|
ÚLTIMA HORA – Atualizado em 12/9/2000
ASPAS 4
CONGRESSO SOBRE ÉTICA
André Motta Lima
"ABI propõe, em Congresso de Jornalistas, a criação de órgão auto-regulador para cuidar de ética e excessos na imprensa", copyright ABI <www.abi.org.br>, 5/9/00
"O presidente da Associação Brasileira de Imprensa, Fernando Segismundo, aproveitou a abertura do XIX Congresso Nacional de Jornalistas, nesta quarta-feira (06/09) em Salvador, para lançar a idéia de criação de um órgão auto-regulador, a ser integrado por representantes de patrões, jornalistas e professores de comunicação, para cuidar das questões éticas e de excessos cometidos pelos veículos de comunicação.
Segundo o novo presidente da ABI, que substituiu Barbosa Lima Sobrinho, a medida deve interessar ao próprio empresariado, no momento em que crescem as exigências judiciais de vítimas de notícias deturpadas. Segismundo realça ainda a tendência do Estado em utilizar os preceitos legais para censurar a comunicação:
‘As várias tentativas de leis de mordaça são um bom exemplo de como as autoridades buscam censurar em vez de procurar soluções’, lembra o presidente. Por iniciativa da ABI, com auxílio do Senador Pedro Simon, as três propostas de lei da mordaça, impedindo membros do Ministério Público e outras autoridades de dar informações para a imprensa, foram agrupadas na Comissão de Constituição e Justiça do Senado, onde será necessária, antes de mais nada, a convocação de uma audiência pública para permitir que a ABI e outras entidades sejam ouvidas sobre o assunto.
A proposta de Segismundo, que também será apresentada ao presidente da Associação Nacional de Jornais, Paulo Cabral, se assemelha ao sistema que vigora na Alemanha, onde existe um órgão com participação de jornalistas e empresários para cuidar dos aspectos éticos dos veículos.
Interessada em saber da opinião dos jornalistas sobre o assunto, a Associação Brasileira de Imprensa abre em seu sítio o espaço de opiniões do Canal Liberdade: ‘Diga se você concorda ou discorda da criação de um órgão auto-regulador para a imprensa’. Antes, leia o texto/discurso, com a proposta de Fernando Segismundo ao XIX Congresso Nacional dos Jornalistas.
‘Estão a exigir solução por parte da multimídia os conceitos por ela expendidos, sem o vigor de apuração, sobre a conduta humana. Não há dia em que pessoas ou instituições de toda sorte não se surpreendam e protestem contra notícias, reportagens, comentários e imagens expostos de maneira unilateral, preconcebida ou falsa, causando-lhes prejuízos morais e materiais quase sempre irreversíveis. Faltam justiça e eqüidade a essas práticas, verificáveis na imprensa escrita, no rádio e na televisão.
Ausência de ética é o denominador de tantas irregularidades. O bem e o mal são noções aplicadas ao arbítrio do empresariado, dono dos instrumentos de comunicação e responsável pelos trabalhadores que emprega, aos quais passa seu código de ação. Cada vez mais é necessário o estabelecimento de preceitos e regras reguladores das atividades do setor.
Não se ignora a existência de sistemas voltados para o trato dos veículos com as massas. Há dispositivos constitucionais e outros que poderiam atenuar ou até evitar o arrojo empresarial. O modo de usá-los como que se constitui na manutenção do impasse. O Estado aproveitaria para exceder-se, censurando a comunicação, como tantas vezes tem feito e lhe convém.
A necessidade de se aplicar, de vez, severos princípios de ética ou de moral à mídia levam-nos à convicção de que somente os esforços conjugados dos empresários e dos trabalhadores alcançarão o fim almejado. Para tanto é de se apelar para que a Associação Nacional dos Jornais, ANJ, e a Federação Nacional dos Jornalistas Profissionais, FENAJ, somem esforços em tal sentido, delas saindo a norma definitiva de obrigações e procedimentos.
A essas entidades unir-se-iam instituições tradicionais no meio, a exemplo da Associação Brasileira de Imprensa, ABI, de grêmios estaduais (Pernambuco, Bahia, Rio Grande do Sul e outros) e professores das escolas de comunicação ligadas às questões da ética e da moral.
O momento é oportuno, apoiado por milhares de profissionais da mídia assistidos neste Congresso por seus sindicatos.
Ao empresariado, afinal, há de convir a solução harmoniosa do problema, em face da opinião pública esclarecida e das exigências judiciais das vitimas. Urge por termo à noticia e ao juízo falsos, deturpados, malignos. Prevaleça, enfim, a moralidade nas relações da comunicação com o povo, a bem da civilização brasileira.’ Salvador, 06 de setembro de 2000. Fernando Segismundo, Presidente da ABI"
FENAJ
Ivson Alves
"Um pouco de Ética, por favor", copyright Coleguinhas, Uni-vos! <www.coleguinhas.jor.br>, 3/9/00
"Ou muito me engano ou a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) acaba de perder a enésima chance de sair campo quase ficcional em que se encontra para a realidade das redações e da sociedade em geral.. Pelo menos é a minha modesta avaliação do programa do XXIX Congresso Nacional dos Jornalistas, a ser realizado de 6 a 10 de setembro, em Salvador.
O foco maior é na parte legislativa e organizacional, com ênfase na questão da abertura do capital das empresas de comunicação ao capital estrangeiro e nas mudanças na legislação trabalhista e seus reflexos na organização sindical. São assuntos que merecem uma reflexão de nosotros? Acredito até que sim (o mesmo não acho da discussão sobre a crise mundial do modelo neoliberal e da proposta de organização sindical da CUT, que, creio, deveriam ser discutidos em outros foros). No entanto, sou de opinião (tá, ninguém me perguntou, mas digo mesmo assim) que o tema do Congresso deveria ser Ética Jornalística, desse jeito mesmo, com iniciais maiúsculas. A questão até está no programa, mas como seminário, jogado lá no meio da programação paralela.
Esta discussão, acredito, há algum tempo saiu do âmbito acadêmico e das palavras vazias para o real. Tanto nós, jornalistas – em redações ou assessorias – como a sociedade em geral, passamos a sentir cada vez mais, no dia-a-dia os problemas causados pela fraca consciência (quando não absoluta inconsciência) ética que vem marcando a nossa profissão nos últimos anos na Bugrelândia.
Exemplos de que pulo da ética do terreno metafísico para a realidade está acontecendo e compromentendo seriamente o exercício da profissão:
1) Em sua coluna de 15 de agosto, intitulada ‘Responsabilidade essencial’ , a excelente Dora Kramer clama contra a irresponsabilidade dos coleguinhas que deram páginas e câmeras para os procuradores da República de Brasília atacarem o Eduardo Jorge sem provas. Resultado: um traficante de influência renomado, graças em grande parte ao MP e nós, ainda vai sair dessa com atestado de probidade;
2) Jovem coleguinha chega a um lugar para fazer matéria sobre equipamentos urbanos para deficientes e, em vez de levar um deficiente físico para testar os tais equipamentos, pega uma pessoa sem deficiência alguma e a põe para posar como se paraplégica fosse. Questionada, diz que precisava de ‘um personagem para a matéria’;
3) Ainda a ditadura do personagem, essa muleta jornalística. Coleguinha de TV pede para conseguir uma pessoa que esteja pouco se lixando para o fato de se encontrar no estado terminal de uma doença difícil de ser curada, pois a idéia é da pauta é fazer ‘uma matéria pra cima’ sobre o assunto. Como não dá pra achar um masoquista deste quilate, fica zangada, faz ameaças e bate o telefone na cara de que a atendeu.
4) Sandra Gomide é assassinada por Pimenta Neves, o diretor de redação do jornal em que trabalhava, porque acabara o namoro com ele. O poder discricionário dos chefes de redação levado ao extremo.
5) A cobertura do caso acima é equilibrada e segue todos os manuais do bom jornalismo. Completamente diferente de outros casos parecidos e mesmo de outros tipos, como o de Eduardo Jorge. Por que o contraste?
6) Banco de investimentos, fundos de pensão e companhia de telecomunicações se engalfinham por controle de empresa de telecom brasileira. As assessorias se esmeram numa briga em valeram chute no saco (notas plantadas em colunistas amigos), dedo no olho (pautas exclusivas que se tornaram públicas por que a assessoria achou que teria maior repercussão se saíssem também em outros veículos), cabeçada no nariz (exclusivas que se tornaram coletivas porque a assessoria contrária soube e avisou os outros), etc.
Raridades? Pois todos os casos citados ocorreram nos últimos 90 dias.
A situação é grave, pois, e por si só já deveria fazer a Fenaj tomar tenência em relação a ela. Ainda mais que uma das principais bandeiras da entidade é a criação do Conselho Nacional de Comunicação Social*, órgão de consulta do Congresso em tudo o que dissesse respeito à comunicação no Bananão. Ora, um conselho com esta responsabilidade teria, obrigatoriamente, um código de ética bem fundamentado, alicerçado em discussões sérias realizadas por todos atores sociais. E que papel faremos nós, jornalistas, quando (se) este conselho for finalmente instalado e nós não tivermos nada a dizer a não ser ‘parolas flácidas para bovinos dormitarem’ sobre Ética?
Portanto, é bom a gente começar a pensar nisso porque, mais dia, menos dia, vamos ser cobrados e aí será tarde demais para nos livrarmos da pagação de mais um mico.
* Para quem não sabe, o CNCS está na Constituição e foi até regulamentado em 1990, mas nunca saiu do papel porque os sucessivos governos jamais indicaram os conselheiros. Um extraordinário caso de lei que não pegou por causa do governo que deveria fazer cumprir as leis. "
FESTIVAL-FICÇÃO
Hélio Guimarães
"O pseudo-evento da Globo", copyright Valor Econômico, 08/09/00
"Uma característica intrigante da televisão é sua capacidade de fazer parecer que algo muito importante está acontecendo justamente onde e quando absolutamente nada acontece. A técnica de construção de pseudo-eventos tem atingindo o auge nas noites de sábado. Repórteres estrategicamente dispostos nos bastidores e na platéia gritam à exaustão que aquilo está uma loucura, que está muito animado, que está pegando fogo. A platéia, movida a canhões de luz, fareja as lentes das câmeras e até que se esforça para confirmar o que diz a reportagem.
O objetivo é fazer o telespectador acreditar que alguma coisa séria e importante esteja acontecendo de verdade do lado de lá do vídeo. Mas logo se percebe que não há sequer uma franja de espontaneidade naquele espetáculo 100% produzido para a televisão. O Festival da Música Brasileira é tão ficcional quanto uma novela, só que um pouquinho mais artificial.
Se parte da força dos festivais dos anos 60 e 70 vinha do inconformismo e da rebeldia de artistas, estudantes e trabalhadores, que politicamente eram os setores mais avançados da sociedade, agora a produção recruta estudantes e trabalhadores junto à UNE e à Força Sindical. Devidamente domesticados pela privatização e pelo desmantelamento da educação, assim como pelo enfraquecimento do movimento sindical, os figurantes de estudantes e trabalhadores sindicalizados conformam-se ao papel de triste arremedo do público dos grandes festivais. Na falta de inconformismo, rebeldia e causas, a produção providencia faixas fabricadas em série e distribui bandeiras para dar uma dimensão patriótica ao evento. Nada escapa à superprodução, que também organiza as torcidas organizadas, lideradas por familiares dos concorrentes, religiosamente entrevistados nos intervalos comerciais.
Como os concorrentes talvez se esqueçam de trazer seus discursos ‘de protesto’, a produção garante a dose necessária de rebeldia com o moralismo maconheiro de Gabriel, o Pensador, que convocava o público a ‘acreditar na vitória do bem sobre o mal’. Sua crítica ao mundo cabe toda neste, digamos, raciocínio: a maconha é boa, mas é proibida por lei; a sociedade faz a lei e, portanto, a lei é má e a sociedade, hipócrita. Depois de rimar bunda com vagabunda e levar o público a repetir versos transgressivos como ‘arrebita a rabeta’, o ‘rapper’ de shopping bradava: ‘Gente estúpida! Gente hipócrita!’ Enquanto isso, a câmera fazia travelings pelo palco e pela platéia, produzindo um encontro feliz de imagem e texto. Era o primeiro momento verdadeiro da noite.
Começou então a apresentação das músicas concorrentes. A primeira era um samba-enredo, ‘Terra à Vista’. A mistura de caravelas, Cabral e índios sugeria tratar-se de um refugo do Carnaval carioca deste ano, que homenageou os 500 anos do Descobrimento. Se um dos objetivos do festival é apresentar novidades e novos talentos, o samba-enredo extemporâneo e requentado era um mau começo. Mas ainda haveria roquinho, balada e até valsa. Tanta variedade de estilos gera a tentativa patética de promover entre o público a falsa polêmica sobre que ritmo vencerá o festival. Gera também diálogos memoráveis, como aquele em que Maria Paula – sua escalação é dos poucos acertos da produção – pergunta a alguém da platéia se ele se preparou para torcer, se decorou a música, se fez direitinho a lição de casa. Ignorando a pergunta, vem a resposta: ‘Excelente! Excelente!’
No mundo dos pseudo-eventos, as respostas nem precisam combinar com as perguntas. As perguntas são mera função fática e quase sempre dispensam a resposta, que muitas vezes já vem embutida no ponto de interrogação. Afinal, o que um participante do concurso pode responder quando lhe perguntam se acha importante um festival como aquele?
No vale-tudo para manter o espectador acordado, o melhor é torná-lo cúmplice da farsa e tentar diverti-lo, fazendo desfilar bizarrias pelo vídeo. Mostra-se uma concorrente que, além de compor e cantar, também sabe imitar o som de saxofone com a boca. Tem a mulher da platéia que acha que bigamia, tudo bem, e por aí vai.
Na ausência de qualquer traço dos velhos festivais que procura emular, só resta invocá-los em espírito. Nana Caymmi e Ivan Lins, ganhadores de festivais internacionais, são escalados para a tarefa. Cantam várias músicas, incluindo ‘Somos Todos Iguais Nesta Noite’. Nos bastidores, o repórter mostra os operários que ao longo de toda a noite fizeram a troca dos três palcos móveis. Eles estão estendidos no chão, exaustos. ‘É o cansaço! É o cansaço! Está chegando ao fim’, diz o repórter. É o segundo e último momento verdadeiro da noite."
GUSTAVO KURTEN
Renata Lo Prete
"Tudo por dinheiro", copyright Folha de S. Paulo, 10/09/00
"Kuerten abre mão do ouro por dinheiro.’ Assim a Folha resumiu, na manchete de seu caderno de esportes de quarta-feira, a notícia de que o principal atleta do país havia desistido de ir aos Jogos de Sydney, na ausência de acordo entre seu patrocinador e o Comitê Olímpico Brasileiro quanto à logomarca que seria exibida pelo tenista na competição.
Diante da crueza condenatória do título, não foi surpresa encontrar a caixa de correspondência fornida de protestos. Às dezenas.
‘Sensacionalismo barato’, escreveu um leitor. ‘Brincadeira de mau gosto’, disse outro. ‘Chega de demagogia’, pediu um terceiro. Outra identificou no enunciado a atração que jornalistas sentem por jogos de palavras (‘ouro por dinheiro’), ainda que, para utilizá-los, às vezes seja preciso forçar a mão.
Não é de hoje que leitores enxergam má vontade da Folha para com Gustavo Kuerten, tema recorrente nas mensagens à ombudsman.
Algumas, embora legítimas como expressão do sentimento do torcedor, carecem de fundamento do ponto de vista jornalístico.
Há poucos dias, um leitor apontava, como exemplo de perseguição, a visibilidade dada à eliminação do brasileiro, por um adversário obscuro, na primeira rodada do Aberto dos EUA.
O destaque (reportagem na capa de Esporte) não foi maior do que o conferido às conquistas de Kuerten (basta lembrar da extensa cobertura feita pelo caderno, uma semana antes, para celebrar o título obtido em Indianápolis, o primeiro fora do saibro).
A chamada de primeira página existiu na Folha, nos concorrentes locais e em jornais estrangeiros.
Se notícia é a reversão da expectativa, fazia todo sentido chamar atenção para esse resultado. Número 1, em excelente fase, o brasileiro era considerado um dos favoritos no torneio em Nova York.
No entanto, seria um equívoco atribuir todas as críticas à indisposição do torcedor para conviver com reveses de seus ídolos.
Ainda sobre o Aberto dos EUA, leitores estranharam a manchete da eliminação: ‘100ª derrota, a pior do ano’. ‘Dá a entender que Kuerten tem uma trajetória marcada por percalços’, observou um deles.
Outro considerou o enunciado carente de sentido, ‘principalmente para quem entende alguma coisa de hipóteses ou de tênis, um jogo em que não há empate’.
De fato, o número transmite birra, embora tenha um significado (segundo o cálculo apresentado, a carreira do brasileiro seria a mais oscilante da atual elite do tênis).
No caso do título de quarta-feira, os leitores estão cobertos de razão. Para começar, Kuerten disse ter tomado a decisão por lealdade à Diadora, sua patrocinadora desde o tempo em que ninguém sabia quem ele era e o que viria a ser.
Pode-se encarar a explicação com simpatia, indiferença ou mesmo ceticismo (na sexta-feira, ao relatar o entendimento que permitiu a ida do tenista a Sydney, a Folha achou por bem se referir à lealdade dele entre aspas).
Seja qual for a percepção de cada um, a idéia de que Kuerten desistiu para não perder dinheiro é no mínimo questionável.
O que aconteceria se ele tivesse rompido com a Diadora para competir vestido de Olympikus, a patrocinadora da delegação brasileira? No atual estágio de sua carreira, no dia seguinte estaria sob nova marca, ganhando mais.
Suponhamos que o enunciado tenha pretendido mostrar, com o uso da palavra ‘dinheiro’, qual é a regra do jogo no mundo do esporte de ponta. O raciocínio é correto. Sem dúvida menos mistificador do que ‘O patriotismo fala mais alto’, um dos títulos do Estado de sexta-feira.
O resultado, entretanto, é que a manchete espelhou a versão do COB. ‘Lamento ele ter se curvado a uma empresa estrangeira’, dizia na reportagem o presidente do comitê, Carlos Arthur Nuzman (a Diadora é italiana).
‘Não vou admitir que coloquem a culpa no COB ou na Olympikus.’ A Folha também não. De saída, tratou de colocar a culpa em Gustavo Kuerten.
Não foi preciso fazer pesquisa para saber de que lado ficou o público. Nuzman logo entendeu que o ônus seria todo seu.
No movimento de recuo, deu-se o segundo tropeço do jornal. Na quinta-feira, à diferença do noticiário dos concorrentes, o seu não dava sinal do acordo iminente.
De volta à queixa crônica dos leitores (‘a Folha pega no pé’), cabe notar que esse é um traço da personalidade do jornal, pouco inclinado à afetividade que marca a relação do público com Kuerten. Não por acaso, é o único que não o chama de Guga.
Caráter provocador não é defeito em um jornal, pelo contrário. O problema é olhar apenas para o próprio umbigo e achar que qualquer provocação se justifica.
Mais do que ao tomar partido, a manchete errou ao passar totalmente da medida em agressividade. Seu objetivo era interpretar, mas ela apenas ofende. O personagem da notícia e o leitor.
***
Uma boa e uma má notícia para quem leu a Folha de quarta-feira na Internet.
A boa é que esse leitor foi poupado da violenta manchete de Esporte. Ela não constou da versão eletrônica.
A má é que não havia uma linha sobre a desistência de Kuerten no jornal transposto para a tela.
Por limitações de ordem técnica que a Folha ainda não conseguiu superar, ela costuma mandar para a rede sua edição que fecha mais cedo. Quando a notícia chega tarde, como ocorreu nesse caso, o resultado é desastroso.
Por certo havia informação disponível no noticiário em tempo real produzido pela Folha Online. Mas quem buscou o jornal propriamente dito encontrou, na tela, um produto mais frio que o papel."
"A Rússia faz tudo errado 2", copyright Folha de S. Paulo, 03/09/00
"No domingo passado, escrevi que o noticiário sobre o submarino Kursk havia se transformado em refrão contra a ‘teimosia’ e a ‘falta de transparência’ da Rússia, tudo culpa da ‘herança soviética’.
Acrescento um exemplo aos citados há uma semana. Na sexta-feira, 25 de agosto, jornais do mundo todo publicaram uma série de quatro imagens da televisão russa.
A sequência mostrava, segundo foi informado, a mãe de um marinheiro morto no acidente recebendo à força uma injeção de sedativo quando gritava com o vice-primeiro-ministro.
O destaque variou bastante de um diário para outro. Na Folha, a cena ocupou o alto da capa.
A reportagem interna cuidou de estabelecer o elo com a ‘herança soviética’. Reproduzindo palavras do Times britânico, outro jornal a se empolgar com a história, o texto notou que as imagens lembravam ‘os métodos violentos aplicados pela KGB contra opositores do regime’.
No dia seguinte, também com registro na Primeira Página, veio o desmentido da mãe. Negou ter sido sedada à força. ‘Tomei porque estava me sentindo mal, e meu marido estava a meu lado. Foi ele quem pediu ajuda’, disse. Acrescentou ser portadora de doença cardíaca.
A meia dúzia de parágrafos terminou com a informação de que o Times havia ‘reiterado sua versão’ (não se esclareceu com base em quê).
Diante disso, tive a curiosidade despertada ao encontrar, na edição de terça-feira do diário britânico, longa entrevista com a mãe, sob o título ‘A verdade sobre aquela injeção’.
Nadezhda Tylik se queixava com veemência de seu frágil estado de saúde aos 42 anos, das precárias condições de vida na Marinha e de muitas outras coisas, mas reiterava ter sido medicada a pedido. Afirmava também que naquele dia, depois de repousar um pouco, voltou à sala para concluir seu desabafo.
Relatei o conteúdo da entrevista na crítica interna. O editor interino de Mundo, Marcos Guterman, disse não entender meu interesse.
‘O Times errou seguidas vezes nesse episódio. Primeiro, ao ignorar o desmentido quando este foi feito; segundo, ao publicá-lo como novidade dias depois; terceiro, ao tratar como ‘verdade’ declarações que podem ter resultado de pressões de autoridades russas.’
Ele observou ainda que a repórter considerou as respostas verdadeiras ‘em um julgamento absolutamente pessoal’.
Sem meios para antever o desmentido, a Folha não errou ao registrar a cena, impactante no papel e ainda mais na TV. Foi nesta que Guterman e outros na Redação se convenceram da hipótese ‘à força’.
Tive a mesma impressão, mas isso não elimina a possibilidade de o sedativo ter sido solicitado pela família, comprometendo o quadro orwelliano que tanto entusiasmou a mídia.
Se usa ‘verdade’, entre aspas, para se referir à versão da mãe, o editor interino tem de fazer o mesmo com a outra, que foi veiculada com alarde pela Folha.
Se a repórter se baseou em ‘julgamento absolutamente pessoal’ para acreditar na mãe, ele não se baseia em mais do que isso para crer que esta pode ter sucumbido às ‘pressões das autoridades russas’.
Como escrevi na crítica interna, a repórter, pelo menos, teve a chance de conversar com a personagem da notícia."
RÁDIO
Marisa Meliani
"Rádio Comunitária", in Painel do Leitor, copyright Folha de S. Paulo, 06/09/00
"Quando faltam argumentos, sobram ofensas pessoais. O sr. Marcelo Parada (em ‘Responsabilidade e credibilidade no ar’, ‘Tendências/Debates’, 29/8), mais realista do que o rei, ataca-me tentando, com isso, denegrir e calar uma manifestação claramente popular, que acontece com o movimento de rádios livres e comunitárias. Não é a mim que ele ofende, mas à população brasileira. Todos os seus argumentos são construídos em cima de preconceitos, distorções e suposições sem nenhum fundamento. Proponho ao sr. Parada que seja coerente com seus pensamentos retrógrados e inicie uma luta pela legalização e concessão do ato de respirar. Porque, para mim e para muitas outras pessoas ingênuas deste país, o ato de se comunicar é um direito igual para todos e não pode ficar restrito a meia dúzia de privilegiados. Liberdade de expressão, sr. Parada, deve ser regulada pelo parâmetro da defesa da vida, e qualquer um que pregue a toxicomania pela rádio oficial ou não-oficial deve ser conduzido à Justiça. Comparar rádios comunitárias a chacinas, pedofilia ou roubo de dinheiro público é espalhar a ignorância. Quanto a concluir que sou professora, caro colega, informo que não exerço essa nobre profissão. Mas, se assim o sr. me viu, é porque meu artigo talvez lhe tenha servido de lição. Para finalizar, informo que estou muito bem acompanhada, ao lado de 10 mil rádios comunitárias, algumas delas exercendo funções necessárias e urgentes para mudar a triste realidade deste país. E o sr.? Em nome de quem está falando?’ (Marisa Meliani, jornalista e mestre em comunicação pela USP)"
COBERTURA ESPORTIVA
Tostão
"Esporte não é só lazer", copyright Folha de S. Paulo, 10/09/00
"A pós a última Olimpíada, um cidadão, convidado pela Folha, escreveu que tirou férias para assistir ao evento pela TV, com a esperança de aprender as regras e os detalhes técnicos de todos os esportes. Pouco aprendeu.
Reclamou que, em pouco tempo, os narradores, comentaristas, apresentadores e repórteres deram milhões de informações, repetiram centenas de termos técnicos, mas ninguém explicou as particularidades de cada esporte.
Numa Copa acontece o mesmo. O número de espectadores e leitores que não tem o hábito de acompanhar o futebol ultrapassa o de torcedores habituais.
Esses iniciantes, geralmente jovens e mulheres, estão ávidos não somente por informações, show de imagens, mas também de explicações claras, técnicas e científicas.
Saem frustrados.
Nas TVs abertas, não se vê um único programa que aborde, com profundidade, a ciência do esporte. Cada vez mais, as transmissões se afastam do jornalismo e da cultura esportiva e se aproximam do show e do espetáculo.
Muita forma e pouco conteúdo.
No intervalo das partidas, o show prossegue. Entrevistam a primeira professora, a namorada, mostram os carros e as mansões dos jogadores, as bundas e silicones etc. etc.
Pouco sobre cultura esportiva.
A maioria dos locutores narra as partidas como se fosse animador de auditório.
Quando a audiência sobe, grita mais alto e festeja, como se tivesse feito o gol do título.
Os comentaristas têm de dar opiniões rápidas e sintéticas. Nessa excessiva busca da simplificação, as análises se tornam óbvias e supérfluas.
Esperava-se que no programa ‘‘Super Técnico’, da Band, houvesse discussões técnicas, táticas e científicas sobre o futebol. Nada disso. Os treinadores conversam sobre amenidades, trocam elogios e praticam o corporativismo.
Os empresários do esporte não escondem que a TV existe para agradar aos investidores, que pagam de acordo com a audiência.
Não sou ingênuo, puritano, nem um sonhador quixotesco para pensar o contrário.
São empresas particulares e, obviamente, procuram o lucro. Mas tudo tem limite.
Uma outra razão para tantas banalidades é que existe um preconceito contra a inteligência do torcedor de futebol. Acham que ele, diferentemente dos torcedores de outros esportes e principalmente de telespectadores e leitores dos noticiários de cultura, não entende e não quer saber de explicações científicas.
Esquecem que existe, em crescimento, novos amantes do esporte, ansiosos por outras discussões e abordagens. Não suportam mais a chatice, breguice e mesmice das coberturas esportivas. Não querem ser tratados como debilóides.
No futuro, esses iniciantes poderão aumentar a audiência e o lucro das empresas.
Recentemente, a Folha publicou uma pesquisa que mostra o crescimento do interesse pelo futebol entre os jovens, mulheres e, principalmente, nas classes mais bem informadas.
Existe um clichê de que esporte é cultura. Não é o que se vê. Raramente ele é abordado nas programações culturais. Talvez, entendem que o corpo, símbolo do esporte, é algo menor, primário, não intelectual, fora do pensamento e da razão.
O primeiro contato com os sentimentos é por meio do corpo. Ele fala primeiro. ‘‘O corpo é a sombra da alma.’ (Clarice Lispector)
Evidentemente, existem exceções. A cobertura da ESPN Brasil, no Pan-Americano e na preparação para a atual Olimpíada, é um exemplo. As TVs a cabo (fechadas) não perderam o hábito de copiar as abertas.
A TV Cultura mostra belas e diferentes reportagens sobre os vários aspectos do esporte, mas com pouca freqüência.
Alguns jornais, como a Folha, publicam reportagens diárias, estatísticas, científicas, políticas, econômicas, médicas e psicológicas sobre todos os esportes.
Uma das boas coisas que acontecem nas coberturas esportivas da TV Globo são as matérias feitas no exterior pelo repórter Marcos Uchôa. Principalmente pela beleza, criatividade e originalidade dos textos. Outra, são os comentários didáticos, claros e objetivos sobre a arbitragem do futebol, dados pelo ex-juiz Arnaldo César Coelho.
Se o Brasil não tem uma TV pública forte, o governo deveria exigir das TVs particulares o compromisso com a formação de uma cultura geral e esportiva.
Assim como um leitor da Folha na última Olimpíada, vou comprar um pijama novo, abastecer a geladeira, ler os jornais, sentar-me diante da TV, torcer para o Brasil (sem distorcer) e tentar aprender os detalhes de cada esporte.
Esporte é lazer e entretenimento, mas também educação, informação, cultura e, obviamente, um grande negócio."
Renata Lo Prete
"A Nicéa de Luxemburgo", copyright Folha de S. Paulo, 03/09/00
"O mundo do futebol lembra um pouco a prefeitura paulistana. Paira sobre ambos a convicção geral de que funcionam na base do ‘por fora’, da ilicitude. O problema é que entre estar convencido e dispor de testemunha vai uma distância. Daí a ter prova documental, outra.
As recentes denúncias contra Wanderley Luxemburgo podem ser resumidas em dois pontos.
O primeiro é que o técnico da seleção brasileira de futebol sonegou pelo menos R$ 1,3 milhão de Imposto de Renda nos últimos seis anos. Disso a Receita Federal não tem dúvida.
Apesar do vulto da cifra e da importância do cargo ocupado pelo sonegador, o fato não parece causar grande comoção. Com poucas exceções, é tratado como algo menos grave do que perder para Chile ou Paraguai.
O segundo ponto é a acusação, feita por uma ex-assessora de Luxemburgo, de que este fez do futebol seu balcão de negócios, ganhando dinheiro com a valorização do passe e a venda de jogadores sob seu comando.
A esse respeito existe o depoimento de Renata Alves, que diz ser também ex-namorada do treinador, o que ele nega. Seja como for, ela desempenha o papel de Nicéa Pitta neste caso, falando cobras e lagartos de Luxemburgo. Não obstante o destaque dado a suas declarações, por enquanto não há elemento que as comprove.
Na sexta-feira, a Folha acrescentou a esse quadro a descrição de uma ciranda.
Sua reportagem mostrou que Luxemburgo é sócio de um empresário (Sérgio Malucelli) que preside um clube da segunda divisão do Paraná (Iraty).
O clube ‘mantém relações de parceria com os principais agentes de jogadores do país. E esses agentes detêm, sob contrato, algumas estrelas da seleção brasileira, comandada pelo técnico’.
Interessante, sem dúvida, pelo encaixe de peças. Mas a manchete do caderno Esporte (‘O mundo paralelo de Luxemburgo’) padecia do mal que se vê em boa parte dos títulos da imprensa nesta cobertura: dava a impressão de algo maior do que as informações disponíveis permitem concluir.
Que ‘mundo paralelo’?, perguntei na crítica interna. Se é a relação de Luxemburgo com Sérgio Malucelli, cabe ponderar que esta jamais foi negada pelo técnico, e que a reportagem da Folha, embora reveladora de detalhes dessa e de outras conexões, não chega a mostrar irregularidade nos negócios da dupla.
O que se tem, até o momento, foi dito no título da capa do jornal, menos colorido: a sociedade entrou na mira da Receita.
De maneira geral, a Folha tem se saído bem desde que o caso veio à tona, há quase duas semanas, no jornal O Dia.
Não fez nada parecido com uma reportagem do Estado que simplesmente somou os valores de transações com jogadores da seleção na era Luxemburgo e, em exercício de ilação, apresentou o número como indício contra ele.
Não se trata de desestimular a apuração das denúncias da ex-assessora, como pretende o presidente da CBF. ‘Quando o Brasil ganhar dois jogos nas eliminatórias da Copa do Mundo, o assunto morre’, previu Ricardo Teixeira na reportagem da ciranda.
Vamos conferir depois da partida de hoje à tarde contra a Bolívia. Tomara que a disposição da Folha independa do resultado, e que o jornal não deixe seu trabalho de investigação ser contaminado pelo mais popular dos passatempos nacionais: malhar o técnico de uma seleção que vai mal das pernas."
Volta ao índice
Entre Aspas – bloco anterior
Entre Aspas – próximo bloco
|