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ÚLTIMA HORA – Atualizado em 12/8/2000
OI NO iG
Luciana Moherdaui
"A rede não deve perder a credibilidade", diz editor do Observatório, copyright iG, 19h30, 4/8/00
"No início desta semana, circulou pela internet um e-mail com o crédito da agência de notícias Reuters, que informava que um participante do programa ‘No Limite’, exibido aos domingos pela Rede Globo, teria se suicidado. O correio eletrônico chegou a redações e a diversos sites. O boato foi desmentido pela Reuters imediatamente.
Comentando esse boato, Alberto Dines, editor do Observatório da Imprensa, que estréia no iG na madrugada deste sábado, diz que propagação de fofocas na rede começou com o escândalo sexual que envolveu a estagiária da Casa Branca Mônica Lewinsky e o presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton.
O caso estourou no site < www.drudgereport.com>, do jornalista Matt Drugde, que resolveu divulgar aquilo que a publicação americana Newsweek decidiu não contar porque não tinha certeza. Para se safar do escândalo, Drudge concebeu a frase ‘Não sou jornalista, sou repórter’. Dines considera esse tipo de atitude um divisor de águas. ‘O repórter é um jornalista. Essa dicotomia que o Drudge criou não deve existir. O repórter é um jornalista que está preso aos princípios jornalísticos. Isso vale para mídia impressa e, sobretudo, na internet’, destaca.
O editor do Observatório da Imprensa diz que, ‘se a internet não tomar cuidado, perde a credibilidade. Divulgar uma notícia em primeira mão sem checar torna a rede um meio pouco confiável. É melhor esperar alguns minutos para confirmar, senão a internet será um meio em que você acredita mais ou menos e os jornais vão ficar com aquela aura de credibilidade, porque têm mais tempo. Eles só saem no dia seguinte’.
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"Alberto Dines: "A internet é mais veloz que o rádio e a TV", copyright iG, 19:23, 4/8
"A produção jornalística na internet deve ser pensada como um fim específico para o meio. A rede é muito mais veloz que o rádio e a televisão e tem uma capacidade incrível.
O editor do Observatório da Imprensa, que estréia no iG na madrugada deste sábado, acredita que as notícias para a internet devem ser melhor elaboradas. ‘O jornalismo na web está muito preso ao que chega por agências. Colocar apenas notas de três linhas não é o suficiente. Em vez de três linhas, deveriam ter dez linhas bem escritas para o leitor, ao ler o jornal no dia seguinte, perceber que está recebendo pouquíssima informação’.
Dines acredita que, se a internet oferecer apenas flashes, o leitor não exigirá mais do jornal impresso. ‘O jornal e a revista vão ter de mudar. Eles têm de ser complementares. Atualmente, o jornal é produzido como se a internet não existisse. A internet ainda não está incomodando até porque é um processo que está apenas começando. Mas no momento em que a internet começar a apresentar um noticiário que um pouco mais completo como, por exemplo, 20 linhas de um fato, o jornal avançará mais’, destaca.
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"A imprensa não mudou com o jornalismo digital’, diz Alberto Dines", copyright iG, 19h20, 4/8
"Os veículos de comunicação tradicionais ainda não sentem o efeito do jornalismo praticado na internet. O modo de fazer jornalismo é praticamente o mesmo. Essa é a opinião do editor do Observatório da Imprensa, Alberto Dines. O site, que faz críticas à mídia – televisão, rádio e imprensa escrita –, estréia no iG na madrugada deste sábado.
‘Eu acho que não mudou nada. Por causa da lentidão dos veículos em fazer modificações profundas no modo de produção jornalística. As revistas ainda não se mexeram para isso. A televisão muito menos. O modo de fazer jornalismo no Brasil é praticamente o mesmo. Mas, à medida que o online vai se desenvolver, um dia eles irão acordar e dizer: ‘Perdemos tempo’, diz".
Para Dines, a única novidade na imprensa é surgimento do jornal Valor Econômico, que, segundo o editor, tem formatação diferente dos outros diários tradicionais e não representa ameaça aos modelos online que já existem. ‘O Valor está no caminho certo. A mídia impressa tem de ser mais seletiva, contextualizada e referenciada. Essa é a saída. O jornalismo digital tem de dar o hard news (notícia quente), com dados fundamentais. Dez linhas devem explicar um fato na rede. O esclarecimento tem de ficar com a mídia impressa’.
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"O Papel do Jornal influenciou Alberto Dines a criticar a mídia", 19h15, 4/8
"A idéia de se fazer análise da mídia surgiu quando Dines escreveu o Papel do Jornal, produzido na década de 70. O livro, que já foi editado uma dezena de vezes, traz a visão crítica dos veículos de comunicação, sobretudo em relação à censura que o Brasil estava vivendo na época. Logo depois, o jornalista passou a assinar a coluna Jornal dos Jornais (1975 a 1977), publicada pela Folha de S. Paulo.
‘Depois de algum tempo observando a imprensa com atenção, percebi que era o momento de se fazer algo sistemático, e quando voltei de Portugal ao Brasil, em 1994, criei, em parceria com Carlos Vogt, então reitor da Universidade de Campinas (Unicamp), o Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor), que oferece curso de extensão universitária e pesquisa’, explica Dines.
Um pouco depois de o Labjor ter sido lançado, foi desenvolvido em Portugal o Observatório da Imprensa, projeto do qual o jornalista foi um dos fundadores. De volta definitivamente ao Brasil, Dines decidiu fazer algo público, voltado à sociedade e pediu autorização aos portugueses para utilizar o nome Observatório da Imprensa.
‘O nome e a atitude eram muito bons. Fenômenos precisam ser observados. Quando você observa um fenômeno, ele já é alterado com a simples observação’, diz. O Observatório da Imprensa estréia no iG na madrugada deste sábado. (Luciana Moherdaui é editora de Mundo Virtual)"
COBERTURA
Renata Lo Prete
"Soropositivo e discriminado", copyright Folha de São Paulo, 6/8/00
"Fadadas a atrair leitura, as duas qualificações do título acima foram atribuídas ao personagem destacado na capa da Folha de domingo passado, um maranhense de 30 anos que afirma ter sido mandado embora do seminário no qual vivia por ser portador do HIV.
O bispo que o dispensou diz que a decisão não foi tomada apenas por esse motivo. Mas, desde o título da chamada (‘Igreja x vírus’), ficou claro o pouco crédito dado aos argumentos de d. Fernando Legal, da diocese de São Miguel Paulista, na zona leste de São Paulo.
O caso se deu no início de 97. José Maria (nome fictício) explica que decidiu divulgá-lo agora para ‘colocar mais lenha nas recentes discussões sobre catolicismo e Aids’.
Igualmente interessada em colocar lenha, a Folha dedicou página inteira à história do ex-seminarista. O pacote incluiu trechos de seu diário e entrevistas com o bispo, a mulher que acolheu José Maria (‘Costureira que deu abrigo não tem religião’) e uma advogada especializada em saúde pública.
Apenas nos parágrafos finais a reportagem informou que o rapaz assume ter vivido ‘incontáveis aventuras amorosas’ em seu período de seminarista, durante o qual ‘saiu com prostitutas e perambulou pelo universo gay’.
José Maria: ‘Vejo o sexo como fonte de prazer. Enquanto frequentava o seminário, continuei transando porque não firmara o voto de castidade. Mas, depois de ordenado, tentaria respeitar o celibato’.
Se algo desse depoimento tivesse obtido destaque no texto, ou ido para a chamada de capa, o leitor poderia discordar do bispo, mas tenderia a ver sentido na afirmação de que ‘o afastamento se deu em um contexto muito mais amplo e complexo’.
No entanto, se isso tivesse sido feito, ficaria mais evidente a fragilidade da história de perseguição apresentada pelo jornal.
O jornalista Armando Antenore defende sua reportagem por apontar contradição no discurso da Igreja Católica.
‘A mesma instituição que prega solidariedade em relação a doentes de Aids e infectados pelo vírus não se mostrou solidária com José Maria. Sei de outras dioceses e ordens religiosas que, diante de casos semelhantes, mantiveram os seminaristas sob sua guarda.’
O repórter também destaca o fato de o rapaz ter se submetido a teste de Aids por ordem de seus superiores.
‘Se admitirmos que uma diocese obrigue seus subordinados a fazer o teste, teremos de nos calar quando uma empresa exigir o mesmo de seus empregados, ou uma escola de seus alunos.’
Ocorre que o enfoque não privilegiou a recusa da igreja em cuidar do rapaz ou a obrigatoriedade do teste, e sim a injustiça que haveria em impedir José Maria de se tornar padre.
Independentemente do que religiosos façam em privado, e de haver ou não veto informal a seminaristas soropositivos, a história em questão foi mal contada."
LINGUAGEM
Tereza Halliday
"Em prol da palavra enxuta", copyright, Diário de Pernambuco, 10/8/00
"Meus esforços para ser enxuta são mais eficazes na prosa do que no corpo. Urge evitar que o aumento da idade e o aumento de peso tornem-se comparsas, pois ainda quero realizar três sonhos que exigem boa forma: dançar um tango, patinar no gelo e percorrer a Holanda de bicicleta. Daí as caminhadas regulares a passo rápido, a subida diária de nove andares pela escada, a hidroginástica e as longas abstinências de chocolate e pão com queijo de manteiga.
A nova diagramação do Diário de Pernambuco lançou-me outro desafio da forma ideal: enxugar mais ainda meus artigos quinzenais. Já sou afeita a podar e polir - evitar repetições e cacoetes verbais como ‘bastante significativo’ e ‘sem dúvida alguma’, achar sinônimos enriquecedores, tornar cada texto uma peça de artesanato digna de D. Artemísia, a quem devo a base de português que fez toda a diferença em minha vida. Feliz do brasileiro que teve um curso primário bem feito. É mais capaz e mais cidadão. Talvez por isto, seja tíbia a vontade política de melhorar, ‘pra valer’, o ensino fundamental na escola pública.
Manter a qualidade na brevidade exigida pelo jornal é questão de brio profissional e respeito pelos leitores. Em contrapartida, peço-lhes que não engulam meu texto como se fosse fast food. Leiam-no zelosamente, como foi preparado. De olho crítico mas sem maldade, como foi escrito. Concordem – com a empatia que sempre agradeço, ou discordem - com a civilidade que torna construtivas as diferenças de opinião. Em última instância, somos unânimes neste desejo: uma melhor qualidade de vida no bairro e no mundo, no espaço público e no espaço do coração.
Em 40 linhas de 72 toques (linguagem técnica da casa), é mais difícil exercer a sutileza na críticas, desenvolver um argumento complexo. Mas há vantagens neste limite: o articulista não pode ser nem derramado e circunvolutivo, nem ‘curto e grosso’. Deve esmerar-se em ser breve e fino. Esta regra vale também para o discurso de candidatos, governantes, oponentes, empossados, homenageados, presidentes de mesa em sessão solene, entrevistadores de TV, enfim, todos os que tenham a obrigação de agir pela palavra.
É preciso re-escrever e caprichar, mesmo e principalmente sob a pressão de prazos - em jornalismo, literatura, ciência, oratória ou redação empresarial. O texto deve ser tratado ‘como as lavadeiras de Alagoas cuidavam da roupa’, segundo conselho de Graciliano Ramos: ‘primeiro, elas dão uma lavada leve, só pra tirar a sujeira maior. Quando o pano seca, dão uma segunda, mais reforçada. Depois, mais uma terceira e última, o que exige o máximo de esforço. Somente quando torcem o pano molhado e vêem que dele não pinga mais uma só gota d’água... é que dão a tarefa como cumprida’. Eis a lição da palavra enxuta."
MÍDIA & VIOLÊNCIA
Iara Bueno
"Imprensa ‘neurotiza’ cidadão, diz comandante", copyright Correio do Povo, 3/8/00
‘A imprensa é muito importante para a gente, principalmente o jornalismo investigativo. Mas não é mostrado o nosso trabalho para tentar conter a criminalidade, e isso pode até estimular a violência para quem tem más índoles’, disse o tenente-coronel. ‘Às vezes, crimes acontecem a quilômetros de distância e nós temos as nossas privacidades invadidas com a notícia’, exemplificou.
A defesa maior do tenente-coronel em relação à sua opinião, foi a de que ‘tudo acontece com a PM porque a PM está aonde tudo acontece’. De acordo com Antônio Fernando Galasso, a sua polícia é motivo de muito orgulho.
O coronel Elzio Lourenço Nagalli, comandante do Comando de Policiamento do Interior (CPI), endossou a opinião de Galasso, dizendo que na sua avaliação só há pontos positivos no serviço do 8º Batalhão. ‘O povo ama o 8º Batalhão. Se ama, é porque faz um trabalho digno. Podem haver erros, mas todos nós erramos, somos humanos’, justificou.
O prefeito Francisco Amaral (PPB), que esteve na solenidade fazendo homenagens aos policiais, defendeu o trabalho dos policiais militares. ‘Pode-se dizer que é uma abnegação. Eles lutam, mesmo sem equipamentos da polícia. E o homem vive de equipamentos’, considerou o prefeito. Além disso, reconheceu a violência como conseqüência de problemas sociais. ‘Em 1º lugar está a educação. Depois vem a fraternidade entre as pessoas e a conscientização’, disse. ‘A miséria não conduz à violência, mas enseja’, completou.
Disque denúncia
Conforme divulgaram Nagalli e Galasso, a polícia está com alguns planos para aprimorar o seu serviço. Entre eles, a implantação de um disque denúncia, uma espécie de 0800 de auxílio ao 190, e implantação de câmeras de vídeo nas viaturas e em determinados locais da cidade.
‘Já estamos em negociação com empresas que podem viabilizar essas idéias’, garantiu Nagalli. De acordo com ele, a Polícia só está esperando uma resposta da Telefônica para implantar o disque denúncia. ‘A participação da comunidade é importante no trabalho da Polícia’, admitiu. De acordo com ele, já houve uma tentativa de implantação do serviço por meio de uma organização não-governamental, mas não deu certo. Segundo ele, a comunidade não tem se mostrado preocupada em auxiliar o trabalho policial.
O tenente-coronel Galasso afirmou anteontem que a integração entre as polícias Civil e Militar também possibilitaria melhoras no trabalho de combate à criminalidade. ‘Não que não exista o trabalho conjunto, mas poderia ser melhor’ explicou. ‘Mais junto que isso, só se dormirmos juntos’, brincou o delegado seccional Djahir Tucci Junior, discordando de sua colocação.
Especialistas criticam discurso de militar
A relação feita pelo tenente-coronel, Antônio Fernando Galasso, comandante do 8º Batalhão da Polícia Militar, em Campinas, entre o aumento da violência e a divulgação da criminalidade pela imprensa foi criticada, ontem, por especialistas de diversos setores envolvidos no assunto.
De forma geral, a análise feita pelos estudiosos e profissionais ouvidos pelo Correio é de que o ciclo de violência e criminalidade tem causas estritamente sócio-econômicas, que, salvo em casos isolados, não recebem interferência da publicação cotidiana dos fatos.
‘A imprensa é como uma máquina fotográfica’, comparou o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) em Campinas, Aderbal Bergo, ‘ela retrata o que está acontecendo.’
Para Alberto Dines, coordenador do Observatório da Imprensa, órgão destinado a analisar posturas do jornalismo brasileiro, a declaração de Galasso é um ‘despropósito’. Dines defende que há estímulo latente à violência na programação da mídia televisiva. Mas isenta de responsabilidade o jornalismo impresso diário. ‘A imprensa apenas noticia o que acontece’, diz.
A relação também é descreditada pelo psicanalista Maurício Knobel, professor de Psiquiatria da Unicamp. ‘A violência se gera pela diferença de classes, os baixos salários. Não podemos esconder a realidade, e sim usá-la como um meio educativo, mostrando as conseqüências da violência’, colocou.
Ele atribui a cenas de violência apresentadas em programas de televisão um certo ‘exagero’, este sim podendo ser responsável por atitudes violentas, principalmente em crianças. Mas descarta a influência deste aspecto na criminalidade diária.
A professora de Psicologia Forense da PUC-Campinas tem opinião semelhante. ‘A pessoa que comete um crime o faz por questões pessoais, sociais. Neste nível, as notícias não interferem’, defende a psicóloga.
Celso Falaschi, professor de Jornalismo da PUC-Campinas e diretor acadêmico da Universidade Internacional da Paz (Unipaz), também descarta a possibilidade de as informações sobre o tema estimularem a criminalidade. ‘Agora, a mídia precisaria também mesclar melhor os assuntos. Resgatar mais pontos positivos, valores humanos’, lembra."
CENSURA NO PLANALTO
ABI
"Sindicato dos Jornalistas Profissionais do DF protesta contra mais uma censura do Palácio do Planalto", copyright ABI <www.abi.org.br>, 3/8/00
"Jornalistas denunciam censura no Palácio do Planalto
‘É vedada toda e qualquer censura de natureza política, ideológica e artística’. Artigo nº 220 da Constituição Federal.
O Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal vem a público denunciar o porta-voz da Presidência da República, George Lamazière, por violação da Constituição Federal ao censurar 11 perguntas elaboradas pelos jornalistas que fazem a cobertura diária do Palácio do Planalto, deixando claro o objetivo de impedir a opinião pública de tomar conhecimento mais amplo das evidentes dificuldades do governo para explicar seus próprios atos ou de seus
integrantes ou ex-integrantes.
A censura palaciana é reveladora da estatura político-moral do governo diante do legítimo clamor da sociedade por transparência na administração pública e indica desprezo para com o artigo 5º da Constituição Federal que estabelece o ‘direito (de todo cidadão) a receber dos órgãos públicos informações de seu interesse particular, ou de interesse coletivo ou geral’.
Não se trata de fato isolado. Não faz muito tempo, também por orientação do Palácio do Planalto, entrevista do coordenador do MST, João Pedro Stédile, teve sua veiculação nacional censurada na Rede Educativa, numa afronta à Constituição e ao estatuto dessa rede, sustentada pelo dinheiro do contribuinte a quem se sonega o direito à informação.
A atitude de Lamazière viola a liberdade de expressão e configura um grave atentado contra o exercício pleno do jornalismo. De que adiantam todos os discursos governistas elogiando as maravilhas da tecnologia de informação, a comunicação interativa, a internet, se, com esta obscurantista prática de censura, o jornalismo como instrumento de cidadania se vê impedido de investigar e indagar em nome do interesse público? Investindo-se de uma suprema capacidade
de decidir o que os meios de comunicação devem ou não abordar, o porta-voz da Presidência faz lembrar tempos ditatoriais que a sociedade brasileira pretendia esquecer e faz temer pelo futuro do jornalismo. Se o ‘estilo’ Lamazièri prevalecer, a cobertura dos atos de autoridades públicas - portanto, obrigados à prestação de contas à sociedade - não passará de uma vergonhosa encenação, digna de regimes monárquicos, nos quais só os escolhidos podem dirigir-se ao
mandatário.
Investigar e esclarecer aos cidadãos sobre todo e qualquer ato governamental, inclusive sobre os reiterados episódios que indicam a ocorrência de práticas irregulares com cifras monumentais de recursos públicos que são subtraídos da população de forma gritante, é condição irrenunciável do jornalismo, assim como a prática do jornalismo sem qualquer constrangimento é condição básica de uma sociedade que queira denominar-se sociedade.
Por esta razão, o Sindicato dos Jornalistas do DF, conclama a todos os jornalistas a persistirem em busca da informação imbuídos da responsabilidade social inerente a nossa profissão. Não devemos ceder a qualquer tipo de procedimento que tente reinstalar a censura em nosso país, cuja vigência só pode beneficiar àqueles que se especializaram na arte do assalto aos recursos públicos e que tanto temem a liberdade de imprensa. Brasília, 1º de agosto de 2000. A Diretoria"
FALÊNCIA DA BLOCH
Mirelle de França
"Justiça convoca os credores da Bloch Editores", copyright O Globo, 4/8/00
"Os credores da Bloch Editores serão convocados hoje pela Justiça e terão 20 dias para se manifestar, segundo informou ontem o síndico da massa falida, Arnaldo Blaichman. O edital de habilitação será publicado na edição de hoje do Diário Oficial do Estado do Rio. Dentro de 15 dias, também estará pronto o levantamento do ativo da empresa, depois de ter sido concluída a apuração em órgãos como o Registro Geral de Imóveis e o Detran.
- Estamos apurando o patrimônio da empresa desde terça-feira, quando foi decretada a falência da Bloch Editores pela 5ª Vara de Falências e Concordatas. Os credores interessados poderão, a partir da publicação do edital de habilitação, lutar pelos seus direitos - disse Arnaldo Blaichman.
Até ontem, a empresa não tinha entregue à Justiça os documentos que comprovam que a editora tem condições de dar continuidade aos negócios. Com isso, a produção das cinco revistas da Bloch Editores (‘Manchete’, ‘Amiga’, ‘Pais&Filhos’, ‘Ele&Ela’ e ‘Desfile’) continua interrompida. Segundo o advogado da empresa, Arnaldo Bumachar, a Bloch está providenciando os documentos solicitados pelo síndico da massa falida, que devem ser entregues para a apreciação da Justiça até a próxima segunda-feira.
- O trabalho está sendo feito junto aos contadores da empresa e pretende mostrar qual o faturamento com a venda das revistas, ou seja, quais as reais possibilidades de recuperação da Bloch Editores - disse Bumachar.
Segundo Blaichman, a empresa não tem um prazo determinado para apresentar esses documentos, mas o bom senso pede que seja o mais rápido possível.
- Até agora não recebemos nada que comprove que a empresa tem condições de continuar. Enquanto isso, a Bloch fica parada - explicou o síndico da massa falida.
Fechado na terça-feira, juntamente com os demais imóveis da Bloch Editores, o Teatro Adolpho Bloch foi reaberto ontem à tarde. A sala voltou a funcionar depois que o juiz da 5ª Vara de Falências e Concordatas, José Carlos Maldonado, determinou a reabertura do teatro, atendendo ao pedido feito, na manhã de ontem, pela atriz Christiane Torloni, que está em cartaz no local com a peça ‘Joana Dark, a Re-volta’. Segundo a atriz, o prejuízo diário com o fechamento da sala seria de cerca de R$ 9 mil.
- Foi uma irresponsabilidade da empresa pedir falência sem nos avisar. Espero que a Justiça tenha bom senso - disse a atriz.
A Bloch Editores pediu sua própria falência terça-feira por não ter condições de quitar a primeira parcela de sua concordata, no valor de R$ 50 milhões. A sede da empresa, na Rua do Russel, foi lacrada por oficiais de Justiça e cerca de 300 funcionários estão com seus empregos ameaçados. Há cerca de dois anos, no entanto, o pagamento dos salários vinha sendo feito por meio de vales."
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"Bloch Editores entrega documentos à Justiça", copyright O Globo, 8/8/00
"Os advogados da Bloch Editores entregaram ontem, em audiência na 5ª Vara de Falências e Concordatas do Rio, uma relação de documentos que, segundo eles, comprova a viabilidade da continuação dos negócios da empresa. A produção das cinco revistas publicadas pela editora, entre elas a Manchete, está suspensa desde a última terça-feira, quando foi decretada a falência da Bloch pela Justiça do Rio.
A possibilidade da retomada da produção das revistas pela Bloch Editores será decidida depois da apreciação do síndico da massa falida, Arnaldo Blaichman, e do Ministério Público. A previsão é de que a avaliação seja concluída até o fim da próxima semana. Até lá, a circulação das publicações estará suspensa.
De acordo com os documentos apresentados pela Bloch Editores, o lucro com a venda das revistas no último semestre foi de R$ 140 mil.
- Decidiremos pela continuação dos negócios caso seja a melhor solução para os credores, entre eles, os cerca de 300 funcionários da empresa - explicou Blaichman.
O juiz José Carlos Maldonado autorizou ontem a abertura dos arquivos de um computador da Bloch que está dentro prédio da empresa na Rua do Russel, lacrado na semana passada. Agora, a Bloch terá 72 horas para apresentar documentos solicitados pela Justiça, entre eles, a relação dos imóveis alugados."
MANCHETES
Clube da Notícia
"Zero Hora e o perigo da água", copyright Clube da Notícia, 4/8/00
"Zero Hora fechou a semana produzindo duas manchetes que entram nos seus anais (a expressão ‘anais’ tem mais de um significado e, no caso, deve ser interpretada livremente) com pompa e circunstância e uma berrante explicitude sobre seus objetivos. Uma foi cometida na quinta-feira (‘CPI investigará dinheiro do Carnaval’), cujo autismo pode ser verificado na comparação com as demais da imprensa nacional, de ponta a ponta ocupada com o testemunho no Senado do secretário de FHC, Eduardo Jorge.
O autismo, como se sabe, descola o paciente da realidade, enclausurando-o em um mundo interno, próprio, fechado e nebuloso. O autismo de Zero Hora tem a particularidade de não ser sofrido mas deliberadamente planejado e executado. Patética, tentando inflar um tema municipal para contrapor ao escândalo que vai às tripas do Planalto, a manchete de ZH faz coro à do Diário Gaúcho, o outro rebento da RBS e munido de iguais intenções. É preciso fazer campanha contra a prefeitura e o governo do Estado mesmo a custo de virar um clone do jornalismo popular-conservador, mais interessado em perpetuar as diferenças brutais da sociedade brasileira do que em questioná-las.
No dia seguinte, Eduardo Jorge era, de novo, o centro absoluto das atenções de qualquer jornal comprometido com a atividade de bem informar e assunto principal, como mostram inequivocamente as primeiras páginas da Folha de S. Paulo, O Globo, Jornal do Brasil e Estado de S. Paulo. E ZH, de maneira ainda mais (tragi)cômica, saiu-se com uma psicodélica manchete sobre a água do DMAE! Sem substância para guindá-la à capa de qualquer jornal, a manchete é daquelas que permite a uma formiguinha atravessá-la sem molhar as canelas.
Mas serve, pelo menos, como uma alerta para o DMAE: urge coletar e analisar a água consumida em determinado ponto da avenida Ipiranga. Há risco de que ela esteja causando cretinismo editorial."
SOUZA CRUZ vs. JOSÉ SERRA
Elio Gaspari
"O fumante é viciado, não idiota", copyright O Globo, 6/8/00
"Deve-se ao presidente da Souza Cruz, Flávio de Andrade, o mérito de trazer a opinião dos fabricantes de cigarros para a discussão das políticas públicas em relação ao fumo.
Defendeu a proibição de vendas de cigarros para menores de 18 anos. Bela idéia. FFHH deveria convocar amanhã uma equipe de burocratas para trabalhar com a indústria um mecanismo capaz de permitir que essa iniciativa prospere.
Em seguida, Andrade disse o seguinte: ‘Duvido que proibir a propaganda de cigarro seja uma prioridade do Planalto’. O projeto enviado pelo Governo ao Congresso seria coisa ‘de apenas uma pessoa, com objetivos políticos.’ ‘Temos eleições pela frente.’
Se o ministro da Saúde apresenta um projeto e o presidente da maior tabacaria brasileira duvida que o Governo o considere prioritário, alguém está fazendo papel de bobo. Ou é o ministro José Serra ou é a choldra (ou ambos).
O empresário foi primitivo. Procurou desqualificar uma idéia atribuindo-lhe um conteúdo político (e eleitoral). Foi descortês. Sem se referir a Serra, atribuiu-lhe uma intenção mistificadora.
É verdade que o Ministério da Saúde até hoje não conseguiu implementar a portaria que proíbe o fumo nos hospitais. Talvez pudesse proibir o cigarro, pelo menos, no prédio do próprio ministério.
A questão central, contudo, é outra: cigarro vicia, dá câncer e custa dinheiro ao serviço público de saúde. Tanto é assim que a empresa-mãe da Souza Cruz (a British American Tobacco) participou de um acordo com 46 estados americanos pelo qual a indústria se compromete a repassar-lhes US$ 246 bilhões ao longo de 25 anos, indenizando-os pelos estragos que provocou.
Os clientes da indústria de cigarros (inclusive o signatário) são viciados, mas nem por isso devem ser tratados como idiotas. Não se trata de saber se José Serra é candidato a presidente da República. Trata-se de discutir se é conveniente pedir ao Congresso que aprove leis inibidoras do consumo de cigarros. Nesse sentido, a indústria do fumo trata o mercado brasileiro como uma maloca de consumidores de terceira classe.
Na terça-feira, quando as declarações do doutor Andrade estavam nas bancas, a Organização Mundial da Saúde distribuiu em Londres um documento de 260 páginas acusando um lote de tabacarias (inclusive as duas grandes instaladas no Brasil, a Philip Morris e a British American Tobacco) de terem manipulado uma campanha para desmoralizá-la e para embaralhar o debate sobre os malefícios do fumo, sobretudo no Terceiro Mundo.
A OMS baseou-se em 35 milhões de documentos da indústria e nelas encontrou uma orquestração destinada a tentar ‘parar o surgimento de um compromisso contra o fumo nos países do Terceiro Mundo’.
Como?
‘Desacreditar personagens-chave’. Fizeram isso estimulando jornalistas a investir sobre o senador americano Ted Kennedy. Ele queria falar do fumo e lhe faziam perguntas a respeito de sua alcoolatria e de suas atividades sexuais.
Um consultor da tabacaria mundial ensinou às empresas o seguinte método para domesticar entrevistas coletivas, transformando a discussão do controle do fumo num debate sobre prioridades na saúde pública:
‘Precisamos ensinar a eles - os jornalistas - a serem agressivos nas perguntas. Os entrevistados não vão querer comparar o que se gasta contra o fumo com o que se gasta com as crianças. Se eles não responderem à pergunta, nosso jornalista tem que insistir agressivamente, com novas perguntas, para levá-lo a uma resposta. Isso não vai ser fácil. (...) Se nós conseguirmos apenas que poucos jornalistas escrevam a respeito da controvérsia que criamos, acho que teremos sido bem-sucedidos. Teremos conseguido mudar o rumo das entrevistas coletivas com ‘nossas’ perguntas. Assim eles terão menos tempo para nos atacar.’
De acordo com seus próprios papéis, o centro da estratégia das companhias de cigarro no Terceiro Mundo pendurou-se na discussão da prioridade das campanhas contra o fumo. Tratou-se de empulhar a galera argumentando que este é um assunto da agenda do Primeiro Mundo. Conseguiram, com brilho. Atrasaram o debate em pelo menos 15 anos.
É óbvio que a agenda brasileira difere da americana, mas é o caso de se perguntar: Se falta dinheiro para cuidar das crianças, o razoável seria que as empresas indenizassem o Estado pelas despesas dos adultos que caíram no SUS, consumindo verbas que poderiam ir para os berçários. Por que a Souza Cruz e a Philip Morris não oferecem ao Governo brasileiro um acordo semelhante ao americano?
A diferença entre o Primeiro e o Terceiro Mundo não está na agenda. Está na capacidade que a indústria do tabaco tem de segurar as leis que possam prejudicá-la.
Como? Quando se tratou de enfrentar a campanha da OMS contra o fumo, decidiram o seguinte:
‘Entrar em contato com os ministros mais afetados economicamente por essa atitude antiempresarial da OMS, nomeadamente os ministros da Agricultura, Comércio, Economia, Finanças, Relações Exteriores e Trabalho.
Encorajar esses ministros a apresentar suas posições ao ministro da Saúde.’
A tabacaria deve respeitar os brasileiros. Aqui, a Philip Morris se recusou a discutir as malandragens de seu papelório. Nos Estados Unidos, diante do documento da OMS, ela falou outra língua:
‘Reconhecemos que contribuímos para a criação de um ambiente de desconfiança e confronto.’ A empresa acha que as indenizações são um caminho errado, mas admite que pretende criar ‘um novo ambiente’.
Propagar o fumo é uma coisa. A estupidez, bem outra."
ALOYSIO BIONDI
José Roberto Alencar
"O homem que atinava", copyright Gazeta Mercantil, 28/7/00
"As galinhas de São Paulo cacarejam alegremente: chegou ‘Red Seal’, ou coisa que o valha. Aloysio Biondi sabia segurar leitor. E era essa a função das suas galinhas na abertura da matéria da revista ‘Fator’ que circulou em dezembro de 1968 - justo o mês do AI-5, estréia dos anos de chumbo, os mais asfixiantes da ditadura.
Na capa, a foto do ator Joel Barcelos, olhos arregalados e boca entupida de dólares. Na matéria, a denúncia do estrago feito na indústria, na lavoura, no emprego e nas contas públicas do Brasil pela política do superministro Delfim Neto, de importar tudo quanto é besteira. Até ração americana para galinhas.
Aloysio tinha a mania de escrever em língua de gente, de traduzir para a dona de casa atarefada ou o ginasiano vadio do fundão, assuntos enrolados como déficit público, mercado acionário, balança comercial ou balanço de pagamentos. Gráficos e quadros clareavam o resto. Era o caso. Simplesmente traduzindo os mapas da Cacex (do Banco do Brasil, que registra todo o comércio exterior), a ‘Fator’ exibia a doida reabertura dos portos às nações amigas (um escancaro, se comparada à de 1808; uma brechinha, perto da de Collor e FHC). Previa um déficit de US$ 800 milhões na balança comercial (acertou) e denunciava os efeitos nefastos disso para o Brasil.
Mesmo o leitor pouco atento percebeu a gostosura do texto inlargável, a fartura de informações, a textura dos raciocínios e o carinho na edição - da capa que fisgava quem ciscasse pela banca às tabelas e quadros. Os mais atentos perceberam o trabalhão que deu para fazer a matéria. Washington Novaes, o parceiro predileto de Biondi, confirma: ‘Dias e noites em cima dos mapas mensais da Cacex, do ano todo, fichando os supérfluos de um por um. Biondi era detalhista.’ Detalhismo de ourives, perceptível no texto. Já a coragem da revista só seria notada pelo leitor mais informado dos riscos corridos por quem contestava algum comportamento da ditadura. E gente muito bem informada perceberia mais, na matéria da ‘Fator’: a teimosia, outra característica de Biondi e seus parceiros ou discípulos.
Pois justamente por ter brigado feio com o ministro Delfim Neto, a dupla acabava de se demitir da revista ‘Visão’ - Aloysio do cargo de editor de economia e Washington do de diretor de redação.
A história da ‘Fator’ é curta: Saídos da ‘Visão’, Aloysio e Washington foram procurados pelo dono de uma seguradora convencido de que imprensa era bom negócio. Ele financiou e a dupla fez ‘Fator’. Durou três edições. O sócio achou o negócio inseguro e caiu fora. E a dupla se separou outra vez.
Washington foi dirigir a redação do ‘Correio da Manhã’, no Rio, e Aloysio foi fazer na ‘Veja’ aquelas páginas amarelas de investimentos, vitais para a credibilidade e o crescimento da revista.
Um repórter contratado por Biondi, Hélio Gama, conta ter passado lá seus primeiros três meses sem escrever uma linha: ‘Biondi era tão detalhista e tão exigente na apuração que me mantinha o tempo todo pesquisando minúcias e checando a informação já checada e rechecada.’
Na Editora Abril, Biondi competiria com outro monstro do jornalismo econômico - Mathias Molina, o espanhol que, além do ótimo texto final em português, espanhol, inglês e francês, era, como ele, obstinado pela precisão, pelo detalhe, pelos gráficos e quadros e pelo trabalho. Também como ele, Molina era (e continua) um formador de jornalistas. Molina, hoje neste jornal, editava o caderno quente das revistas técnicas da Abril, embrião da revista ‘Exame’, sua cria.
No final de 1969, em pleno boom da Bolsa, Biondi começou a alertar os leitores de ‘Veja’ para o artificialismo do mercado acionário e o aventureirismo dos jogadores. No início de 1970 já previa a quebra. Em julho, um corretor anunciou ter recebido 100 mil ações para o lançamento de uma empresa chamada Merposa. Em minutos, vendeu o lote todo com ágio de 50%. Ao final do pregão, contou que era trote: Merposa queria dizer Merda em Pó Sociedade Anônima.
Era o que Aloysio previra: a irresponsabilidade das pessoas que compravam ações sem a menor preocupação com a emissora quebraria a Bolsa. Dias depois, ela quebrou. O adivinho acabara de sair da ‘Veja’, que agora tinha três editores na economia: Emílio Matsumoto, Hélio Gama e Paulo Henrique Amorim. Aloysio foi criar, no Rio, o primeiro caderno de economia de um jornalão brasileiro (a expressão jornalão é dele): o ‘Diretor Econômico’, encarte do ‘Correio da Manhã’. Idéia do diretor de redação do ‘Correio’, Washington Novaes, claro.
Eles haviam se conhecido em 1956, quando Washington trabalhava na revisão e Biondi era subchefe da divisão de correspondentes da ‘Folha da Manhã’ (precursora da ‘Folha de S. Paulo’), que respondia também pela revisão. Mário Lobo era o redator-chefe, Woyle Guimarães, repórter, e Raul Bastos, contínuo.
Os correspondentes mandavam suas matérias por carta, sem nenhuma pressa ou qualidade. E Biondi conseguia somar tudo e tirar daquela parca matéria-prima excelentes matérias finais. Mário Mazzei, o redator-chefe, via nele um prodígio. Um dia, o subchefe prodígio Biondi ofereceu ao revisor Washington a chance de virar redator. Formou-se a dupla que passou pela revista ‘Direção’ (com Paulo Graciano, que depois trabalharia com Delfim Neto e seria presidente do IBC), voltou para a ‘Folha’, brigou com Delfim na ‘Visão’, fez a ‘Fator’ e agora revolucionava a imprensa, no ‘Correio da Manhã’, no Rio.
Paralelamente, Biondi mantinha suas diferenças com Delfim nas páginas de ‘O Pasquim’, ‘Opinião’ e quantos outros jornais nanicos (ou não) aparecessem. Era questão de corrigir a política econômica para melhorar a vida dos brasileiros - e nessa guerra Aloysio jamais desprezou trincheira. Ou tribuna. Varar a noite fazendo ‘frilas’ (matérias avulsas, eventuais) depois de um dia de trabalho estafante sempre lhe pareceu normal. Tão normal quanto interromper qualquer tarefa para corrigir o rumo de uma pauta, orientar (ou mesmo confortar) um repórter.
Em 1974, Roberto Müller Filho, o novo diretor de redação contratado justamente para tentar fazer da pequena ‘Gazeta Mercantil’ um grande jornal, propôs ao dono, Herbert Victor Levy, a contratação de um jornalista de peso, conhecido e respeitado nacionalmente: Biondi.
O salário de Aloysio jamais foi de assustar patrão - ele se contentava com pouco, se incomodava e às vezes até se indignava com os muito altos. Mesmo assim, o curto orçamento da ‘Gazeta’ estava estourado. Roberto Müller então sugeriu abrir mão da assinatura de uma das agências de notícias que abasteciam o jornal para contratar Biondi. Tanto o dr. Herbert quanto o filho Luiz Fernando aplaudiram - e começou a decolagem da ‘Gazeta Mercantil’, que em breve seria o quinto maior jornal de economia do mundo. Mais felizes do que os patrões ficaram os jornalistas, com a vinda de Aloysio. Na época, ‘trabalhei com Aloysio’ já era uma frase curricular.
Jornalistas que tivessem sido seus contemporâneos em alguma redação contavam isso com orgulho - mesmo que só tivessem trocado com ele um bom-dia ou outro. Suas brigas contra a ditadura eram bem toleradas, até por não configurarem oposição sistemática. O general Araken de Oliveira, por exemplo, determinou que todos os anúncios da empresa que dirigia, a Petrobrás, deveriam sair também na ‘Gazeta Mercantil’. E elogiava Biondi. Se sua crítica era feroz (até por ser ‘irrespondível’), Aloysio também elogiava. Como quando o governo Geisel lançou um tal de Programa Nacional de Alimentação e Nutrição (Pronan), para dar comida às famílias que
sobreviviam com menos de dois salários mínimos mensais. Biondi elogiou. Um enxerido editor do jornal fez as contas e publicou um artigo mostrando que o Pronan era uma falácia: daria meio pãozinho por dia a cada necessitado.
Biondi poderia ter respondido com outro artigo. Generoso, preferiu o puxão de orelhas particular:
- Errei ao elogiar o Pronan. Fui ingênuo. Pensei que se perguntasse ao pobre, ele preferiria ganhar 180 pãezinhos por ano a ganhar nada.
Biondi saiu deste jornal em 1976. E como repórter, editor, diretor de redação, colunista ou articulista foi importante para ‘DCI’, ‘Folha’, ‘Senhor’ e ‘Istoé’, ‘Jornal da República’ (de novo com Mino Carta e Cláudio Abramo), ‘Correio do Povo’ (Goiânia) e até boletins de sindicatos. Publicou o livro ‘O Brasil Privatizado - um balanço do desmonte do Estado’, desmontando os privativistas. Ultimamente escrevia no ‘Diário Popular’ e nas revistas ‘Bundas’ e ‘Caros Amigos’.
Biondi morreu do coração na sexta-feira passada. Não tinha carro, a casa própria da família ainda não foi quitada e às vezes ficava sem grana para o cigarro. Seu último artigo na ‘Bundas’ foi contra jornalistas acomodados, maus exemplos. Ou seja: como viveu, morreu -- na contramão atrapalhando os trêfegos."
ABI
"Homenagem a Biondi na ABI pode resgatar edição proibida do Jornal do Commercio", copyright ABI <www.abi.org.br>, 4/8/00
"A vida e a obra do jornalista Aloysio Biondi, falecido durante uma cirurgia em 21.07 em São Paulo, foram homenageadas dia 4.08 na sala do Conselho Administrativo da ABI. Com a presença de Antônio Biondi, um dos filhos de Aloysio, e cerca de 50 dos mais importantes jornalistas do marcado carioca, a homenagem foi gravada para integrar o Projeto Memória do Jornalismo Brasileiro, uma parceria da ABI com o Museu da Imagem e do Som. Durante a cerimônia, a biblioteca da Associação Brasileira de Imprensa foi presenteada com três volumes, contendo os números de 1 a 59 do jornal Opinião, com textos de Aloysio Biondi.
Biondi foi lembrado como um exemplo de jornalista que endureceu sem perder a ternura jamais. O vice-presidente da ABI, José Chamilete, destacou a edição especial do Jornal do Commercio que Biondi preparou para 7 de setembro de 1973. A edição acabou não sendo rodada porque foi considerada, inclusive pela direção do jornal, ofensiva à ditadura de 64. Depois da reunião Chamilete aceitou a sugestão dos amigos de tentar recuperar algum exemplar nos arquivos do Jornal do Commercio, ond hopje é um dos diretores. Mesmo boicotado pelos patrões, Aloysio nunca se entregou. Ele mostrou que é possível ‘fazer jornalismo sem se preocupar com o que o que o patrão está querendo’, observou Kléber Paulistano. Isso não impediu, porém, que ele tenha encontrado dificuldades, inclusive financeiras, devido a sua postura.
Entre os presentes, muitos trabalharam com Aloysio Biondi, em publicações como Visão, Correio da Manhã e Jornal do Commercio. A coerência de Biondi como jornalista ultrapassa as fronteiras dos regimes políticos. Foi o que a maioria dos depoimentos destacou. Os participantes lembraram a importância de Aloysio na luta concreta pela liberdade de imprensa durante o regime militar, sendo pioneiro no jornalismo econômico e, principalmente, num jornalismo econômico claro e preocupado com as questões nacionais e sociais. Flávio Pinheiro recordou que ‘todo dia ele furava alguma bolha’, explicando que Biondi desmascarava as mentiras veiculadas na grande imprensa disfarçadas de verdades. ‘Aloysio foi profético. E estava sendo profético em relação às privatizações’ e à desnacionalização da economia como nocivas ao Brasil e, principalmente, aos brasileiros pobres, sentenciou Flávio.
Ricardo Gontijo, por sua vez, disse que Aloysio Biondi foi ‘um jornalista absolutamente pedagógico com os jornalistas e com o público’. Essa visão foi compartilhada pelo auditório. Rosa Cass, por exemplo, ressaltou que Biondi escrevia sempre em português e não em economês, ao contrário da maioria dos jornalistas econômicos, que escrevem de forma incompreensível para o grande público. Assim, proporcionou um entendimento facilitado da realidade econômica nacional e internacional. Rosa, que publicou dia 1º de agosto, na Tribuna da Imprensa, o artigo ‘Um jornalista de fato e direito’, em homenagem a Biondi, e disse que até hoje precisa trabalhar para viver, afirmou que aprendeu com Aloysio a lutar para tornar o Brasil um país justo. E Maria Augusta disse que a simplicidade com que ele explicava economia vai fazer falta para Associação dos Aposentados da Caixa Econômica, que edita a revista Agora, na qual Biondi também escrevia.
André Motta Lima, diretor do Departamento de Intercâmbio e Divulgação da ABI, que lembrou o prêmio Líbero Badaró ganho recentemente por Aloysio em reconhecimento a seu trabalho na Faculdade Cásper Líbero, perguntou ‘como Biondi chegou a entender tanto de economia?’. Flávio Pinheiro respondeu que ‘Aloysio passou a entender de economia porque gostava do Brasil e queria melhorar esse país’. E Antônio Biondi acrescentou que seu pai, que antes de se tornar jornalista pensou em ser pianista e geólogo, foi um auto-didata que sempre leu muito mas nunca se formou em nenhum curso de terceiro grau.
A ternura de Aloysio Biondi também deixará saudades. Todos elogiaram essa sua característica. Norma Pereira Rego, que trabalhou com o jornalista na Visão, sintetizou esse sentimento: ‘o que ficou pra mim foi o ser humano Biondi’.
Todos que trabalharam com Aloysio Biondi afirmaram ter aprendido muito com ele, tanto em termos profissionais como em termos humanos. A análise da importância de Aloysio para o jornalismo ficou por conta de Zuenir Ventura. ‘Biondi, que tinha a vocação de desafinar o coro dos contentes, me deu uma das maiores lições que tive na vida. Ele me ensinou a trabalhar com substantivo e não com adjeto, em jornalismo’.
‘A verdadeira homenagem é dar continuidade ao trabalho de meu pai’, resumiu Antônio Biondi."
Rosa Cass
"Um jornalista de fato e de direito", copyright ABI <www.abi.org.br>, 4/8/00
"Chamá-lo de cavaleiro ‘sem medo e sem pecado’ era a tentação inicial, ao ver a obstinação com que defendia um jornalismo engajado no esclarecimento dos fatos e na defesa dos direitos do povo. Isso a vida toda, mesmo antes da Revolução de 64, quando os informantes da ditadura freqüentavam as redações vendo um comunista em todos os que queriam apenas um Brasil livre para brasileiros de todos os credos e convicções.
Mas Aloysio Biondi foi mais do que isso: foi um homem total, com grandezas e defeitos, que, a seu modo, no seu jeito manso e didático de raciocinar, prestou um inestimável serviço ao jornalismo brasileiro. Liderou, nos idos de 64, junto com Washington Novaes, no extinto Correio da Manhã, um caderno de economia diferente, o Diretor Econômico, que publicava matérias diferentes, denunciava abusos a despeito da censura e orientava os seus repórteres a abandonar o jargão econômico para escrever com clareza e em Português. Orientação que levou para o Jornal do Commercio, durante o pouco tempo em que o dirigiu.
O temperamento combativo de Biondi representou, durante a sua vida inteira, a resistência do homem inquieto, que não aceita imposições, a não ser as da sua consciência, e que defende até o fim o seu direito de pensar, ainda que diferente, e de chamar às autoridades à fala, sem perder a ternura ou a educação. Era seu dever de homem, de intelectual e sua responsabilidade, como jornalista, na formação de um País melhor para todos, e não apenas para uma casta de privilegiados.
Nós, que tivemos o privilégio de conviver com Aloysio Biondi e de trabalhar com ele, ainda estamos perplexos com a sua morte. Mas os seus ideais foram semeados em boa terra e isso nos consola. Pois eles continuarão a pontuar os bons caminhos para os que fazem do jornalismo responsável sua trincheira, e da crença que a fraternidade ainda vale a pena, sua bandeira desfraldada. Enquanto acreditarmos no bem, Aloysio estará vivo conosco, lutando para construir um Brasil socialmente mais justo. Como ele sempre acreditou..."
FOLHA EM REVISTA
J. C. Cardoso
"Folha quer invadir mercado de revistas", copyright ABI <www.abi.org.br>, 4/8/00
A Folha de S.Paulo fortalece seu núcleo para investir no mercado de revistas. Para isso, além das revistas que edita - Revista da Hora, a Revista da Folha, o Guia da Folha, e a Revista Disney Explora (a única, por enquanto, vendida separadamente dos jornais) - tem planos (alguns até secretos) de expansão para o mercado até 2001.
Folha edita quatro revistas já de olho no futuro
ABI - Quantas revistas o Núcleo de Revistas tem hoje?
Suzana Singer - Atualmente, quatro títulos: a Revista da Folha e a Revista de Domingo do Jornal Folha de S.Paulo, essas com circulação na Grande São Paulo); tem a Revista da Hora (uma Revista de Domingo do Jornal Agora São Paulo), além do Guia da Folha (um guia de cultura e lazer que circula na Folha às sextas feiras (Circulação Gde S.Paulo) e a Revista Disney Explora, que busca unir educação e entretenimento para um público de 5 a 10 anos.
De todas as revistas do Núcleo, é o único título de venda, com circulação semanal nacional.
Este ano também lançamos um guia mensal, em formato de gibi, para orientar os leitores na Internet. Chama-se ‘Sites em Revista’, suplemento mensal da Revista da Folha.
ABI - Quanto tempo de estrada o Núcleo tem?
Suzana - O Grupo Folha decidiu estabelecer o Núcleo de Revistas em 92 com a publicação da Revista da Folha.
ABI - O Núcleo já editou mais revistas do que hoje? Quais?
Suzana - Não. A Revista da Folha foi criada em 92 e é o caderno mais lido no Folhão, segundo o DataFolha. Ela tem uma linha editorial que procura trazer aos leitores novos pontos de vista sobre diversas questões de comportamento, atualidades e serviço. Traz, também, semanalmente seções sobre saúde, beleza, decoração, educação, turismo e diversas questões sobre a rotina do homem e da mulher modernos. O Guia da Folha foi criado em março de 97 e estamos tentando ser o mais completo e atualizado guia de cultura e lazer em SP. Circula todas as sextas feiras com a Folha, somente na Grande São Paulo.
A Revista da Hora foi criada em março do ano passado e circula com o Jornal Agora São Paulo, todos os domingos, reunindo as últimas novidades do showbizz, numa leitura leve e de grande utilidade. Respondemos a questões sentimentais, sobre sexo, saúde e justiça, além de seções sobre saúde, beleza e boa forma, e um guia astral com horóscopo, tarô, numerologia e esoterismo. Por fim, a Revista Disney Explora que, desde maio do ano passado, traz , toda semana, atualidades, passatempos, jogos, brincadeiras, piadas e muita informação. A parceria com a Disney permite que seus leitores conheçam em primeira mão e com exclusividade todas as novidades dos personagens, filmes e desenhos.
ABI - Há expectativas de expansão? Algo estritamente segmentado?
Suzana - Sim. Temos algumas propostas e estamos estudando cada uma delas.
ABI - Por que um ‘núcleo’?
Suzana - O Grupo Folha decidiu criar um Núcleo de Revistas como objetivo de investir no segmento de revistas do mercado editorial. Tal segmento tem um know-how específico. Os resultados positivos da primeira revista lançada só vieram a consolidar essa idéia.
ABI - É sabido que o ombudsman (no caso, uma ombudskvinna...) da Folha tem seu escritório até em outra rua, para não formalizar vínculo com a empresa. Com o núcleo, acontece o mesmo?
Suzana - A função da ombudsman, Renata LoPrete, envolve todo o conteúdo do Grupo Folha, incluindo os títulos do Núcleo de Revistas.
ABI - O núcleo tem autonomia ou segue a linha da Folha?
Suzana - Tem total autonomia editorial e segue os princípios básicos do Grupo Folha: pluralidade, criticismo, independência e apartidarismo.
ABI - Por fim, quais os planos de futuro para o Núcleo?
Suzana - Crescer cada vez mais. Lançar novos títulos e realizar novos negócios."
LE MONDE
Daniela Fernandes
"Franceses não dispensam o vinho, o queijo e... o diário Le Monde", copyright Valor, 7/8/00
"O mundo dá voltas e o jornal francês Le Monde também. A publicação francesa mais conhecida – e uma das mais prestigiadas no exterior – voltou a ultrapassar a barreira de vendas de 400 mil exemplares diários. A performance, obtida no ano passado e que se mantém durante este ano, não era realizada há quase duas décadas (o período de 1979 a 1981).
O lançamento de uma nova fórmula em 1995, que incluiu principalmente a criação de suplementos semanais sobre economia, multimídia, livros, programação de TV, e, mais recentemente, de atividades culturais (o caderno Aden, que circula na edição parisiense), vem ampliando o número de leitores, que começaram a sumir do início dos anos 80. ‘Não nos modernizamos naquela época porque o Monde era tido como um jornal de referência e sofremos uma concorrência acirrada de outras publicações, por exemplo, do Libération’, diz Olivier Biffaud, do secretariado-geral da redação.
Em 1985, o jornal precisou solicitar capital externo para cobrir o rombo e continuar funcionando, recebendo investimentos de empresas e até mesmo de pessoas físicas.
A volta por cima pode ser atribuída, sem dúvidas, a Jean-Marie Colombani, diretor da publicação. Ele assumiu o comando no final de 1994 e realizou outras mudanças, além dos novos suplementos: o jornal começou a chegar três horas mais cedo às bancas parisienses e da região metropolitana, e passou a fazer forte campanha para recrutar assinantes.
A cada ano, mais de dois milhões de mensagens são enviados para atrair novos leitores por assinatura, que correspondem hoje a um terço das vendas. Comparado a 1994, o número de exemplares vendidos aumentou cerca de 15%. O faturamento atingiu no último ano 1,3 bilhão de francos (cerca de US$ 190 milhões).
Em junho passado, o Monde partiu para a conquista de novos terrenos. O grupo dirigido por Colombani se tornou acionista majoritário da empresa de comunicação Midi-Libre, que publica o jornal de mesmo nome em Montpellier (sul da França) e têm jornais nas cidades de Perpignan e Rodez. « O Monde está desenvolvendo a estratégia de ampliar sua presença no interior do país com jornais regionais », diz Biffaud. E também estuda se implantar em países europeus de língua francesa. O jornal descarta ter interesse no jornal francês Liberation, cujo controle está à venda desde abril passado . ‘Não acredito que do ponto de vista estratégico seja interessante ter dois cotidianos nacionais’.
A internet também é uma prioridade. A filial Le Monde Intéractif entrou em operação em janeiro de 1999 para fortalecer a presença da marca Monde no universo da multimídia. O site web acaba de ganhar nova cara. Além de notícias ao vivo de agências, oferece serviços como compra de livros, de ingressos de cinema e de viagens. Cerca de 2 milhões de pessoas visitam o site mensalmente. Detalhe: a consulta dos arquivos do Monde é paga: 1 euro por artigo. Com todas essas mudanças, o Le Monde consolida sua posição de principal diário nacional do país."
LIBÉRATION
D. F.
O ‘Libê’ está mudando de dono, copyright Valor, 7/8/00
"O Le Monde não vai comprar o jornal Libération, mas o Libê, como dizem os franceses, terá novo dono até o início de setembro. ‘As negociações para a venda do controle estão bastante avançadas’, garantiu ao Valor Isabelle Huverte, que acompanha de perto o processo e é responsável pela área de comunicação do jornal.
O grupo Pathé, proprietário atual de Libération, anunciou no final de abril passado o projeto de reduzir sua participação no jornal, de 60,9% atualmente, para algo em torno de 10%. Pathé, que possui a terceira maior rede de cinemas do país e opera ainda canais temáticos para a TV, já havia afirmado não ter mais planos de manter uma forte participação na mídia impressa.
As discussões com o eventual comprador – ou compradores, que poderiam atingir até o número de quatro, segundo Huverte – não foram muito longas.
Os resultados financeiros recentes do Libê explicam por que os interessados surgiram tão rapidamente: com tiragem diária média de 244 mil exemplares (a população francesa é de 60 milhões), o jornal vem registrando lucro líquido nos últimos três anos. Em 1999, o lucro do Libération foi de 17,5 milhões de francos (US$ 2,5 milhões), e o faturamento, que cresceu 12%, atingiu 535 milhões de francos ( US$ 77,5 milhões). Bem diferente, portanto, da performance de 1996, quando precisou fazer um empréstimo de pouco mais de US$ 10 milhões para cobrir prejuízos e que deverá ser reembolsado com a venda.
A publicação de tendência socialista, sempre irreverente, criativo e bem informado, não revela o nome dos interessados ‘ por razões estratégicas’, e se limita a dizer que as negociações envolvem jornais e revistas não só franceses mas também internacionais que queiram, principalmente, desenvolver as atividades de Libération na internet. ‘O futuro comprador também pode ser alguém diretamente ligado à internet, como um provedor de acesso. E, claro, os bancos também estão na parada’, diz Isabelle.
A Sociedade Civil dos Empregados de Libération, que detém 26,8% do capital do jornal, deverá ser chamada para aprovar a escolha do novo proprietário."
PAPEL & BYTES
Último Segundo
"Mídia impressa perde leitor para a internet", copyright Último Segundo, 6/8/00
"Pesquisa divulgada pelo Instituto Marplan indica que os jornais impressos perderam leitores para a internet, conforme informa a ‘Veja’ desta semana.
O estudo, realizado com executivos, mostra que 91% deles liam jornal impresso em 1998. Em 1999, esse número caiu para 78%.
De acordo com ‘Veja’, a perda de leitores ocorreu todos os dias da semana em todos os cadernos, à exceção dos cadernos de informática, que apontou aumento de leitura.
Ao investigar o motivo da queda de leitores da mídia impressa, a agência Salles D´Arcy (www.salles.com.br) concluiu que na internet, o executivo se informa.
No jornal, ele tem de refletir sobre os fatos noticiados. A pesquisa da Salles aponta que há sites jornalísticos que possuem a mesma credibilidade que o jornal impresso."
XUXA VIRTUAL
Último Segundo
"Xuxa pronta para reinar na Internet", copyright Último Segundo / AFP, 7/8/00
"RIO DE JANEIRO - Xuxa vai estender seu reinado ao mundo virtual com o lançamento de seu portal Web, que vai abordar assuntos bem variados, de amamentação a esoterismo.
O ‘Portal X’, que ainda está em fase de testes, inclui praticamente todas as áreas de atuação de Xuxa, que promete participar de chats com os fãs.
A empresária de Xuxa, Marlene Mattos, disse que a apresentadora ‘não tem muita experiência com Internet e perde muito tempo ‘catando milho’ no teclado, mas está sempre dando conselhos e opiniões sobre conteúdo e o formato do portal’."
JORNAL DO BRASIL
Luiz Orlando Carneiro
"Deu no JB", copyright Jornal do Brasil, 5/8/00
"Procuradores, militares e jiu-jítsu
A posição do JB sobre o afastamento provisório de Tereza Grossi do cargo de diretora de Fiscalização do Banco Central, determinado por um juiz federal de primeira instância, mas anulado anteontem pelo Tribunal Regional Federal d 1ª Região, e o tratamento preferencial que teriam tido os militares no episódio do ‘golpe da mudança’ são os temas destacados na seção de hoje. As respostas às cartas não têm a intenção de desmentir Terêncio: Quot homines, tot sententiae. Simplificando: cada cabeça uma sentença.
Flagrante injustiça!
Gostaria de manifestar minha insatisfação com o JB por publicar uma opinião tão despropositada como o editorial intitulado Flagrante Injustiça, de 1º /8, a respeito do afastamento da senhora Tereza Grossi do Banco Central. A opinião de quem a escreveu, que aliás deveria tê-la subscrito, é totalmente tendenciosa, infeliz, grosseira e inoportuna, pois, além de atacar injustificadamente os procuradores e juízes, está em direção oposta ao sentimento do povo brasileiro, cansado de tanta corrupção e impunidade.
Quanto aos realmente insignes procuradores da República, autores da ação, e os juizes federais, que afastaram referida senhora do seu cargo, merecem todo respeito e admiração da sociedade brasileira. Em relação à pergunta feita pelo autor ao final de sua ‘brilhante’ opinião, respondo com outra pergunta: por que a vontade cega do governo de manter a senhora Tereza Grossi no cargo? Por que a vontade cega do autor da opinião de defender a senhora Tereza Grossi? Por favor, responda senhor editorialista. Marcos Melo – Brasília
JB - O editoriais não são assinados em nenhum jornal. Expressam a opinião da instituição. Na página ímpar, vizinha dos editoriais, há espaço bastante para artigos assinados que, constantemente, são contrários à opinião deste jornal.
Espaço para militares
Que beleza! Que maravilha ! Que democracia! Estou espantado, porém não surpreso, com o espaço que este jornal ofertou a um comandante da Marinha para justificar uma irregularidade do seu ministério. Que vergonha! Enquanto pessoas com problemas bem mais sérios como nós, funcionários públicos das universidades públicas federais, que estamos na penúria, seis anos sem reajuste salarial, endividados e obrigados a fazer uma greve, como única forma de reivindicar nossos direitos, não conseguimos uma linha na imprensa. Eu mesmo já escrevi várias cartas para essa coluna denunciando isso e nada. Um militar, e olha que eles já tiveram vários reajustes no governo FH, tem toda uma coluna só para ele, e no domingo, dia de maior venda do JB. Que vergonha! Agora me diga se existe liberdade de imprensa neste país, se existe democracia. Por que não dão oportunidade igual a todos? Que tipo de pressão foi exercida pelos quartéis? Qual a conivência deste jornal? Por que vocês não deixam essa coluna permanentemente à disposição deles, já que vocês claramente adotaram uma linha de direita? Mas, claro! Minhas perguntas não terão espaço, nem respostas, pois sou um simples cidadão civil, trabalhador, e não uso farda, não é mesmo. Valdécio Francisco dos Santos – Niterói
JB – As considerações e perguntas do leitor estão tendo este espaço, e duas das perguntas merecem respostas, já que a outra é mais uma afirmativa do que um questionamento. No dia 23/7 (um domingo), a manchete do JB foi ‘Procuradora diz que virou praxe golpe da mudança entre militares! Investigação nos últimos 5 anos constata que a prática era forma de auxílio a quem se aposentava’. Noticiamos, então que a procuradora-geral da Justiça Militar mandara instaurar inquérito para apurar responsabilidade das Forças Armadas. Se houvesse ‘pressão(...) exercida pelos quartéis’, a reportagem não teria sido publicada, não é mesmo? Nem as reportagens subseqüentes sobre o ‘golpe da transferência’. No domingo seguinte, publicamos em ‘A opinião dos Leitores’, para dar ‘oportunidade igual a todos’, a carta do comandante da Marinha, Almirante Sérgio Chagasteles.
A arte do jiu-jítsu
Venho através desta mostrar meu inconformismo com o nosso JB. Sou advogado, assinante deste conceituado jornal e praticamente do esporte que, se traduzido para a nossa língua, significa ‘arte suave’. Estava acontecendo na nossa cidade o campeonato mundial de jiu-jítsu desde 27/7, sem que o JB noticiasse tal evento em nenhuma linha. Atletas de vários países compareceram ao Rio para competir com os atletas daqui e a maioria dos leitores nem sabia da realização desse campeonato. Infelizmente, no penúltimo dia do evento , ocorreu o falecimento de um atleta, de causa ainda desconhecida, e para meu espanto o JB noticia o fato e dedica um terço de uma página do caderno Esportes ao acontecimento, para todos nós trágicos. Não quero em nenhum momento sugerir que o JB mostre apenas o lado positivo do nosso esporte, mas que os mostre quando estes surgirem. Com certeza, se houvesse alguma confusão no campeonato, acordaria com o JB estampando na primeira página. Sejam menos tendenciosos, mostrem os verdadeiros brigões mas não deixem de mostrar que milhares de pessoas de bem praticam e vivem desse esporte. Marcus Vinícius Fernandes Campos – Rio de Janeiro.
JB – A editoria de Esportes responde: Lamentavelmente, num dos dois principais dias do campeonato – sábado - , quando os títulos eram decididos, houve o acontecimento trágico que passou a dominar , naturalmente, o noticiário. As finais de domingo foram à noite, coincidindo com o fechamento do caderno e inviabilizando um espaço maior na edição de segunda-feira. Na edição de terça, saíram ainda os resultados e um comentário crítico sobre o que vem acontecendo no jiu-jítsu.
Mais Ministério Público
Parabenizo o leitor Carlos Carvalho (Deu no JB, ed. 29/7). Na mesma coluna, o jornalista Moacyr Andrade comete uma falha ao afirmar que, nas duas cartas publicadas, o jornalista Teodomiro Braga é duramente criticado, quando é cristalino que a carta de Artur da Távola não é crítica ao colunista, mas extremamente elogiosa. Na mesma edição, a coluna A Opinião dos Leitores publica, também, carta da deputada federal Zulaiê Cobra Ribeiro igualmente elogiosa às considerações do articulista. Por algum motivo ainda não aparente, o JB, através dos artigos de colunistas e de editoriais, vem se colocando, - de forma muito clara e a olhos vistos, frontalmente contra as ações do procurador da República Luiz Francisco de Souza. Publicam-se cartas de políticos contrários às suas ações (curiosamente, a maioria de suas investidas tem tido como alvo políticos e, assim, nada mais justo que a classe se una contra ele), deixando-se, quase com certeza, de se publicar opiniões que lhe são favoráveis. Por que a crítica severa a um procurador que tem no currículo ações tão contundentes e eficazes contra bandidos notórios, seja por parte de articulistas, seja através de editoriais do JB? Nas considerações do senador Artur da Távola, o político utilizou-se de sua verve jornalística para nos fazer crer jornalista; na realidade, as linhas não foram escritas pelo jornalista, mas pelo político travestido de jornalista. As considerações lá contidas não condizem com a realidade dos escritos do colunista elogiado – mais específicas e direcionadas a um certo e definido procurador da República. Em nenhum momento o senador, copiando seu elogiado, faz qualquer menção às ações positivas do ‘ex-seminarista que pertenceu à ala xiita do PT’ (...). Que os políticos abominem o trabalho dos procuradores, eu entendo, haja vista estarem , quase sempre envolvidos, diretamente ou através de seus apadrinhados, nas mais diversas maracutais. O que tenho dificuldade de entender é a posição do Jornal do Brasil, claramente contrária ‘ao mocinho deste filme’. Não quero crer que os jornalistas da equipe ou da direção do Jornal do Brasil não disponham de informações que possam, se investigadas e provadas, comprometer o dito procurador da República. Por que, então, não o acusam diretamente? Se não, por que, então não se calam e passam a apoiar seu trabalho? Que ministério escondem as entrelinhas das edições do jornal? Nas ações investigadas pelo procurador Luiz Francisco, seja nas sombras ou sob o foco dos holofotes, as dificuldades para encobrirem as mazelas serão enormes. Quem sabe daí advenha a vontade de alguns de calá-lo ou afastá-lo das investigações mais importantes. James Pereira Rosas – Rio de Janeiro
JB – Com relação ao início desta carta, há um equívoco do leitor: Não foi Moacyr Andrade, mas o titular desta seção que escreveu a abertura. Nela está dito que o artigo de Teodomiro Braga ‘provocou reações indignadas e elogiosas de dezenas de leitores’. Publiquei uma carta contra o artigo e outra, do senador Artur da Távola, a favor. Uma terceira carta (Adjetivos) é que me criticava ‘duramente’ por não rebater críticas ‘com argumentos inteligentes e plausíveis’.
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