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QUALIDADE NA TV

ÚLTIMA HORA – Atualizado em 25/8/2000

 

ASPAS
Gabriel Priolli

"‘No Limite’ aponta crise de novelas", copyright O Estado de S. Paulo, 20/8/00

"O No Limite, que esta noite terá a sua quinta exibição, já é um fenômeno por qualquer ângulo que se queira examiná-lo. Dá em torno de 45 pontos de Ibope às 22h40 dos domingos (50 na estréia), índice típico de novelas, mas obtido em faixa horária em que é muito maior o número de televisores desligados, o que faz dele um campeoníssimo de audiência. Custa R$ 2 milhões por capítulo e já é o mais caro produto que a TV ousou fazer.

Tem um ‘recall’ fantástico, levando o público a comentá-lo ininterruptamente durante toda a semana, entre uma e outra exibição. Transforma cidadãos anônimos em celebridades com muito mais eficiência e rapidez do que qualquer outro programa existente, globais incluídos. E por aí vai, colecionando marcas para o livro dos recordes.

O clima de ‘só alegria’, entretanto, não deverá durar muito. Não, ao menos, naqueles gabinetes da Globo e das outras emissoras onde se decide que programação será oferecida. Os criadores da TV têm, diante de si, a complexa tarefa de decifrar melhor do que nunca o comportamento do telespectador, que demonstra mais interesse atualmente por situações reais, vividas por pessoas comuns, do que pelo mundo ficcional da teledramaturgia, de personagens desenhados para provocar a identificação e a catarse, e de artistas já tarimbados no jogo da idolatria. Por que, afinal, os brasileiros estão mais interessados em Pipa, Marcus, Amendoim ou Elaine, do que em Capitus, Paulos, Helenas e Edus de qualquer novela? Esse novo gênero de ‘reality show’, ou teledrama de realidade, será moda passageira ou tendência predominante em futuro próximo? Que impacto terá ele sobre a estrutura da indústria televisiva, hoje centrada na produção ficcional? Estará a TV no limiar de uma mutação definitiva?

Observe-se que, antes desse programa copiado de fórmulas americanas e européias, quem estava no limite era a telenovela. Mesmo neste ano favorável, em que o sucesso de Terra Nostra prossegue em parte com Laços de Família na faixa das 8, e em que Uga Uga obtém um desempenho razoável na faixa das 7, isso se traduz em médias de audiência de 40 a 45 pontos, pelo menos dez abaixo da que a Globo obtinha na década passada, ou mais ainda se considerados os anos 70. Não são só os críticos que apontam o desgaste das novelas: é o público que parece saturado delas, e vai abandonando-as aos poucos. O processo agora tende a se aguçar, na medida em que os teledramas de realidade proliferarem, o que ocorrerá com certeza (a produtora de Gugu já anuncia um, com pessoas que ficariam encerradas dentro de uma casa de vidro, em plena Avenida Paulista).

Quem terá de responder se a realidade vencerá a ficção, portanto, são os dramaturgos da TV. Eles terão de discutir muito, e com mais objetividade, se as histórias que produzem não estão distantes demais da realidade, se não perderam a capacidade de instigar e emocionar, se não é hora de virar a mesa e reformular tudo. Se fugirem dessa prova, não serão um ou outro os excluídos. Todos deixarão a programação, arrastando um séquito de estrelas, e uma multidão de técnicos que perderão função. Não atravessarão o ‘portal dos quatro elementos’, para ganhar carro e dar entrevistas ao Faustão.

Passarão mesmo é pelo portal do próprio inferno."



Clóvis Rossi

"Muito além do limite", copyright Folha Online, 23/8/00

"Se o programa ‘No Limite’, da Rede Globo de Televisão, provocou o frisson que provocou em certos meios, é só esperar um pouco para ver algo que vai muito além do limite.

Explico: a TV brasileira costuma copiar a programação das redes norte-americanas e, em bem menor escala, das européias. ‘No Limite’, como todo mundo sabe, é cópia de ‘Survivor’, programa norte-americano.

Pois bem: no mês que vem estréia nos Estados Unidos o programa ‘Confessions’, na Court TV, a emissora a cabo especializada em transmitir julgamentos e demais atos do Poder Judiciário.

As confissões do título são as que criminosos de diversos calibres fizeram às autoridades e foram por elas gravadas, tornando-se de domínio público depois do respectivo julgamento.

O jornal The International Herald Tribune de ontem antecipa o suculento cardápio do primeiro programa, no mês que vem: um sem-teto descreve um estupro, um garoto de programa dá detalhes de como matou um cliente que usava cadeira de roda e, finalmente, um homem admite ter matado uma mulher no apartamento dele, desmembrado o corpo e cozinhado os restos.

Diante desse cardápio, ficam parecendo pão quente as refeições que o pessoal de ‘No Limite’ foi obrigado a consumir. E o ‘Linha Direta’, também da Globo, fica parecendo programa educativo.

Suspeito que, não demora, alguém no Brasil vai copiar o ‘Confessions’.

Só não sei se as autoridades brasileiras guardam gravações suficientes para, digamos, ilustrar um programa desse gênero. Se não tiverem, pode-se importar o programa norte-americano ou fazer cópias caboclas (fitas gravadas clandestinamente, aliás, é material que não falta na praça).

Não adianta achar que o espectador brasileiro ou norte-americano é idiotizado. Convenhamos que o ‘voyeurismo’ da desgraça tornou-se uma espécie de mania dos tempos modernos, no Brasil como nos EUA. Pena que seja uma mania doentia."



Vaguinaldo Marinheiro

"Para que ‘No Limite’? O mundo está muito além do limite", copyright Folha Online, 20/8/00

"Desculpe-me por escrever mais um texto sobre ‘No Limite’, o programa da Rede Globo que virou febre e tema de quase todas as conversas no país. Muitos outros, mesmo aqui em Pensata, já escreveram sobre o novo campeão de audiência, mas o que quero dizer é que o programa é vendido de forma errada.

Dizem que ele faz sucesso porque não é ficcional, porque mostra pessoas comuns em luta pela sobrevivência, no limite do esgarçamento psicológico etc. Mas analisando o programa e os acontecimentos da semana passada é possível afirmar que ‘No Limite’ está mais para ‘Boa Noite Cinderela’ ou qualquer outro conto de fadas infantil que para situações extremas.

Compare a necessidade de comer olhos de cabra com o fato de estar fechado dentro de um submarino, a mais de cem metros de profundidade, sentindo o oxigênio acabar.

O que é tomar chá de boldo quando você pode estar dentro de um avião sequestrado? Qual o problema de ficar duas semanas sem xampu se presos são esfaqueados e queimados vivos em um presídio de Brasília?

O que é tomar água de rio perto do caso da estudante brasileira que foi estuprada, torturada, morta e que teve todos os dedos arrancados em San Diego, nos EUA?

Eu posso ter pego os exemplos mais radicais, mas para fazer mesmo um programa fincado na realidade humana, a Rede Globo teria que ser muito mais hardcore. Longe da TV, o mundo já está muito além do limite.

Não estou propondo que a televisão coloque pessoas em situações de perigo. Muitos ainda se lembram de programas como ‘O Povo na TV'', que em dezembro de 1982 preferiu mostrar um bebê de 9 meses agonizando até a morte a oferecer socorro.

Seria de fato um crime se a Globo não desse ajuda aos participantes que de fato estivessem no limite, mas o programa dos domingos à noite é apenas mais uma gincana, mais uma disputa entre pessoas que têm uma praia paradisíaca como cenário.

Muitos brasileiros dariam tudo para passar por dificuldades alguns dias se no final existisse a recompensa de barras de ouro ou R$ 300 mil. Num país onde as pessoas comem calangos ou sobrevivem com restos coletados em lixões, olhos de cabra ou tripas de galinha são iguarias.

Talvez o sucesso de ‘No Limite’ se explique justamente pelo programa estar mais longe da realidade do que os dramas da novela das oito.

Com aquela mistura de ricos e pobres, brancos e negros em condições iguais numa praia bonita e deserta, ‘No Limite’ se parece mais com um making of de ‘A Lagoa Azul’."



Amir Labaki

"‘No limite’ é circo do ultracapitalismo", copyright Folha Online, 17/8/00

"Era eminentemente intelectual minha primeira repulsa a ‘No Limite’. No ano passado, lera estupefato em Nova York as reportagens iniciais sobre a onda iniciada na Europa de ‘reality-shows’ como ‘Survivor’ e ‘Big Brother’. Resisti o quanto pude mas cedi e juntei-me aos milhões que assistiram à cópia nacional no domingo passado.

Tenho agora asco visceral pelo programa. Seu fascínio é compreensível e desesperador. ‘No Limite’ é a versão tupiniquim do circo máximo do ultracapitalismo contemporâneo. É a encenação para a arena eletrônica da ruptura de todos as fronteiras entre público e privado, corpo e espírito, certo e errado, que tão bem serve hoje ao fluxo libertário do grande capital.

Se há um ‘realismo’ no programa, é o de uma realidade mediada, controlada, uma realidade de segunda geração. ‘No Limite’ é uma variação do ‘Show do Truman’. No filme de Peter Weir e Jim Carrey, recriava-se o ideal do mundo burguês para o público acompanhar a vida cotidiana de um inocente útil. Em ‘No Limite’, os competidores estão confinados ao mesmo mundo concreto irreal de Truman, mas o cenário é outro, mais a mão, menos trabalhoso, mais eficiente em sua ilusão de realidade: uma praia deserta e selvagem, como na aurora do homem. O mar do programa apenas parece mais real do que o do filme. Ambos pertencem ao universo controlado do espetáculo; que um exista pronto e o outro tenha de ser felliniamente criado é mero detalhe de produção.

‘No Limite’ já foi comparado às aventuras de Robinson Crusoé, mas infelizmente as semelhanças apontadas restaram na superfície. Crusoé é precisamente um herói capitalista, legítimo representante da ascendente burguesia britânica do século 18. A saga criada por Daniel Defoe exalta a vitória do homem (empreendedor) sobre a Natureza (inóspita), assim como sua relação com Sexta-Feira é uma metáfora poderosa de todo tipo de servidão que alimentou (e alimenta) o circuito capitalista de produção.

Os concorrentes da atração global de domingo são como que descendentes distantes de Sexta-Feira. Os tempos mudaram e assim também suas tarefas. Um Mefisto bronzeado comprou-lhes corpos e almas, a um preço módico: transformá-los de anônimos em celebridades provisórias e tornar remediado o feliz vitorioso de uma gincana sádica.

As regras do jogo são claras: duas equipes se enfrentam e, a cada derrota, vão expulsando democraticamente um a um de seus membros. Ao fim, o confronto entre grupos reduz-se à batalha entre indíviduos – e que ganhe o melhor. É desde o começo muito evidente que ‘No Limite’ não pretende fortalecer idéias de solidariedade, compreensão e renúncia. Seu idéario é cristalino: dá-se bem o mais maquiavélico, o mais traiçoeiro, o mais camaleônico, em resumo, o mais eficiente em seu ultra-individualismo. É assumidamente, desde o início, um contra todos e todos contra um, na melhor tradição hobbesiana.

Assistir à desumanização auto-infligida sempre foi um irresistível passatempo de massas, da Grécia antiga à moderna Globo. É esse tipo de ‘voyeurismo’ que alimenta o triunfo de ‘No Limite’. Não é nada de novo – mas ainda me faz mal."



Nelson de Sá

"Big Brother", copyright Folha Online, 16/8/00

"Antes que eu me esqueça, a Globo continua a mesma.

‘Big Brother’ e ‘Survivor’, os modelos mais célebres de ‘No Limite’, ao menos se assumem como entretenimento. São produtos de entretenimento da CBS – e não da CBS News, a divisão de jornalismo da rede americana.

Aqui, não. O ‘limite’ está também na produção e apresentação de ‘No Limite’ como um programa de jornalismo. Está lá, como animador, Zeca Camargo. O mesmo jornalista que deu o furo, entre tantos, da Aids de Cazuza.

Mas não, não é como repórter que ele oferece olhos de cabra para os personagens de ‘No Limite’ comerem. Bem como não é jornalismo editar uma ofensa de um personagem a outro. É entretenimento, com alvo comercial certo.

A diferença é que, sendo jornalismo, a responsabilidade é, pode-se dizer, das partes.

O rompimento dos limites entre realidade e ficção – entre jornalismo e dramaturgia – é obsessão da TV brasileira. Começou em outras plagas, como no lendário ‘Aqui Agora’ de Silvio Santos, e a Globo vinha tentando incorporar de alguma maneira. Tentou com ‘Linha Direta’, sem sucesso.

Conseguiu agora, com o molde todo importado. ‘No Limite’ é uma telenovela, obviamente. A diferença maior é que sua dramaturgia permite improvisação, a ser devidamente editada. Mas o melodrama em capítulos está lá, bem como as especulações sobre o possível final da novela, devidamente estimuladas.

Estimuladas, vale dizer, até pelos telejornais da emissora, que passaram a cobrir as reviravoltas de ‘No Limite’.

A última novidade na área das especulações é um site inteiro, num domínio que não permite identificar seus autores, com informações de bastidor apresentadas por um tal ‘Senhor X’, que teria sido da produção. Não falta sexo.

Talvez seja esse, afinal, o telejornalismo do novo século. Ou, ainda, o entretenimento do novo século. Mas, a exemplo do que se observa no webjornalismo, seus exemplos têm muito dos primórdios da imprensa do século 20, quando ela ganhou a cor amarela.

A CBS que serve de modelo com ‘Big Brother’ e ‘Survivor’ é a mesma que, em meados da década de 90, se aventurou a concorrer com a Globo no jornalismo 24 horas, no Brasil. Sem espaço na Net, que é da Globo, seu canal de notícias foi sufocado até desaparecer.

Na mesma linha, Ted Turner, criador da CNN e vice-presidente da Time Warner, dizia em entrevista, três semanas atrás, por que não pretende montar uma CNN em português: ‘Eles não querem que façamos isso. Eles querem ter todas as notícias em português, é difícil enfrentá-los no Brasil’.

‘Eles’, no caso, quer dizer Globo."



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