a bobeira impera na TV brasileira, principalmente nas que dão mais audiência. A TV está cada vez chegando mais perto do lixo, refletindo o lixo em que a sociedade se torna rapidamente.
Um tempo atrás aluguei um DVD chamado Hands on a hard body. E nada mais era que a "cobertura de um concurso" bobo que tem todos os anos nos EUA. É simples: colocam um bando de gente com a mão sobre uma picape do ano. Daí, fazem uma imensa cobertura, apresentam os participantes, fazem aquela cena. Contam a história da vida, entrevistam e tudo mais. Quem ficar mais tempo com pelo menos uma das mãos sobre o carro o leva para casa. Parece uma bobeira, mas é feito de tal forma que você fica lá assistindo a mais de 2 horas de DVD aguardando ansiosamente para ver quem é o vencedor. Isso é uma formula simples de sucesso certo. Pensei na hora: por que nenhuma TV do Brasil promove algo assim? Ia faturar muito com flashes ao vivo, e programas e picos de audiência altíssimos. Basta pensar um pouquinho para ganhar dinheiro fácil. Com um povo tão bobo...
Marcelo Souza
Gran hermano
Penso que este tipo de programa só comprova que, além de Deus não ser brasileiro, a boçalidade não é restrita nem exclusiva desta nossa gente que eleva os índices de audiência destes programas. E adeus à ética e bem-vindo ao lucro. Na Espanha, o programa se chama Gran hermano, se passou com 10 pessoas trancadas em uma casa em Madri, sem TV, sem rádio, sem nenhuma distração e até com dinheiro contado para a alimentação. A primeira excluída da "convivência" foi uma mulher balzaquiana, que se envolveu emocionalmente com um dos rapazes do grupo e que, ao sair, foi logo convidada a posar nua para uma revista masculina. Concluindo, a raça humana é muito boçal, e adora ver a vida dos outros em vez de viver a sua própria vida, more aqui neste país tropical ou more no Primeiro Mundo.
Heloisa de A. Gaspar
Contradição
Realmente o programa não merece tamanha atenção. E ai, vendo o Observatório da Imprensa, dedicando um programa exclusivamente ao programa, fico sem entender. Me respondam por favor: Qual o motivo dessa "dedicação" ao assunto? Por que vocês fizeram um programa dedicado a este assunto? Vocês também são imprensa, e me desculpem, o programa discutindo isso parece meio contraditório.
Francisco Gomes, Manaus
Alberto Dines responde: Caro Francisco, dois outros telespectadores levantaram a mesma questão, e eu lhes respondi exatamente o que respondo a você: não discutimos o programa em si, discutimos a mídia dita séria submetida aos ditames do Ibope, buscando o sucesso fácil da Globo. Discutimos a chancela da Central Globo de Jornalismo num programa de entretenimento. Discutimos a capa da Veja. Será que você viu MESMO o programa? Começo a duvidar. Na próxima terça, tome um cafezinho antes das 22h30. Saudações, A. D.
Lobby fora do limite
Ligo a TV e o que vejo? Até vocês falando deste No limite. Francamente. Acho que o debate poderia voltar ao mundo real. Pimenta, diretor do Estadão, tirou a vida de uma pessoa, está na UTI neste momento não porque é louco ou esteja velho demais para compreender um relacionamento fracassado, e sim porque o jornalista, em determinados momentos, é guiado por pressões pessoais. Crises que nunca foram discutidas pelo programa. Crises de uma geração extremamente idealista, competente, mas que infelizmente não conseguiu sanar desvios de personalidade que estão diretamente ligados ao modo de vida adotado pelo profissional de comunicação. Que tal discutirmos o jornalista na condição de homem comum, com suas contas para pagar, problemas de saúde, fechador de jornal?
Luciano César Pires, 22 anos, Brasília
Por que tudo isso?
Até agora não consegui entender se vocês estão fazendo uma propaganda contra ou a favor do programa No limite. Sinceramente, a televisão brasileira (canais abertos), em geral, não traz notícias, cultura, muito menos realidade. Se formos falar de fim de semana... Mais especificamente, domingo, que, quando não há um jogo de futebol, que muitas vezes também parece armação, mulheres quase nuas invadem nossas telas das 8 da manhã à meia-noite. Lembro que o fim de semana foi feito para que as famílias pudessem desfrutar de bons momentos juntas. Será que um programa de 30 minutos merece tanta polêmica assim? Que tal, em vez de criticar a falta de criatividade, os programas sensacionalistas, comecemos, num gesto antes de mais nada necessário, a transmitir programas que tragam cultura para nosso povo!!! Tenho pena das pessoas que não têm condição financeira para pagar o absurdo que é cobrado pela TV a cabo. E desta gama de canais que nos oferecem poder desfrutar de dois ou três canais interessantes.
Alexandre Galliza
A Globo conseguiu
Acredito que a Globo conseguiu o que queria. Sabe aquela frase? Falem bem ou falem mal, não importa! O que importa é que falem de mim! E eles conseguiram que toda a mídia brasileira discuta o assunto, fazendo com que o telespectador fique ainda mais curioso.. Infelizmente, não é de hoje esta briga por audiência, e não é de hoje que o profissionalismo de bons jornalistas é sacrificado na busca de maior audiência. Também não é de hoje a liderança da Globo em se tratando de manipular a verdade, de forma que, não deixando de ser verdade, fica contudo totalmente deturpada diante da face mostrada.
Luiza Glienke
"Fake program"
Caro Dines, desculpe, mas o O. I. não deve dar tanta importância a esse programa, que é fake (falso). Mesmo a maioria da população não tendo nível educacional pode ter sensibilidade para entender as bobagens que essa rede vem propondo como diversão. Vê-se que o que falta mesmo é grana para que as pessoas busquem outro tipo de entretenimento. Gabeira tocou de forma muito superficial a questão social. Na Europa as pessoas vão à rua procurar diversão. Há grana. A televisão é de menos importância.
Vangelis
Cadê o MP?
Acho o programa No limite antiético, sim, uma vez que existe a exploração do ser humano pelo ser humano. Meu questionamento é: por que ninguém do Ministério Público, por exemplo, faz qualquer comentário sobre o assunto? Será que é porque se trata da poderosa Globo?
Ana Lúcia
Será verdade?
Será que os participantes ficam mesmo naquelas condições? Ou será que a Rede Globo os usa para vender seu entretenimento, e atrás das câmeras, eles têm uma alimentação adequada? Poderia ser esse um dos motivos pelos quais nenhum representante da emissora compareceu ao programa do O. I. para discutir o assunto.
Marcelo Toffano, Franca, SP
Factóides
Se o programa fosse transmitido ao vivo para todo o Brasil durante 24 horas (como um Truman Show) sabemos que o "desempenho" dos "atores" e o ritmo seriam outros. Os responsáveis pelo programa escolheram os participantes e as cenas a serem mostradas pela mídia. Até que ponto a escolha do que vai ser veiculado e as edições manipulam a realidade de No limite e produzem esse "fenômeno" do Ibope de gosto extremamente duvidoso?
Bruno Vieira
Espelho distorcido
Acompanhando a discussão a respeito do programa No limite, gostaria de argumentar com o Sr. Gabeira, que disse ser necessário termos transigência com a Rede Globo, pois ela esta funcionando como um "espelho" da sociedade brasileira. A questão é: não se trata de um espelho distorcido? Este "espelho" não é oferecido com "intenções"? Acredito que aí é que se encontra o grande problema. Seria ótimo que eles simplesmente espelhassem a realidade, os fatos! Mas o filtro, a distorção das notícias e dos fatos e hábitos para atender à dominação pretendida é que coloca este, e outros programas como Linha Direta na lista negra dos vilões da educação do cidadão brasileiro, a meu ver.
Lara
A que ponto chegamos
Liguei a TV agora, e não vi o início do programa, mas No limite parece com aqueles programas que se passam em filmes futurísticos, em que as pessoas entram em uma gincana cujo objetivo é sobrar uma pessoa viva. Será que a TV vai chegar a este ponto?
Flavio A. Pozzi
Como no Coliseu
Para variar, boa parte dos convidados não consegue responder àquilo para que foi convidado. Hoje eles falam sobre No limite, enquanto Dines insiste em que se debata por que a imprensa dá tanto espaço a um programa como esse. Desculpem, mas vocês também estão meio fracos de convidados. A mente deles é do tipo Globo. Entenda-se Gabeira e Leila, principalmente. Esta ultima acha muito bom o programa. Legal que o povo ficou com ódio de um participante, porque fez não sei o quê... e como todo mundo gosta, é válido. Acho que é o mesmo argumento dos imperadores que jogavam os cristãos aos leões, como espetáculo, ou o embate até a morte dos gladiadores. Dava ibope, oras. Francamente... O melhor convidado foi o psiquiatra, o único que teve a coragem de falar em ética nas relações humanas e no próprio mercado, o deus deste século. Quanto ao Dines, gosto muito de suas idéias. Acho-o muito digno em sua postura. Parabéns.
Por fim, acho que No limite não merece a exposição que teve. Nem merece ser levado ao ar. Só não consigo votar porque o telefone está sempre ocupado.
Liz Abad Maximiano, Curitiba
Propaganda enganosa
Estudo Direito e, vendo o programa, me pergunto se não seria o caso de aplicação do Código de Defesa do Consumidor. Me parece um caso típico de publicidade enganosa, pois é altamente manipulado, não só o resultado como também a opinião do povo, fazendo-nos imaginar que é tudo real, quando de fato de realidade não tem absolutamente nada. Não sou a favor de nenhum tipo de censura em qualquer nível por princípio, mas é um absurdo ver como a mídia tem tratado esse "programa", como se tivesse interesse jornalístico. Ora, façam-me o favor! Cada leitor tem a mídia que merece, será isso?
Attilio Milone, RJ
Discutindo a discussão
O fato de estarmos discutindo a exposição do programa No limite na mídia já não estaria nos revelando que se assim não o fosse provavelmente não teríamos chegado a este nível da discussão sobre o tema?
Mirnamar Pagliuso
Educação é para rico
Está na hora de programas como este entrarem no ar às 7h da noite. Não dá para agüentar os programas da Globo mostrando imbecilidades como No limite e Uga uga. Será que o nosso medíocre governo não pode colocar emissoras de radio e televisão no ar em todas as cidades do Brasil, com programas educativos? Ou programa educativo é só para quem tem acesso a TV por assinatura, parabólica, internet etc.? O presidente não tem força para ajudar o povo que o elegeu, pois não consegue derrubar o monopólio da informação emburrecedora. Desculpem pela emoção, sou um brasileiro incrédulo.
Eduardo Lari Rosetto, engenheiro civil, Chapecó, SC
Sucesso inegável
Acho que No limite deve ter esse espaço na mídia, pois o sucesso é inegável, bater 50 pontos em um domingo às 11 da noite é um fenômeno. Por outro lado, a imprensa em geral não se preocupa só em informar, e sim com o que ela pode ganhar em cima disso. A mídia embarcou no sucesso do programa e o programa na mídia, tanto que nos dois últimos programas o espaço dado a No limite' aumentou, assim como o ibope.
Cesar Lopes, jornalista
Viva Vera Fischer
Metam mesmo o sarrafo nesta paspalhada que é No limite. Senão vira unanimidade nesse país parco de opções, sombrio de referências e obtuso intelectualmente. A grande imprensa, como Dines assinalou, já comprou a idéia e acaba de inaugurar a nova sociologia televisiva – logo no centenário de Gilberto Freire – promovendo o socialismo de estúdio. Valeu a levantada em Vera Fischer, nossa única e última diva – porra-louca maravilhosa.
Chico Saboya
Este e outros
Eu não somente acho um absurdo a conotação dada a esse programa, como a que é dada a quadros apresentados em outros programas da Globo.
Boniperti Barbachan
Degeneração de valores
Acho esse programa um absurdo! Mostra o poder que a mídia tem em provocar a degeneração de valores éticos e culturais.
Helio Luiz Seidel, Curitiba
Exclusão e prêmios
Observação de um excluído, desempregado há mais de 2 anos: programas do tipo No limite e outros que dão prêmios, como alguns com participação também de auditório, estão tomando conta da programação televisiva por causa da exclusão de milhões de brasileiros do mercado de trabalho. Excluídos da classe média, centenas de milhares de brasileiros estão cada vez mais sem alternativas de lazer e assim acabam ficando em casa e assistindo mais a programas de TV, principalmente àqueles que de alguma forma oferecem prêmios. A crise é tão grande que para diminuir a violência o governo do Estado do Rio e o governo federal estão oferecendo recompensas. É muito bom termos a alternativa de assistir a programas como o Observatório da Imprensa. Parabéns! Continuem.
Sérgio Lobo
"Sentia-me um ET"
Graças a Deus encontrei alguém que tem lucidez o bastante para detonar mais essa imbecilidade da Globo. Sentia-me um ET no meu trabalho e em relação às pessoas de meu círculo de amizades, pois todos só falam no tal festival de besteiras que é esse "programa". É muito triste constatar-se a que ponto de alienação chegou o nosso povo. Tenho pena das futuras gerações, entregues a uma rede de TV cujo lema é "Quanto pior, melhor". Quanto será que o Zeca tá levando nessa história? Eu não agüento aquela cara de bom moço a serviço da alienação. Tão jovem e tão amestradinho.
Lais André
Você não vai acreditar!
Nem na internet estamos livres do Limite... Veja abaixo a promoção do Lokau.com.
Francisco K. Heira, estudante de Jornalismo ECA-USP
"Você precisa ver a cara nova do Lokau.com! (...) Tem novidades no site inteiro. Inclusive uma promoção incrível que vai levar você para curtir uma semana de férias num resort bem pertinho da praia de "No Limite". Você está acompanhando o programa pela TV? Que tal acompanhar mais de perto? O Lokau.com lançou a promoção "Perto do limite", que vai levar você e um acompanhante para uma semana de férias no paradisíaco Resort Praia das Fontes, pertinho do local das filmagens. Para concorrer você não terá que comer olho de cabra e nem escalar dunas! Basta comprar ou vender qualquer coisa no site. Cada negócio fechado representa uma chance de ganhar. Não há limites! Você pode vender e comprar quantos produtos desejar! É a boa hora para esvaziar o armário e vender tudo aquilo que está dando teia de aranha – e que pode ser exatamente o que uma outra pessoa está procurando."
Sem justificativa
Nada justifica a exposição do programa No Limite na mídia.
Yvonne Stern, Leblon , Rio de Janeiro
O que falta é estudo
Todo este sucesso do programa No limite é resultado da falta de estudo para o povo brasileiro. Eu pergunto ao Gabeira: você já recebeu alguma proposta da Rede Globo? Estou surpreso com sua postura de defesa. Pois está claro que tudo isto não passa de uma grande manipulação popular, deveríamos estar nos perguntando se o presidente está ou não envolvido com o juiz Nicolau.
Emilio Dias
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