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ÚLTIMA HORA – Atualizado em 12/9/2000


ASPAS 5

ENTREVISTA / TUTTY VASQUES
Rodrigo Alves e Rodrigo Chia

"Tutty Vasques critica Bundas, diploma de jornalismo e Barbosa Lima Sobrinho", copyright O Estagiário <www.oestagiario.com>, 04/09/00

"‘Sempre achei a obrigatoriedade do diploma de jornalismo uma bobagem’. Quem garante a polêmica sentença é Alfredo ‘Tutty Vasques’' Ribeiro, numa igualmente polêmica entrevista ao sítio O Estagiário. Ao contrário de Ziraldo, que atribui a instabilidade de Bundas ao fato de ser de oposição, Tutty diz que a situação da revista é por má organização, mesmo, e ainda comenta a falta de humor de Barbosa Lima Sobrinho, ‘com todo o respeito pelo falecido’...

Viva a criatura!

Alfredo Ribeiro, esse ilustre desconhecido, não tem inveja da fama do seu personagem Tutty Vasques. Na verdade, o jornalista agradece diariamente a oportunidade – dada pela criatura – de largar a reportagem para se dedicar exclusivamente à tarefa de mostrar o lado ridículo de fatos e personagens do cenário nacional. Não que o hábito não lhe renda aborrecimentos pontuais. Uma nota engraçadinha foi a razão de uma das demissões mais comentadas da imprensa carioca nos últimos anos. Mas, desfeita a cortina de fumaça, o resultado tem se mostrado positivo. Tutty acabou contratado pela Época e, depois de deixar a Bundas de lado, dedica-se a desbravar os caminhos do mundo virtual no sítio Notícia & Opinião (NO). Nesta entrevista, Alfredo Ribeiro fala sobre seu alter ego, a internet e a situação da imprensa brasileira. E conta com todos os cês e us como foi sua saída do Jornal do Brasil.

O que o levou para a Internet?

Alfredo Ribeiro – Basicamente o mercado. Nenhum encanto especial pelo veículo. Não sei nem que diabo é esse troço. Tem alguém do outro lado da linha ou não tem? A que horas as pessoas estão lendo? Mas isso vai melhorar a situação do jornalista, vai ser um alento dentro do jornal impresso. A partir do momento em que O Globo passa a perder editores-executivos para sítios de companhias de cinema, isso vai mexer na política salarial dos jornais. Vivemos uma estagnação total. O cara chegava ao Globo com 20 anos, aos 44 já tinha comprado seu apartamento, e não tinha mais possibilidade de nenhum vôo na vida. A internet é que nem corrida do ouro. Todo mundo chegando com suas carroças e picaretas e batendo em morros. O cara acha uma pepita e vende aquele morro para outro tubarão... No final de tudo vai ter uma peneirada muito grande e vai vingar o que presta.

E depois da peneirada, o que vai acontecer?

AR – De qualquer forma o mercado de trabalho terá crescido. A internet não vai matar nenhum jornal. Vai ter gente que vai voltar para a mídia impressa. Eu mesmo fiquei na Época e vim para cá.

O processo de criação é diferente?

AR – É. Primeiro por ser diário, que é uma experiência que eu nunca tive. No JB cheguei a ter cinco colunas, mas diluídas, eram coisas diferentes. Estou enlouquecido. Saio daqui, vou para casa, chego e ligo essa p???, continuo... Vejo o ‘Jornal da Globo’, ponho uma nota no ar, sempre me perguntando se tem algum maluco às duas da manhã tentando entrar naquele troço. É um jogo alucinante. Agora tenho total controle do que faço. De qualquer lugar onde eu tenha um computador conectado na rede entro no programa, ponho, tiro, conserto...

Por que você parou de escrever para a Bundas?

AR – Não estou escrevendo para a Bundas porque a Época me tirou de lá. Não entendi direito, mas também não discuti muito, porque ganhava muito pouco.

Depois de ser muito badalada, a revista passa por uma crise. A que atribui isso?

AR – Faltou uma coisa editorial. Aquilo ali é assim: cada um faz o que quiser, manda e junta. Com o time que tem, tudo bem... mas, com o tempo, vai ficando uma coisa meio perdida. Lançar o número 1 com uma entrevista com o Barbosa Lima Sobrinho... Com todo o respeito ao falecido, o humor nunca foi seu forte. Não basta juntar o pessoal do Pasquim. Naquela época as pessoas estavam juntas por um motivo muito claro.

E o que acha do resto da imprensa brasileira?

AR – Leio todo dia O Globo, JB, Folha, O Dia e Extra. Acho que está tudo meio repetitivo. Com a internet, virou uma colação generalizada. Você vê o mesmo texto em vários sítios, no dia seguinte sai no jornal também. Liberou geral. Os jornais estão tão chatos quanto o país. Tem dias que deve ser muito difícil definir o que vai ser a primeira página. Esse título do JB, do rombo [no INSS], deve ter saído umas oito vezes nos últimos 15 anos. A saída do jornalismo é buscar uma alternativa para não ficar chato. Tenho um filho de 17 anos. É difícil botar na cabeça de um garoto que aquilo é importante.

Há uma acomodação na imprensa?

AR – Está faltando o jornalismo sair dos gabinetes. Você põe quatro caras em Brasília esperando a coletiva... Isso que se convencionou chamar de jornalismo chapa-branca, sempre dependente da fonte oficial de informação. Tem que pensar, ter gente criativa, sem medo de tomar um furo do rombo do INSS. Isso no Globo é uma paranóia. O Globo vive daquela coisa ‘ai meu Deus, vou perder do América de novo’. Pior que fica tentando fazer a mesma coisa e de repente vem o América e ganha. É ridículo isso. Como é que uma coisa tão poderosa fica correndo atrás? Tinha de ousar mais, ele tem gente para isso.

Você falou do JB. Afinal, como foi sua saída do jornal?

AR – Eu vinha fazendo notas e crônicas em cima da coisa da Estátua da Liberdade e dos nomes em inglês da Barra. Havia uma resposta inacreditável dos leitores. Uma crônica rendeu 49 e-mails de gente dizendo ‘é isso mesmo’. O que aconteceu foi o seguinte: o tal do Noênio Spínola fez uma c-g-d. O pessoal do BarraShopping e do New York City Center tinha ido ao jornal e dito ‘olha, vou processar’. Houve uma recomendação do Josa [José Antônio do Nascimento Brito, presidente do Jornal do Brasil] e do departamento jurídico ao Noênio Spínola para que me desse um toque.

Foi um tipo de censura?

AR – Não tomo isso como censura. É isso mesmo, vai tomar outro processo? O jornal já está todo encalacrado. Essa coisa não funciona só do lado do poder. Quando eu era da Veja, o Mário Sérgio Conti, que era o diretor da revista, me pediu para tirar uma nota sacan...ndo o João Gilberto.

E o que aconteceu depois?

AR – O Noênio esqueceu de me dar o recado e me ligou dizendo ‘cara, eu esqueci de te falar e você deu hoje de novo no B’. Eu falei assim: ‘Então corre prá tirar da Domingo, porque tá lá de novo’. Até então eu achava que ele era apenas maluco. Depois descobri que não era só isso. Tivemos uma conversa bastante áspera. Ele falava em salário moral, coisas do gênero... eu mandei ele enfiar uma coisa no (?. Mas, depois disso, Xexéo me ligou dizendo ‘ele falou que ficou nervoso, que te dispensou, mas que, se você quiser voltar, ele te recebe’. No dia seguinte, tinha aquele e-mail pedindo minha demissão por justa causa ao jornal. Mas o jornal não acatou o pedido, me tratou muito bem, minha saída foi muito bem acertada. Foi ruim porque depois você passa um tempo tendo que explicar. Meu sogro estava com câncer, morreu um mês depois. Meu sogro era a pessoa mais íntegra. Imagina se eu estou ali querendo derrubar o BarraShopping para favorecer o Norte Shopping.

‘Vou processar o Noênio’

Quem são suas vítimas preferidas?

AR – São cíclicas. Gosto muito de bater no Gregori. Não é bater em bandido, é bater no íntegro e mostrar que não basta ser íntegro. Nele, no Garotinho... Procuro fazer uma coisa que junte crítica, mundanismo, socialites, esporte...

Você continua sendo alvo de muitos processos?

AR – Estou sendo processado por um ginecologista chamado Malcolm Montgomery, ex-marido da Mylla Christie, que fala de sexo no programa da Babi. Eu fiz uma nota perguntando: ‘O senhor deixaria sua mulher ir a um ginecologista chamado Malcolm Montgomery?’. Ele está alegando que eu acabei com todas as clientes dele. Agora virou essa coisa, as pessoas querem dinheiro. A Norma Bengell me processou lá no JB ainda, dizendo que eu a tinha acusado de homossexual. Depois vieram à tona acusações muito mais graves... Mas eu acho que hoje entende-se muito mais que é humor. Já teve uma época terrível. As pessoas ficavam querendo responder de viva voz. É sempre uma chateação.

E como o processo transcorre?

AR – Tenho o escritório do Sérgio Bermudes me defendendo. Esse [do Malcolm Montgomery] é mais complicado porque ele processou a Época e o jornalista Tutty Vasques. Já tem uma confusão danada para esclarecer que Tutty Vasques sou eu. Qualquer dia eu vou ter que ir ao fórum, sentar em frente ao Dr. Malcom Montgomery. O juiz vai ler a nota. Essa é a parte mais constrangedora. Agora, confio sempre na Justiça. Não é possível que caiam numa história dessa.

Você já processou alguém?

AR – Não. Vou processar agora o Noênio. Porque é muito sério, ele tentou acabar comigo. Se eu não tenho a estrada que tenho, o conhecimento que tenho, ele podia acabar comigo. Eu já estava de partida do JB, negociando minha saída. Evidentemente, se você ganha x, alguém está tentando chegar perto de x. De repente você não tem mais aquele salário, trabalha em Bundas e Contigo...

Quando surgiu o personagem?

AR – Há uns 14 anos. O Tutty era uma hora vaga na minha vida. Eu fui subeditor na Domingo/Programa, depois fui editor. Ele cresceu quando deixei de ser editor. Mas eu ainda ficava namorando a possibilidade de fazer as duas coisas. Nessa mudança, especificamente, avisei de cara ‘eu não quero, dá menos grana, mas não dá grana contando que vai ter um cara que vai fazer matéria’. Enchi o saco. Uma das coisas que mais me dão prazer é não precisar ligar para ninguém, checar uma informação.

Ainda tem gente que acha que Tutty é o jornalista?

AR – Hoje bem menos, mas imagino que sim. Às vezes acham que é uma mulher: ‘A senhora é uma invejosa!’. Mas no início era uma coisa muito velada, inclusive por causa dos processos. Eu ficava muito nervoso, achava sempre que ia apanhar, entrar no bar e alguém ia me dar um chute.

Como foi o começo da sua carreira? Você foi estagiário?

AR – Eu sou fruto da baderna, antes do corporativismo, antes do sindicato. Sou fruto do peleguismo. Comecei a trabalhar no segundo período e não parei em nenhum instante. Trabalhei no Diário de Notícias, no Jornal dos Sports... O Jornal dos Sports tinha uma redação inteira de estagiários. Acabei caindo em um estágio na Rádio Jornal do Brasil, que na época era muito forte no jornalismo. Aprendi muito lá.

Como você compara a faculdade na sua época e agora?

AR – Na minha época era um desastre total. Fiz faculdade na virada do Governo Médici para o Governo Geisel. Era um negócio horrível, tinha um soldado na minha sala de aula. Era aquele clima de medo, de pânico... Convivi muito pouco na faculdade, porque começou esse negócio do trabalho. Minha faculdade foi redação. Não sei, me assusta um pouco essa coisa... quantos jornalistas tem na ECO [Escola de Comunicação da UFRJ]? Acho que isso é importante para que se entenda onde se está entrando.

O que acha da obrigatoriedade do diploma para ser jornalista?

AR – Sempre achei isso uma bobagem. Eu odeio corporativismo. Se o cara é bom, sabe escrever... A gente sabe, a gente fez faculdade... Tem que fazer aquilo? A gente vê cada coisa que sai da faculdade de comunicação e não sabe escrever o nome. Isso aqui não é medicina, não é engenharia. O prédio não vai cair, o paciente não vai morrer. A gente lê tanta bobagem escrita por gente que teve curso e sabe falar quatro idiomas. Tudo que eu sei aprendi trabalhando.




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