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ÚLTIMA HORA – Atualizado em 08/01/2001
ROBERTO CARLOS
Carlos Heitor Cony
"Sucesso faz mal à saúde", copyright Folha de S. Paulo, 26/12/00
"Por falta de tempo, não acompanho devidamente a produção musical dos dias que correm. Mas, sempre quando posso, leio as resenhas, críticas e palpites dos entendidos no assunto.
Sei vagamente que, ao final de cada ano, o cantor Roberto Carlos lança um novo disco e -por Júpiter!- encho-me de pasmo. Pois a impressão que tenho, nestes últimos 30 anos, é que ele piora tanto de disco em disco, tanto se repete, tanto atinge o mais baixo grau de sua carreira, que é realmente um milagre a repetição da mesma dose no ano seguinte.
Há 30 anos que a crítica prova por mais a mas b que ele não sobreviverá à última calamidade que somente a pervertida indústria fonográfica teve a audácia de lançar.
Seus temas, seus gorjeios, seus versos sobre a mulher amada ou sobre Jesus Cristo, tudo isso forma o lixo do lixo e já ninguém mais aguenta suas superstições, suas roupas em azul e branco, enfim, Roberto Carlos há uns 30 anos não merece existir.
No entanto, ele existe. Tanto existe que há 30 anos lança seu novo disco, faz o seu programa na Globo e continua sendo chamado de rei pela plebe rude que o consome.
O mesmo fenômeno ocorre, em menor escala, com o Paulo Coelho. As cultas gentes já esgotaram o arsenal de profecias sobre o seu fim iminente, mas ele continua na ativa, fiel a seus temas e manias, escrevendo regularmente para seu público.
Nem Roberto Carlos é um Bach a preços populares nem Paulo Coelho é um Shakespeare em versão esotérica. São dois profissionais que fazem o que podem e não têm culpa do sucesso que alcançam.
Os críticos também não têm culpa. Denunciam a malignidade de um e de outro. Se pudessem, colocariam em cada disco e em cada livro a advertência: este produto faz mal à saúde."
Barbara Gancia
"Roberto volta à crista da onda", copyright Folha de S. Paulo, 25/12/00
"Outro dia , em uma entrevista no canal GNT, ouvi aquele monumento de nome Marisa Monte dizer que a música e o amor andam juntos desde o início dos tempos. Sei não, mas sempre tenho a impressão de que o amor cantado acaba tolhido, feito aquelas marinas infelizes que o Chico Anysio pintava quando ainda tinha outros interesses na vida além de fazer intriga.
Tarefa árdua pintar o mar, não é mesmo? Reduzir aquele mundão para apenas duas dimensões é coisa que, até hoje, só um ou outro impressionista francês conseguiu fazer com competência.
Cantar o amor também não é para qualquer mortal. São poucos os que realmente conseguem fazer o punhado de variações sobre o tema calcar fundo no peito. Aliás, ‘calcar fundo no peito’ é justamente uma daquelas expressões que estão em uma de cada dez músicas que falam de amor. Está vendo só como a matéria é difícil?
Mas não para Roberto Carlos. Quando você acha que ele já esgotou o assunto, Roberto puxa mais um clássico da manga.
Olhando assim, nem parece que o homem é um mito vivo: a mesma coreografia de sempre para segurar o microfone; a mesma pulseirona de malhas grossas; o mesmo terninho azul; o mesmo laquê da vovó nos cachos prateados e o mesmo especial de Natal.
Mas, este ano, algo mudou. Na última quinta-feira, Roberto Carlos fez o melhor especial de fim de ano de toda a sua vida.
Maria Rita teve algo a ver com isso? Teve, claro. O que não exclui o fato de que o cara seja um fenômeno: sem nunca ter saído de cartaz, RC volta a estar na crista da onda. Na loja de importados, durante as compras de Natal, o sujeito ao meu lado queria saber se os filmes do Rei já haviam sido lançados em DVD.
Na seção de discos do Extra, o pedaço mais concorrido, de longe, era o dos relançamentos de Roberto. E, no especial da Globo, não teve um só convidado que não ficasse de olhos marejados com as emoções que ele viveu. Na platéia da Globo e nas salas de estar do seu milhão de amigos. Vezes mil.
Se eu tiver de ver mais uma daquelas tomadas aéreas de meia hora feitas do helicóptero Águia Dourada, eu corto os pulsos!
E foi só falar que o ‘Globo Repórter’ virou programa de uma reportagem só, aquela sobre o Pantanal, que pimba! Sexta, lá estava o Francisco José batendo ponto com um tuiuiu na bandeja. Êta soneira!"
Leila Reis
"A surpresa no especial de Roberto", copyright O Estado de S. Paulo, 23/12/00
"O peru de Natal da Globo, ou seja, o especial de Roberto Carlos teve um sabor especial quinta-feira. Afinal, ele, que bate o ponto na emissora há 26 anos, falhou em 99 por causa da morte de sua mulher, Maria Rita. E como na última aparição na TV o cantor escancarou sua dor para o Brasil (que chorou junto com o Rei), era natural que o público estivesse curioso para conferir o estado emocional de seu ídolo.
Roberto que sempre se manteve como uma entidade, aparecendo muito de vez em quando na TV, escolhendo shows com toda a parcimônia e fugindo de conversas que não eram de seu interesse, acabou sendo humanizado pela tragédia do câncer da mulher. Aquele homem, intocável e cheio de idiossincrasias, que protegia sua intimidade da devassa, foi desmoronando à vista de todos à medida que a saúde de Maria Rita decaía. Por tudo isso, a volta do cantor à rotina anual seria por si só uma atração e a Globo felizmente percebeu.
Portanto, a direção do especial de Roberto Carlos acertou ao não bordar o show com participações dos colegas da Jovem Guarda ou de estrelas da vez, nem forçar na pieguice das homenagens. Houve um respeito à sintonia entre artista e público, que repassaram a trajetória artística e pessoal de RC.
Juntos tiveram momentos de felicidade ao som do iê-iê-iê, de sobriedade e de muita emoção, especialmente na hora do Amor sem Limite, que a mídia transformou no hino de amor a Maria Rita.
A platéia estelar - formada com o alto escalão das novelas da casa, Ana Maria Braga, a cantora Joana, etc. -, convocada pela Globo para transformar o programa em um happening, fez tudo direitinho. Vibrou, aplaudiu e chorou com Roberto.
O pessoal do sofá também deve ter se desmanchado. Afinal, o Rei mantém uma corte fidelíssima que lhe confere a maior longevidade na programação da Globo. De certa maneira, ao sintonizar no especial de cada Natal, o telespectador quer primeiro conferir como o tempo está tratando o ídolo e depois se deliciar recordando os bons tempos de quando ele era Terrível, a fase mística em que subiu à Montanha, a ufanista do Verde Amarelo, a sensual - na qual reverenciou gordinhas, míopes e balzaquianas - e a religiosa (Tu És a Verdade Jesus).
Os fãs sabem que, uma vez por ano pela TV, têm chance de averiguar para onde caminha a inspiração do Rei. Pelo jeito, ela está voltando. (A jornalista Leila Reis escreve aos sábados neste espaço)"
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