ISSN 1519-7670 - Ano 15 - nº 605 - 31/8/2010
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A receita básica para cobrar por notícias online
Postado por Carlos Castilho em 29/3/2009 às 22:41:14
 
 

O norte-americano Bill Grueskin conseguiu ver o óbvio no debate sobre a cobrança de conteúdo jornalístico publicado na Web. Ex-editor executivo do The Wall Street Journal e agora professor universitário, Grueskin foi curto e grosso numa série de dois artigos ao analisar se os jornais atuais deveriam cobrar ou não pelo acesso à suas páginas online.

 

“Do jeito que estão, jamais. Ninguém vai comprar, será um fiasco.” Mas acrescentou: “Se as versões online dos jornais resolverem publicar o cálculo das passagens de ônibus, a relação dos melhores professores do município, o ranking dos restaurantes da cidade ou a lista de queixas no hospital local, seguramente vão encontrar leitores que paguem”.

 

Dificilmente um leitor comum pagará pelo acesso a um site jornalístico para saber o resultado de um jogo, a previsão do tempo, cotação do dólar ou horário de trens. Também não pagará para ler sobre o escândalo político da semana em Brasília ou mais uma apreensão de droga pela policia. Estas são informações que ele consegue grátis em dezenas de sites da Web.

 

Acontece que a política editorial dos jornais está apoiada justamente nesta perspectiva que foi desenvolvida e aprimorada quando a internet ainda não existia e a imprensa escrita era a soberana absoluta na publicação de noticias. Nem mesmo a televisão e o rádio conseguiram induzir os jornalistas a mudar sua rotina.

 

Os jornais argumentam que a produção de notícias tem custos e que os internautas deveriam pagar pelo acesso, da mesma forma que os compradores da versão impressa. Quase todos os jornais que resolveram cobrar pelo acesso ao seu noticiário online se deram mal e voltaram atrás. Alguns ainda cobram, numa política que tem mais a ver com teimosia editorial do que com resultados financeiros.

 

As tiragens dos jornais estão em queda livre no mundo inteiro e a migração de leitores para a internet é um fenômeno em ascensão constante. Mas a publicidade online ainda se resume a magros 10% do valor gasto por anunciantes na versão impressa. É este fato que mantém viva a discussão entre cobrar ou não cobrar pelo acesso às páginas Web dos jornais.

 

Enquanto a discussão ficar centrada na lógica editorial e empresarial dos jornais impressos, especialistas em mídia como Bill Grueskin são unânimes em afirmar que não há solução para o dilema da imprensa escrita.  A única possibilidade seria pensar “fora da caixa”, como dizem os consultores em administração de negócios.

 

A emergência da Web como canal de informação jornalística introduziu um dado novo no relacionamento dos jornalistas com o público, ao permitir uma segmentação inédita na agenda noticiosa. Esta segmentação permite a publicação de notícias destinadas a públicos específicos que têm necessidades informativas também específicas e que estariam dispostos a pagar por elas.

 

O The Wall Street Journal está no epicentro do debate sobre acesso pago, porque foi um dos únicos a manter a cobrança pelo acesso mesmo depois da sua venda para o império jornalístico comandado pelo magnata australiano naturalizado americano Rupert Murdoch. O Journal mudou de linha editorial e está cada vez mais parecido com um diário comum. A mudança visava ampliar o seu público, mas está acontecendo justamente o contrario.

 

O caso está sendo considerado a principal evidência de que a política editorial vigente na maioria dos jornais espalhados pelo mundo está fadada ao fracasso porque ignora o novo contexto informativo criado pela internet.  Este é um desafio às redações e principalmente aos valores e rotinas que as orientaram pelos últimos 50 anos.

 

duas questões-chave em jogo:

1)     a necessidade de desatrelar a sustentabilidade de um projeto online da publicidade;

2)     a necessidade de redescobrir o local e os nichos de público para identificar demandas informativas não convencionais.

 

A equação normal de publicidade pagando pela gratuidade não funciona na Web porque os anúncios não alcançam a mesma cotação do impresso. O custo de publicação de uma página online é infinitamente menor do que o de imprimir e distribuir um jornal impresso, mas mesmo assim a publicidade na Web dificilmente será suficiente para cobrir as despesas. Dessa forma, a cobrança torna-se inevitável.

 

E se ela é inevitável, não há como sobreviver sem produzir notícias que as pessoas aceitem pagar, assim como há milhares de compradores de músicas online, em sites como o iTunes. Eles fazem isto, apesar da existência de muitos sites de músicas grátis, porque é facílimo comprar e porque o custo é muito baixo. A teoria da Cauda Longa explica que dá mais lucro vender mil versões de uma mesma música ao preço equivalente a dois reais, do que vender 100 singles em CD a 20 reais cada.

 

A receita está na Cauda Longa e na segmentação do noticiário em nichos de público.
Comentários (7)
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Rogério  Kreidlow, Jornalista (Joinville/SC)
Enviado em 9/4/2009 às 09:53:25

Castilho, até a questão da musica já está mudando. A garotada tá mais ouvindo rádios online, tipo Last.fm (saiu pesquisa esses dias), do que baixando MP3, o que joga por terra uma série de discussões de direitos autorais. A coisa anda mais rápido do que se pode acompanhar. Em relação à publicidade, na web virou serviço. O sujeito vai direto num site de carros pra escolher por ano, marca, modelo e até acessórios. Vai entrar no site da Nokia pra ver as características do celular antes de clicar numa imagenzinha daquele aparelho num site de notícias. Esse poder de escolha - que tem seus prós e contras - é que iniciou a derrocada do jornalismo. E assim: se o cara não quer informação útil, achar que político é tudo corrupto mesmo e preferir ler só sobre BBB, ou como dar nó de gravata ou, sei lá, a última novidade em armas (soa estranho, mas tem comunidade pra tudo), ele vai no santo Google digita e começa, de forma anárquica, a ler aquilo que surge. Acaba o papel do editor, credibilidade, etc. Só meia dúzia de chatos vão resmungar. Interessa o que o cara ler naqueles cinco minutos ali, depois esquece, toca a vida. Outro dia consulta outro assunto ou vai direto para jogos, pornografia. Talvez informação não seja a coisa mais importante do mundo, como se alardeia. Talvez não existam mais "coisas importantes" (cânones). Vira tudo chiclete com sabor igual. Abraço
Ney José  Pereira, Contador (São Paulo/SP)
Enviado em 3/4/2009 às 17:09:48

Só os bancos?!.
Ivan  Moraes, sem profissao (Newark, NJ/MG)
Enviado em 2/4/2009 às 23:29:36

"Por que os brasileiros não podemos dever aos bancos, tais quais os "americanos"?": porque os bancos estao cheios de bastardos.
Ney José  Pereira, Contador (São Paulo/SP)
Enviado em 2/4/2009 às 21:53:46

Pagaremos, sim!. Mas, com cartões de crédito!. E ficaremos devendo ao banco!. Afinal, isso é uma tradição "americana"!. Por que os brasileiros não podemos dever aos bancos, tais quais os "americanos"?. Afinal, na teoria econômica lulática "crescer é dever"!. Rarará!!!.
Roberto  Salotes, Empresário (Sao Paulo/SP)
Enviado em 2/4/2009 às 13:58:20

Eu aceitaria pagar um valor mensal, que fosse bem mais baixo que o valor de uma assinatura mensal, para baixar ou receber diariamente um arquivo PDF com a edição inteira de um jornal ( como Gazeta Mercantil, Folha ou Estadao ). Manteríamos o prazer de ler um jornal, sem a necessidade de juntar uma tonelada de papel. Em paralelo, poderíamos ter acesso no formato web, como em um portal de notícias deste jornal, e a serviços adicionais, blogs, colunistas, etc.
Ivan  Moraes, sem profissao (Newark, NJ/MG)
Enviado em 30/3/2009 às 14:06:04

Perdao, Castilho, mas nao ficou claro: devido aas minhas ultimas sentencas abaixo, ficou a impressao que eu estou frivolizando informacao e nao estava. Estava frivolizando o *acesso* a ela. Nao ha problema com a frivolizacao da noticia, esta perfeito como esta, logico, ja que a frivolidade da "noticia" em si agora eh gratis. Mas se a media tradicional quer saidas, so ha uma mesmo. Facilmente se extenderia essa analise para o uso de cartoes de credito, cheque especial, pagamento de contas, cobrancas de servicos, e nao daria outra coisa. Existem mais mechanismos dedicados exclusivamente a enfiar a mao nos nossos bolsos do que aa disseminacao de "noticias", bens, ou servicos, e os bancos estao atraz de todos eles. O defeito eh estrutural, e a sociedade mundial parou por causa disso: SAI DAI AGORA E JA, VEIARADA.
Ivan  Moraes, sem profissao (Newark, NJ/MG)
Enviado em 30/3/2009 às 12:12:02

1-"especialistas em mídia como Bill Grueskin são unânimes em afirmar que não há solução para o dilema da imprensa escrita": TADINHO! Eh porque ele nao me encontrou ainda. Eh so tirar os bancos e suas "porcentagens" do caminho -desinfiltrar a cambada toda da internet- e cobrar 25 centavos por semana sem taxa nem imposto para o pagador. Mais cedo ou mais tarde os bancos teem que se mancar: eles estao no caminho. 2-"(WSJ) a principal evidência de que a política editorial vigente na maioria dos jornais espalhados pelo mundo está fadada ao fracasso porque ignora o novo contexto informativo criado pela internet": informacao, como esta agora e ja, eh *literalmente* eletronica. Os jornais e revistas que dependem de analise pra propria reputacao ja **nao podem garantir** de onde vai aparecer a melhor, mais informada, mais justa analise de qualquer assunto. Por essa razao, se por nenhuma outra, eles teem que abaixar o facho e parar no zero de novo *ou* abaixar o facho e enxergar a realidade e comecar dos 25 centavos SEM BANCOS no caminho. Eu praticamente cresci sem musica e sem media -nao esteve ao alcance do meu bolso comprar disco ou jornal. Quando vim pros EUA fiquei maravilhado que os jornais eram tao baratos que eu podia comprar los todo dia e nao passar fome. Mesmo assim ainda levei uns 3 anos pra descobrir que podia comprar um ou dois discos por mez! Eh o que todo mundo quer.
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Carlos Castilho
* Ex-repórter - revista Fatos & Fotos
* Ex-redator internacional - JB
* Ex-editor internacional - Opinião
* Ex-editor telejornais - TV Globo
* Ex-chefe do escritório da TV GLobo em Londres
* Ex-redator - Cadernos do Terceiro  do Terceiro Mundo;
* Ex-correspondente latino americano  do jornal Público/Lisboa
* Ex-editor internacional do JB;
* Ex-editor associado do The World Paper/ Boston;
* Ex-editor latino-americano da agência IPS - Costa Rica;
* Ex-consultor de advocacy na mídia para a União Européia;
* Professor de Jornalismo Online , Faculdades ASSESC (Florianópolis);
* Professor de Projetos Multimídia (pós-graduação latu senso) no CESUSC / Florianópolis;
* Professor de Jornalismo Online (curso a distância) no Knight Center, Universidade do Texas; 
* Autor do capítulo Webjornalismo no livro No Próximo Bloco - Editora PUC/Rio -2005.
* Autor do prefácio e tradução do livro Jornalismo 2.0, de Mark Briggs, publicado pelo Centro Knight, da Universidade do Texas.
* Mestre em Mídia e Conhecimento pelo EGC/UFSC. 
-Reside em Florianópolis / SC
email ccastilho@gmail.com


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