ISSN 1519-7670 - Ano 15 - nº 600 - 27/7/2010
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Twitter pressiona uma mudança no foco da atividade jornalística
Postado por Carlos Castilho em 15/7/2009 às 14:41:45
 
 

Há menos de um mês alguns parlamentares ingleses estavam passando para seus eleitores e simpatizantes os resultados de uma votação legislativa ignorando o papel da imprensa como mediador entre tomadores de decisões e o público.

 

As sessões do parlamento já são transmitidas ao vivo pelo rádio que é onde a imprensa monitora o trabalho legislativo. Mas o Twitter tornou esta atropelando esta mediação ao estabelecer contato direto entre a fonte da notícia e o consumidor de informações.

 

Aqui no Brasil, quase ao mesmo tempo, o presidente do Palmeiras, Luiz Gonzaga Belluzzo, anunciou pela sua página no Twitter o fim das negociações para contratar Muricy Ramalho como técnico do clube paulista.   Belluzzo passou a se comunicar com a torcida palmeirense sem passar pela imprensa.

 

A moda deve pegar porque os tomadores de decisões têm agora um canal direto com a opinião pública, sem terem que enfrentar os questionamentos e as idiossincrasias da imprensa. Aqui no Brasil já temos 17 senadores e 47 deputados federais inscritos pelo Twitter.

 

Isto pode aproximar o público dos tomadores de decisões, em especial os membros do poder legislativo, do seu público alvo. Trata-se de uma aproximação de mão dupla porque os eleitores também estão criando os seus canais de cobrança e monitoramento da atividade parlamentar, o que pode contribuir para o saneamento tanto do Senado como da Câmara de Deputados.

 

Mas também vão surgir problemas. No caso dos parlamentares britânicos Tom Watson e Jim Knight, na pressa de avisar seus eleitores, eles acabaram passando resultados equivocados da votação e tiveram que voltar atrás. Outra possibilidade real é o surgimento de uma cacofonia informativa pelo Twitter, tornando necessária uma depuração e contextualização das notícias transmitidas pelo sistema de micro-mensagens.

 

Para os repórteres e editores, a ampliação do uso do Twitter marca mais um passo na direção do fim da era do furo jornalístico. É também um novo empurrão no sentido da transformação dos profissionais em orientadores e contextualizadores das informações passadas ao público pelos tomadores de decisões e formadores de opiniões.

 

A grande diferença é que o foco dos jornalistas deixa de ser a simbiose com o poder político e econômico para voltar-se cada vez mais para o público, reconstituindo aquilo que está na origem do jornalismo, o caráter social da atividade informativa.

Comentários (6)
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Edward  Wilson Martins, empresário (São Paulo/SP)
Enviado em 18/7/2009 às 11:59:07

Mais uma arguta observação e análise de Carlos Castilho e provavelmente não por coincidência, atraindo ótimos comentários.
Ibsen  Marques, Técnico em Eletrônica (Caçapava/SP)
Enviado em 17/7/2009 às 17:43:45

Tenho certeza de que é exatamente isso que está acontecendo e deve se aprofundar, porém tenho uma grande preocupação com a nova função do jornalismo: orientar e contextualizar. Primeiro porque os jornalistas não estão preparados para isso e, por enquanto, sua única preocupação diz respeito à manutenção da exigência do diploma para o exercício da profissão e acabam se esquecendo que a profissão que defendem não existe mais sob a forma por eles defendida; segundo porque tenho muito medo que o leitor se satisfaça com essa comunicação direta e abdique de buscar o necessário aprofundamento dos fatos expostos, quer dizer, há algum interesse por trás de determinada tomada de posição? Essa decisão tem implicações em outras áreas? De que forma? etc etc. Essa preocupação reside no fato de que o brasileiro tem muita preguiça de ler, desde um manual de funcionamento de um produto, passando pelas bulas de remédio e chegando aos livros, jornais e revistas. Esse será um momento crucial em que algo precisa, definitivamente, ser feito em prol da educação, sob pena de perdermos mais um bonde da História.
Lidiane  Maria, Estudante de Jornalismo (Salvador/BA)
Enviado em 17/7/2009 às 11:55:17

Já está mais que na hora da imprensa brasileira acordar para os avanços tecnologicos. Não me surpreende que a imprensa se sinta a ultima a saber das coisas, afinal ela sempre quer estar na frente, mas agora é preciso avaliar os conceitos de quem dela faz parte. A internet está ai e não temos como mudar, em vez de ficarmos esperando ela completar mais cinco anos, deveriamos agir para crescermos antes dela.
Robson  Rodger, Professor (Rio de Janeiro/RJ)
Enviado em 16/7/2009 às 19:27:14

Quem souber fazer a pergunta certa fará a diferença no jornalismo. Infelizmente no Brasil,temos um bando de jornalistas desinformados pensando que tem direitos diferenciados a informação. Acho que isso fez com que a nossa imprensa seja tão ruim. Para fazer a pergunta certa é preciso investigar., é necessário ter compromisso com a verdade e a ética. Quando vejo o comportamento da imprensa no Brasil, veja a CPI da Petrobras, sinto vergonha. A imprensa me faz lembrar a quantidade de analfabetos funcionais que temos nesse país. Como professor tive muitos alunos assim: reconheciam as letras mas não sabiam o que fazer com elas. Não preciso dizer mais nada. Que vergonha!
Pedro  Tomaz, estudante de jornalismo (São Paulo/SP)
Enviado em 16/7/2009 às 00:07:21

A redes sociais tem desenvolvido um papel interessante na chamada web 2.0, mas a verdade é que não sabemos como será a internet daqui a 5 anos. O que vemos hoje não passa de um embrião que brevemente irá se agigantar . O crescimento da interação do público com aquilo que é de seu interesse jamais comprometerá a existência do jornalismo. O verdadeiro profissional é diplomado nas causas sociais. Avante a tecnologia e os "twitteiros" de plantão!
Beatriz Bissio  Bissio, Jornalista e Historiadora (Rio de Janeiro/RJ)
Enviado em 15/7/2009 às 15:50:27

Excelente analise de Carlos Castilho, por sinal sempre um observador agudo da realidade contemporânea. O jornalismo está passando por uma fase de transformações, como aliás a própria sociedade humana está. As amarras e as hierarquias da velha imprensa estão sendo substituidas por uma comunicação mais horizontal e mais ecléctica, que como tudo na vida, tem seus aspectos positivos e traz consigo também novos desafios. Vamos apostar que as inovações permitirão um avanço significativo na democratização da informação e, como consequência, um salto em qualidade na vida democrática.
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Carlos Castilho
* Ex-repórter - revista Fatos & Fotos
* Ex-redator internacional - JB
* Ex-editor internacional - Opinião
* Ex-editor telejornais - TV Globo
* Ex-chefe do escritório da TV GLobo em Londres
* Ex-redator - Cadernos do Terceiro  do Terceiro Mundo;
* Ex-correspondente latino americano  do jornal Público/Lisboa
* Ex-editor internacional do JB;
* Ex-editor associado do The World Paper/ Boston;
* Ex-editor latino-americano da agência IPS - Costa Rica;
* Ex-consultor de advocacy na mídia para a União Européia;
* Professor de Jornalismo Online , Faculdades ASSESC (Florianópolis);
* Professor de Projetos Multimídia (pós-graduação latu senso) no CESUSC / Florianópolis;
* Professor de Jornalismo Online (curso a distância) no Knight Center, Universidade do Texas; 
* Autor do capítulo Webjornalismo no livro No Próximo Bloco - Editora PUC/Rio -2005.
* Autor do prefácio e tradução do livro Jornalismo 2.0, de Mark Briggs, publicado pelo Centro Knight, da Universidade do Texas.
* Mestre em Mídia e Conhecimento pelo EGC/UFSC. 
-Reside em Florianópolis / SC
email ccastilho@gmail.com


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