ISSN 1519-7670 - Ano 15 - nº 600 - 27/7/2010
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O efeito "Davi" está mudando a ecologia informativa na imprensa mundial
Postado por Carlos Castilho em 8/3/2006 às 16:04:19
 
 

Esta é a tese central de um recém lançado livro escrito por um professor de direito que é considerado um dos cinco mais bem sucedidos blogueiros norte-americanos e o responsável pelo segundo site político mais visitado do seu país.

Glenn Reynolds, 46 anos, professor da Universidade do Tennessee, publica o blog InstaPundit desde agosto de 2001 e hoje tem em média de 26 mil leitores diários, o segundo no ranking dos blogs políticos dos Estados Unidos (só perde para o liberal Daily Kos ).

O livro An Army of Davids : How Markets and Technology Empower Ordinary People to Beat Big Media, Big Government, and Other Goliaths (Um exército de davis: como os mercados e a tecnologia deram poder às pessoas para superar a imprensa, o governo e outros golias ) explora o polêmico tema da inversão de papéis que está ocorrendo no ambiente informativo mundial em consequência do fortalecimento de ferramentas de comunicação como os weblogs.

Reynolds, considerado um conservador pelos padrões políticos norte-americanos, é adepto da tese de que estamos vivendo uma revolução na comunicação provocada pelo triunfo da tecnologia individual sobre a tecnologia de massas. Noutras palavras, os davis ganharam força graças a tecnologias como os weblogs e hoje desafiam os grandes impérios jornalisticos norte-americanos.

O livro bate firme na imprensa norte-americana com frases do tipo : "Quando antes os jornalistas e comentaristas podiam divagar a vontade oferecendo análises sem lógica ou citado fatos , geralmente falsos, hoje os editoriais dominicais já foram dissecados na véspera, horas depois de terem sido publicados nos websites de jornais".

A dissecação foi protagonizada por milhares de cidadãos comuns através de weblogs que além de patrulhar o que os jornalistas escrevem passaram também a acrescentar fatos novos e até mesmo contribuir com informações inéditas.

A imprensa está sendo espantosamente lenta no reconhecimento desta reviravolta na posição do leitor. A internet mudou o conceito de público na rotina dos jornais. Antes, os leitores de um jornal eram considerados uma massa amorfa, sem cara, identificada apenas por estatísticas e perfis macro.

A tecnologia personalizou as relações entre a mídia e o cidadão, mas os repórteres e editores ainda não se deram conta disto e nem das consequências. Um dos sintomas mais claros é o desconforto da maioria dos jornalistas em relação às observações feitas por leitores usando mecanismos como correio eletrônico ou comentários em weblogs.

Por esta razão é que se diz hoje que os leitores transformaram-se nos grandes protagonistas da nova ecologia informativa que está surgindo no mundo. Como este processo está sendo empurrado pela inovação tecnológica e pelo mercado, ele está se tornando irreversível, queiramos ou não.

O novo protagonismo do leitor é responsavel por fenômenos novos na área da comunicação como o conceito de jornalismo como uma conversa entre o profissional e os davis que o lêem, vêem ou escutam. Uma conversa que os especialistas em marketing descobriram há seis anos quando foi lançado o Cluetrain Manifesto , um conjunto de 95 teses sobre interatividade no comércio eletrônico.

Está acabando a hegemonia de conceitos vagos como massas, audiência ou público alvo. Pessoas com nome, sobrenome e rosto passam a ser a grande referência no processo de informação que enfrentará um novo dilema ao ter que combinar a visão macro (público/audiência) com o foco no indivíduo ou micro comunidades.

O jornalismo como conversa está amparado na idéia de valorização das narrativas de protagonistas de um fato noticioso visando uma contextualização mais ampla, capaz de diversificar os enfoques e reduzir distorções. O mesmo processo já está acontecendo no comércio eletrônico através do chamado marketing comportamental (behavioral marketing), ou seja, a identificação dos hábitos, preferências e desejos imbutidos no comportamento diário de consumidores.

Aos nossos leitores: Serão desconsiderados os comentários ofensivos, anônimos e os que contiverem endereços eletrônicos falsos.

Comentários (4)
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Bruno  Paiva, (sao paulo/SP)
Enviado em 10/3/2006 às 11:03:05
esta certo
Ola! Concordo com o que voce disse, embora tenha minhas ideias particulares sobre isso. Bem, visite meu novo blog no endereço http://www.persuasao.com.br/blog Abraços Bruno
Fabio  de Oliveira Ribeiro, advogado (Osasco/SP)
Enviado em 9/3/2006 às 13:34:16
excelente
Excelente. O livro tem tradução em Portugal? Porque na terra brasilis só chegará daqui a uma década, quando as teorias do gringo já estiverem ultrapassadas.
Comentário do Autor

Fabio,
O livro foi lançado há duas semanas nos Estados Unidos. Acredito que ainda não haja uma versão em português. Mas vale a pena checar com a editora gringa. Abraço Castilho

Geraldo  Moura da Silveira, Advogado (Alfenas/MG)
Enviado em 9/3/2006 às 04:47:19
Davis versus Golias
E confirmações dessa tese já estão sendo vistas no Brasil. Os Davis que lutaram contra os Golias na campanha do desarmamento e a recuperação do presidente Lula nas pesquisas eleitorais demonstraram, de forma cabal, que a imprensa brasileira está perdendo poder de uma forma impressionante. E isso é bom. Santa Internet veio para concretizar o sonho democrático de Bobbio. Sem imprensa livre para todos os atores sociais, não há democracia real.
Alexandre Carlos  Aguiar, Biólogo (Florianópolis/SC)
Enviado em 8/3/2006 às 17:08:32
Interatividade
A palavra é INTERATIVIDADE. Nesses tempos em que todos, independente de classe social, etnia, idade, ou outras variáveis, qualquer sujeito com um pouquinho de tico-e-teco a mais pode entrar na rede, acessar qualquer página, e "deitar" suas considerações sobre o que bem entender e da maneira que achar mais conveniente. Só quem não se apercebeu disso, ao que parece, foram os jornalistas, justamente aqueles que num passado próximo detinham o "poder" da informação. E interatividade é exatamente isso, essa possibilidade de mudar o contexto e a conotoção de qualquer assunto através de uma intervenção, em duas vias. Pode ser que estejam caindo por terra até as supostas hierarquias, uma vez que o tratamento adotado entre "redatores oficiais (os donos de blogs)" e os "redatores de plantão (os leitores)" torna-se muito próximo, passando a ser "velhos conhecidos" de caminhada. Essa revolução blogueira derrubou, ao meu ver, o quarto poder.
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Carlos Castilho
* Ex-repórter - revista Fatos & Fotos
* Ex-redator internacional - JB
* Ex-editor internacional - Opinião
* Ex-editor telejornais - TV Globo
* Ex-chefe do escritório da TV GLobo em Londres
* Ex-redator - Cadernos do Terceiro  do Terceiro Mundo;
* Ex-correspondente latino americano  do jornal Público/Lisboa
* Ex-editor internacional do JB;
* Ex-editor associado do The World Paper/ Boston;
* Ex-editor latino-americano da agência IPS - Costa Rica;
* Ex-consultor de advocacy na mídia para a União Européia;
* Professor de Jornalismo Online , Faculdades ASSESC (Florianópolis);
* Professor de Projetos Multimídia (pós-graduação latu senso) no CESUSC / Florianópolis;
* Professor de Jornalismo Online (curso a distância) no Knight Center, Universidade do Texas; 
* Autor do capítulo Webjornalismo no livro No Próximo Bloco - Editora PUC/Rio -2005.
* Autor do prefácio e tradução do livro Jornalismo 2.0, de Mark Briggs, publicado pelo Centro Knight, da Universidade do Texas.
* Mestre em Mídia e Conhecimento pelo EGC/UFSC. 
-Reside em Florianópolis / SC
email ccastilho@gmail.com


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