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ÚLTIMA HORA – Atualizado em 08/01/2001
OMBUDSMAN
Renata Lo Prete
"Notas de fim de ano", copyright Folha de S. Paulo, 31/12/00
"Três bolas passaram entre as pernas da Folha na última semana do ano. São diferentes os problemas que estão na origem de cada uma delas.
A de sexta-feira passada foi o típico cochilo de véspera de feriado. Em contraste com seus principais concorrentes, o jornal não noticiou a criação de um instrumento legal para punir procuradores que fizerem acusações ‘sem ações judiciais instruídas com documentos comprobatórios’.
Na prática, essa medida provisória vai na direção da ‘mordaça’ para o Ministério Público que o governo havia tentado, sem sucesso, aprovar no Congresso. Em condições normais, o assunto dificilmente teria ficado fora da Primeira Página, que dirá da edição.
Outro tropeço foi fruto de insensibilidade. Contra as evidências, o jornal subestimou a repercussão da anunciada mudança de nome da Petrobras para PetroBrax.
Na quinta-feira, enquanto outros veículos davam conta da grita generalizada, na Folha a história sobrevivia apenas nos comentários de colunistas. Só voltou a ganhar destaque quando FHC abortou o ‘x’ que, segundo diferentes relatos, havia autorizado.
A terceira bola foi a pior porque não pode ser caracterizada como incidente isolado. Também na quinta-feira, foram outros jornais que tiveram acesso ao conteúdo do depoimento de Nicolau dos Santos Neto à Polícia Federal.
Informaram que o juiz não respaldou de todo ou mesmo desmentiu as explicações do ex-secretário da Presidência Eduardo Jorge para os contatos entre ambos. A conferir qual é a interpretação correta, mas não há dúvida de que esse depoimento é notícia.
O furo foi o mais recente de vários que a Folha amargou na investigação do mundo Nicolau-Luiz Estevão-Eduardo Jorge, nada menos que o principal caso do ano.
Como a história está longe de ser esclarecida, fica para o jornal o desafio de virar o jogo em 2001.
*
Tomei conhecimento, por intermédio da Redação, de um fax que deve ter sido enviado a muitos jornais e revistas. Seu teor revela absoluta ausência de noção de fronteira entre interesse comercial e informação jornalística.
O punhado de linhas anuncia o ‘prêmio’ que uma joalheria pretende conferir ‘a jornalistas que melhor divulgarem a marca’.
As categorias: ‘foto mais criativa’, ‘foto mais impressionante’ (seria a imagem publicada com ‘maior destaque’), ‘melhor artigo’ e ‘jornalista que produzir a maior quantidade de editoriais sobre a marca’. Cada vencedor receberá um anel.
Fica claro que os promotores do concurso não estão interessados em anúncios concebidos por publicitários e apresentados sem disfarce, e sim em peças promocionais travestidas de notícia.
Nas palavras do colega que primeiro me mostrou o fax, trata-se da mais completa desfaçatez. Mas convém não duvidar que surjam interessados.
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Na tentativa de parecer ‘interativos’, jornais publicam cada vez mais enquetes. Em tempo real, elas podem funcionar como curiosidade e entretenimento. No papel, ficam mais evidentes tanto a ausência de valor estatístico dos resultados quanto a frequente irrelevância das perguntas.
Não bastassem as duas deficiências, a Folha parece disposta a sacrificar a agilidade que caracteriza esse gênero de sondagem.
Há cerca de dois meses, observei na crítica interna que o caderno de televisão havia mantido de uma edição para outra a mesma enquete: ‘Luciana Gimenez foi a melhor escolha (para apresentar o programa 'Superpop')?’
A Redação não se impressionou. Pouco depois, aplicou o truque novamente, desta vez com pergunta sobre a situação vivida pela protagonista da novela das 8, cuja filha precisa de um transplante de medula: ‘É correto dar à luz um doador?’ (A questão anterior era uma tolice. Esta nem ao menos faz sentido tal como formulada).
Voltei ao assunto na crítica. Nenhuma reação. Acredite se quiser, completam-se hoje quatro semanas com a enquete sobre o doador no jornal de domingo. Nada do resultado. A Folha é um diário, o caderno é semanal, mas a pergunta é a mesma o mês inteiro.
Não é difícil imaginar o que aconteceu. O retorno em respostas deve ter sido insuficiente. Em vez de entender o desinteresse como sinal de que o leitor espera serviço de melhor qualidade, o jornal opta pelo mais cômodo. Bobagem e reprise da bobagem.
O caso das enquetes do TV Folha mostra que na Redação, um lugar de aparência agitada, a inércia é força mais poderosa do que se imagina.
*
Com a atenção voltada para os destaques do noticiário, o jornalista muitas vezes subestima o efeito da informação errada em serviços fixos.
A insatisfação, no entanto, existe, como se pode perceber no desabafo enviado por esta leitora pouco antes do Natal, junto com votos de Boas Festas para a Redação e para a ombudsman:
‘Manhã de terça-feira. Tomo banho e pego a Folha para ter idéia de que roupa usar. A capa diz que a temperatura máxima prevista é de 21 graus Celsius. Ponho uma blusa de manga comprida, que me protegeria inclusive se chuviscasse.’
‘Às 9h, já na rua, o calor é considerável. Ao meio-dia, jogo a toalha: corro a uma loja e compro uma blusa mais leve, mesmo tendo um monte delas em casa. E apesar de estar poupando dinheiro para os presentes de fim de ano.’
‘Na quarta-feira, a capa informa que chegamos a 28,5 graus Celsius no dia anterior.’
‘Talvez vocês não se dêem conta mas, quando pagamos para receber um jornal, não estamos esperando apenas detalhes sobre a briga entre ACM e Jader Barbalho, mas um pacote de informações. Que vão de bobagens políticas a coisas mais relevantes, como os quadrinhos e a coluna de José Simão.’
‘Nada que faça parte desse pacote deve ser menosprezado. Qualquer item será útil para algum leitor e mexerá com seu dia-a-dia. Pensem nisso.’"
R.L.P.
"O especialista", copyright Folha de S. Paulo, 25/12/00
"Em edição recente, ao relatar os estragos do mau tempo na cidade de São Paulo, a Folha informou que ‘chuvas com essa intensidade são bem comuns nesta época do ano’. Não foi simples constatação do repórter, mas sim explicação atribuída a uma ‘física e meteorologista’.
Em teoria, o jornalista ouve o especialista para esclarecer dúvidas e aprofundar o assunto. Na prática, essas consultas costumam resultar em:
a) algo que o leitor está cansado de saber;
b) algo que ele poderia muito bem concluir sozinho;
c) explicações que nada explicam;
d) frases que servem para tapar buraco em uma ampla gama de situações.
O caso da chuva não foi dos piores. Apesar de abrir as considerações da meteorologista com uma obviedade fixada na experiência de todo paulistano, o jornal pelo menos deixou a entrevistada acrescentar que uma nuvem tropical havia se deslocado do Centro para o Sudeste do país, daí o aguaceiro.
Há exemplos, no entanto, em que não se encontra uma só informação aproveitável no trecho dedicado às palavras do especialista. Foi assim com uma reportagem de julho sobre o vazamento de óleo na refinaria da Petrobras em Araucária (PR).
Uma ambientalista foi convocada para esclarecer que ‘o atraso na descoberta do vazamento e da colocação da primeira barreira no rio Iguaçu aumentou a extensão dos danos do acidente’. Como se fosse concebível o contrário: mais demora; menos prejuízo.
Ela dizia também que ‘muita coisa não funcionou’ na ação da empresa para conter o óleo, conclusão a que qualquer um podia chegar sem leitura. Bastava ver as imagens dos animais tingidos de preto.
Já registrei aqui uma vez o caso dos advogados chamados a explicar o aspecto jurídico da pendência entre o governador do Amapá e a Assembléia Legislativa do Estado, que tentava afastá-lo do cargo.
A matéria, de outubro, começava por informar que ‘aberração foi a palavra utilizada’ pelos entrevistados para definir o processo de afastamento. Entra o advogado 1: Foi ‘uma aberração do começo ao fim’, sinal de ‘falta de espírito democrático da Assembléia’. Em seguida, o advogado 2: Foi ‘uma verdadeira aberração’, com ‘sucessivas ilegalidades e absurdos jurídicos’. Conversa encerrada.
O leitor conclui que aberração é o texto do jornal, supostamente de cunho didático.
Histórias causadoras de grande comoção são as hospedeiras mais frequentes de frases aplicáveis a quase tudo, e por isso mesmo vazias de informação.
‘É difícil saber a situação dentro do submarino, mas tecnicamente existe a possibilidade de que parte da tripulação esteja (...) à espera de resgate’, declarou à Folha em agosto, a propósito do desastre do Kursk, o colaborador de uma conceituada publicação dedicada a assuntos militares. ‘Enquanto houver esperança de retirar um sobrevivente, a equipe de salvamento deve tentar o resgate.’
À mesma linhagem pertence a declaração do psiquiatra encarregado de comentar, em edição de junho da Revista da Folha, a elevada audiência da exibição, pela TV, do sequestro do ônibus no Leblon: ‘Esse tipo de transmissão atrai porque todos nós temos um componente destrutivo e agressivo’.
Há casos em que a obviedade vem do entrevistado. Às vezes, no entanto, resulta da falta de disposição para ouvi-lo. O jornalista arranca uma frase que enfeite o texto e vai embora, perdendo -e tirando do leitor- a chance de aprender.
Feitiço do tempo
Na quarta-feira, diante de uma página da Folha, lembrei do filme ‘Feitiço do Tempo’, em que o protagonista vive o mesmo dia repetidamente.
No meio da página havia um quadro intitulado ‘Entenda o caso da feira de Hannover’. Acompanhava reportagem sobre conclusões do Tribunal de Contas da União a respeito dos gastos feitos na montagem do estande brasileiro, alvo de investigação do Ministério Público.
Reconheci não apenas o quadro como, especificamente, a informação destacada no alto de uma de suas colunas: ‘o projeto foi de Bia Lessa, que fez a campanha eleitoral de FHC’.
Desse item recuei para o seguinte ‘erramos’, publicado na edição de 3 de outubro: ‘Diferentemente do que informou o quadro ‘Entenda o caso da feira de Hannover’, Bia Lessa não fez a campanha eleitoral de Fernando Henrique Cardoso’.
Lembrei ainda de ter observado, na crítica interna desse dia, que o erro poderia ter sido evitado com a leitura de uma entrevista publicada pouco antes na Ilustrada, na qual a produtora enfatizava não ter participado de nenhuma das duas campanhas presidenciais.
Apesar da entrevista, do ‘erramos’ e de meu comentário, lá estava a informação de novo na página.
O erro em si é o de menos neste caso. Com ou sem Bia Lessa na campanha, permanece mal contada a história do dinheiro consumido na feira. Interessante é o que o incidente revela sobre o caminho da informação. Quem faz o jornal muitas vezes não o lê, daí a repetição de tantas falhas.
Acerto de contas
Em outubro, depois do primeiro turno da eleição, a Folha afirmou que Marta Suplicy teria, caso vencesse, equipe semelhante à que havia trabalhado com Luiza Erundina na prefeitura.
Leitores enxergaram precipitação na reportagem, intitulada ‘PT deve repetir secretários da primeira gestão’. Também pessoas de algum modo ligadas à campanha e a personagens citados me procuraram para dizer que o texto, sob a aparência de notícia apurada em ‘off’, era puro chute.
No domingo em que ocorreu o segundo turno, ao fazer um balanço das críticas à cobertura eleitoral da Folha, observei que o caso da matéria sobre o secretariado ficaria pendente.
É tarefa do jornal investigar a formação do (então provável) governo. O ponto, escrevi, era saber se a apuração tinha consistência, o que só o tempo poderia responder em definitivo.
O tempo deu razão aos leitores. A uma semana da posse, com o primeiro escalão definido, não resta dúvida de que a reportagem estava furada no atacado e no varejo.
No atacado porque, apesar de coincidências pontuais, qualquer um pode ver que são bastante diferentes os perfis do futuro secretariado e do que foi escolhido por Erundina.
No varejo, a comparação entre os nomes do texto e os escolhidos mostra que o jornal errou muito mais do que acertou em seus palpites.
Não que seja possível acertar sempre. Nem que a Folha só tenha se dado mal nesse assunto. Basta lembrar que foi a colunista Mônica Bergamo quem revelou a escolha de João Sayad para a Secretaria das Finanças.
Mas, na reportagem em questão, ficou provado que o jornal vendeu como probabilidade o que não passava de conjectura."
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