QUALIDADE NA TV

ÚLTIMA HORA – Atualizado em 26/11/2000

 

LAÇOS DE FAMÍLIA
Leila Reis

"Capitu revela a moral do telespectador", copyright O Estado de S. Paulo, 25/11/00

"A Globo reclama de ter perdido dinheiro por causa da marcação cerrada do juiz carioca, que não quer menor de idade nos sets da picante Laços de Família e, por isso, obrigou a emissora a regravar várias cenas, mas foi recompensada com a subida substancial nos índices de audiência. Terça-feira, quando exibiu as cenas do interminável casamento de Camila (Carolina Dieckmann) e Edu (Reynaldo Gianecchini), a novela de Manoel Carlos conseguiu o melhor índice de audiência de sua história: registrou 55 pontos de média no Ibope (4,5 milhões de telespectadores só na Grande São Paulo), com picos de 59.

É muito provável que as restrições a Laços de Família, que passou a ser exibida a partir das 21 horas (horário de Brasília) por ter sido considerada imprópria para as 8h30, tenha aguçado a curiosidade até de quem não seguia a história. Afinal, depois de tanto estardalhaço - com protestos dos artistas, divulgação de documentos denunciando o suposto retorno da censura e a divisão da opinião pública -, o telespectador quis averiguar quem levaria a melhor na disputa, coisa que só poderia ser feita pelo vídeo.

Mas o público fiel não perdeu o capítulo para testemunhar a anunciada humilhação de Capitu (Giovana Antonelli) diante dos pais, amigos e de seu grande amor. O ponto alto da novela foi a cena em que a moça é desmascarada na frente de todos: a universitária é, na verdade, uma garota de programa. O público adora Capitu. Afinal, o cinzel de Manoel Carlos a esculpiu com as mais suaves formas. A prostituta, além de linda e mais bem vestida do que as ricaças da trama, é sincera no amor, uma amiga solidária, boa filha e mãe exemplar. Tanto que só revida a agressão de Clara (Regiane Alves) com um bom tabefe, quando é ameaçada de perder a guarda do filho.

Por mais que o autor tenha preparado o terreno para a beatificação de Capitu - a prostituta é tão especial que até cliente se apaixona por ela -, é curiosa a reação do telespectador, que não hesita em usar pesos diferentes para julgar comportamentos.

O mesmo público que obrigou Sílvio de Abreu a matar a personagem de Christiane Torloni em Torre de Babel - boa gente, honesta e generosa, cujo único pecado era ter uma união feliz com outra mulher - redime a prostituta e aceita integralmente a imagem de heroína que o autor confere à personagem.

A platéia rejeita o homossexualismo, mas tolera a prostituição. Desde que ela venha vestida com a elegância da zona sul carioca. (Leila Reis escreve aos sábados neste espaço)"



Carlos Heitor Cony

"Para não dizer que não falei contra a censura", copyright Folha de S. Paulo, 24/11/00

"Assunto recorrente na mídia, nos meios artísticos de todos os calibres, a censura volta a ser discutida, tendo como gancho alguns problemas do grande Manoel Carlos com sua novela ‘Laços de Família’. O protesto se justifica. Censura é tão ruim que nem chega a ser exclusividade das ditaduras, dos regimes de força. Os exemplos são dispensáveis.

Tenho sobre o assunto um sentimento contraditório e uma experiência pessoal razoavelmente traumática. Eliminando etapas da vida pessoal e da carreira profissional, tomo como ponto de referência os três primeiros anos em que editei a revista ‘Ele Ela’, nos idos de 1969 a 1973. Era a primeira publicação nacional dedicada àquilo que se dizia na época ser o público masculino, ou seja, uma revista com intenções sacanas. Mas nem tanto.

Seu modelo não era a americana ‘Playboy’, essa sim, já consagrada no mercado e existente até hoje, com diversas e bem-sacadas imitações. O modelo de ‘Ele Ela’ era uma revista alemã, chamada ‘Jasmim’, do grupo que editava um sucesso internacional, em diversas línguas, e que no Brasil se chamava ‘Pais & Filhos’, dirigida em seus primeiros anos pelo José-Itamar de Freitas, que mais tarde iria fazer o ‘Fantástico’, na Rede Globo.

A revista não chegava a ser erótica. Discutia assuntos sexuais numa época em que a pílula, a minissaia, o divórcio e o aborto faziam parte dos temas de uma humanidade que aspirava total libertação. O movimento feminista colocava o machismo no paredão e pretendia fuzilá-lo. A linha editorial de ‘Jasmim’, e por consequência de ‘Ele Ela’, era o direito de a mulher ter uma vida sexual equivalente à do homem, com direito inclusive ao orgasmo. Por absurdo que possa parecer, isso era uma novidade que merecia ser transformada em linha editorial.

O lema das duas publicações, a alemã e a brasileira, era: ‘Uma revista para ler a dois’. Lançado o primeiro número, em 1969, toda a diretoria da editora foi convocada ao gabinete do comandante da região leste, no Rio de Janeiro, que funcionava no antigo prédio do Ministério da Guerra, na praça da República.

O número dois foi repensado, repaginado e reimpresso para não criar marola. Havíamos prometido, como encarte, um ‘Dicionário de Educação Sexual’ e fomos obrigados a mudá-lo para ‘Dicionário de Educação Sentimental’, que estava longe de ser flaubertiano.

No quinto número, já sofríamos uma censura oblíqua do regime. Eu era obrigado a levar os layouts para a aprovação no Ministério da Guerra. Mesmo assim, a capa que escolhi, publicada simultaneamente com a ‘Jasmim’ alemã, era sobre o machismo italiano. Um homem, com cara de italiano mesmo, sem roupa, mas apenas de busto, cortado na linha do umbigo, tinha uma coroa de rei na cabeça e, atrás dele, uma mulher, presumidamente nua, o abraçava. Da mulher, só se via o rosto e uma das mãos na altura do peito do homem.

Bem, a revista saiu numa sexta-feira e, no sábado, era apreendida em todo o território nacional. Seria um prejuízo de 400 mil exemplares, tiragem confirmada pelo IVC, que uma publicação recente, da Editora Abril, confirma em belo trabalho sobre o mercado das revistas brasileiras.

Na segunda-feira, dois diretores foram levados de camburão ao gabinete do comandante da Região Militar e eu tive de passar várias semanas depondo num inquérito, cuja finalidade era explicar onde estava a outra mão da mulher que abraçava o ‘maschio’ italiano da capa.

Pode parecer incrível, mas isso não ocorreu na Idade Média. Por acaso ou não, foi no mesmo ano em que o homem pisou na Lua (1969). Daquele número em diante, fomos obrigados a ter na redação uma censora especialmente designada pela Polícia Federal, uma senhora muito distinta, de quem me tornei amigo, e que fazia o possível para conciliar sua difícil função da maneira menos cruenta possível.

Em linhas gerais, o mesmo aconteceria com outras publicações. Para dar uma idéia do radicalismo da época, fomos obrigados a eliminar o lema de ‘Ele Ela’ (uma revista para ler a dois) porque ao regime parecia um convite à sacanagem.

Ao se falar em censura naqueles anos, pensa-se sempre no lado político, ideológico. Mas a censura é um pega-pra-capar que, quando começa, ninguém sabe onde vai acabar. Hoje, passo pelas bancas de jornal e vejo as revistas existentes no mercado. Uma capa como aquela, do número cinco de ‘Ele Ela’, nem seria impressa por nenhuma editora, de tão careta e sem graça. Quem mudou? O mundo, a sociedade? Ou mudamos todos, o Natal e eu, como no soneto de Machado de Assis?

Quando a censura volta a ser discutida, antes de entrar no mérito da coisa ou da pessoa censurada, penso sempre na estupidez da instituição em si. Mesmo assim, deixo para a semana a continuação do assunto, tentando mostrar que, apesar de condenável, de sua repugnante liturgia policial, a censura não conseguiu impedir que o pensamento humano fosse para a frente e para o alto. Quem sempre vai para trás e para baixo é a própria censura."



Valéria de Oliveira

"CNBB pede que FHC não se deixe cooptar", copyright Folha de S. Paulo, 25/11/00

"O presidente da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), dom Jayme Chemello, disse ontem esperar ‘que o presidente Fernando Henrique Cardoso não se deixe cooptar por um prato de comida’.

Ele fez a afirmação ao responder se achava que a TV Globo queria agradar o governo e evitar mudanças na programação das novelas. Dom Jayme se referia ao almoço do qual FHC participou anteontem, em Brasília, com atores da novela ‘Laços de Família’ e representantes da TV Globo.

Ao deixar o encontro de anteontem, o ministro da Justiça, José Gregori, criticou a decisão da Justiça de proibir a participação de menores no elenco da novela, classificando-a de ‘enérgica’.

Dom Jayme citou a história de Esaú e Jacó. Esaú, filho mais velho de Isaac, vendeu, de acordo com a Bíblia, seu direito de sucessão na direção do clã a Jacó, por um prato de ensopado. ‘Um prato de comida, às vezes, atrapalha a gente’, declarou dom Jayme.

Em nota à imprensa, a CNBB afirma que ‘a televisão não pode levar para dentro dos lares o sexo explícito, o linguajar abusivo, a degradação das formas de convivência familiar’.

Para a CNBB, ‘explorar tais imagens não é exercício de liberdade democrática, mas manifestação de autoritarismo dos meios de comunicação e desrespeito das empresas que patrocinam esses programas’.

A CNBB defende a criação do conselho de comunicação social, como previsto na Constituição. Essa, segundo a entidade, é uma forma de ‘avançar no processo de democratização dos meios de comunicação’.

O ministro José Gregori disse ontem no Rio que o Brasil ‘não quer censura, mas também não quer porcariada’ na televisão.

Na avaliação dele, a polêmica atual sobre as restrições da Justiça à ‘Laços de Família’ poderia ter sido evitada com um entendimento prévio sobre a auto-regulamentação.

‘Foi uma pena que os donos das televisões não tenham compreendido o meu esforço e a minha paciência beneditina, batendo de porta em porta, para conseguir a auto-regulamentação. Ficou evidente que o Brasil não quer censura, mas também não quer porcariada na televisão.’

Ele afirmou que o ministério irá defender no Superior Tribunal de Justiça a portaria 796, que estabelece a classificação indicativa para programas de TV e está sendo questionada pelas emissoras.

Contrariando comentário feito anteontem pela atriz Vera Fischer, na saída do almoço com o presidente da República, a primeira-dama Ruth Cardoso afirmou que não vê ‘Laços de Família’. ‘Não tenho muito tempo.’"



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