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ÚLTIMA HORA – Atualizado em 12/9/2000
ASPAS 3
MEMÓRIAS
Affonso Romano de Sant’anna
"Viver a vida, organizar a morte", copyright O Globo, 6/9/00
"Foi-se mais uma das personagens míticas de Ipanema - César Tedim. E foi de uma maneira discreta. Delicadamente. Há formas várias de morrer. Mas ir-se delicadamente é um refinamento para poucos. A última delicadeza. A mais difícil. A mais solitária.
Eu disse ‘formas várias de morrer’, mas deveria escrever de ‘se morrer’ ou de ‘morrer-se’, como se o verbo morrer fosse reflexivo. Eu me morro, tu te morres, ele se morre, nós nos morremos, vós vos morreis, eles se morrem.
Então, ‘morrer-se’ surge como um ato refletido, pensado, a reflexão final no espelho narcísico de cada um.
Agora quando tantos livros já surgiram sobre a vida em Ipanema, não há como deixar de inscrever, recalcar ou fingir que não há um capítulo sobre a morte, a morte das figuras desse bairro mágico. Não existia aquele filme ‘Morrer em Madri’ narrando o drama da guerra civil espanhola? Pois não se pode falar sobre a excitada e excitante vida dos que neste século viveram nessa mítica praia sem um capítulo sobre aqueles que diante da morte não capitularam.
Muitas das figuras de Ipanema, aliás, não viviam necessariamente em Ipanema, senão naquilo que se podia chamar de ‘a grande Ipanema’, um utópico tempo-espaço lírica, etílica e eroticamente constituído, que inclui bairros conexos e tem limites imaginários. Personagens que se ficcionavam enquanto viviam, tipos humaníssimos, tresloucados, sedutores e, com tal força, que tinham mesmo que ser recolhidos senão pela ficção, pelo menos pela história, essa história de estórias que sustentam os livros de Ruy Castro, Nelson Motta, Scarlet Moon e outros.
Morrer com delicadeza. Deixar o cenário sem traumatizar a audiência. Coisa difícil. Para poucos. Organizar a morte como quem organiza a vida.
Rubem Braga havia também se despedido discretamente. Organizou seus últimos dias. Pegou a morte pelo colarinho e disse ‘vem cá, neguinha, vou te colocar no lugar que merece’. Por isso, seguindo a pauta que elaborou, foi até o crematório e apresentou seu próprio corpo ao funcionário, como quem leva um amigo que viaja à plataforma de trem ou ao aeroporto. Dias depois comeu a planejada última refeição com as frutas prediletas, compradas ali na feira, deixou todas as instruções com um amigo de fé e foi ver se havia alguma coisa no chamado além.
Outros, como Leo Victor, belo amigo e editor, mesmo sem um pulmão era um sedutor de mulheres; e lá pelos anos 70, não suportando mais sua precariedade física e as precariedades do amor, foi-se num corajoso estampido. Mas tudo administrado. Pateticamente, mas administrado. Como Yllen Kerr, que negou-se a envelhecer e ficar dependente de outros e um dia vedou todas as brechas da casa e da vida e aspirou a própria morte. Mas, igualmente, ritualizou o desfecho planificando o seu depois. Lembro-me também de Flávio Rangel. Quando se deu conta de que havia mesmo embarcado no trem do não-retorno, ajeitou-se no tempo de que dispunha. Algumas vezes conversamos sobre a morte que se avizinhava. Já se despedia dos que estavam na estação e via os contornos daquela que Bandeira chamava de ‘a ineludível’.
Bem que Drummond, que passava tanto por essas ruas, que eu encontrava em minhas esquinas, dizia: ‘e que a hora esperada não seja vil, manchada de medo,/ submissão ou cálculo. Bem sei, um elemento de dor/ rói sua base. Será rígida, sinistra, deserta,/mas não a quero negando as outras horas nem as palavras/ ditas antes com voz firme, os pensamentos/ maduramente penados, os atos/ que atrás de si deixaram situações’.
Com César Tedim, é evidente que fomos pegos de surpresa. Acordamos e estava aquela abrupta notícia no jornal e a informação de que ele havia se retirado com a elegância de sempre. ‘Como? Mas ele estava doente?’
Com o pudor de quem sabe que sua morte é sua, não queria nem que vissem seu corpo desvivificado ou que cultuassem, cortejassem e pranteassem sua forma vazia - queria deixar sua imagem ativa. Sempre achei que deveria ser assim a morte. As pessoas deveriam se esvanecer. Seria mais prático para todo mundo. Claro que a indústria dos hospitais e cemitérios iria à falência. Mas o importante era os amigos se reunirem para celebrar, com a alegria possível, aquele que apenas se adiantou um pouco.
A última vez que conversei com César, não sabia que ele estava se despedindo. Mas ele já havia posto seu adeus em marcha. Às vezes se referia a algum problema de saúde, mas de uma maneira tão galhofeira, que a gente pensava que a tal enfermidade só existia virtualmente para dar-lhe chance para mais algumas piadas. Doença como pretexto para se mostrar como se dribla a morte.
Então combinamos de, no mês de agosto, nos encontrarmos lá em Portugal, terra de onde vieram seus antepassados e onde ia periodicamente. Ele já estava com o bilhete para o além, aquele tíquete de não-retorno sem minha autorização. Falamos. Falamos. Falamos e ele dizendo: ‘Estarei lá em Cascais por mais de um mês. Me telefone. Olha, vamos sair para comer um arroz de lagosta ali no Portinho de Arrábida, no último restaurante do deque’.
Seria uma última ceia. Que não ocorreu. Porque sua estrada se encurtava, ele voltou antes. Voltou para acompanhar o que estava em marcha dentro de seu corpo e nem aos amigos revelara. Claro, Cleide acompanhou amorosamente tudo, com o apoio de Glauco e Norma Rodrigues. E o amigo ia se despedindo e eles assistindo à despedida sem poderem se despedir explicitamente, sem poderem lhe dizer que o estavam levando àquele imaginário aeroporto ou plataforma.
Naqueles dias eu estava viajando pelo interior do país. E enquanto César morria, sem saber que o homenageava, via solitários e esplendorosos ipês-amarelos pontuando de luz o vasto sertão mineiro ou goiano. Ipês-amarelos explodindo vida. Mas, alguns, perturbadoramente roxos.
Depois daquela missa, onde, emocionado, Miéle mal conseguiu ler o texto de Ruy Castro narrando gostosamente fatos da vida de César, os amigos foram à Plataforma. Cada vez mais deserta.
Nossa plataforma está cada vez mais vazia."
AO LEITOR
Márcio Moreira Alves
"Caros leitores", copyright O Globo, 6/9/00
"A riqueza informativa e o saber acumulado coletivamente numa grande massa de cidadãos, como a dos leitores do Globo, é ao mesmo tempo um apoio e um desafio para quem tem de diariamente, encontrá-los, produzindo uma coluna. Tento cumprir a tarefa cuidando de políticas públicas e não da política dos políticos, para torná-la mais prazerosa para mim e para vocês. É um risco e um apoio.
O risco vem dos erros que muitas vezes cometo, prontamente corrigidos pela generosidade de vocês. Por vezes, são erros fatuais, geralmente sem importância maior para a compreensão dos textos. Mas por vezes são erros de informação, dada à informação também incompleta das fontes que consulto em confiança - e isto é mais grave.
Já não estou mais em idade de impressionar-me com ministros e governadores. Tenho visto, da minha janela, passarem muitos na imponência de seus negros carros de placas verdes e amarelas para, pouco depois, ter de com eles disputar a atenção de um taxista numa noite de chuva. O largo mundo brasileiro ainda desafia a minha curiosidade e mobiliza as minhas esperanças. Mas acreditar nos políticos e nas autoridades do momento, só com um pé atrás e um grão de sal. Limito-me a registrar as opiniões e informações daqueles a quem empresto alguma credibilidade e não desconfio que me estejam usando. É o caso, por exemplo, de Paulo Renato, que considero o melhor ministro da Educação desde os tempos de Gustavo Capanema.
A propósito da entrevista que publiquei com Paulo Renato quando saíram os resultados do censo escolar, escreve-me o jornalista Ubirajara Loureiro, que tem um filho de 10 anos na Escola Estácio de Sá, que fica no Forte de São João, na Urca. Diz:
‘Beneficiária de um círculo de pais interessados e de uma ligação afetiva dos professores - a atual diretora tem lá duas filhas -, a Estácio recebeu recursos do Fundef, pela última vez, em outubro do ano passado. O Ministério da Educação divulga diariamente propaganda em dezenas de rádios, estimulando a cidadania a controlar a distribuição de verbas pelas prefeituras. Acreditei e tentei ligar. Afinal, que planejamento pedagógico pode ser feito com verbas, raquíticas por sinal, sendo liberadas no fim do ano letivo?’
E prossegue:
‘Tentei conseguir os telefones dos conselheiros do Fundef para contar-lhes que a secretária de Educação esqueceu-se da Estácio de Sá na divisão de verbas do Fundo. Soube então que a composição do conselho do Fundef fora alterada e ainda não tinham os nomes. Insisti semanas a fio e nada. Não há como reclamar. E a propaganda sobre a necessidade de fiscalização continua correndo solta. Enquanto isso, a Escola Estácio de Sá está com turmas de 47 alunos se apertando em salas pequenas. O inchaço pedagógico certamente decorre do fato das verbas de educação devidas pela União aos municípios serem diretamente proporcionais ao número de matrículas. Imagine como essas condições dificultam o trabalho das professoras. Não têm telão, vídeo para as aulas, auditório, laboratório, nada.’
A coluna que escrevi sofre a defesa da fronteira e o Calha Norte fez com que o diplomata Roberto Cruz me escrevesse, contando ter sido chefe da Divisão de Fronteiras do Itamaraty. Disse:
‘Foi das mais gratificantes funções que exerci. Pude, por exemplo, subir de barco o Oiapoque e descobrir o Forte São Jorge. Naquelas lonjuras, fiquei orgulhoso ao ver o trabalho anônimo de jovens oficiais que cuidavam dos habitantes com carinho e muita dedicação. O comandante da pequena unidade criou uma escolinha onde ele mesmo ensinava matemática e aritmética; a esposa, português; e os oficiais recém-saídos da Aman ficavam com geografia, história, desenho e educação física. Enquanto isso, em outras latitudes, boa parte da ‘intelligentzia’, os auto-intitulados bem pensantes, denunciavam o Calha Norte como disfarçado plano imperialista para invadir os países vizinhos e outras sandices.’
Finalmente, o mais vigilante dos leitores, José Augusto Sabóia Araújo, escreve para reclamar do meu ‘desinteresse em admitir os meus não poucos equívocos’. E passa a enumerar alguns: o nome do forte português que domina o Rio Guaporé é Príncipe da Beira e não apenas Forte do Príncipe; Cabral nasceu em Belmonte, e não em Santarém, onde morreu e está enterrado; a independência da Índia não é comemorada em 26 de janeiro, data da proclamação da República; o telegrama do marechal Hermes recomendando que a tropa de Pernambuco não obedecesse a manobras do Catete não foi passado à 6ª RM, mas à 7ª ; o marechal não foi preso a 1º de julho de 1922, pois nesta data recebeu uma severa repreensão assinada pelo ministro da Guerra, Pandiá Calógeras; e, finalmente, Pernambuco teve quatro governadores militares e não apenas dois - os que esqueci governaram poucas semanas.
Ficam as retificações e os pedidos de desculpa.
O que seria dos elefantes se ninguém catasse as suas pulgas?"
FREUD E O BRASIL
Alberto Dines
"Freud e o bocejo de Ronaldinho", copyright Jornal do Brasil, 9/9/00
"Em abril, quando se iniciaram as comemorações dos 500 anos, foi o confronto, e o carnaval programado acabou antes mesmo de começar. Na última quinta, Dia da Pátria, no palanque do desfile militar de Brasília, nosso atleta n° 1, presentemente no estaleiro, mal conseguiu evitar o espasmo de tédio multiplicado em foto pelos jornais de ontem. Em Aparecida, o Grito dos Excluídos organizado pela CNBB ficou no limbo estatístico - a Folha de S. Paulo calculou os presentes em 85 mil pessoas que, segundo O Estado de S. Paulo, não passaram de 4 mil.
A própria CNBB, não obstante a inspiração divina, não escapa da dilaceração esquizofrênica - acaba de endossar o dernier cri do Vaticano, a doutrina da superioridade católica (que resultou nas Cruzadas, Inquisição etc.), enquanto se lança com todo o seu fervor para defender o calote da dívida externa. Não agüentou os índices de recuperação econômica. É preciso sofrer e expiar pelos pecados passados. Proibido ter esperança.
Indiferente ao pêndulo bem-estar-mal-estar das elites, o público paulistano acorreu em massa à Mostra do Redescobrimento que se encerra amanhã. Antes do périplo que a levará a diversas capitais brasileiras e mundiais, a maior exposição de arte brasileira de todos os tempos atraiu na última quarta-feira quase 50 mil pessoas (47.356), somando um total de 1.641.764 visitantes em pouco menos de cinco meses. Nada mal para um país que dia sim, dia não, defronta-se com o Apocalipse.
Roberto Da Matta, nosso antropólogo maior, sugere um congresso para discutir a vocação nacional para o luto e a depressão mesmo quando as coisas começam a melhorar. Enquanto o conclave não se realiza, conviria recorrer a Sigmund Freud, que andava em baixa com o crescimento dos misticismos, esoterismos e livros de auto-ajuda.
Neste ano comemoram-se os 100 anos de lançamento da Interpretação dos Sonhos, considerada a obra seminal da psicanálise. Do final de setembro até o fim do ano realiza-se uma série de eventos, começando por São Paulo com a inauguração, no Masp, da mostra, organizada pela Biblioteca do Congresso de Washington, ‘Sigmund Freud: conflito e cultura’.
Boa oportunidade para relembrar não apenas a figura do Pai da Psicanálise como rever sua obra à luz do que aconteceu ao longo destes 100 anos. Inclusive sua influência no Brasil junto aos modernistas, de 1922 em diante.
Os mecanismos do inconsciente e as terapias sugeridas pelo médico vienense (1856-1939) têm sido tachadas de ‘intimistas’ e elitistas numa visão inteiramente distorcida do papel do indivíduo na História. A teoria freudiana trata fundamentalmente das repressões, sobretudo as de ordem sexual, e a repressão individual está na origem das repressões coletivas. Nações ou comunidades agem como as criaturas que as compõem.
A extraordinária capacidade de análise e racionalização de Freud levou-o à amalgama do singular com o plural. Totem e Tabu, de 1913, parte de observações antropológicas sobre comportamentos tribais de aborígines australianos e de esquimós para explicar a construção dos mitos, religiões, códigos, culto ao poder e o impulso para transgredi-los. Retrato simultâneo dos movimentos contraditórios da alma e da mecânica dos grupos. Exemplo de uma metacultura que só um espírito rigoroso e, sobretudo, livre seria capaz de identifica e explorar.
No mesmo ano produziu uma sucessão de ensaios mostrando o entrosamento da psicanálise com as ciências não-psicológicas (filologia, biologia, história, sociologia e pedagogia) para culminar em 1929, já com as experiências do fascismo e do comunismo em curso, com O mal-estar da civilização, sobre o antagonismo irremediável entre as exigências do instinto, os sentimentos de culpa e as restrições da civilização (ou cultura).
Impossível a um país inteiro deitar-se no divã para permitir o livre curso das associações e, assim, revelar o que vai no seu inconsciente. Mas alguns de seus expoentes poderiam fazê-lo. Em benefício daqueles que influenciam. Ou para livrar-se dos próprios tormentos."
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