QUALIDADE NA TV
ÚLTIMA HORA – Atualizado em 26/11/2000
CENSURA?
Manipulação global
Orlando Maretti (*)
Cabem algumas reflexões sobre a polêmica levantada em torno da decisão do juiz carioca que vetou a participação de crianças na novela Laços de Família, levada ao ar pela Rede Globo. A questão, aparentemente irrelevante, tomou proporções que servem, como diria Chacrinha, apenas para confundir.
Com sua incrível força mediática, as organizações Roberto Marinho usaram todo seu poder formador de opinião para convencer a sociedade brasileira de que estaria sendo vítima de uma truculenta ação da censura, de volta com todo ímpeto. No primeiro momento, a mobilização global limitou-se a convocar seus empregados, principalmente os atores e atrizes, para manifestações públicas contra a censura. Depois, editoriais e artigos na seção de opinião d'O Globo, seguidos por intenso noticiário nos vários telejornais da Rede Globo. Em menos de duas semanas, os principais veículos de comunicação do país, aliados ou não do império global, passaram a noticiar ou opinar sobre a polêmica.
Ao longo de sua história, o jornalão carioca sempre se alinhou com o poder e os poderosos. Quando o poder vestiu farda, virou então um diário oficial. Basta ver a iconografia do todo poderoso editor-chefe d'O Globo nos anos de chumbo, hoje diretor de jornalismo da rede de TV. Invariavelmente, ele aparece nas fotos reverenciando algum oficial militar. Não por acaso, a diversificação dos negócios do Grupo Marinho e a expansão da Rede Globo coincidem com a consolidação da ditadura no país. Depois, tem os episódios escabrosos da cobertura campanha das Diretas, do aumento do mandato de Sarney para cinco anos – com farta concessão de emissoras por todo país –, da projeção da apuração dos votos na eleição de Brizola (escândalo Proconsult) e a edição do debate Collor/Lula, só para ficar em alguns dos melhores momentos do vídeoshow global.
Direitos autorais
No caso concreto da polêmica novela, a audiência não se dá conta da manipulação das histórias a que assiste, anestesiada. O enredo, o roteiro, o conteúdo e até os personagens são alterados, conforme a medição do Ibope, num processo grosseiro de manipulação. Esses mesmos redatores de novelas, que hoje se insurgem contra a censura, são obrigados a dividir a autoria de suas histórias com dois ou três roteiristas de confiança da Globo, para evitar que se insurjam contra as intervenções freqüentes dos diretores/manipuladores, sempre de olho nos índices do Ibope. Muitas novelas tiveram sua história original radicalmente alterada ou mesmo um desfecho muito diferente do imaginado pelo autor, só para coincidir com as expectativas da audiência, detectadas nas pesquisas. Por que esses autores, hoje tão ciosos na defesa da liberdade de expressão, não reivindicam também o respeito da emissora aos seus direitos autorais? Tudo bem, manipulação não é censura.
Os intervalos comerciais patrocinam a novela, certo? Meio certo, pois no "miolo" da história redatores especializados abrem espaços para o merchandising de diversos produtos, que chegam a faturar mais que os comerciais. O vidiota pensa estar vendo uma novela, mas assiste mesmo a um comercial, sem qualquer sutileza, encaixado no roteiro, mostrando um rótulo, a demonstração de um produto ou simplesmente algum personagem falando ao acaso de um livro de determinada editora, como ocorre nessa polêmica novela. Mais manipulação, muito bem remunerada.
Ações lucrativas
Quanto ao mérito da ação contra a censura, não passa de mero exercício de hipocrisia. A Globo tem um canal que é concessão governamental. Não bastasse isso, tem uma rede própria e de emissoras coligadas, o que a coloca no ranking das quatro maiores "network" do planeta. É um poder extraordinário. Até as pretensas ações sociais da Rede, via Fundação Roberto Marinho ou TV Futura, são rigorosamente operações comerciais muito lucrativas. Iniciativas como o Prêmio Jovens Cientistas, a Ciranda da Ciência, mesmo a Ação Global, Criança Esperança ou a missa-show do padre Marcelo, são integralmente pagas pelos patrocinadores, que têm como retorno a veiculação de suas logomarcas nas chamadas desses eventos, com o reforço da marca global. Santa manipulação, sem a mácula da censura.
Por essas razões, a sociedade, por meio do Estado, tem o dever de intervir, quando o uso desse poder ultrapassar os limites toleráveis. Não se trata de moralismo ou censura, departamentos tão caros às senhoras de Santana ou a Armando Falcão, o saudoso ministro preferido da corporação global. Depois de ACM, é claro. Como bem definiu o Estadão outro dia, trata-se de uma ação de auto-defesa da sociedade.
Em qualquer país civilizado, vigoram códigos de ética, em alguns casos discutidos e adotados em consenso pelas próprias redes de TV. Por que essa resistência das emissoras, não só da Globo, em adotar um código de auto-regulamentação ou de conduta, a exemplo do que já faz o meio publicitário, há mais de duas décadas?
Monopólio
Recentemente, a Rede Bandeirantes retirou-se da Abert, a entidade que representa as emissoras de TV, para caracterizar o monopólio no setor. Mas, as manifestações dos executivos que têm poder de decisão nas principais redes brasileiras não deixam margem à dúvida. A busca de índices de audiência é mesmo um processo caracterizado pela falta de escrúpulos. O todo-poderoso vice-presidente da Rede Record declarou, com todas as letras, na última edição da Meio & Mensagem: "Houve momentos em que a briga por audiência deixou até nós fugirmos um pouco (sic) da ética e da moral".
Como na trama do Truman Show, em que o personagem de Jim Carey vivia literalmente num estúdio, um contingente significativo da população brasileira também tem seus corações e mentes condicionados pelos "comunicadores" do Jardim Botânico, roedores, mallandros, padres carismáticos, vendedores do Baú da Felicidade ou pastores da Igreja Universal.
Pelo visto, já não bastam os programas rotineiros para manter a massa entretida nesse fantástico show da vida. Periodicamente eles mobilizam o que há tempos chamávamos "opinião pública" para medir, por outros meios, o seu nível de audiência. No último dia de Finados, o império global alardeou Urbi-et-Orbe que mobilizou 2 milhões de fiéis devotos no show-missa do padre Marcelo e seus pios artistas. No dia seguinte, a Folha de S. Paulo estampou uma foto aérea do evento, dimensionando a metragem do autódromo de Interlagos, o espaço ocupado e a multidão presente, pouco mais de 200 mil pessoas. Milagre da multiplicação de fiéis ou mais uma manipulação global?
Estado paralelo
Outro aspecto que chama a atenção em toda essa polêmica, são os argumentos de gente séria, como o jornalista Clóvis Rossi, para quem basta um clique para mudar de canal ou desligar a TV, e a questão está resolvida. Esse é um argumento válido para países com altos índices de escolaridade e leitura, onde a maioria da população tem acesso a programas culturais e alternativas de lazer. Aqui, os canais de TV abertos (broadcast) são para a maioria da população um dos únicos meios de lazer disponíveis. E como mídia, desempenham o papel de um estado paralelo, sem qualquer controle.
Qualquer tentativa, ao menos de discussão, sobre o descontrole hoje vigente, levanta polêmicas e provoca cenas inusitadas. Num debate no âmbito do Maximídia, realizado ano passado no World Trade Center, em São Paulo, o jornalista Miguel Jorge denunciou o baixo nível e a carência de ética dos programas ditos populares da TV brasileira. Um dos debatedores, o apresentador Carlos Massa, vulgo Ratinho, contestou aos berros as opiniões de Miguel Jorge, tachando-o de elitista e afirmando que seu programa não precisava de patrocinadores como a Volkswagen, da qual Jorge é vice-presidente. Para espanto deste, boa parte da platéia – responsáveis pela mídia de grandes agências e executivos de alguns do principais anunciantes do país – aplaudiu as posições do Ratinho. Esta cena mostra bem de que lado ficam os atores numa discussão que contrapõe ética e interesses.
Na verdade, essa campanha contra a censura não passa de um reles programa de manutenção e aperfeiçoamento dessa máquina alienante.
(*) Orlando Maretti é jornalista
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